sexta-feira, 19 de junho de 2015

ACADEMIA ACREANA DE LETRAS EMPOSSA 1ª MULHER; LUÍSA KARLBERG É CONTRA GENTÍLICO “ACRIANO”

Amanda Borges
A Academia Acreana de Letras (AAL), que completa 78 anos em 2015, empossa na presidência, nesta sexta-feira (19), em solenidade no auditório do Teatro Universitário, a professora Luisa Karlberg, 64 anos, que entra para a história da instituição como a primeira mulher a ocupar o cargo.

A AAL foi presidida nos últimos 19 anos pelo professor aposentado e poeta Clodomir Monteiro, que manobrou de todas as maneiras possíveis para permanecer no cargo e inviabilizar qualquer mudança na diretoria.

Luisa Karlberg ingressou na AAL em 2004. Não é escritora, mas tem na bagagem mais de 2 mil produções científicas, entre palestras, artigos e teses publicadas. Natural de Tarauacá, formada pela Universidade Federal do Acre, a professora aposentada de língua portuguesa se sente preparada para assumir a sexta presidência dos 40 imortais do Acre.

Foi em sua casa, no bairro Bosque, que a professora aposentada recebeu a reportagem para contar sua trajetória e os desafios da Academia Acreana de Letras neste ano. Embora tenha havido resistência para a realização da eleição na AAL, Luisa Karlberg disse que tem recebido apoio da sociedade para começar uma nova etapa.

“Venho de uma cidade do interior muito distante, de uma localidade muito distante. Cedo aprendi a olhar acima da copa das árvores, o que me permitiu ver que o mundo era maior que aquele lugar que eu estava. E eu ganhei o mundo. Hoje posso dizer que sou cidadã do mundo”, afirma a imortal.

Mesmo com tantos carimbos no passaporte e se considerando “do mundo”, é no Acre que Luísa Karlberg deve enfrentar os desafios de presidir a Academia por dois anos. Um deles é fazer com que a instituição saia do estereótipo de elitizada e inalcançável e comece a dialogar com a sociedade.

“A Academia Acreana de Letras abriga o maior número de intelectuais do Estado do Acre. Temos cientistas, médicos, historiadores, professores e jornalistas brilhantes. E uma das coisas que nós desejamos fazer nesse mandato é tornar a Academia conhecida da sociedade, para que a sociedade nos visite, as instituições, e possamos produzir mais”, acrescenta.

Para que esse envolvimento aconteça, Luísa pretende promover interação com a sociedade valendo-se dos produtores de cultura, poetas e escritores. “A sociedade espera que a Academia seja ativa, que ela dialogue, incentive os escritores e os poetas, e que ela faça concursos literários. A Academia não pode ficar encastelada numa sala com seus imortais. Ela tem que abrir as portas, receber a comunidade, descobrir os talentos e olhar para as pessoas que produzem e incentivar essas pessoas. Organizar antologias e fazer a divulgação daquilo que o Acre produz de boa qualidade”.

Sem sede própria, a AAL ocupa uma sala emprestada na Casa da Cultura, no bairro Bosque. Luisa Karlberg reclama que, além da falta de estrutura, não existe apoio do governo do Estado à instituição, mesmo sendo o governador Tião Viana um dos imortais.

A ALL não dispõe de espaço sequer para abrigar alguns poucos livros ou receber visitantes. Segundo a futura presidente, embora seja uma entidade autônoma, em todos os estados em que existe uma academia, os governos oferecem sede e fazem repasses financeiros para o desenvolvimento cultural da região. “É um percentual que permite que a instituição desempenhe com satisfação o seu papel cultural na sociedade, mas aqui isso não tem acontecido”, lamenta.


Acreano x acriano


Luísa Karlberg entende que a Academia de Letras do Acre deve funcionar como uma guardiã da cultura e da língua regional. No Estado, por exemplo, uma das questões em que a entidade se envolveu foi contra a mudança do gentílico acreano para “acriano”, proposto pelo Novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa.

Em 2009, após ser consultada pela Assembleia Legislativa do Acre sobre a Base V, letra c, do Novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa, a AAL lançou um manifesto em defesa do "acreano" com o argumento de que é consagrado pela história.

“A questão do gentílico acreano o próprio Acordo Ortográfico diz que todos os nomes registrados permanecem como estão. Então há uma controvérsia, uma falta de leitura. De qualquer forma, o gentílico acreano está registrado há mais de 130 anos e nesse período se consolidou. Nós não podemos alterar o que o povo elegeu como algo que está convencionado no meio social. A cultura é soberana nesse aspecto. É um erro crasso a gravura de ‘acriano’. É minha opinião”, argumenta Luísa Karlberg.

De acordo com a professora, na primeira constituição brasileira, em 1536, Fernando de Oliveira, diz que “a língua faz os homens e não os homens a língua”. Desta forma, argumenta, “isto quer dizer que a língua é um espelho da cultura, a língua é um motor, a língua é uma ferramenta porque é um instrumento de comunicação”.

Luísa Karlberg considera que “a língua é um lugar porque reflete o falante e onde ele vive”.  Para ela, “a língua é um espelho” porque traduz a cultura do seu povo. “Nós não podemos alterar o que o povo elegeu como algo que está convencionado no meio social”.
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