quarta-feira, 27 de março de 2013

A ANGÚSTIA

Verlaine 


Nada em ti me comove, ó doce natureza,
Nem os campos nem os sons rubros das pastorais
Sicilianas, nem as pompas aurorais,
Nem os poentes de tão solene tristeza.

Rio do homem, dos cantos, rio da beleza
Dos templos gregos, das torres em espirais
Que estendem para o céu vazio as catedrais,
Para mim são iguais a bondade e a torpeza.

Não acredito em Deus, abjuro a fantasia,
O pensamento, e quanto à antiquada ironia,
O amor que eu nunca mais à sua sombria ligue.

Medrosa de morrer, a minha alma semelha
No jogo das marés o mais perdido brigue:
Para o horror do naufrágio agora se aparelha. 


VERLAINE. Poemas. (trad. Jamil Almansur Haddad). São Paulo: Difusão Européia do Livro, 1962. p.45

terça-feira, 26 de março de 2013

EN/CANTOS DE KEILAH DINIZ

“No período em que viveu no Acre, participou intensamente do movimento artístico acreano, contribuindo na poesia, no teatro e na música. Em 1997, lançou o livro de poesia "Viver, vivi". Em 1998, gravou o CD "Amazônia". Nos anos 2000, embora morando em Brasília, onde trabalha como funcionária pública, mantém contatos e participações na vida artístico-musical do Acre. Em 2000, participou do Songbook "Canções Acreanas", dentro do Projeto Cadernos de Músicas Acreanas, com a composição "Diabo Malandro". O compêndio, produzido por João Veras, teve apoio de diversas empresas, inclusive o Banco do Brasil.” Informação in Dicionário Cravo Albin da Música Popular Brasileira.
Abaixo duas músicas do repertório de Keilah Diniz: "Amazônia... a Deus" e "Diabo malandro".

domingo, 24 de março de 2013

A PRIMAVERA

Luiz Felipe Jardim
Elson, o quadro Alegoria da Primavera ou, simplesmente, A Primavera, de Sandro Boticelli, tem como ambiente um dos bosques do Monte Olimpo, o Jardim de Vênus e, como personagens, nove de seus habitantes míticos. 

'Primavera' são as duas figuras femininas que aparecem do lado direito do quadro. Ali, naquele canto, está acontecendo o momento mítico em que Zéfiro, um vento do bem, o mais suave dos ventos, mas, assim como todos os ventos, incontido quando perdidamente apaixonado, violenta Clóris – uma bela ninfa ligada a terra e que exalava flores ao respirar. 

Por soprar sua leve e benfazeja brisa sobre a região Mediterrânea durante toda a primavera, o vento Oste, Zéfiro, é sempre relacionado à fecundação. No quadro, Zéfiro sopra o seu ‘sopro da paixão’ e fecunda a Clóris que se transforma, então, em Flora, a deusa da Primavera. Depois eles irão se casar e serão felizes para sempre. Inclusive, e principalmente, segundo a fábula, no leito conjugal. Flora ganhou de Zéfiro, como presente de núpcias, um jardim onde reina em eterna primavera. 

Na Roma Antiga, as festas anuais dedicadas à Flora, as Florálias, eram muito populares e ‘calientes’. Acho que eram uma espécie de ‘carnavalito’ (por serem uma espécie de carnaval depois do carnaval) dos nossos patrícios aqui de La Banda, Bolívia, e que acontecia de 28 de abril a 3 de maio, justo quando o tempo começa a esquentar lá na Europa. Simultaneamente, aconteciam, por toda a Europa, as festas onde se cultuava o fogo, com enormes fogueiras, como os festivais celtas de Beltane, onde o futuro Rei Artur e Morgana se engravidaram. (No Brasil, transferimos para o mês de junho essas festas ‘ de fogueiras’, onde, desde a pré-história, nossa espécie cultua, simbolicamente, o fogo). 

Durante as Florálias, ao contrário do tradicional branco cerimonial, as pessoas deveriam vestir roupas coloridas. Grupos de moças dançavam nas ruas e nos teatros, representando vivamente - e ponha vivamente nisso - entre outros, esse tema da violação. Violação essa que, como podemos ver, os romanos viam com olhos bem diferentes dos nossos. Também os ‘medievos’ viam diferente. Basta lembrar que esse quadro, que tem mais de 2 metros de altura e mais de 3 metros de comprimento, foi pintado em pouco mais de um ano para ser dado de presente de casamento a um primo de Lourenço, o Magnífico, o Médici manda chuva da Florença da época. O noivo era Lourenço Pierfrancesco de Médici e tinha 18 anos; a noiva era Semiramide Appiano e tinha 16 anos. Ambos haviam se visto apenas 2 vezes antes do casamento. 

No quadro, algumas das flores que Flora apanha em seu vestido com sua mão direita (significativamente) à altura do ventre, são flores de cravo que, tradicionalmente, em algumas regiões europeias, eram escondidas sob o vestido nupcial, para que o noivo as encontrasse. Acho que era uma 'brincadeira de núpcias' que ajudava a relaxar espírito e corpo de adolescentes que muitas vezes mal se conheciam - como os dois felizardos que tiveram este quadro na parede do seu leito nupcial. Flora tem o colo ornado por um colar de mirta que é um símbolo de fertilidade matrimonial. Na Antiguidade, as jovens esposas gregas costumavam usar coroas e colares de mirta para ‘atrair’ fertilidade. 

Zéfiro era, também, um nome muito popular na Antiga Roma, tão popular que, além de chegar até nós, em forma pura ou em derivadas, nos proporcionou aquela divertida e, embora amarga, deliciosa personagem de cartum criada pelo Henfil. 

No canto esquerdo do quadro, estão as Três Graças, deusas do encantamento, da criatividade humana. Entre outros nomes, são conhecidas por: Pulcritude, beleza, do lado direito; Castitas, castidade, no centro; e Voluptas, sensualidade à esquerda. Dançarinas do Olimpo, dançam harmonicamente e talvez sejam as primeiras figuras femininas sensuais na pintura europeia em mais de mil anos. Suas ‘barriguinhas mais cheinhas’, assim como as das demais figuras femininas, representam um ideal estético bem diferente dos ideais de hoje. Dava-se muito mais valor às pessoas mais ‘gordinhas, mais cheinhas’. As temperaturas haviam caído muito desde os 1300 no Norte do planeta. As colheitas diminuiram significativamente ano após ano. Além disso, as catástrofes como a epidemia de peste bubônica de 1348, dizimaram povoados, e diminuíram em um terço a população europeia. Nesse cenário de frio e fome, ser ‘gordinho’ era uma vantagem a ser perseguida. 

Ao lado das Graças, Mercúrio introduz seu bastão entre as folhas de uma “laranjeira carregada de laranjas boas”, assim como ele que era gente boa, aliás, um bom deus. Dizem que foi ele que furtou os sonhos de Morfeu, e levou-os aos humanos que dormiam. Graças a ele, temos o privilégio de termos os pensamentos encantados enquanto dormimos, e de podermos vê-los e senti-los quando sonhamos. 

Com seu bastão mágico, o caduceu, Mercúrio afasta as adversidades do tempo, e serena o céu garantindo eterno bom tempo para o jardim. 

No centro do quadro estão a deusa Vênus e seu filho Cupido. O menino gracioso e alcoviteiro, (conhecido por nossos caipiras também como ‘O Frechêro Cego’) com venda nos olhos, dispara uma tocha flamejante na direção das Graças. Na verdade, o alvo é a graça Castitas, que volteia seu olhar para Mercúrio. 

E aqui, Elson, como bons acreanos que somos, e acreanos com E de acreano, vou te contar um segredo: Sandro Boticcelli, neoplatônico que era, teve uma paixão platônica por Simonetta Vespúcio, uma pessoa muito inteligente, fina e elegante e que era casada com Marco Vespúcio, um rico parente mais velho de Américo Vespúcio, aquele Américo que ‘nos fez’ americanos. Simonetta era encantadora, também, por sua beleza, e Boticcelli a teve como modelo em vários dos seus quadros e estudos. Um deles é O Nascimento de Vênus, onde Simonetta representa a deusa. Acontece, Elson, que Simonetta, (e aqui está o segredo que ninguém mais irá conhecer, né?) era amante de Juliano de Médici, irmão d’O Magnífico que, como já disse, financiou o quadro. Por isso, Mercúrio é representado com a fisionomia de Juliano, e Simonetta empresta sua fisionomia a Castitas. A paixão de Boticcelli por Simonetta durará por toda sua vida e, a seu pedido, ele será sepultado na Igreja de Ognissanti, aos pés de sua amada que ali já se encontrava havia 34 anos. 

No quadro, Vênus rege a paisagem e seu ventre é o centro de tudo. Embora seja uma deusa pagã, tem a postura pictórica típica das 'madonas' da época. Boticcelli contribuiu decisivamente para a fixação da tradicional inclinação de cabeça que as Madonas passam a ter já durante essa primeira fase do Renascimento. (Por isso, até hoje inclinamos, leve e instintivamente, a cabeça quando queremos de nós mesmos um retrato que cause impressão digamos assim... do tipo um pouco mais angelical). A deusa tem atrás de si um pé de mirta que cria uma espécie de arco, presença tradicional nas representações das madonas, assim como o ‘Bambino’, nesse caso simbolizado por Cupido.

Há mais de 500 flores de mais de 170 espécies diferentes espalhadas no quadro todas perfeitamente identificáveis e que florescem em diferentes épocas do ano. 

Especialistas dizem que, se entrássemos no quadro sentiríamos forte cheiro de laranjas. Interessante, Elson, é que até poucos anos antes da feitura desse quadro, na Europa não se conhecia a laranja doce, só as amargas e azedas. A laranja doce só foi popularizada em princípios dos 1500, quando levada da Ásia pelos portugueses. Mas a laranja já era uma fruta associada aos Médici e ao seu poderio econômico. Talvez por a sua cor lembrar a do ouro, or em francês, de onde provém a palavra orange, laranja em inglês e francês. Portanto, a predominância de laranjeiras na paisagem, pode ser uma alusão ao poder que tinha a família Médici em Florença e na Europa. 

Outra alusão aos Médici se dá do lado direito do quadro. Veja que, ao movimentar-se, o vento Zéfiro curva algumas árvores que não são laranjeiras. São loureiros, pés de louro, símbolo da vitória e do poder. Louro é, também, a raiz da palavra Lourenço, nome do Mágnífico e de seu sobrinho. Você se lembra de como nasceu o louro? 1. Apolo é espetado pela flecha de Cupido e está perdidamente por Dafne uma ninfa das árvores; 2. Apolo a persegue insistentemente; 3. Dafne, ao ser tocada por Apolo, se transforma em loureiro, e Apolo a elege sua árvore sagrada. Ah, lembre que o enredo da fábula de Zéfiro e Clóris Guarda muitas semelhanças com o de Apolo e Dafne. 

Mas, tirando os significados explícitos, e os não tão visíveis, nossos olhos, quando pousados sobre o quadro de Boticcelli, ficam dando voltas na busca de sentidos. Assim como ficam durante o sono REM. Acho eles ficam assim, volteando sobre a paisagem, procurando e encontrando significados visuais, puramente visuais, desses que só os olhos vêem, ou melhor, só os olhos entendem. E para que nosso cérebro não se descontrole com o que não entende do que os olhos vêem, estes, os olhos, abrem conexão direta com o coração para que, mesmo sem entender, possamos sentir o que vemos sentido que é bom o que se vê e sente. Abraços


* Luiz Felipe Jardim leciona História.

sexta-feira, 22 de março de 2013

EPITÁFIO

Tristan Corbière (1842-1875)


Salvo os amorosos principiantes ou findos que querem principiar pelo fim há tantas coisas que findam pelo princípio que o princípio principia a findar por estar no fim o fim disso é que os amorosos e outros findarão por principiar a reprincipiar por esse princípio que terá findo por não ser mais que o fim retornado o que principiará por ser igual à eternidade que não tem nem fim nem princípio e terá findo por ser também finalmente igual à rotação da terra onde se findará por não distinguir mais onde principia o fim de onde finda o princípio o que é todo fim de todo princípio igual a todo princípio final do infinito definido pelo indefinido. – Igual um epitáfio igual um prefácio e vice-versa.



Poema in:
POUND, Ezra. ABC da literatura. São Paulo: Editora Cultrix, 1973.