quinta-feira, 7 de abril de 2011

RELIGIÃO E CIÊNCIA NAS ESCOLAS

Profª. Inês Lacerda Araújo*


A polêmica em torno do ensino religioso conflitar com ensino de ciência parte de princípios equivocados. Trata-se de áreas distintas do saber, da cultura e das civilizações. Elas nascem com diferentes propósitos, seus objetivos são em tudo e por tudo diferentes, seu tipo de atividade, suas práticas, são também em tudo diferentes.

Culto, crença, dogmas e a revelação divina são os principais suportes das religiões; Deus se manifesta nos textos legados pela tradição, como a Bíblia e o Corão.

Em contraste, a ciência investiga um setor da realidade por meio de métodos que estão abertos para algum tipo de teste, de prova. Usa uma linguagem com signos universais, como exemplo, uma lei da Física ou da Química.

O problema começa quando se pretende que uma ou outra dizem a Verdade. Mas nenhuma delas diz a verdade, o que a religião ensina, não é algo verdadeiro, mas algo revelado, objeto de fé. Educação, tradição familiar, opção individual, isso é o que conta nas religiões. Deus Criador do universo, essa não é uma afirmação que deve ou pode ser comprovada, está fora do âmbito do verdadeiro/falso. Sendo objeto de fé, é algo inquestionável para todos os que creem nesse poder. As escolas com a opção pelo ensino de certa religião não podem excluir ensinar Biologia, Física ou História. É possível educar as crianças nos valores de uma doutrina de fé sem prejuízo para as demais disciplinas.

Escolas públicas, laicas, devem deixar a opção religiosa para as famílias. Ao oferecer a disciplina de ensino religioso, deve haver um objetivo didático, isto é, mostrar que a religião tem seu lugar e seu papel culturais. Escolas laicas não devem e nem podem doutrinar ninguém.

A finalidade da pesquisa científica é propor teorias e investigar seu alcance, avaliar e implementar os benefícios tecnológicos, avançar a investigação, de preferência sem a intervenção do Estado.

Se o cientista detivesse a verdade, a investigação seria interrompida. Os biólogos usam o paradigma de Darwin e o da teoria genética, e, até o momento, há comprovações de que as espécies evoluíram e de que o DNA comanda a vida. Mas isso não significa que outras teorias não possam surgir. A abertura para novas hipóteses é fundamental na ciência.

Por tudo isso, é falso o dilema Deus ou Darwin. Na vida privada, pessoas optam por uma crença religiosa, e podem também escolher cultivar a filosofia, praticar esportes, dedicar-se a uma carreira, ter predileção por música ou por poesia. Deve haver liberdade para fazer da religião algo de bom, que preencha sua vida. No espaço público, as religiões devem seguir o princípio da tolerância e do respeito mútuo, religiões, igrejas, ensino religioso, devem e podem ser aceitos, livres da falsa ideia de que falar de Deus exija critérios superiores e privilegiados. Isso produz divisão, isso leva a crer que uns são fiéis e todos os demais são infiéis!

Do lado da ciência, há quem pretenda, como R. Dawkins (autor de Deus, um Delírio) que Darwin diz a verdade. Com isso ele endeusa Darwin!

Esse erro faz com que as crianças fiquem perplexas e também os professores de religião e de ciências biológicas.

Não há problema algum em crer que Deus seja a origem do universo e aprender que certa ciência, enquanto uma prática social, com lugar cultural, faz investigações que não refutaram, por enquanto, o darwinismo.

Não se deve considerar VERDADE que o homem foi criado por Deus ou que ele descende de macacos. Não se deve confundir o que é doutrina com o que é investigação científica.

Todos devemos cultivar a abertura de nossas mentes, a vida humana digna, o respeito e a tolerância.

Há quem ache que o conflito acima possa ser resolvido, apelando para a tese do Big Bang. É uma saída bizarra e risível essa: Deus é o Big Bang!

Ambição por resposta definitiva e por explicação para tudo!

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* INÊS LACERDA ARAÚJO - filósofa, escritora e doutora em Estudos Linguísticos.
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