quinta-feira, 30 de julho de 2015

BITO

Florentina Esteves


Onde se visse um ajuntamento, uma rodinha, no centro estaria ele. Garotada do Ginásio, um que outro desocupado, quem fosse passando. Ah! é o Brito... E lá estava ele sentado no banco da praça, perto do Bar Municipal, na hora do costume. Paramentado.

– Por que essa roupa, Bito?
Calado.

– Bito, esses revólveres são de verdade?

Levava as duas mãos aos coldres, rapidamente. Certificava-se: estavam lá. Calado.

E essas botas, e as esporas, cadê o cavalo? Disseram que lá no Papoco tem um bandido que já matou três. Chiquita Peito-Mole mandou te chamar.

Imperturbável. Olhava a assistência, ar superior, alisava o colete franjado, cuidava que o lenço estivesse bem posto, tirava o chapéu, abanava-se. Penteava o cabelo, chapéu de volta. Sorria.

– Onde você comprou essa roupa de caubói, Bito? Vira um pouco, deixa a gente ver. Levantava do banco.

Então conta, Bito. Como foi aquela vez em que você enfrentou “Touro Sentado” e matou todos aqueles índios?

– Foi assim, começava ele: eu fui lá nos campos do Zé Português – ele mandou me chamar, foi o Ilson Ribeiro que trouxe o recado – tinha um touro brabo que ninguém chegava perto, andou dando umas corridas atrás da Libéria, espantando tudo que é vivente. Peguei o bicho, deis três laçadas, derrubei ele, segurei pelo chifre; aí, estava trazendo ele pro curral quando um bando de índios me rodeou. Montei no touro, comecei a atirar, assim (sacou os dois revólveres de plástico, rodou-os nos dedos, a cada estalido seco do gatilho pulava pra esquerda, pra direita). Matei todos eles. E quando chefe “Touro Sentado” partiu pra cima de mim, com esse foi no muque, botei pra correr. Nunca mais voltou.

Todas as tardes herói, mocinho, Bito caubói contava uma nova história. Anos seguidos (ou foram poucos anos?), lá no seu banco de praça, povoava imaginações, criava fantasias, enfeitava a vida.

Um dia não apareceu. Outro dia. Outros. Sumiu. E assim ficamos sem saber sua última aventura.

ESTEVES, Florentina. Enredos da Memória. Rio de Janeiro: Oficina do Livro Ed., 1990. p.73-74
Postar um comentário