segunda-feira, 13 de junho de 2011

NADA É PERFEITO! SÓ DE VEZ EM QUANDO!

Leila Jalul*


Hoje, depois de uma noite de contenda com Deus, amanheci disposta a contar das bodas de Dona Luisinha com o Dr. Mundico ocorridas ontem, na Chácara Vila Verde, especialmente preparada para o evento. Ufa! Desde o ano passado que tava o combinatório e não passava disso. Mas, segundo a própria Dona Luisinha, na sua vida e nas de outros seres privilegiados, as coisas acontecem no dia certo, na hora exata e com tudo o que lhes é permitido. Procede!

Outras pessoas, entretanto, parecem viver de acumular desgostos sobre desgostos. E vem daí a minha insatisfação com Deus. Ele, segundo consta, manda dividir o pão, mas, vem justamente Dele as divisões injustas. E mais: a parte do pão dada aos bichados, costumeiramente, cai com a manteiga virada para o chão. Cansei de dizer isso e já me corrijo: Deus é Deus e sabe o que faz! Quem não estiver satisfeito que peça as contas!

Sob minha responsabilidade estava confeccionar o arranjo de muguetes. Evidentemente que de flores naturais e não aqueles que fazia na base do boleador e da lamparina, como escrevi na crônica Brincar de Voltar. Nada disso! Todas as flores que fizeram parte do bouquet e da decoração da festa eram naturais. Foi um momento de grande emoção. Preparei dois arranjos: um somente de muguetes e outro de muguetes intercalados com botões de camélia. À medida que “tecia” os mimos para Dona Luisinha o pranto rolou suavemente no meu rosto. Voltei no tempo. Revi as minhas imagens, mas, o interessante nesse retroceder, é que não sofri. As lágrimas, antes de dor, foram de alívio! Estavam indo embora aquelas lembranças travosas. A felicidade de Dona Luisinha é real e isso me bastou.

Pois bem, voltando ao assunto que mais interessa, devo dizer que a solenidade de núpcias de Dona Luisinha mais Dr. Mundico foi uma festa perfeita. Bem comparando, foi uma festa de rainha, igual ou melhor que a da Lady Kate e do Príncipe William. Acho que melhor, haja vista que não tinha lá a presença da enfarruscada Queen Elizabeth e do mequetrefe mosca morta do marido dela. As filhas do Dr. Mundico até poderiam estar a remoer suas invejas e ambições, porém disfarçaram a contento. Como engoliram as bílis produzidas, não interessa!

O planejamento foi cumprido à risca: capela, ornamentação de capela, frios, canapés, doces, salgados e o jantar de frutos do mar, nada a dizer. Havia, inclusive, uma escultura de gelo de dois enormes pombinhos se beijando. E o que falar da cascata de camarões? E dos vinhos brancos Corvo Duca di Salaparuta? E dos champagnes Veuve Clicquot e Dom Pérignon (Moët & Chandon)?

Trocando em miúdos, posso assegurar que a mais cafajeste colunista social, acaso ali estivesse, ficaria de queixo caído e sem ter o que dizer, considerando que não faltava uma vírgula. É que uma vírgula, por pequena que seja, atiça maldades no povinho da imprensa marrom desbotada. Não faltou!

O vestido de renda francesa vestiu como uma luva o corpo esbelto da noiva. O preço dele não foi revelado, mas, por baixo, pode-se dizer que foi bem mais caro do que imagina a nossa vã filosofia e a nossa estúpida curiosidade. Dizem que sou hiperlativa e não é à toa! Por baixo, não pelo valor da renda, uns dez mil contos de euros. Vestido vale pela assinatura, também e principalmente! Pareceu-me um Dior.

O tempo de duração do casamento foi cronometrado nos acordos. Os relógios estavam sincronizados com o da torre do Big-ben londrino. Hora impreterível de começar e hora mais impreterível, ainda, de terminar. As pessoas foram anotadas e recebidas mediante a apresentação dos convites. Nada de crianças, nada de penetras! Para a noiva, dispensar as agonias das festas de hoje era questão de honra. Quando a calígrafa preencheu os convites o fez com observância da lista organizada pela noiva. Nada de Fulano de tal e família, O negócio era Senhor e Senhora Vieira Chaves. Dois eram dois e um era apenas um, sem a companhia de mais nenhum! O mais era resto e o resto não foi convidado. Esse pequeno detalhe foi relevante na festa. Não se viu crianças berrando entre os convidados, menos correndo e derrubando a louça inglesa, menos ainda atrapalhando a conversa dos adultos. A exceção somente foi aberta para os netos do Dr. Mundico que, por sinal, comportaram-se como mandava o figurino.

Com olhos de boa observadora não deixei de registrar a alegria do Dr. Mundico. O elegante cavalheiro não estava apenas cumprindo uma mera formalidade de regularizar a união. Nada disso! Estava ali um homem que amava a companheira acima de todas as coisas no mundo. A expressão desse amor era visível até no simples gesto de segurar as mãos dela. Ao beijá-la, no final da cerimônia, foi como se agradecesse a Deus pelo amor que dela recebia. Deixou transparecer uma verdade que poucos sabem exteriorizar. Um momento lindo! O mais lindo que pude registrar! Um momento de enternecimento e carinho.

Outro destaque foi a marcação de lugares nas mesas. Conhecendo muito bem o seu eleitorado, com critérios bem objetivos, aproximou os mais próximos e criou uma ala especial para os mais distantes. Quero dizer com isso que o povo de umbanda era o povo de umbanda e o povo de outras bandas era o povo de outras bandas. Nada de misturas. Realmente Dona Luisinha é mestra em tudo que realiza. Na saída, das mãos do casal, os convidados receberam além do tradicional bem-casado, numa embalagem finíssima, uma outra lembrança nada convencional: uma pequena caixa transparente vaporizada com Chanel n. 5 contendo um ramalhete de muguetes e um cartão de agradecimento pela presença.

Ao despedir-me, não foi possível conter a língua e sugeri que Dona Luisinha aproveitasse a lua-de-mel em Portugal fazendo uma viagem de barco no Rio D’Ouro.

- Como você ficou sabendo que vou para Portugal?

Ciente da mancada não pude deixar de revelar que soube pela Glorinha. Elas são brancas e vão se entender. Espero!

Meu motorista já estava na frente da Chácara. Entrei no carro, troquei as sapatilhas pela surrada chinela de dedo e fui para a casa de Mariette. Nem acabei de chegar e já fui contando do casamento espetacular de Luisinha e Dr. Mundico. Fiquei de língua seca, mas contei tudo. Mariette só me olhava e balançava a cabeça, com cara de abobalhada.

- Não está acreditando, Mariette?

- É claro que estou! É que estava lembrando o meu casório que foi um verdadeiro conto de terror! Vovô Sabino decidiu morrer na véspera! Imagine com que cara estava minha mãe no altar! Saiu do cemitério direto para a cerimônia do casamento. Rosto inchado, nariz avermelhado, mal se mantinha de pé. O Hotel da cidade turística onde iríamos passar a lua-de-mel cancelou nossa reserva e ocupou a vaga. Com muita luta conseguimos um pardieiro duas estrelas e lá ficamos. Sem ar condicionado, sem TV a cabo, pense só no abacaxi! Foi brochante!

- Caramba, eu não sabia disso!

- Você não sabe é de nada! Casei num mês de agosto, quente pra dedéu e o banquete arruinou. Maionese podre, arroz azedo e o creme do macarrão já dando sinais de decomposição. Entrei em desespero e mandei jogar tudo no lixo. A minha tia Malva tem mania de colocar pimentão, tomate e ervilhas em qualquer comida. Não deu outra! Estes ingredientes são os grandes vilões para as comidas preparadas com antecedência. Em terras quentes, claro! Por sorte havia alguns centos de salgadinhos que aliviaram a barra. No dia seguinte, fiquei sabendo, foi um comentário geral. Comentários mentirosos, diga-se, uma vez que ninguém provou das comidas estragadas.

- Um prejuizão, hein, amiga!

- Olhe, se o prejuízo tivesse sido apenas este, seria irrelevante! Você conheceu a mãe do Leandro?

- Não!

- Então não sabe o que é prejuízo! Nem o que é inferno!

Diante do que ouvi vou escrever um conto sobre o meu casamento. Não agora. Não estou nem um pouco disposta a ter outro enfrentamento com Deus. Por hoje prefiro ficar limpando a mente com a lembrança do casamento de Lady Luisinha e Dr. Mundico. É mais sadio e faz bem pro coração e pras vistas. Agora é dormir, sonhar... e desejar ao “novo” casal uma vida plena de desfrutes e prazeres. Eles merecem! Seja na Chácara Vila Verde, seja em Paris, seja em Lisboa, eles merecem!

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* Leila Jalul é escritora acreana. Autora, entre outros, de "Das cobras, meu veneno" (2010).
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