quarta-feira, 7 de dezembro de 2016

BECO-DO-MIJO

Florentina Esteves

Danilo de S'Acre

Minha filha:
Hoje é teu aniversário. Embora esta carta só te chegue às mãos daqui a uma semana, faço de conta que aprisionei o tempo neste papel, feito passarinho na gaiola, e te envio minhas bênçãos e um beijo, desejando que este dia seja de felicidade, ao lado de teu marido e de teus filhos. Também quero aproveitar para te contar as novidades.
Minha filha, esta guerra está trazendo muita miséria à nossa cidade. Cada embarcação que chega despeja nos barrancos centenas de nordestinos, convocados como “Soldados da Borracha”. Os pobres “arigós”, enquanto esperam a baldeação – alguma lancha ou batelão que os leve para os seringais –, ficam embaixo das mangueiras, e matam a fome comendo mangas. A rua da frente é uma fedentina só: todos com diarreia. As autoridades conseguiram, provisoriamente, alojá-los na antiga Fábrica de Castanha, no Quinze. Estão lá amontoados feito bichos, famintos, doentes, esmolando. Mas cada chatinha ou gaiola que chega, são mais “arigós”, mulheres, crianças, e agora o prefeito botou algumas famílias na casa da Hemita, aqui no Beco.
Não sei se te contei, na outra carta, que Hemita morreu. Foi muito triste, minha filha. Ela pegou aquela doença, não cuidou, e a sífilis tomou seu corpo inteiro. Por causa disso, os homens andam arredios, e o jornal vive falando que as mulheres do Beco-do-Mijo estão todas infectadas, que a Saúde Pública não toma providências, que somos um cancro social plantado em plena zona comercial, um vexame para as famílias. E com essa desculpa, mais a chegada dos “arigós”, exigem que nos mudemos. Para onde? Na última alagação o rio arrasou tudo que foi casa do “Papoco”. No “Porta Larga” é longe e perigoso, e nem tem mais lugar.
Doutor Chico Chagas, faz vinte anos, vinha me prometendo comprar uma casinha pra mim. Você lembra que ele sempre foi muito bom: tratou você como filha, lhe deu estudo, o enxoval de seu casamento, a promoção de Eurico, e nunca me faltou nada, nem mesmo quando aquela tal professora Zuzu espalhou na cidade inteira que ele ia casar com ela. Casava nada! Aquele era enrabichado por mim. Quem é que ia querer um homem doente? Só eu mesma pra cuidar das mazelas dele, ele sabia. Lembra que ele só me chamava de sua Ana Néri? E, na intimidade, eu era a deusa de seus sonhos, Heddy Lamar, o Anjo Azul, Giselle. Li o livro da tal Giselle. Depois que você casou e foi embora, pra não pensar na vida, ficava lendo. Gosto de ler. Doutor Chico Chagas trazia um livro todo sábado. Na segunda ou na terça-feira, eu ia buscar outro no quarto dele, no Madrid. Escondido, é claro. Um homem de importância dele, que já foi Diretor da Instrução e falam até que será governador, não podia aparecer com uma mulher-da-vida. Não importando que eu não fizesse mais a vida. Depois que você nasceu e ele tomou conta de nós, nunca mais recebi outro homem, mas onde foi casa é tapera, diz o povo, que não perdoa. Acho que por isso ele não casou comigo e nunca moramos juntos. Mas sempre prometeu comprar-me uma casinha. Aqui perto, mais fácil de ele chegar, e voltar pro seu quarto. Mês passado, veio o delegado de polícia e deu prazo de noventa dias para que todas as casas do Beco-do-Mijo sejam desocupadas. É pra abrigar os “arigós” (desculpa deles). Fomos logo ao Fórum falar com doutor Chico Chagas. Como advogado quem melhor que ele pra orientar e defender a gente? Pois ele me tratou mal, igual tratou as outras mulheres, e disse que isso era caso de polícia, e não de justiça. De noite mesmo veio aqui em casa, até levei um susto porque não era sábado, e fazia muito tempo que ele não vinha. E veio zangado. O que ele me disse, filha, não repito, é muita humilhação para uma mulher que viveu vinte cinco anos de sua vida para um único homem, sem jamais ter exigido nada. Ele dava só o que queria, eu recebia, obrigada. Depois saía escondido igual tinha chegado. Não fui pedir nem que me desse uma casa, bastava dar um jeito de a gente continuar onde estava. E ele saiu com quatro pedras na mão. De noite, então, só não me bateu porque eu estava com dor de dentes, o rosto inchado por acolá. Assim mesmo procurei me desculpar, agradá-lo, e sabe o que ele me disse? (tenho vergonha de contar...) Disse que não me devia nada, que eu olhasse minha cara no espelho, velha azul desbotada, barriguda, pelancuda. Cabelos de Heddy Lamar? Só se cabelo de milho seco tinha mudado de nome. Que mocinha nova no “Porta Larga”, monte de “arigozinhas” bonitas faziam qualquer coisa por uma cerveja ou um quilo de farinha com rapadura, e ele era muito homem pra dar conta do recado, não precisava ficar com uma velha mazelenta que nem eu.
Faz dois meses que ele não aparece. Diz-que está amigado com uma “arigozinha” de quatorze anos, e até botou casa pra ela na “Seis de Agosto”. No outro dia fui ao Madrid, ela estava lá tomando cerveja com ele. Escancarado. Comigo era só escondido. Nesse dia não conseguir falar. No outro dia voltei lá, pedi pelo amor de Deus que ele me ajudasse, e fui enxotada feito cachorro leproso.
Estava passando fome, não tinha pra quem apelar, resolvi voltar à “vida”. Três noites seguidas fiz ponto no Papoco, e o dinheiro que recebi de um seringueiro bêbado mal deu pra comprar um quilo de carne. Fui pro “Porta Larga”, e as meninas me chamaram de vovó. Os homens riam, um me pegou pagou uma cerveja e perguntou se eu não sabia fazer croché. Ontem um rapazinho queria porque queria que eu fosse com ele, e toda hora dizia que eu era igualzinha a sua mãe. Deu-me todo o dinheiro que tinha, que eu guardei pra depois lhe devolver (tem muito ladrão no “Porta Larga”). Pois a polícia queria me prender, porque o rapaz era “menor”, aquele dinheiro era do cunhado, passei a noite na delegacia.
Minha filha, o prazo para desocupar a casa termina na outra semana. Não tenho pra onde ir, e não quero continuar nessa vida. Não é que eu esteja velha, não, muito rapaz bonito me olha. Pintei o cabelo, e com a saia franzida que eu mesma fiz, até estou com corpo bonito. Doutor Galvão está tratando dos meus dentes, de graça, ele é um homem muito bom e caridoso. O que incomoda, mesmo, são as varizes. Também não estou enxergando direito. Mas dá pra fazer uma costurazinha pra meus netos, e ajudar você na casa. Estou com muitas saudades de você. Sei que Eurico, seu marido, não gosta muito de mim, mas não pretendo viver às suas custas. Posso costurar e ajudar nas despesas, dar uma orientação nos estudos das crianças, só preciso de um cantinho quieto, pra quando a velhice chegar.
A lancha que está levando esta carta volta em seguida. Espero sua resposta. Ou você pode me passar um telegrama, assim eu aproveito uma passagem que Domingos Jordão me ofereceu, na “Lontra”.
Beijos de sua mãe.
 
Beco do Mijo no centro de Rio Branco, ano de 2016.
Mãe:
Recebi sua carta. Estou escrevendo às pressas, escondido de Eurico. Ele não permitiu sua vinda. Disse que doutor Chico Chagas prometeu indicá-lo para Comandante do Destacamento da Vila, e não fica bem a um militar graduado, um sargento, hospedar puta do Beco-do-Mijo. Não quer dar o que falar ao povo, reavivar antigas histórias. Até hoje acha que a senhora sempre soube de tudo, e só fingia ignorar, porque era enrabichada pelo doutor Chico Chagas, e também porque não queria que os falatórios prejudicassem a sua carreira.
Melhor assim, mãe. As crianças já estão na escola, as pessoas falam, já teve quem dissesse que Eugeninho é a cara do doutor Chico Chagas, e precisamos esquecer tudo isso.
Espero que este dinheiro que lhe mando ajude a pagar o aluguel. Não é muito, mas foi tudo que consegui da venda daquele anelzinho de ouro que doutor Chico Chagas me deu, quando fiz quatorze anos.
Beijos de sua filha 
Ana


ESTEVES, Florentina. Enredos da memória. Rio Branco: Fundação Elias Mansour, 2002. p.36-40
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