quinta-feira, 10 de março de 2011

QUANDO E PORQUE SARTRE BRIGOU COM FOUCAULT

Profª. Inês Lacerda Araújo*


Foucault (1926-1984) e Sartre (1905-1980), ambos filósofos franceses, que muitas vezes lutaram pelas mesmas causas na política interna da Fança, estavam em lados opostos em suas concepções filosóficas. Em temas como o marxismo, o sujeito humano, sua existência, as ciências humanas, a teoria sobre a história - a disputa foi acirrada.
Sartre e Foucault nos anos 70, vendo-se atrás deles Deleuze
Sartre discordou da análise de Foucault sobre a história, este "esqueceu a história", pois não diz como os acontecimentos se transformam em função do movimento dialético (veja postagem sobre a dialética marxista). E pior, Foucault "matou o homem", que não passa de um sujeito assujeitado e constituído por saberes de certa época. Quer dizer, Foucault despreza a dignidade e a liberdade humanas. Os estruturalistas visam constituir, sempre segundo Sartre, uma nova ideologia, burguesa, se recusam a prestar atenção às relações de produção, à praxis e consideram que a estrutura da linguagem é mais importante do que a história material e social. Ora, argumenta Sartre, a linguagem é inerte, uma rede de oposições e de regras, de onde o homem está ausente.

Em suma, para o existencialismo sartreano, que aos poucos se tornou um marxismo sartreano, sem o homem concreto, abolindo sua existência e a história dos modos de produção que o transformam, Foucault comete, proclama Sartre "um escândalo lógico". O homem é mais do que as estruturas que o condicionam.

Foucault sustenta algo muito diferente. Para ficarmos só com As Palavras e as Coisas (1966), para ele a história não é feita de passagens, mas de cortes, diferentes práticas de saber para falar, para situar e lidar com os acontecimentos. Acontecimentos são fabricados, inclusive esse humanismo que vê o homem como pura existência, genérica. A história produz lutas, mas muitas delas nada têm a ver com classes sociais. O próprio marxismo surgiu de condições históricas, Marx é um peixe nas águas do século 19, há que compreendê-lo e lê-lo nesse "ambiente". Ele escreveu sobre uma dessas situações históricas: conflitos no nascimento do capitalismo moderno. Conhecimentos só podem nascer de circuntâncias que os homens produziram, o que, diga-se de passagem, Marx sabia. O que ele não sabia, tampouco Sartre, é que não há nada por detrás, nem um projeto de avançar para o socialismo, nem a existência como essência do homem.

Foucault não pretende que uma ideologia deva servir à revolução de que classe for. Não há revolução de classe que acabe com as diferenças, com ciências que marcam e classificam, como a psiquiatria. As transformações históricas não têm uma causa geral ou única. Foucault não negou a história, ele mostrou que a história pode ser vista de outra forma. Ele não foi um antihumanista, ele foi o cartógrafo dos saberes que permitiram o surgimento da figura do homem como alguém vivo, que trabalha e fala. Essa figura é recente. Se pensarmos no modo como Platão, por exemplo, via o homem - alma imortal presa a um corpo, e como nós hoje nos pensamos, e como certos saberes nos produziram como seres finitos, sujeitados a normas , a técnicas, a ciências, nada disso nos "humaniza", tudo isso nos tiraniza.

Na entrevista em que Foucault, com 38 anos, rebate a acusação de Sartre de que ele despreza a subjetividade e o humanismo (um dos escritos mais difundidos de Sartre chama-se , aliás, O existencialismo é um humanismo), Foucault responde: o esforço feito pela nossa geração não é o de reivindicar o homem contra o saber e contra a técnica, mas o de mostrar que nosso pensamento, nossa vida, nosso modo de ser, até o mais cotidiano, fazem parte da mesma organização sistemática, dependem das mesmas categorias que regem o mundo científico e técnico.

O que ele quis dizer com isso? O homem não tem uma essência pura, ele não está salvo se o livrarmos dos condicionamentos. Em nossa época predominam os saberes técnicos, das várias ciências, a tecnologia. DNA, exames, testes, diagnósticos, controlar, produzir, empreender, obter sucesso, comunicar -, é isso que nossa "humanidade" carrega.

***
* INÊS LACERDA ARAÚJO - filósofa, escritora e doutora em Estudos Linguísticos.

terça-feira, 8 de março de 2011

ROSA - Cecília Meireles

"Tu és como rosto das rosas: diferente em cada pétala.
Onde estava o teu perfume?
Ninguém soube.

Teu lábio sorriu para todos os ventos e o mundo inteiro ficou feliz.
Eu, só eu, encontrei a gota de orvalho que te alimentava, como um
segredo que cai do sonho..."


Cecília Meireles


* Foto: Sérgio Vale

sábado, 5 de março de 2011

POESIAS DE FRANCISCO MANGABEIRA

OS CÃES
Francisco Mangabeira
Quando o canhão raivoso atordoava o espaço
lançado em toda parte as sombras do terror,
e morriam, dormindo, as crianças no regaço
das mães que, olhando o céu, vasto zimbório de aço,
pediam compaixão, misericórdia, e amor...

E os homens, a gemer, caíam mutilados,
quase cegos de fúria e desesperação,
e pedaços de mãos e crânios decepados
voavam, a recordar trapos ensanguentados
passando na amplidão...

E no solo, aos montões, rolavam os feridos
chamando pelos seus em cruciantes ais,
somente vós, oh! cães! Íeis, compadecidos,
enxurgar-lhes com ânsia os membros doloridos
para que as chagas vis lhe não doessem mais.

Éreis doces e bons... tínheis no peito anseios
como os pássaros, quando erram por sobre o mar,
nos pêlos – o calor dos amorosos seios
fundas mágoas na voz, no coração – receios,
                    e mistérios – no olhar.

E ficáveis então famintos, mas velando
vossos donos, que a morte em breve ia colher...
E ganíes de pena, e soluçáveis, quando
eles iam de leve o corpo levantado
para cair de novo e, exânimes, morrer.

Quantas vezes, meu Deus, os míseros gemiam
entre nuvens de poeira avermelhada... e, após,
se lançavam o olhar em torno, mais sofriam,
porque junto de si a lastimá-los, viam
                    unicamente a vós!

Quantas vezes, ó cães, se acaso vos varava
uma bala inimiga, ao peso de revés,
não buscáveis uivando, aquele que vos dava
carinhos, e depois, cheios de lodo e baba,
morríes a rolar debaixo dos seus pés!

Quantas vezes à criança exausta e desmaiada,
em cuja alma luzia um fúlgido arrebol,
não íeis oscular a fronte banhada,
para abrigar-lhe assim a chaga escancarada
                    dos ardores do sol!

Quantos, quantos de vós, vendo morrer o dono,
não sentiam no peito um íntimo pungir,
e, contemplando o céu em místico abandono,
como a pedir piedade ao rei do excelso trono,
junto deles por fim iam também dormir!

Como a fome crescesse, eles, em certo dia,
resolveram então vos enxotar... e assim
pagaram tanto amor com tanta vilania...
e tristes um a um, em cáfila sombria,
                    sumistes-vos por fim.

II

Pobres cães! Pela tórrida esplanada
fugiram a ganir lugubremente...
Tinham aos pés a angústia acorrentada,
no olhar a névoa duma dor ingente.

Quando no céu aparecia a lua
iluminando as solidões e os fossos,
eles surgiam pela estrada nua,
magros e esguios, chocalhando os ossos.

E horrorisavam toda a soledade
com a música feral dos seus gemidos,
que eram como suspiros da saudade
e gritos de fantasmas perseguidos.

Caracolavam sobre pedras, tontos,
até que enfim caiam ofegantes...
E corriam depois para outros pontos
como um bando de lêmures errantes.

Incendiavam-se as árvores tranquilas
ao fulgor dos seus olhos abrasados,
que traziam nas rútilas pupilas
crateras de vulcões incendiados.

E o viajor descuidado que passasse
pela estrada, alta noite, sentiria
o frio do pavor gelar-lhe a face,
turvar-lhe a mente a nuvem da agonia.

Os cães ao encontro vinham-lhe, ansiosos,
como presos de elétricas centelhas
e beijavam-lhe as plantas, respeitosos,
a sacudir as caudas e as orelhas.

Depois fugiam e, seu tropel imenso,
metiam-se nos antros e nas furnas,
causando medo ao viajor suspenso,
que cria ver aparições noturnas.

Outras vezes, atentos, escutavam
rugir longe o canhão... Nesse momento
parecia que os míseros choravam,
que tinham alma, e tinham sentimento.

Pensavam nos seus donos, que nessa hora
talvez morressem numa luta insana...
e os cães (não acreditem muito embora)
tinham no olhar uma tristeza humana.

Viam de novo, atônitos de assombros,
o seu senhor que, com descuido e graça,
saía cedo de espingarda ao ombro,
acompanhado pelos cães de caça.

Dava-se isto em certos dias de oiro
em que fulgia o sol no azul do espaço,
como um guerreiro triunfante e loiro
de lança em riste e capacete de aço.

Os pobres cães, tristíssimos e aflitos,
sob a impressão cruel dessas lembranças,
rolavam pela terra dando gritos,
a soluçar, como se fossem crianças.

Iam seguindo em direção ao tiros
como enleados, mas voltavam tendo
retratada no olhar e nos suspiros
a grande dor dum coração morrendo.

E o viajor que passasse, à noite, pelos
caminhos onde estavam suas furnas,
sentiria arrepiados os cabelos,
crendo que via aparições noturnas.

III

Depois, quando não mais se ouviram tiros, eles
voltaram, tendo a vista horrorisada e absorta...
E viram, com espanto, as casas incendiadas,
esqueletos no chão, cabeças degoladas...
Enfim, todo o pavor duma cidade morta.

E gemendo, e ganindo alucinadamente,
num desespero tal que o verso não traduz,
remexiam com ânsia as pedras e os destroços,
arrancando daí trapos de vestes e ossos,
com os olhos tristes como os olhos de Jesus.

Metiam o focinho agudo entre os escombros
procurando beijar cadáveres amados,
que cobriam depois de terra fresca e nova,
apresentando assim a derradeira prova
de afeto aos donos seus, então inanimados...

Erguiam em silêncio os olhos cismadores,
como que numa prece, à cúpula do céu...
Paravam, contemplando os sítios onde de antes
viveram, e depois caiam arquejantes,
sentindo dentro em si um hórrido escarcéu.

Numa angústia sem fim, iam passando os dias,
e noites a chorar junto das sepulturas,
até que pouco a pouco a fome, a sede e as penas
os prostaram, e, à luz das regiões serenas,
eles morreram, como angélicas criaturas...

E assim, por uma lei desconhecida e estranha,
quando eram sem amor até as próprias mães,
e os homens entre si lutavam como feras,
esse rancor brutal de hienas e panteras
se mudou em piedade e compaixão nos cães!


SONETO DE DESOLAÇÃO
Francisco Mangabeira

Vai-te, pois, oh visão ideal do meu desterro...
Vai... Porque em teu lugar me fica o desangano...
São fundas e sem fim as trevas em que erro,
Como um barco sem leme entre os parcéis do oceano.

Num fúnebre caixão feito de bronze e ferro,
Vai um morto... Não tem para cobri-lo um pano.
É meu amor... Ninguém assiste ao enterro...
Ninguém chora... E quem chora a morte de um tirano?

Ai! mas uma outra dor dentro de mim se agita...
O amor que eu sepultei renasce na saudade,
E esta saudade atroz meus prantos ressuscita...

E amo-te ainda mais do que te amava outrora...
Porque este meu amor é como a imensidade,
Onde há o horror da noite e os encantos da aurora.


SUPLÍCIO ETERNO
Francisco Mangabeira

Não devo amá-la... e amo-a com loucura!
Quero esquecê-la... e trago-a na lembrança!
Ai! quem me livra deste mal sem cura
A que o destino trágico me lança?

Uma nuvem de tédio e amargura
Cobre-me a loira estrela da esperança...
Tudo cansa por fim na vida escura,
Só este amor infindo é que não cansa...

Se os olhos cerro, vejo-a nos meus sonhos;
Se à noite acordo, sinto que enlouqueço
De uma angústia nos vórtices medonhos...

E esta morte em que vivo jamais finda,
Pois quanto mais procuro ver se a esqueço
Sinto que a adoro muito mais ainda!


SEPULCRO EM FLOR
Francisco Mangabeira

Ela morreu! Seu rosto descorado
                Lembra um flor de cera,
Um lírio que murchou, acalentado
Pelos beijos de amor da primavera.

Seu leito ainda está quente e em desalinho,
                Como que já saudoso
Por ver que ficará triste e sozinho,
Como o céu sem um ponto luminoso.

O travesseiro azul de velbutina
                E de fronha arrendada
Guarda os sonhos finais dessa menina,
Os últimos clarões dessa alvorada.

Teus olhos, onde outrora
Tantas estrelas palpitaram juntas,
                São a estrada onde agora
Segue um cortejo de ilusões defuntas.

Apesar de tão pálida, dir-se-ia
Que inda tem vida e está agonizando,
Bem como Vênus quando raia o dia.
E o dia dela agora ia raiando.

                Mas está morta... Enorme
Dulçor enche seu rosto de meiguice.
                Parece até que dorme
                E dorme... e sonha... e ri-se...

Beijem-lhe a face desbotada e quieta
                Como o amor de um doente...
Mas não orvalhe o pranto essa violeta
Que morreu linda, como o sol poente.

Cruzem-lhe as mãos no peito,
Fechem de manso os olhos dessa louca...
E encham de margaridas o seu leito
E de beijos constelem sua boca...

                Em um lenço perfumado
Envolva em rendas o seu rosto lindo;
E, pensando talvez no namorado,
                Que ela fique dormindo.

E quando na canoa mortuária
For o seu corpo para o cemitério,
O vento cantará estranha ária
                Pelo palácio etéreo.

E o Amazonas, desfeito em grandes mágoas,
                Há de chorar à toa...
Hão de muito chorar as suas águas
Acompanhando a fúnebre canoa.

                Só eu não verto pranto
Porque sei que é feliz esta donzela,
Que entra no céu maravilhado e santo
                De palma e de capela.

Que tem pois que nas trevas apodreça
                Sem vida a carne tua
E os vibriões perfurem-te a cabeça
E larvas te andem pela espádua nua?

Que tem que fiques reduzida a osso
                No horror da terra avara?
Se a tua alma saiu do calabouço
                Tão pura como entrara?

Dorme e sonha na plaga etérea e calma,
                Que a dor nunca te abranja...
Porque levas ao céu também tua alma
Engrinaldada em flores de laranja.

Capatará, 05 de novembro de 1903

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

FRANCISCO MANGABEIRA: UM POETA BAIANO NA REVOLUÇÃO ACREANA - Isaac Melo

“É um dever sacrossanto manter vivas no pensamento figuras do porte de Francisco Mangabeira que, pelo seu talento, sua bravura, seus relevantes serviços prestados ao Brasil, deixou de se pertencer para pertencer ao mundo!”
Jorge Kalume


O paquete São Salvador havia deixado o porto de Manaus na manhã de 22 de janeiro de 1904. Em um de seus camarotes, o de número 40, estava instalado um jovem médico de apenas vinte cinco anos. No corpo agonizava as dores do impaludismo e no peito, a saudade de sua terra e de sua gente. Vez por outra perguntava ao enfermeiro permanente que o acompanhava ou a qualquer outra pessoa que o viesse visitar se já estava perto de sua terra natal. Certo dia, durante a viagem, algumas crianças se dirigiam ao camarote do jovem médico quando o encontraram de pé. Correram a chamar o enfermeiro. Este, ao chegar, indaga para onde ele ia. “Para o Acre!”, foi a resposta decidida, no delírio de uma febre.

Chegara o dia 27. Cinco dias depois do embarque em Manaus. O paquete já entrara em águas do Oceano Atlântico. Viajava a altura do Rio Gurupi, divisa natural entre os Estados do Pará e Maranhão. O sol dos trópicos a tudo abraçava e abrasava e acariciava com suas mãos fulgurantes. Porém, no camarote 40, ainda havia noite e havia frio. Uma flor emudecia em pleno viço. Naquela manhã acordara pensando em seu pai, em seus irmãos e irmãs. Sentira um aperto forte no coração. E tendo em mente os seus, exclamara condoídamente: “Como é que morre um poeta aos 25 anos!”. O coração bradava por vida, enquanto o corpo o negava. Recebera ainda algumas visitas. Quando a última o deixou agarrou-se a um ferro do leito, num último hino à vida, e murmurou: “Morro sem abraçar meu pai!”. Às duas horas da tarde desfalecia um dos mais festejados poetas, à época, e um dos grandes nomes da poesia do final do século XIX, cuja vida foi marcada pelo sonho e pela ousadia, pelo amor e pela aventura, sendo sua obra exaltada e comparada à de Castro Alves.

A vida. Francisco Cavalcante Mangabeira era o sétimo filho do casal Francisco Cavalcante Mangabeira, um farmacêutico alagoano, e Augusta Mangabeira. A Família Mangabeira até hoje é muito importante e tradicional no cenário político da Bahia e nacional: governadores, deputados, ministros são alguns exemplos que emergiram dela. Foi à rua Solar do Sodré, em Salvador, que viera à luz o pequeno Francisco, em 08 de fevereiro de 1879. Nessa mesma rua, sete dias antes, um dos maiores vates da poesia brasileira exalava o seu último suspiro, Castro Alves. Vidas diferentes, marcadas por uma mesma razão, a poesia. Francisco era uma criança recatada, dócil, sentimental, vivia a chorar, por isso fora apelidado de chorão pelos irmãos. Não havia completado ainda dez anos quando perdeu a mãe. Isso o marcou profundamente. Desde então ficara sob os cuidados permanentes de uma senhora, Sinhá Joaquina, ou Quinquinha como ele a chamava, contratada pelo pai, a quem o menino muito se afeiçoou e que exerceria grande importância em sua vida.

A escola. Foi no Colégio Marquês de Santa Cruz, aos seis anos de idade, a primeira vez que o menino fora a escola. Iniciava, assim, os primeiros contatos com os livros e outras pessoas que não fossem os seus irmãos. Imperava a pedagogia da palmatória, que dela, por seu comportamento recatado, livrou-se. A escola, depois da morte do administrador, um velho padre, fechara as portas. Fora então matriculado, juntamente com seus irmãos, no Colégio Malhado. O menino não gostara daí, um ambiente pertubador e bagunçado para uma alma quieta e solitária. O pai então matricula-os no Colégio Pedro II, onde ele alcança grandes progressos, porém, pouco depois tem que deixá-lo devido o agravamento da doença de sua mãe, que morreria pouco tempo depois. Ao retornar, conclui, no mesmo colégio, os três preparatórios principais. No ano seguinte, 1889, ingressa no Liceu Provincial, para finalmente concluir as matérias fundamentais no Instituto Oficial de Ensino Secundário. É quando integra o Grêmio Evolução, sendo um dos mais jovens integrantes do grupo. Aí começa o pendor do jovem para poesia. Está com quartoze anos.

A Medicina. 1894. Aos quinze anos Francisco matricula-se, por livre vontade, na tradicional Escola de Medicina da Bahia, fato que causou surpresa, sobretudo, a seus familiares. O primeiro ano fora entediante e difícil para alguém que estava destinado a cuidar do males da alma, não do corpo. Dedicara-se apaixonadamente à literatura, enquanto nem sequer pegara em um livro específico de seu curso. O pai ficara muito chateado com o desleixo do rapaz e a ele advertia que com versos não se ia ao açougue. Quer desistir. Então, o velho Mangabeira obriga-o a fazer os exames finais. É aprovado. No ano seguinte, no entanto, é reprovado. Todavia, é o ano em que começa a projetar-se e a ganhar fama de poeta, depois que o crítico e escritor riograndense, Múcio Teixeira, publica alguns entusiásticos artigos, na Bahia e no Rio de Janeiro, apresentando-o aos leitores como “um novo poeta baiano”. Das angústias desse ano surgirá a obra-prima do poeta.


Francisco Mangabeira
 à época em que partiu
para Canudos.

Canudos. Corria o ano de 1897 e desde o ano anterior, Antônio Conselheiro liderava um gupo de devotos sertanejos em defesa de seu arraial, a repulsar as forças do governo republicano, a quem eram contrários. Fora outra surpresa para a família Mangabeira quando receberam a notícia de que o jovem poeta, juntamente com seu irmão, estava pronto para partir com destino a Canudos, o que, de fato, ocorrera no dia 27 de julho de 1897. Cursava, então, o terceiro ano de medicina, e partira com um grupo formado por 24 estudantes, a integrar a famosa Brigada Girard, comandada pelo General Artur Oscar, para servir nos hospitais de sangue. As crueldades de Canudos marcaram profundamente o jovem poeta e médico. Fora uma guerra de irmãos contra irmãos, em que imperou a brutalidade do governo federal, republicano e sanguinário.

Dessa experiência surgirá um dos mais belos textos em versos, senão o mais, acerca de Canudos, o equivalente ao que foi o de Euclides para a prosa. Aliás, Francisco Mangabeira, em campo de batalha, se encontrara com Euclides da Cunha e fora o primeiro a reconhecer seu mérito literário incomparável, e a vaticinar o futuro glorioso de "Os Sertões", cinco anos antes de sua publicação, ao comentar acerca de um de seus poemas: “O assalto à artilharia é uma espécie de tradução para o verso de uma belíssima carta que o Dr. Euclides da Cunha escreveu de Canudos para o Estado de São Paulo, onde este meu saudoso amigo derramou tanta luz em belíssimas e magistrais correspondências, que, publicadas em livro, lhe garantiriam um triunfo literário”. O arraial de Canudos fora destruído. Tornara-se um amontoado de pedras e de cadáveres. Em 23 de outubro, três meses depois da partida, retornava o poeta trazendo no peito a repulsa da guerra e na cabeça os versos de a Tragédia Épica. Canudos fizera o poeta rever seu compromisso com os estudos. Tornara-se dedicado e, assim, em 18 de dezembro de 1900, defendendo a tese “Impedimentos de casamento relativos ao parentesco” fora aprovado e diplomado em medicina.

A profissão. Recém formado o poeta-médico precisava dá um norte a sua vida. Dirigiu-se então para o Maranhão no dia 16 de Março de 1901, onde fora contratado para trabalhar como médico da Companhia Maranhense de Navegação, que realizava o trajeto entre Bahia e São Luis. Mas aí permanecera pouco tempo. O Rio Amazonas o fascinara, embora tivesse lhe causado certa desilusão quando, pela primeira vez, estivera, por oito dias, viajando pelo rio mar. O Amazonas, a pátria das águas, o seduzira como se tivesse ouvido o canto irresistível das iaras. E para o Amazonas partira. Aí é contratado pelo governo amazonense para servir em comissões de saúde pelo interior, a percorrer “todo aquele mundo de rios, de florestas sem fim, exercendo a sua profissão em comissões pelos rios Negro, Juruá, Javari, Madeira, Purus...”. Porém, apegado que era ao pai, aos irmãos e irmãs, a saudade novamente viera abrigar-se em seu peito. Não resistiu aos apelos. E assim retornara à Bahia, ao aconchego dos seus, ao findar de dezembro de 1902.

O Acre e a Revolução. Algo inquietava o poeta, mesmo estando em meio ao aconchego de seus familiares e de sua terra. Quando estivera em Manaus ouvira falar muitas vezes dos acreanos e sua revolução. Um de seus amigos, Xavier Marques, narra que cotidianamente o poeta subia à sala do jornal Diário de Notícias e passava horas a falar dos acreanos e do extraordinário de seus feitos. Comentara o poeta, em carta, assim a um amigo: “Nada posso afirmar de novo sobre o Acre, enquanto para lá não partir! O que ainda não fiz por falta de vapores”. Como alguém que nunca estivera em meio aos acreanos poderia a eles se afeiçoar com tal devotamento? Francisco Mangabeira sentira o drama dos acreanos e vira nisso a oportunidade de oferecer seus serviços. Fora o jeito que encontrara para amá-los. O sobrinho biógrafo, Paulo Mangabeira-Albernaz, diz acerca do sonho de seu tio: “Nada o conseguira prender: nem a saudade inexpremível, nem o amor imensurável à terra do berço, nem a própria felicidade! O apelo do Acre vencera tudo!” E assim parte o poeta para Manaus, em abril de 1903, com destino ao Acre.

Em Manaus, onde já era muito estimado, o poeta partilhara com seus amigos o sonho que acalentava de ir para o Acre. Os amigos não viram com bons olhos essa proposta. Imperava a máxima de que poucos sobreviviam ou retornavam do Acre: local de difícil acesso, isolado e empestado de doenças tropicais e, agora, em guerra. Tentaram dissuadi-lo por vários modos, inclusive, recorreram ao governador amazonense Silvério Nery, que oferecera a Francisco Mangabeira uma comissão na Europa. Porém, nada dissuadia o poeta de seu firme propósito. De modo que, no dia 28 de maio de 1903, no navio Amazonense, como médico do 40o. Batalhão de Infantaria, comandado pelo Coronel Valadares, partia ao encontro de seu bem amado, o Acre.

Francisco Mangabeira
como médico e secretário
da Revolução Acreana.
Durante o percurso tivera o primeiro contato com os bolivianos: chegara a encontrar 53 soldados e 9 oficiais, entre os quais o poderoso chefe da expedição Coronel Rosendo Rojas, figura altaneira, que retornavam à seu país, após a derrota de Volta da Empresa. Mais adiante, em 02 de junho, encontrará pela primeira vez o chefe da Revolução, Plácido de Castro, que descia à Manaus depois que o General Olímpio da Silveira havia destituído o exército acreano. Ficara impressionado com o caudilho: “E então, pareceu-me que, ao brilho de energia extraordinária e impressionadora de seu semblante, ele crescia, e seu capacete se tornava de bronze e seu peito se recobria de aço”.

As águas baixaram drasticamente e, à boca do Pauini, o Amazonense não pode seguir adiante. O poeta prosseguiu, então, em pequenas lanchas, em canoa a varejão e, por fim, a pé, em varadouros por entre a mata: “A viagem a pé, quando havia um guia, era suportável, mas às vezes, era feita sem um mateiro, e imaginem 40 homens no mato, seguindo um trilho que de repente se bifurca, e mais adiante dava numa estrada de seringueiro de onde partiam três ou quatro caminhos! Uma vez andamos oito horas perdidos no mato e, para aumentar a aflição, uma chuva torrencial desabou sobre nossas cabeças”. A viagem fora uma epopeia. Mas finalmente chegara ao seringal Empresa, onde estava acampado o 27 batalhão de infantaria. Era agosto de 1903.

Hino acreano. Em 21 de março de 1903, o governo brasileiro, por meio do grande diplomata Barão do Rio Branco, juntamente com o governo boliviano assinaram um acordo de modus vivendi. Os bolivianos já haviam se rendido ao exército de Plácido. Cessara a luta no fronte, a batalha agora era no campo da diplomacia. O Acre encontrava-se politicamente dividido em duas administrações: Meridional, sob o comando de Plácido de Castro, e Setentrional pelo governo militar de Cunha Matos. Por duas vezes, como assevera o historiador Leandro Tocantins, o Barão do Rio Branco sugeriu ao Governo de La Paz, e este concordou, a extensão do prazo do modus vivendi, de 21 de julho até 21 de outubro. A ansiedade tomava conta de todos. Qual seria afinal o resultado dessas discussões diplomáticas? Que acordo seria firmado?

Francisco Mangabeira em frente
à sua barraca no acampamento
Boa Fé.
Enquanto isso, Plácido de Castro organizava seu exército em pontos estratégicos do Acre Meridional, pronto para nova luta conforme o resultado das confabulações diplomáticas entre os dois países. No seringal Capatará estava assentado o quartel-general de Plácido. Ao fundo do barracão erguiam-se as barracas de lona, a alojar os soldados. Numa delas está Francisco Mangabeira. Desde que cessara os combates aí passara a atender os feridos da guerra e à população ribeirinha que o procurava. É nesse ambiente, impressionado pela natureza, pelo ideal de liberdade, pelos combates e pelo sentimento da terra que o jovem poeta comporá, em 05 de outubro de 1903, o magnífico poema que se tornará o Hino Acreano.

Aproximava-se o término do modus vivendi. O poeta encontrava-se, com a tropa, acampado em Boa Fé. Estavam irriquietos e decididos: ou o Acre seria do Brasil, ou recomeçaria a luta. A tropa, a 21 de outubro, fora reunida diante do mastro do qual pendia a bandeira acreana. Conta, em carta, Francisco Mangabeira: “A meio dia, pouco mais ou menos, reunida a oficialidade, resolve-se mandar imediatamente cem homens para o Gavião. Antes disso, porém, com uma cerimônia tocante, foi lido o Hino do Acre”. Pela voz do próprio poeta pela primeira vez o Hino Acreano percorria as matas e o coração daqueles caboclos titânicos, num misto de alegria e esperança. O resultado das confabulações diplomáticas e, consequentemente, a incorparação do Acre ao Brasil só veio um mês depois, a 17 de novembro, quando em Petrópolis, com a genialidade diplomática do Barão do Rio Branco, fora assinado o Tratado de Petrópolis. Mangabeira tentara o máximo permanecer em solo acreano depois do término da Revolução. Porém, caira gravemente enfermo, e fora levado nos braços, no último dia de dezembro de 1903, até a embarcação que o conduziria a Manaus, aí chegando dia 10 de janeiro de 1904. Findava o sonho acreano do poeta da mesma forma que se aproximava o seu fim.

O legado. Francisco Mangabeira fora um homem marcado pela ternura e pelo ideal, pela saudade e pela ação. O poeta de “Hostiário”, diz Dante Alighieri Vita, é da mesma linha de um Junqueira Freire, de um Castro Alves, de um Fagundes Varela e, em elevado grau, com o sentido heróico e idealista de um Byron. As primeiras poesias de Mangabeira datam de 1894, o menino poeta tem apenas quinze anos de idade. É o crítico e escritor Múcio Teixeira, como vimos, muito afamado à época, que por meio de uma série de artigos publicados no Diário de Notícias da Bahia, em 1896, e no Rio de Janeiro, em 1897, que o lançara como poeta de expressão nacional.

Em 1898 vem a lume “Hostiário”, o primeiro livro de Mangabeira a ser publicado, embora não tenha sido o primeiro a ser escrito, considerado a obra-prima do poeta. O livro fora muito bem acolhido pela crítica. Publica, no ano seguinte, no Diário da Bahia, uma série de crônicas intituladas “Matinais”. Da sua experiência em Canudos escreve, em 1900, “Tragédia Épica”, livro de beleza singular e o mais social de todos, composto por vinte poemas. É provável que nenhum livro, em verso, acerca do episódio de Canudos se iguale a esse. Da sua vivência no Amazonas e no Acre escreve uma série de cartas intituladas “Cartas do Amazonas”, em 1903, para o Diário de Notícias da Bahia. Há uma riqueza de detalhes muito grande nessas vinte cartas acerca da saga revolucionária, material muito importante para a historiografia amazônico-acreana. Em 1905 surge a obra-póstuma “Últimas Poesias” e, no ano seguinte, em Portugual, aparece o único livro em prosa do poeta “As Visões de Santa Teresa”. Mangabeira, nas palavras belíssimas e sintetizadoras de Alighieri Vita, fora um poeta espontâneo, natural, cantante como um arroio de água cristalina na hora do amanhecer, mas como a própria natureza humana, às vezes melancólico, contraditório, de alma complicada e de tonalidade indefinida, igual aos crepúsculos nublados, distantes.

O futuro. Assim se expressara Andrade Muricy, num julgamento merecido acerca do poeta: “Nenhum dentre os poetas do simbolismo brasileiro teve existência tão agitada e heróica. Aos 25 anos já vivera intensa e gloriosamente. Francisco Mangabeira foi, sem dúvida, um verdadeiro vates, e o poeta do Norte de mais alevantado e vigoroso estro, depois de Castro Alves”. Apesar dessas palavras encorajadoras, estará Francisco Mangabeira fadado ao desaparecimento em obras raras, em coleções particulares ou entregue às traças em bibliotecas públicas? O Brasil ainda olha indiferente a alguém que está à altura de um dos seus mais festejados poetas, Castro Alves. Há mais de um século desaparecera o homem, porém o poeta sobrevive e persistirá pelo tempo, enquanto o amor for a mola propulsora da vida e a humanidade cultivar ideais justos e bons pelos quais viver e lutar. Eis o testamento imorredouro de Francisco Mangabeira.

***

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

- ALBERNAZ, Paulo Mangabeira. Francisco Mangabeira: sonho e aventura. Campinas: Livraria M. Teixeira, s/d.
- DINIZ, Almachio. Francisco Mangabeira: creação e crítica. Rio de Janeiro: Typ. da Escola Profissional, 1929.
- KALUME, Jorge. Francisco Mangabeira: médico, poeta e herói. Brasília: Gráfica do Senado, 1981.
- TOCANTINS, Leandro. Formação Histórica do Acre II. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1979.
- MURICY, Andrade. Panorama do Movimento Simbolista Brasileiro (vol. II). Rio de Janeiro: Departamento de Imprensa Nacional, 1951.
- CASTRO, Genesco de. O Estado Independente do Acre e José Plácido de Castro: excerptos históricos. Rio de Janeiro: Typographia São Benedicto, 1930.

Nota: Fotos retiradas do Livro "Francisco Mangabeira: sonho e aventura" de Paulo Mangabeira-Albernaz. Campinas: Livraria M. Teixeira, s/d.

sábado, 26 de fevereiro de 2011

CRÔNICA DA MINHA FILOSOFIA BARATA: O LOBO SEMPRE VENCE NO FINAL

Jairo Nolasco
Ontem tive a oportunidade, diria não muito desejada, de receber a visita do dono do alheio. Ele veio na madrugada no melhor do meu sono, aproveitando a noite de chuva invernosa _ só quando as nossas choupanas amazônicas ficam refrigeradas e deixam nossos sentidos mais dormentes _ para me aliviar de alguns bens adquirido pelo ofício. Quando despertei, repentino, do meu descanso já era sem jeito, o convidado non grata já se tinha ido. Restava apenas o latido agoniado do cachorro e o forte cheiro de enxofre deixado pela fumaça que encobria seus rastros.

Queria eu tê-lo encontrado? Não sei ao certo. A arma artesanal deixada na fuga, apresentada na imagem acima, demonstra que ele não estava muito a fim de papo. Queria, porém, parabenizá-lo pela empreitada. Ele é sortudo porque a lei e a moral não o restringe. Ele pode quebrar o Contrato Social de Rousseau. Ele não está preso ao que restou do compêndio do Richard Baxter e da ética puritana. Aliás, minha Visita Secreta não está preso a nada. Não é preciso da dedução ou da inferição "sherloqueana" para saber que aprendeu fazer aquele tipo de arma em uma alguma dessas unidades de recuperação social. E que recuperação!!

Gabaria sua condição privilegiada. Ele sempre estará um passo na frente. Eu nunca saberei quando virá novamente. Esperarei dias, meses, perdendo o sono. Ele dormirá tranquilo, me matará no cansaço da espera. Quando decidir, voltará a carga quando eu estiver novamente dormindo. E o seu lucro financeiro será grande. Cada coisa que ele levou, paguei os impostos nela's contidos. Ele conseguiu livre. Tudo é franqueado no furto. Sorte minha e burrice dele que só eram velhos cacarecos.

Enquanto cumpria minha carga horária escolar e de trabalho , me impunham a lei Draconiana, a moral e a ascese Calvinista e Capitalista, ele, coitado, era vítima de um tal de "sistema". Por isso aprendeu a manusear e fabricar armas, dilacerar a pele e espetar os órgãos internos dos corpos alheios. Seu porte de arma é garantido, a lei não o alcança. Está preparado para a batalha corporal, eis mais uma vantagem. O seu único horário é à noite. Ele está pouco preocupado se é o velho ou é o novo horário. Tanto faz ser às 03 ou às 02 da manhã. Só torce pela fina e fria chuva da madrugada. Há engenhosidade no plano.

Tenho por minha minha propriedade o direito fundamental garantido pela nossa misericordiosa Constituição Federal, desde que _ claro_ pague o IPTU. Mas o direito não é absoluto. Se sem cautela abro a porta que dá para a área de serviço onde o pobre coitado estava fazendo seu trabalho e ele revoltado me desferisse uma, duas estocadas com essa arma artesanal atingindo minha jugular ou carótida interna _ que ele aprendeu onde ficam, nas lições sobre a anatomia humana nas suas aulas de recuperação social _ seria eu só mais um pai de família, no lugar errado na hora errada a atrapalhar o serviço alheio. Será que dei sorte ?

Em espírito, não necessariamente em verdade, desejaria a ele que não voltasse mais vezes. Fosse procurar outras oferendas em outras propriedades, senão a dele mesmo. Vai homem livre das propriedades alheias, enquanto eu me preocupo em reforçar as grades e contratar um cão mais feroz que não tenha medo de água para vigiar melhor minha reclusão. O desvalido, se cair, ainda tem direito ao Auxílio Reclusão. Eu pago os impostos. Os defensores dos direitos humanos pensaram e pensam nele, em mim não. Quem mesmo leva vantagem no fim?

E no ocaso ficaria, como fiquei, com a rústica arma dele. Pediria que não me processasse. Diria: Sei que não foi uma troca justa. Vossa Senhoria trabalhou pesado para fabricá-la; as coisas das quais se apossou, eu já as recebi prontas, a minha mais- valia não estava ali posta. Peço desculpas pelo susto. Bom furto.

Já disseram que o homem é o lobo do homem? Pois, bem por via de dúvidas, eu não sendo o cordeiro da dupla _ me recuso a semelhante papel, trataria de dá-lhe no mínimo dois tiros, um de defesa e outro de garantia, quer ser lobo? Então que vá ser lá onde os raios o partam! Fez bem em fugir antes da minha chegada, o filhote das teorias humanistas. Da próxima vez não farei tanto barulho (proposital), para ter dar a chance de fugir, escravo do mal...

***

*JAIRO NOLASCO vive em Cruzeiro do Sul - AC. Dono de uma ironia-sarcástica requintada, que nos faz pensar num Machado de Assis, é impossível findar um texto seu sem aquele sentimento de incômodo e/ou deslumbramento. Fugindo da crítica fácil e medíocre, tão comum nessa nova onda blogueira acreana, Jairo Nolasco se diferencia de tudo o mais que se tem escrito  no Acre, pelo seu estilo próprio de contar-denunciar, em escrachar o verbo de forma poética, literária, profunda. Jurubeba é planta que amarga, cheia de espinhos... incomoda. Não é por acaso que seu blog se chama JURUBEBA JURUAENSIS.

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

MARINA SILVA: UMA MUSA NA POESIA ACREANA


ODE À MARINA
Mário Maia


Do mulateiro tem a mesma cor,
encerras n’alma pura de menina
a beleza das estrelas diamantinas
e, de um céu enluarada, o esplendor.

Sim, ninfa selvagem. Sim Marina,
tu és a selva virgem viridente;
o fruto fecundado e a semente;
a água pura de fonte cristalina.

Anjo encantado e encantamento,
raro exemplar de vida; um destino.
Das novas gerações, um novo hino...
Verbo de fé, fiel ao juramento.

És tu Marina, lutadora altiva;
brava guerreira pela liberdade
do homem do campo e da cidade;
a mais autêntica dessa força viva.

Por isso te tomamos por bandeira;
estandarte de esperança renovada...
Archote clareando a nossa estrada
no pélago, a estrela timoneira...

És para nós o exemplo verdadeiro
de política sem corrupção.
És paradigma dessa geração
que não vende seu voto por dinheiro.

Assim, Marina, na oportunidade
do lançamento de candidaturas,
entre todas aquelas que são puras
teu nome nasce como uma claridade
após um temporal de noite escura.

Marina, permita que a nossa voz,
dos veteranos e da mocidade,
se ajunte à tua, para a liberdade
abrir as suas asas sobre nós...


Rio Branco, 27.06.1990 – Recitado no lançamento da Candidatura de Marina.
MAIA, Mário. Sombras siderais e outras sombras. Sem editora, 1990.

*

A MÃE DA MATA
Nilson Mourão


Ó Poronga linda
Acende tua luz,
Ilumina a nossa Estrada,
clareia os varadouros
para que a Mãe-da-Mata,
a seringueira,
misteriosa e forte,
continue dando o leite da vida.

Ó lamparina linda,
acende tua luz,
resgata a nossa vida,
renova nossa alegria
de viver na floresta,
com os animais e os rios,
com o sol, a chuva e as estrelas.

Ó lamparina infinita
acende tua luz...


Cruzeiro do Sul – Ac, 23.08.1997
MOURÃO, Nilson. Cantos de Fé e Amor. Rio Branco: Fundação Elias Mansour, 2004.

*

À MENINA MARINA SILVA
José de Anchieta Batista


Lá vem a menina,
franzina, morena,
selvagem, serena,
Sem medo de nada...
- da onça pintada,
- do mapinguari,-
- dos grandes mistérios
das coisas daqui.

Lá vem a menina
com seus desafios...
nascida no ventre
das terras do norte...
com alma gigante,
guerreira e pacata,
nos traz lá da mata
a seiva mais forte...

Lá vem a menina,
nas curvas do rio,
num barco de sonhos,
audaz, destemida,
remando nas águas
que a vida lhe trouxe,
com seu jeito doce
de ser atrevida.