quarta-feira, 10 de junho de 2015

TRÊS CRÔNICAS DE LEILA JALUL

CHEGA ISSO PRA LÁ!
Leila Jalul


Dílson e Eunice formavam um casal pobre. Lá em Lábrea, onde nasceram, trabalhavam em terras boas, de onde tiravam o sustento. Não tinham filhos, só braços.

Mas a desgraça não manda aviso. Na morte do pai de Dílson, seu irmão mais velho se apossa de tudo, forjando assinaturas, encerrando a carreira de uma família unida. Unida e produtiva.

Maria Eunice, assim se chamava, passou a trabalhar em minha casa, num dos períodos mais difíceis de minha vida. Tempo de vacas magras. Tudo que ganhava, era destinado a tratamentos médicos com meu garoto. Nem gosto de lembrar.

Maria assumiu às vezes de medianeira, de controladora de gastos e conselheira de fala simples. Quando pensava não haver mais solução, ela apresentava duas. Assim, de pronto! E dava certo.

Quando o cansaço e o desespero de mim tomavam conta, ela dizia: "deita aí, fecha os olhos e descansa".

Depois que meu menino ficou curado, Maria e Dílson aparecem grávidos. Minhas finanças estavam melhoradas e aluguei uma casa de dois cômodos na rua Rio Grande do Sul. Assim, quando ele voltasse da fazenda onde trabalhava, poderiam ter seus momentos de curtição e de alisados de barriga, completamente sozinhos.

Nasceu o garotão, gordo, bonito e corado. Tudo falso. Nasceu cardiopata, vindo a virar anjo com apenas três meses de vida. Dílson estava na fazenda e tínhamos que avisar através das ondas sonoras da Rádio Difusora. Redigi a mensagem e mandei fosse repetida tantas quantas vezes necessárias: "Atenção Senhor Dílson Martins Correia, na Fazenda Olhos D’água. Maria Eunice comunica, com pesar, o falecimento de Dilsinho, ocorrido hoje de madrugada. Pede se conformar com a vontade de Deus e vir o mais rápido possível".

Compramos o caixão azul, e, sobre o corpo, uns ramos de flor de laranjeira e outros de resendá e boninas brancas. E colocamos na mesa da sala/cozinha. Agora era esperar, eu, ela e uma vizinha de nome esquisito. Fizemos o almoço enquanto o tempo dava o tempo da chegada do pai. Vez por outra abraçava Maria, meio desajeitada e sentindo culpa pelo meu menino ter sarado.

Na chegada, morto de fome, Dílson apenas tira a camisa, enxuga o rosto suado e pede para almoçar. Nenhum carinho, nenhuma lágrima. Sequer chegou perto do caixão azul sobre a mesa desforrada. Só teve olhos para ver que o espaço era pequeno para colocar os pratos, e pediu:

 Nice, chega isso pra lá!

Deixei para chorar a perplexidade em casa.


***


A MOÇA E O TARADO
Leila Jalul


O queixo encostando no colo. Nunca olhava para os lados. Foi assim por quase um mês.

Um dia, enquanto jogava água nas plantas, fiz a abordagem:

– Oi, moça, bom dia!

– ...

No outro dia a mesma coisa.

– Oi, moça, bom dia!

– ...

E assim foi. Descobri que a tristonha trabalhava na casa de uma boa pessoa, comerciante e casado com uma médica.

– Oi, moça, está tudo bem?

– Interessa?

– Interessa, sim. Você anda sempre de cabeça baixa e agora até está chorando. Interessa, sim! Venha cá e converse comigo. Ande!

Fui até onde estava, peguei-a pelo braço, trouxe-a para dentro e aliviei o papo. Servi um cafezinho preto, mandei que sentasse e disse-lhe:

– Minha filha, quantos anos você tem:

– Quase 18.

– Nossa, és tão novinha! Estás doente e precisas trabalhar, é isso? Estás grávida? Morreu alguém da tua família?

– Não, senhora. É que não posso falar.

– Pode! O que me disser ficará entre nós. Não se preocupe, pode contar.

– Olhe, senhora, meu filho mais velho tem 3 anos e o pequenininho só 8 meses. A doutora e o patrão são muito bons comigo. Sou bem paga e ainda ganho uma cesta básica. O negócio é o menino deles, o...

– Não quero saber o nome. Nem do comerciante, nem da médica e nem do menino. Quero saber o que te faz infeliz.

– Pois é, o menino me bate todos os dias. Eu fujo dele, mas, enquanto ele não sobe em cima de mim e me abusa de todos os jeitos, não tenho sossego.

– Huuuum. Saia de lá, garota!

– Agora não dá. Quando o meu marido arranjar emprego, vou sair.

Passados três dias, ao passar pela minha casa, fiz questão de cumprimentá-la. O queixo já não encostava no colo...

– Bom dia, menina!

– Bom dia, a senhora está bem?

– Estou, quero saber de você.

– Estou bem, obrigada.

Mal sabe ela (e nem precisa saber) que, no mesmo dia em que conversamos, era boca da noite, fui na casa dos patrões, contei a história na frente do tarado e tudo mudou de figura.

A menina de cabeça baixa é hoje uma auxiliar de enfermagem. E das boas! Bastou que a encaminhasse e desse um empurrãozinho.

Digam, amigos, se não é verdade que, por falta de um grito se perde uma boiada?

Não é mesmo Mariana?


***


SEBOS E SEBOSIDADES
Leila Jalul


Moço do face, estou pensando nos meus traumas.

Quando eu era pequena, tudo (ou quase) que mamãe mandava eu fazer, eu fazia. Acender fogão de carvão com gravetos, fazer mamadeiras para três irmãos pequenos (dezoito vezes ao dia), cozinhar, passar, esfregar chão, baldear casa. Tudo eu fazia.

Agora, moço, se tinha uma coisa que eu odiava fazer era lavar louça em bacias de ágata. Passar o sabão zebu em pedra, envolvido numa meia velha do vovô, nos copos, em primeiro lugar. A seguir, nos pratos e nas colheres de alumínio e, por último, nas panelas encardidas pela fumaça. Era um terror, meu colega!

Mamãe bordava panos de prato e os mantinha sempre limpos. Acontece, entenda-me, a barra da minha saia estava mais perto. E enxugava as mãos e a louça nela mesmo.

Mamãe não cansava de me chamar de traste seboso. Sebosa! – dizia ela, em tom de altíssima repreensão.

O tempo passou. As torneiras passaram a jorrar a água barrenta do rio. Apareceram o fogão alimentado a gás butano, as enceradeiras e as ceras com cheiro de querosene. O mundo ficou moderno.

Cresci com a palavra sebosa impregnada em meus ouvidos. Cresci, trabalhei, amei, fui infeliz o quanto me permiti e, finalmente, escrevi um livrinho xucro (é com x ou com ch?). Eis que, num belo dia, já conhecendo o Google, seu parceiro, encontro lá um anúncio de que o meu livrinho estava sendo vendido num sebo.

Preciso dizer que fiquei perplexamente perplexa? Só lembrei de mamãe gritando: – para de ser sebosa, traste!

Hoje, moço, tenho consciência de que há sebos e sebosidades de todos os tipos e qualidades. Prefiro os sebos e as minhas sebosidades. Os sebos são preciosos e vendem preciosidades. A minha sebosidade, graças aos céus, não passa para além de mim.

Por favor, pare de perguntar sobre o que estou pensando!

Qualquer hora dessas posso me aborrecer, visse?

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p.s. os dois últimos títulos foram dados pelo blog.
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