quarta-feira, 3 de junho de 2015

ESTORNO

Florentina Esteves


“Arrumando as malas”, demissionária da Secretaria de Educação e Cultura, já nem indagando mais quem chegava, de onde, mas bem recomendado, “competente, responsável”. Precisando fazer o inventário do que recebera, o rapaz me chegava bem na hora: Você vai para o Almoxarifado, quero um levantamento completo, rigoroso, tudo contado, relacionado, direitinho.

– Sim Senhora.

– Vinte e quatro horas, está bem?

– Sim senhora.

– Então amanhã, às dez?

– Sim senhora.

Nem às dez, nem às doze, treze. Findo o expediente, só em casa lembrei. No outro dia “sim senhora” não me apareceu. Terceiro dia? É demais.

– Então, seu José, fez o inventário?

– Sim senhora.

– Tudo certinho?

– Sim senhora.

– Pode me entregar?

– Sim senhora.

E continuava ali de pé, à minha frente, imóvel, calado, mumificado.

– Então, seu José, o inventário?

– Sim senhora. Mas... tem uma coisa que não encontrei, virei tudo, contei, tornei a contar, procurei, não está em parte alguma. Quem sabe, a senhora pode me dizer onde mais procurar?

– Mas que falta, seu José? E comecei a imaginar as dores de cabeça que teria. Um ventilador? Máquina? Projetor?

– Diga logo, seu José. Afinal, que falta?

Voz quase sumida, “sim senhora” suspirou, enxugou o suor do rosto, foi soltando devagarinho: É um tal de estorno, professora, estorno. Não tem mais onde procurar. Onde será que está?


ESTEVES, Florentina. Enredos da Memória. Rio de Janeiro: Oficina do Livro Ed., 1990. p.123-124
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