segunda-feira, 4 de abril de 2011

Série A POESIA ACREANA > NILDA DANTAS

“Nilda Dantas, na verdade, é um símbolo da mulher acreana, não só da beleza cabocla amazônica, mas, sobretudo, do grito de liberdade que o chamado sexo frágil fez ecoar por todo o Acre.”
do livro “Brava Gente Acreana”
 
Dentre tantas presenças marcantes da mulher no Acre está Nilda Dantas, a pioneira da radiodifusão no Estado, a primeira voz feminina a irromper por essas terras, e que merecidamente é chamada de musa do rádio acreano. Nilda Dantas Pires nasceu em Rio Branco. Radialista, cantora, jornalista, poetisa e atriz, trabalhou em inúmeras peças teatrais como “Os Saltimbancos”, na década de 80, e, mais tarde, “Tributo a Chico Mendes”, que a levou aos palcos cariocas, além de São Paulo e Belo Horizonte.

Na poesia estreou em 2000 com o livro Quase Nua. Em sua poesia há elementos da sensualidade bem como poemas que exploram o tema da violência contra a mulher. Porém, conforme as palavras de uma das grandes estudiosas da literatura feminina no Acre, Profa. Dra. Margarete Edul Prado de Souza Lopes, os poemas de Nilda Dantas não falam somente de amor, a autora sabe dosar lirismo e protesto em poemas que descrevem a dor dos viciados e dependentes, em poemas que registram a fala caipira da gente que não teve chance de frequentar escola, mas na poesia de Nilda se tornam sujeito e derramam em versos límpidos e suaves a dor e a saudade do companheiro da vida toda.

Por tudo o que Nilda Dantas representa para a história da comunicação acreana em seus mais de 40 anos de dedicação, e por tantos outros trabalhos nas áreas culturais e socias, o Acre jamais poderá olvidar seu nome de sua história, a história daqueles que o ajudaram a sair do enorme atraso social que até bem pouco era estupidamente alarmante, de cujos resquícios ainda não estamos totalmente livres. Pensar em mulheres como Nilda Dantas, é pensar que uma nova história pode ser escrita. E esta já começou.

***

“Nilda Dantas é uma pessoa que tem sede de aprender, de criar, de fazer. Eu sou muito compulsiva, eu raciocino muito rápido, mas sou uma pessoa tímida, conservadora, reservada, diferente da Nilda Dantas profissional.”
Nilda Dantas
em Brava Gente Acreana

***

ROUBO POÉTICO
Nilda Dantas

Outra vez não!
Não use minhas crias,
Não são suas, são minhas!
Têm o meu DNA.
Eu as fiz com maestria,
Juntando todas as partículas,
Que recheiam a minha alma
Vivida aqui e noutros mundos.
Sozinha concebi,
E as trato com respeito,
Como mãe eu cuido bem.
Só eu sei o valor e a história
Que cada uma delas tem.
Tire seus dedos sujos
Que só querem profaná-las.


DEVORA-ME
Nilda Dantas

Devora-me...
O banquete está servido.
Devora-me..
Com todos os teus sentidos.
Devora-me, lentamente...
Delicadamente, prazerosamente.
Devora-me...
E descobre meus segredos
Impregnados na minha alma.
Devora-me sem pressa,
E conhecerás toda a beleza da minha essência.
Devora-me...
Sacia tuas fantasias.


AGOSTO
Nilda Dantas

Voltei hoje ao nosso altar!
Onde estão guardados
Os vestígios do nosso acasalamento.
E entre as pedras
As flores do campo
Acordaram em festa
Sugando a seiva da fecundação.
A cachoeira chorou
Quando me viu só.
Misteriosamente,
Um canto nostálgico
Penetrou meu ventre úmido,
Que guarda as sementes
Do que eu quero de ti.


CORAÇÃO BOBÃO
Nilda Dantas

Por que choras coração?
Lembras quando eu te falei
Que era mole, fraco e sem juízo?
Olha só! Estás aí sangrando,
Estraçalhado, desmilinguido.
Tu te deixaste cativar
Sem ao menos lembrar
Que precisavas te proteger.
Porque antes
Já te fizeram de gato e sapato,
Lembras?
Agora já era, te vira,
Dá seu jeito,
Ou vais até as últimas consequências.
Explode ou exorciza
De vez essa loucura...
Aprende bobão.


PÁGINAS DA VIDA
Nilda Dantas

Deixa disso florisvaldo
pára de bulir cumigo
deixa eu me levantá
ontem quando tú me usô
eu fiquei toda duída,
que mal pudia andá.
Tú pensa qui é mau vontadi?
que eu não quero te serví?
pára cun issu i ispera
nu dia quii eu fô nu dotô
e eli me dé um remediu
fico logo zeradinha.
não florivaldo
não me bati pur favô
o qui foi que eu ti fiz?
sô seria e trabalhadea
honesta e sempre servil
eu só ti pidi um sapatu
qui o meu tá todo rasgadu
só quiria vê o disfili
du nossu quiridu braziu.
mas si tú não tem dinhero
divia tê mi faladu
não tem probrema, eu intendu
pudia pidi imprestadu.
tú bebi tuas cachaças
chega em casa fedorento
e vem bancanu o valenti,
só porquê eu sô mulher
e tu é mais forte qui eu?
respeita ao menu us meninu
qui todus são fios teu.

***

DANTAS, Nilda. Devora-me. Rio Branco: FEM, 2008.

***

Nota: Para conhecer um pouco mais a história de Nilda Dantas recomendo a leitura do Livro “Brava Gente Acreana”, organizado, em 2008, por iniciativa do então senador Geraldinho Mesquita. Disponível aqui.

4 comentários:

Jalul disse...

NILDA DANTAS É UMA PESSOA IMPORTANTE NA IMPRENSA ACREANA. NÃO SÓ ISSO. NILDA É UMA FORTALEZA! UMA MULHER QUE SE IMPÔS E SE ESTABELECEU POR SEUS MÉRITOS. COMO FALEI NA CARTA ÀS COMPANHEIRAS ACREANAS, EU BEIJARIA AS MÃOS DE NILDA DANTAS.E NÃO SERIA FAVOR!

Pietra Dolamita disse...

Nilda Dantas,
Filha da Dona Raimunda é o símbolo da mulher acreana, guerreira. Uma iluminada que diz com seus gestos e atos o que é ser mulher.

Luciane Morais disse...

Bom dia, amigo!

Quero deixar aqui, meus Parabéns a essa mulher guerreira - Nilda Dantas*
Lindas poesias*

Abraços,
Lu

Jader disse...

Nilda, tenho orgulho por te-la conhecido no tempo do "sururu da floresta", epoca inocente e sem maldades. Te admiro muito e agradeço-te ate hoje por ter estado ao meu lado atraves do microfone quando eu fazia o CENSO agro pecuario nos seringais. A musica que conhecemos continua sendo a mesma..."O nosso amor traduzia"...
Parabens querida: 85 8657 0500
beijos