segunda-feira, 12 de setembro de 2011

CHITÕES DE PRIMAVERA - Leila Jalul

A pobreza tem classificação: abaixo da linha de miséria, a sofrida e doída, e a bonita.

A primeira, sem comentários. A segunda é a da fome. O cabra apenas sobrevive, comendo dia sim, dois não, e pronto. Morre mais cedo. A vida vive apenas até enquanto o indivíduo a aguenta.

A pobreza é bonita, se se pode assim chamar, quando tem ingredientes que a fortalecem: limpeza, higiene, simplicidade e tolerância. O sopão de cada dia, as bananas compridas fritas, as folhas e leguminosas amargas, os caldos de caridade, os de cabeças de galo, os mujangués, os arabus, as fritadas de sardinha, os bodós davam mais sentido à vida, principalmente se feitos em panelas areadas com areia fina, sabão de gordura de boi e com o sentimento de bastança. Dava pra ter sustança até a vida melhorar.

Quando menina, não apenas eu, mas todos os viventes que conheci, dormiam ou em redes, ou no chão de ladrilhos frios para espantar o calor; ou, quando mais afortunados, em colchões de capim, manufaturados em fundos de quintal, produzidos por encomenda e de acordo com as exigências e posses dos fregueses.

Davam coceiras, é verdade. Espinhavam, é verdade. Seu Zé Luis, marido da Gercina, era safado demais. Perdeu a clientela quando começou a recheá-los com titirica das brabas. Tiririca, para os poucos sábios, era tipo capim-navalha. Cortantes, soltavam um pelinho que dava fungados nas ventas dos mais sensíveis.

Depois, com o passar dos tempos, apareceram os colchões de pluma de samaúma. Davam na mesma. Quem fosse alérgico que se lascasse! E ainda tinham as sementes mal catadas pelos fabricantes... Faltava controle de qualidade.

Da minha infância espinhosa, nunca esqueço. Eram de chitão e capim seco os colchões onde dormi e sonhei cores. Espinhosos por dentro, mesmo assim, floriam meus sonhos. Sonhos vermelhos, lilases e amarelos, de enormes flores deformadas.

Outros existiam. Capim seco por dentro e de riscados gris e marrons dos fardões de Auchwitz-Birkenau por fora.

Os meus, não. Os meus eram de flores. Bastava encostar o corpo, fixar o olhar e os sonhos afloravam em chitões de primavera.

Quem não souber o que é pobreza bonita, já exemplifiquei. Agora há de saber o leitor, sem que seja preciso recorrer a velhos ditados como: “Me dê uma banda de limão que faço uma limonada.” Tá entendido?

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Originalmente publicado no Site Lima Coelho.
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