terça-feira, 25 de agosto de 2020

UM MONTE (ensaiando o mistério)

João Veras

 

sou rente como um pente e seus três dentes cariados

um barulho infernal como todo fumo sem fumaça

um engasgo de espinha de peixe

um mói de farinha na palma da mão

bagana escondida em caixa de fósforo vazia

lâmpada queimada acesa

um desuso novo

uma presa

aquele intruso imediatamente identificado

mil parafusos correndo sem cabeça

dois aplausos vaiados dentro do quarto desarrumado

um ninguém que mereça

eu sou quem não sou quem pensa que sou

um e  muitas vezes três vezes seis

uma moeda de um centavo achada no bolso falso

um poema sem poesia de qualquer academia

um percalço

um trema desorientado em busca de uma letra para sentar

como ex desejo não querendo  

como bicho torto mal desentortado 

um pacote de prego sem perdão

foguete no chão sem centelho

um escrito e meio que não acaba com nada

nem receio

uma postagem de ontem

um fake desconfiado

um crente sem fé

e um monte

(de saco cheio)

de café.

sábado, 22 de agosto de 2020

GEOGLIFOS PARA EPYMARÁ E KURAMPURA¹

 Alceu Ranzi² e Evandro Ferreira³

 

Nos escritos deixados por dois estudiosos-aventureiros que andaram pelo Acre na passagem do século XIX para o século XX, o Coronel Antonio Labre (fundador da cidade de Lábrea, Amazonas) e o Coronel inglês Percy Fawcett (que inspirou o personagem “Indiana Jones”), é possível perceber detalhes interessantes sobre Templos, Deuses e Demônios.

Esses personagens mereceram a atenção de muitos estudiosos. O Dr. Hélio Rocha, professor da Universidade Federal de Rondônia (UNIR), pesquisou sobre o fundador de Lábrea e publicou o livro “Coronel Labre” (Editora Scienza), o qual é recomendo para os pesquisadores da Amazônia Ocidental. De outra parte, sobre o Coronel Fawcett, a literatura está plena de descrições de suas aventuras e artigos técnicos, fruto de suas expedições pelos sertões do Brasil e andanças por tierras no descubiertas para estabelecer os limites da Bolívia com Brasil e Peru.

Em ordem cronológica vamos iniciar em 1877, com o Coronel Labre e sua expedição que varou a pé desde a margem esquerda do Rio Madre de Dios, no atual Departamento de Pando na Bolívia, até chegar na margem direita do Rio Acre, na região da desembocadura do Riozinho do Rola, nas proximidades do atual “Lago do Amapá”, num percurso aproximado de 250 km.

Enquanto Labre caminhava, por bem cuidadas trilhas e varadouros indígenas, ele notou vários campos circulares, com casas e templos. Numa taba Araúna (indígenas que habitaram os rios Abunã e Orton na Bolívia) ele descreveu:

“...vi um pequeno tijupal (palhoça) servindo de templo, onde estavam guardados seus penates (Deuses protetores) ou ídolos”.

Seguindo sua caminhada, o Coronel Labre continuou suas anotações:

“...Boa casa ainda em estado de conservação, um templo e pátio grande e bem limpo...”. “Passamos por três taperas, tendo uma d’ellas grande área aberta em prado com restos de árvores frutícferas”.

“...Casa grande em bom estado de conservação e limpeza, e um templo onde ainda conservam-se os ídolos indígenas (objetos consagrados ao culto), o pátio da casa estava limpo e varrido, confundindo-se com a praça do templo. N’esta povoação houve antigamente uma grande tribo, segundo anuncia a área, em torno da habitação, formando um círculo perfeito (Geoglifo?), com diâmetro de um kilometro...”

“...Passamos por um campinho de 1.500 metros de circunferência, que disseram os Guarayos (indígenas do rio Abunã) ser lugar de plantações antigas”.

“Esta povoação…tem uma área de campo aberto, perto de 5 kilometros em circunferência, tendo de diâmetro 1.500 metros”.

“...eram pequenos prados naturaes ...o maior d’elles poderia ter 5 kilometros de comprimento, com uma largura de 2 kilometros na parte central”.

“Mamuyeçada é uma maloca de 100 e tantos a 200 habitantes; tem forma de governo, templos, culto e religião ...(mulheres)... sendo-lhes prohibida a entrada no templo e obrigadas a ignorar os nomes e formas dos ídolos, que não tem forma humana, são figuras geométricas, feitos de madeira polida. O maioral ou pai dos deuses chama-se Epymará, tem forma elipsoide e poderá ter em dimensão de 35 a 40 centímetros”.

A citação acima, do Cel. Labre, mereceu a atenção de Denise Schaan, principal estudiosa dos Geoglifos do Acre: “Ali (Labre) aprendeu que aqueles povos adoravam deuses de formatos geométricos, esculpidos em madeira”.

Trinta anos depois de Labre, em 1907, passando pelas mesmas trilhas, nas proximidades da atual cidade de Capixaba, região conhecida por antigos campos naturais e com muitos Geoglifos plotados, o Coronel Fawcett fez as seguintes anotações (tradução nossa):

“Acampamos em um lugar chamado Campo Central, com a missão de encontrar as nascentes de alguns rios e anotar suas posições. Enquanto realizávamos o trabalho, observamos enormes campos circulares, de uma milha ou mais em diâmetro (aproximadamente 2 mil metros), o local há poucos anos passados era uma grande aldeia dos Apurinãs. Alguns desses índios ainda vivem num lugar chamado Gavião. Esses índios, haviam se submetido à civilização e pareciam contentes o suficiente, exceto pela malícia de um espírito chamado Kurampura”.

Ainda no Acre, Fawcett observou que, “aqui e ali um tronco havia sido esculpido no formato de um cone de 30 a 35 cm de altura, provavelmente com motivo religioso”.

Assim, podemos inferir, pelas observações dos desenhos representados pelos Geoglifos (círculos, quadrados, hexágonos e octógonos) e pelos Deuses e ídolos em formato de elipsoide e/ou cone, que os antigos habitantes do Acre faziam parte de um povo que dominava a geometria ao ponto de suas aldeias e seus Deuses serem representados em formas geométricas.

Sobre o olhar respeitoso que devemos ter para com os Geoglifos, vale lembrar o alerta do ex-governador Binho Marques: “Será necessário um esforço de todos - Estado, empresas, comunidades - para a conservação dos Geoglifos, para pesquisá-los e conhecê-los melhor, para incluí-los no nosso sonho de um desenvolvimento econômico social e ambientalmente sustentável. Queremos disseminar um sentimento de responsabilidade sobre essa riqueza tatuada na pele de nossa terra. É necessário que cada acreano veja e reveja o solo sagrado onde pisa”.

 

Para saber mais:

Fawcett, P.H. 2001. Exploration Fawcett. Phoenix Press, London.

Labre, A.R.P. 1889. Colonel Labre’s exploraƟ ons in the region between the Beni and Madre de Dios rivers and the Purus. Proceedings of the Royal Geographical Society and Monthly Record of Geography, v.11, p.496-502.

Marques, B. 2010. A força das imagens. In: Schaan, D.P.; Ranzi, A.; Barbosa, A.D. (Org.). Geoglifos: Paisagens da Amazônia Ocidental. Rio Branco: Editora GKNoronha. p. 7.

Rocha, H. 2016. Coronel Labre. São Carlos: Editora Scienza. 234p.

Schaan, D., Ranzi, A., Barbosa, A.D. 2010. Geoglifos: Paisagens da Amazônia Ocidental. Rio Branco: Editora GKNoronha. 100p.

 

¹Artigo originalmente publicado no jornal A Gazeta, em Rio Branco, Acre, em 05/08/2020

²Alceu Ranzi é Paleontologia, ex-professor da Universidade Federal do Acre-UFAC

³Evandro Ferreira é pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia-INPA e do Parque Zoobotânico da UFAC.

 

Fonte da Imagem: Antonio Labre, 1889.

Artigo disponível aqui:

http://ambienteacreano.blogspot.com/

sexta-feira, 7 de agosto de 2020

RETRATO DA INFÂNCIA

 J. G. de Araújo Jorge (1914-1987)

Felicidade é a gente poder olhar para trás e encontrar esse vago mundo em “sol menor” que se chama infância. Adivinhação da vida. Bem sei que, com muita gente, acontece essa coisa estranha: tornar-se adulto sem ter sido criança. Ou, o que é pior: ter sido criança sem ter tido infância.

A infância, para mim, não é apenas e simplesmente uma idade, mas justamente aquele mundo de pequeninas coisas que tornam inconfundível na lembrança um tempo de alegria, um tempo em que conhecemos a felicidade sem ao menos nos apercebermos dela.

Uma vez escrevi: “Infância mesmo / a gente só pode ter / depois de crescer. / Porque antes / a gente não sabe.”

Não é uma pena que a gente só descubra a infância depois que ela passou? Que ela seja como um sonho de que só temos consciência quando acordamos, já adultos? Ah, se pudéssemos retomar o sonho, tão próximo e tão distante, interrompido pela vida, para revivê-lo plenamente, com a consciência, com os sentidos despertos.

Ocorrem-me agora aqueles versos: “Mamãe – palavra azul, cor da distância, / quem não pode algum dia pronunciá-la, / nasceu, cresceu… mas nunca teve infância…”

Mas não quero referir-me somente aos que não conheceram seus pais, os que nasceram órfãos, os que nunca souberam o que significa um lar, mas aos que não tiveram a oportunidade de experimentar tantas e infinitas alegrias colhidas com liberdade e amor.

Os que nunca souberam pronunciar a palavra infância com todas as suas letras; não tiveram companheiros de aventuras; não sabem o sentido de coisas simples e inesquecíveis como bolas de gude, piões, papagaios, balões… Sou um homem feliz porque tive infância. E quantas vezes tenho fugido para ela, tentando reabastecer o coração de esperanças e ilusões. Sim: posso encontra-la viva, intensa, apenas volto o rosto, em cada curva da lembrança.

Por isso tenho escrito sobre suas recordações e sobre sua eterna presença. Releio outro poema, ainda inédito: “Ah, a infância, esse país de lenda / sem a ameaça da morte.”

Me lembro da minha infância: trago-a intacta dentro de mim, posso quase tocá-la com as mãos. Nela fui rei e moleque. Ficaram em meu corpo suas marcas e cicatrizes e me orgulho delas como um combatente de suas medalhas. Cada uma tem uma história, encerra uma aventura. Vivi todos os seus riscos, junto aos companheiros. Ainda ouço a voz de minha mãe me repreendendo, quando voltava para casa:

– Já não disse que não quero você com aqueles moleques?

E quantas vezes ouvi também outras mães chamando por seus filhos e repreendendo-os com as mesmas palavras.

Me lembro de minha infância. Esbocei dela dois pequenos retratos no livro A Outra Face. Um, com oito a dez anos, em Rio Branco, no Acre, garoto solto, de beira-rio (sem o lirismo casimiriano), tomando banho nos igarapés, tirando alfenim na engenhoca, comendo cacau maduro na floresta; outro dos 11 aos 15 anos, aqui no Rio, em Botafogo, metido em “peladas”, e pescarias nas pedras atrás do morro da Viúva.

Fui rico de infância: tive uma, no interior, livre, em contato com a natureza, aprendendo com os bichos e as coisas; outra, na cidade grande, já sabido, apavorando as tias, desencaminhando os primos; capitão de moleques.

O velho rio é a moldura da primeira, sublinha a sua paisagem. Pergunto por ele num poema ainda por publicar: “Onde estás, rio Acre, de Rio Branco,/ rio vermelho que o tempo azulou,/ que corres para a distância/ e que foges de mim? Rio Acre da minha infância/ que sempre vais/ de onde eu vim…”

No livro Amo! há outras reminiscências, em tantas perguntas: “Onde estão aqueles olhos cheios de desejos puros / e que mesmo rebeldes / olhavam para os céus?/ E aquela alma inquieta, como os caminhos / nos campos, os varadouros/ e os igarapés alegres da floresta?/ E aqueles lábios que não conheciam o sabor dos beijos / mas mordiam os bagos branquinhos e doces de ingá/ e a polpa suculenta dos cajus? Onde está o meu primeiro amor/ a menina de cabelos negros/ e de olhos da cor do rio/ que nunca será esquecida?”

E a resposta inexorável:

“O tempo ladrão roubou/ de parceria com a vida…”

Me lembro de tudo. E quero fixar nesta página os traços do retrato mais distante, que ficou no Acre. Primeiro, a paisagem: a casa grande, coberta de zinco, com um largo alpendre aberto para as mangueiras, cercada pelo milharal. E meu pai:

 

O “velho” pigarreando

de chinela, de pijama,

despacha papéis na sala.

O anspeçada no alpendre

o milharal com penachos,

as saúvas carregando

como fardos, grãos de milho;

arma o tempo, baixa o tempo,

barrica cheia entornando

cantando embaixo da calha.

Que bom o banho na chuva!

 

Depois a visão do engenho:

 

Tempo bom! Engenho rude

boi rodando, boi rodando,

– que pena no olhar do boi!

Moenda geme sozinha,

garapa sempre escorrendo,

tachada de mel virando

rapadura se fazendo,

cana raspada prontinha

alfenim branquinho, puro

que nem o sonho de Eudóxia.

 

Ao mesmo tempo, as recordações do Grupo Escolar 7 de Setembro, primeira escola, curso primário da vida:

 

Festa no Grupo Escolar:

eu, apache, ela, duquesa,

pulseirinha feito cobra

que o preso fez na cadeia,

tem meu nome, o nome dela,

– primeira algema de amor.

 

E a vida livre: “Sanhaçu voa na mata/ baladeira estica, estica,/ pedra parte, não vem mais.”

Lição de coisas: “O touro/ e a vaca pastam no campo;/ o cavalo e a égua cruzam/ nos terrenos da Intendência/ à vista de D.Zefa/ e do padre Bernardeli./ A molecada faz roda/ seu padre faz que não vê.”

E a festa na vila, a “chata” que apitava lá embaixo, na curva do rio, junto da cadeia, anunciando a civilização. “Sino tocando, tocando,/ foguete no ar estalando/ vestido novo, de seda,/ chata trouxe de Manaus;/ cara pintada, cabelo/ com fita grande, parece/ que borboleta pousou/ na cabeça da Nininha.”

 

Roupa branca, meia branca,

camisa branca, sapato

branco, tudo branco,

parece até comunhão

mas não é, é festa só.

 

Meu Deus, quanta coisa, quanta

coisa mesmo se passou.

Será que isto tudo é meu

ou foi alguém que contou?

 

ARAÚJO JORGE, J. G. de. No Mundo da Poesia. Rio de Janeiro: Edição do Autor, 1969. p. 69-74

quarta-feira, 5 de agosto de 2020

POEMAS DE MAX MARTINS

“MAX MARTINS nasceu em 20 de junho de 1926, em Belém do Pará. Companheiro de geração de Benedito Nunes, Mário Faustino Haroldo Maranhão, Alonso Rocha, Jurandyr Bezerra, Francisco Paulo Mendes e Ruy Barata. Primeiros textos publicados no jornal O Colegial. Em 1948, colaborou na revista literária Encontro, dirigida por Mário Faustino e Haroldo Maranhão. Entre 1946 e 1951 passa a publicar regularmente no suplemento literário da Folha do Norte, editado por Haroldo, os poemas que viriam a integrar o seu livro de estreia, O estranho (1952). Em fins de 1949 casa-se com Maria Laïs Teixeira Godinho Martins, que lhe dá duas filhas, Graça e Nazaré.

Benedito Nunes, no longo prefácio que escreveu para a edição de Não para consolar (“Max Martins, Mestre-Aprendiz”, 1992), afirma que “Dois fatos relevantes em nossa vivência geracional contribuíram para o desenvolvimento da poesia de Max, ulteriormente à publicação de O estranho: a convivência intelectual com Robert Stock e o impacto do livro de Mário Faustino, O homem e sua hora”. Poeta de grande erudição e afeito ao pensamento não conformista do pós-Guerra, Bob Stock (1923-1981), como era chamado entre os amigos paraenses, impunha-se também pela figura inspiradora e singularíssima, certamente excêntricas para os padrões de então, “um hippie avant la lettre, anarquista sem ser materialista, misto de asceta e de esteta santificando a ética, egresso da mesma comunidade de Big Sur, na Califórnia, a que pertencera Henry Miller”, cuja dedicação exclusiva aos trabalhos da poesia levou-o à obediência de “um voto de franciscana pobreza”, ainda segundo Benedito no mesmo ensaio. Max nunca o esqueceria, divulgando-o sempre entre os amigos.

Com edições esparsadas durante as décadas de 1950 até o final da de 1970, Max publicou intensamente durante toda a década de 1980 e pela primeira vez participa de viagens para leituras de poesia (Rio, Salvador e a mais longa delas, a que o levou a Missouri, EUA, a convite do poeta norte-americano James Bogan). É nesta década também que constrói a sempre sonhada cabana na praia do Marahu, na ilha do Mosqueiro, emblemática dentro de sua obra, e mantém intensa cooperação com Age de Carvalho, com quem passará longa temporada de seis meses em Viena, Áustria, em 1990. De 1991 a 1994 dirigiu a Fundação Cultural Casa da Linguagem, em Belém. Em 1993, recebeu o Prêmio Olavo Bilac de poesia, da Academia Brasileira de Letras, pelo livro Não para consolar. Sai na Alemanha a tradução de Para ter onde ir (Der Ort Wohin), de Burkhard Sieber, em 2006.

Foi funcionário público da extinta Sucam, órgão do Ministério da saúde, mas, sobretudo, “viveu a poesia que escreveu”, ainda nas palavras de Benedito Nunes, a verdadeira profissão e ocupação de toda a vida.

Max Martins faleceu em 9 de fevereiro de 2009, em Belém, aos 82 anos.”

 

No princípio era o verbo

 

E o verbo se fez carne

escrita

                                      se precipita

esfinge fácil

                  dedilhável

                                                      frui/rui

e se desfaz

                    escorre o seu discurso

                                                                  Expele

                    o oxibelo ofídio

                                            ungido

                                                               a sua ferrugem

                    a dociácida esponja

                                                    ávida

                                                                   a sua saliva

                      seu suor

                                            sua mancha

                                                                     A frase é triste

Epístola e pústula

                             um rosto

                                          coroado de música

                                                                           se delindo

e de espinhos

 

se deslinda: as rugas

Que desleio

                   lia

                       verso perverso. Verborragia p. 29

 

 

Rasuras

Um buraco sem fundo cheio de palavras. HAKUIN

 

Meu nome é um rio

Meu nome é um rio que perdeu seu nome

                                                                                Um rio

nem sim

nem não

              Nenhum

                            Somenos correntezas

                            Água masturbada em vaus

                                                                       peraus

                            em po

                                     luído orgasmo entre varizes

                            Sêmen sem mim

                                                            Mesmice

Onde está meu nome Lá nesse rio de lama sem memória e rumo?

Nesse amarfanhado leito de inchada falha?

Meu nome é um rio cotoco – um Ícone

                                                              De barro

                                                                           Barroco

Um rio que só se-diz

                                 Seduz-se

                                                Se afaga e afoga

em ego e água: Aquário

Meu nome é um rio tapado

                                           (poço)

                                                E aqui se quebrantou meu nome

                                                sua viagem e osso

É esta a sua fissura? E o seu rosto é este

                                                                   escuro

atrás da porta

                      espelho

exposto à febre

                         à fera de si mesmo?

                                                                   Ensimesmado

meu nome é um rio que não tem cura  p. 35-36

 

 

 

As serpentes, as palavras

 

Domador quase domado

                            já as palavras

                            é que me lavram

e escrutam nos refúgios

da recusa

                as serpentes

                                     as palavras

De acordá-las e dormi-las

                             instigando-as

                             já me inferem        inserem

seus venenos

                       e se calam

entre os dentes desta jaula

                     e ejaculam

o entre tido não havido

o não sucedido

                   – meros guizos

                   de serpentes

                                        as palavras

Da ruína e seus ruídos

restam poucas as palavras

                                            (ocas?)

para o engate

da serpente com a semente

                            e o seu resgate   p. 66

 

 

Homo poeticus

 

Em nome do Pai      filho do Nome o homem

clama por seu nome

                                 ao Ermo

                                               a esmo

                                                           Chama

e se consome

                                       O poema é fome

                                       de si mesmo    p. 74

 

Num bar

 

Num bar abaixo do Equador às cinco da manhã escrevo

meu último poema                               Arrisco-o

ao azar do sangue sobre a mesa     mapa

de crises      cicatrizes       moscas

                                               Gravo-o

fala de mim demão e nódoa

nós e tábua deste barco-bar

                                              que arrumo e rimo:

                                              verso-trapézio     osso

                                              troço de ser

                                              escada onde

                                                                   lunar oscilo

                                                                   solitário

quando

vieram uns anjos

de gravata e me disseram: Fora!  p. 98

 

 

MARTINS, Max. O risco subscrito. Belém: ed.ufpa, 2016.

 

 

Indo para o Norte

 

E se fracassares?

Se o êxtase do punhal não alcançar a alva

seda boreal e a bala

errar o morto e o morto apodrecer em paz

                                                                    no alvo

iate, âncora para sempre, liquidado o mar

o mar cediço

                     passadiço?

 

 Antes do tiro

antes do fim (— o teu princípio) todo o trigal já estava louco

 

                                                           os corvos indo

                                                           e vindo idem

agora sobre a cova

          do sol              Do teu poema?

 

 Enquanto danças nesta noite às bruxas

                                                            às tuas viúvas

                                                                                      uma

folha na relva se corrompe

frutos se viciam, pecam

e se laceram

                         — o céu em cima

                          a terra em baixo —

                                                            Nada se associa  p. 43

 

 

A cabana

 

É preciso dizer-lhe que tua casa é segura

Que há força interior nas vigas do telhado

E que atravessarás o pântano penetrado e etéreo

E que tens uma esteira

                          E que tua casa não é lugar de ficar

Mas de ter de onde se ir    p. 59

 

MARTINS, Max. Para ter onde ir. Belém: ed.ufpa, 2016.

 

 

Espirais

 

Este é o próprio respirar da seda

Ou a arte

               (e a sede)

                          De se dar

                                    sedar-se

                                       rumo ao Oriente

 

Ou um aspirar aos céus

da forma a conduzir-nos

                               — as espirais

 

o espírito   p. 33

 

 

Febre

 

Acendes cravos de ouro na pele da bandeira

A última. E te agradeço:

 

Ponho na tua boca as cinzas

Da minha insígnia   p. 41

 

 

Arco,

 

da lua negra sobre os ombros

                                E as antenas trêmulas

 

Bocas

de violência alegre errando entre

fibras

e febre ácida

O i do fio

            da lâmina

                          o gosto

cítrico de um sim

                        enfim afim

                                     do som

que o teu silêncio chama   p. 43

 

 

Wien, Westbahnhof

 

Real perfeito, o ato

a cerimônia de um poema

                                          teve-me   p. 54

 

 

Navegar por mim

a Laïs

 

O que (tão nu) a mão impura apaga de meus olhos

O que só as folhas do meu livro em branco veem

                        vindo dos teus seios desde o começo tristes

O que só os meus ouvidos ouvem quando os amantes cansam saciados

                             ou o que eles calam e perdem no nevoeiro

 

O que a festa do teu vestido branco caindo

                                     equilibra na intensão do escuro

O que me vê e não (o) vejo e dialogamos

                           — meus olhos ferozmente encarcerados

 

O que afinal não tem importância mas assusta os pássaros

                e tua enternecida eternecente navegação por mim

 

                                                                         Ou isto

 

— o que não veio

com o ciciante silêncio desta noite

                                com o abrir-se a porta

                                     com o favor do outono  p. 63

 

 

Saltimbanco

 

O não mais espumoso vinho dos abismos

O cauterizado testemunho de um instante de beleza:

O ritmo do oceano

O palco

e a metade da cama para o falso poema

                                                           O saltimbanco

 

                                                           Ou o sangramento

da perda de um deus a cada assalto

                                                           O cadafalso

O semidestroçado frêmito de um destino cego de antemão

O não mais aceito rito do ofício O ofício:

esta rasura do corpo sendo esquecido

                                                         O esquecimento

O desabitado segredo das palavras   p. 65

 

MARTINS, Max. Marahu poemas. Belém: ed.ufpa, 2018.