segunda-feira, 26 de setembro de 2011

A ESCOLA DO CORAÇÃO - Isaac Melo

À Magda Guimarães, Ir. Braz Lanius,
Gil da Silva e Doca Monte
Quem passa pelo fogo leva no rosto as cores do arco-íris. Parafraseando as palavras do educador e poeta Rubem Alves diria: quem passa por uma escola e se permite por ela tocar leva no coração a indelével marca do amor. Num país, como o nosso, em que ainda se maltrata tanto a educação, parece idealismo falar de amor. Porém, o que o amor pode fazer, o amor ousa tentar. Inspirado por esse pensamento shakespeariano ouso contar a minha experiência de amor numa e por uma escola.

O ano era 1994. Juntamente com meus irmãos acabávamos de chegar à cidade, provenientes do seringal. Um de meus irmãos tivera um problema de saúde grave. Depois do tratamento, os médicos recomendaram a meus pais que não o deixassem mais trabalhar no “pesado”, sob o sol causticante amazônico. Então resolveram comprar uma pequena casa na cidade, e para lá nos enviaram. Assim, além de sanar o problema de meu irmão, daríamos continuidade aos estudos. No seringal, o muito que havia era até a quarta série do primário. Considero a atitude de meus pais como um ato abnegado de amor, pois preferiram assumir todas as responsabilidades do trabalho na roça, que era farto, em prol de nossa educação. Sim, a vida encerrada na densidade da floresta amazônica havia sido dura para com eles. Não desejariam ver suas sinas repetidas em seus filhos.

No bairro Senador Pompeu, vulgo Praia, ficava e até hoje permanece nossa casa. Trata-se de um bairro periférico, com todas as dificuldades que se possa imaginar... Concentra a maior parte da população de Tarauacá. Geograficamente está numa área de várzea, o que, anualmente, com o aumento das águas dos rios Tarauacá e Muru, provoca inundações. Alagações, no popular. Aí se estabeleceram a maior parte daqueles que haviam deixado os seringais. Um bairro de gente aguerrida, que traz no rosto as marcas da luta diária pela vida. Mas é gente que ousa sonhar, e não se cansa de sorrir para esperança. Era (é) também o bairro mais agitado, onde fica a praia de rio, dos meus inesquecíveis banhos, de inverno a verão; o clube de dança mais tradicional da cidade; a igrejinha em que fiz a primeira comunhão; a escola em que tudo começou.

Poucos dias separam nossa história. Às margens do Rio Tarauacá, seringal Sumaré, minha mãe me lançava ao mundo. Era agosto (12) de 1985. Sob o mandato do então governador Nabor Teles da Rocha Júnior, em 26 de setembro, também de 1985, era fundada a escola ROSAURA MOURÃO DA ROCHA. Recebeu tal nome em homenagem a mãe do próprio governador.

Havia chegado o primeiro dia de aula para o menino de seringal. Lembro-me que minha mãe havia feito o meu próprio uniforme, a farda como costumávamos dizer. Consistia numa camisa branca, com um short azul marinho feito de tergal. Metido em minha farda, com minha havaianinha nos pés, um caderno, um lápis e uma borracha dentro de um saco plástico, daqueles de arroz de cinco quilos, caminhei feliz rumo à escola. Mochila era coisa que filho de pobre não se dava ao luxo. Tive que esperar alguns anos até o governo distribuir “gratuitamente”.

Naquele ano de 1994, duas turmas distintas, da qual fazia parte, dividiam a mesma sala, um antigo auditório caindo aos pedaços. E para piorar, quando chovia, com as infiltrações, o piso, cimentado e desgastado, ficava tomado por água. Realidade que não diferia muito das salas restantes. Abstenho-me de fazer qualquer juízo de valor em relação aos governos. Porém, as escolas acreanas desta última década, sobretudo, deram um salto estrutural e qualitativo como nunca se registrou antes. Há muita coisa a ser feita, é verdade, mas, acredito que se estar a percorrer o caminho certo.

Por ser uma escola de periferia, é claro que sofríamos preconceitos por aqueles que se criam num outro nível. Bagunceiros, baderneiros, marginais... eram alguns dos adjetivos que se costumava a nos atribuir. Mas tudo isso a gente juntava e comia com farinha. Pouco nos importava. Talvez fosse inveja. Os rosaurenses eram aguerridos nas competições esportivas, naquilo que faziam. Gente pobre, como nós, não se pode dá o luxo de ser fraco.

Como uma semente que é enterrada em terra boa e diariamente recebe a luz do sol e água, além dos cuidados generosos do jardineiro, assim me ocorrera na ROSAURA. Fui uma semente cultivada, cultivada com amor, até mais do que merecia. Ah, como tinha razão Paulo Freire quando dizia que não se pode falar de educação sem amor. Não é à toa que a escola ROSAURA “tem como filosofia trabalhar num ambiente familiar primando pelo respeito mútuo; cultiva os valores cívicos; respeita a pessoa humana; aceita cada aluno como um ser único, original e diferente, com capacidades e limitações; incentiva o desenvolvimento do pensamento crítico”.

O que sempre faz a diferença numa escola, a meu ver, são as pessoas, isto é, a capacidade de amar de cada um que está envolvido no processo educativo. Amar é essa capacidade de se dedicar ao outro incondicionalmente. De modo que um professor que trabalha motivado apenas pelo que vai receber no final do mês, poderá ser até um bom profissional, mas nunca será um educador (etimologicamente o que cria, nutre). Lógico, a remuneração é indispensável e necessária, mas não deve ser aquilo sobre a qual o educador deposita seu coração. Na ROSAURA tive bons educadores, que demonstraram o ser em várias circunstâncias.

Mas deles trago fortemente o gosto pela leitura, pelos livros, pela literatura. Fora aí que aprendi a ler. A ler a vida e a ler o mundo. Lembro-me que certa vez determinada professora nos levou uma versão adaptada de “Os Miseráveis” de Victor Hugo. A cada aula líamos um trecho. Jean Valjean ainda hoje frequenta meus pensamentos. Muitos foram os projetos de leitura, de redação. A cada dia um aluno era responsável por trazer um texto, a seu gosto, para ler no início da aula para os demais colegas. Prezava-se muito para que cada aluno soubesse realmente ler. Por isso, até a oitava série houve exame de leitura. Lá íamos nós, um a um. Quem é o autor do texto? Qual é o tema? Quem é a personagem principal?... Parecem coisas pequenas, mas não é. A mim, quanta diferença fizeram.

Ir. Braz Lanius
Outra coisa marcante foi a criação de um caderno de registro, uma espécie de diário em que se registrava a vida e os acontecimentos da turma. A cada dia um aluno era responsável por redigi-lo. Havia sido implantado pelo coordenador pedagógico, nada mais nada menos que o Irmão Marista Braz Lanius. Ir. Braz é um ícone da dedicação à educação em Tarauacá, que o faz um dos educadores mais respeitado. Quem não sabe do zelo e do empenho à educação de Ir. Braz em Tarauacá? Fato curioso era quando ele caminhava pelos corredores da escola, não se avistava um aluno sequer. Até hoje ele continua lá, com seu serviço e testemunho de amor.

“De repente do riso fez-se o pranto, silencioso e branco como a bruma... Estas doces palavras deram início as nossas atividades escolares nesta 4a. feira do mês do outubro”. Assim escrevi em nosso “Caderno de Registro” naquele ano de 2002. Ao percorrer aquelas páginas, quanta coisa interessante e mesmo hilárias estão registradas, como esta de um de meus colegas: “Iniciamos nossa aula com uma grande confusão fora de nossa sala, um menino acertou os beiços do outro e saiu sangue, os alunos curiosos sairam atrás da briga parecendo uma procissão”. Era assim que nos exercitávamos na prática da escrita. Nosso olhar ingênuo abriu espaço para voos mais altos.

Precisamos contribuir para criar a escola que é aventura, que marcha, que não tem medo do risco, por isso que recusa o imobilismo. A escola em que se pensa, em que se cria, em que se fala, em que se adivinha, a escola que apaixonadamente diz sim a vida. A Rosaura Mourão da Rocha realiza muito desse sonho de Paulo Freire. Não se trata de uma escola ideal, mas foi uma escola em que sair mais humano, mais gente. Eu que tantas vezes, em minhas rebeldias, recebi compreensão em vez de castigo. Hei de sempre ser grato a pessoas como a professora Nonata Tavares, minha primeira diretora, a Socorro Bandeira, a Gil da Silva, a Doca Monte, a Maria Senhora, a Magda Guimarães, minha última maravilhosa diretora, ao Ir. Braz Lanius, e tantas outras pessoas. Em meu coração há um cantinho só para eles.

Hoje quem chega a ROSAURA, admira-se com a qualidade estrutural e qualitativa da escola, que sofreu uma significativa reforma em 2003. A reelaboração de espaços e a criação de um jardim deram a escola um novo tom. Mas as mudanças vão além do plano físico. Há alguns anos a escola vem sendo finalista do Prêmio de Gestão Escolar do sistema público de ensino do Acre. É o reconhecimento pelo empenho na busca de novas maneiras de transmissão, fomentação e partilha de saberes.

Thomas Merton, um grande místico cristão, em um de seus livros expressou: “Que alegria, que gratidão sentem os homens quando aprendem com os outros o que já haviam determinado em seus corações acreditar”. A escola não pode fazer muita coisa se também não houver uma disposição do coração daqueles que a buscam. Se educar é um ato de amor, o aprender também o é. A escola assim deve ser esse chão em que o amor há de desabrochar. Então recebam amigos minha gratidão, pois meu coração palpita forte quando ainda ouço pronunciar: escola Rosaura Mourão da Rocha.

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Ir. Braz Lanius.

Doca Monte.
Professora Socorro Bandeira.
Maria Senhora.
Gil da Silva.
Meu amigo prof. Luis Carlos.
Professora Nonata Tavares.
 
Magda Guimarães, atual diretora da Rosaura Mourão da Rocha.
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