sábado, 31 de outubro de 2026

ENEIDA: Cão da Madrugada

OUÇAM O RUÍDO DOS JACUMÃS

Eneida (1904-1971)

 

Telegramas de jornais acordaram em mim lembranças, saudades de um ardente amor: “O Amazonas está enchendo”; “as águas do Amazonas sobem”; “cidades amazônicas estão sendo inundadas”; “várzeas e cais de Santarém e Alenquer desapareceram sob as águas”; “o caboclo sai e quando volta não encontra a palhoça que águas engoliram”.

O Amazonas: se eu pudesse dizer, sem ser ridícula, que esse rio embalou meu sono de menina; se eu pudesse contar, sem parecer piegas, que meu pai, caboclo autêntico, desde que chegávamos à idade de quatro anos começava a levar-nos para viajar com ele, esse rio que tanto amava; se eu pudesse relembrar que diante daquelas águas, aquele homem contava-nos lendas, falava-nos em volume, trajetória, afluentes, furos, igarapés, paranás. Por que esconder este amor pelo Amazonas se nele vislumbrei iaras, vi saírem botos para conquistar mulheres (tanta criança sem pai pelo mundo, ó boto!); se nele sei que viajam cobras grandes? Porque esconder este amor e não relembrar, num cenário de lua clara, a pororoca enchendo meus ouvidos, bulindo com a minha respiração, anunciando-se distante com um ensurdecedor rumor de mundos rolando? Por que não falar em meu pai, se ele foi um legítimo cidadão daquelas águas, comandando pequenos navios, vivendo uma a uma a clemência, a impiedade, a paz e a guerra daquele mar que era o seu rio? Para aquele caboclo que amava muito mais o rio do que a terra, ficar longe das águas, era olhar silenciosa e pacientemente o chão, como se duvidasse da existência de outra coisa fora do rio, dos igarapés, dos afluentes.

O rio está enchendo e, com certeza, foi de noite, já bem tarde, que caboclo acordou com as águas subindo; sacudiu as redes de pintas vermelhas armadas em jiraus; despertou a família; ajeitou uns molambos que secavam na ponta de paus e, atendendo às ordens impiedosas de um proprietário a quem deve sempre os aluguéis, caboclo teve ordem de despejo. Não usará uma praga ou uma blasfêmia. Sempre foi assim desde que se entende: quando o rio enche leva casas, destrói moradias. Se lhe disserem que nunca houve uma enchente igual àquela, caboclo resmungará sorrindo incrédulo, e talvez formule uma ironia. Sempre foi assim. Agora, como das outras vezes, caboclo sabe que deve é procurar outro lugar até outro dia, outra vez em que o rio volte à sua fúria e arrase, leve, carregue, arranque, arraste, avance.

Caboclo, mulher de caboclo que foi uma curiboca muito bonita, três barrigudinhos opados – três ou mais de três – jogam-se dentro da igarité que os transportará. Para onde? Aí, acolá, numa cabeceira onde o rio pareça não estar tão mau. Caboclo sabe que terá que remar lutando contra a força das águas, manejar com firmeza os jacumãs. O rio e ele são velhos conhecidos, velhos amigos: um sabendo a audácia, a bravura, manhas e artimanhas do outro. Caboclo olha para a mulher e os filhos. Os curumins têm barriga grande, mas caboclo sempre viu crianças assim, foi também menino de barriga grande, seus olhos estão habituados. Se existem crianças diferentes, de barriga magra, seca, isso é lá pelas capitais – Belém, Manaus –, ali por perto, não. E ninguém diga a caboclo que farinha dágua não é alimento.

Os corpos morenos, pés largos, cabelos lisos, olhos amendoados, deslizam pelos jiraus; quando caboclo construiu assim sua casa bem no alto, trepada em paus, é porque sabia já que o proprietário, aquele Amazonas tão calmo na sua serenidade, tão inclemente na sua fúria, um dia o expulsaria. Lá vai ele agora rompendo águas, pequenino, mudo, heroico, frente a frente com a grandeza do rio que enche, arrasa, devasta, cresce e avança.

Foi um amor que nasceu muito cedo em mim, este amor pelo rio, rompendo em caudal na minha juventude, despertando meu primeiro desejo poético, inspirador de minha primeira irreprimível ambição rítmica. Lembro Tunguragua, pai de Surnizuno, exigindo de Nunó – a lua – que derramava somente leite na boca de Paqueima – a madrugada – que fizesse também auroras sangrentas. Surnizuno, filho de Tunguragua, depois se chamou Solimões, Maranhão e finalmente Amazonas. Isso tudo acontecia naquele tempo, quando deuses, rios, florestas e pássaros falavam, sentiam e agiam, eram gente. Surnizuno despertou o amor de Nonhon, a virgem que guardava em si os tesouros da terra e ela, um dia, cheia de amor, beijou-o na boca. O beijo de Nonhon não interessava Surnizuno porque ele não a amava; a carícia enfureceu-o, a ousadia irritou-o e assim, de sua tremenda cólera, surgiu a pororoca. Como castigo pela audácia que tivera, Capú transformou o corpo de Nonhon numa ilha: a do Marajó. (Não se beija impunemente o Amazonas). Sobre o corpo de Nonhon feito ilha, Paqueima teve ordem de realizar os desejos de Tunguragua: enfeitá-la com madrugadas sangrentas.

Surnizuno está arrastando casas, inundando cidades, enfurecido e inclemente como se agora, de novo, Nonhon houvesse beijado sua boca.

O rio está enchendo, mas não levará em sua aluvião as lembranças que guardo, as recordações que ele próprio desperta em mim: lembro um dia em que, grupo de meninos sonhadores, quisemos conhecer de perto uma musa. Sim, precisávamos ver, tocar, sentir uma dessas criaturas entronizadas na poesia, marcadas por um amor; éramos demasiadamente jovens, puros e crentes. Escolhemos então aquela que merecera de Hermeto Lima o soneto: “Essa que passa por aí, senhores, de cor morena e de fidalgo porte, é a princesa ideal dos meus amores, a mais franzina pérola do Norte.”

Nunca poderei esquecer aquela cena: a casinha humilde onde batemos, a espera numa sala triste com cadeiras cobertas de panos de crochê, nossa respiração suspensa, nossos olhos brilhando com a ingenuidade dos que ainda estão distantes dos vinte anos. E a musa surgiu: velha, feia, triste, tão feia e tão triste que matou o brilho de nossos olhos. “Quisemos revê-la no passado, reconstituí-la, ressuscitá-la, senti-la como naquele momento em que o Cristo de marfim a olhava tanto como se fosse apaixonado dela”. Mas a pobrezinha não colaborava em nossos desejos, não estimulava, nem pelo físico, nem pela frase, nossa vontade; chegou mesmo a negar aquele amor; negou sua própria vida; sentíamos que sua velhice tinha vergonha de sua mocidade. Não percebeu sequer que só queríamos de nossa adolescência um título: poetas. Quando saímos daquela casa, trazíamos dentro de nós uma tristeza tão grande, um tão honesto sofrimento, que o bonde que nos reconduziu à cidade, à vida, à nossa juventude e aos nossos sonhos, rangendo, balouçando, declamando seus ferros velhos e suas molas gastas, não conseguiu abalar o grande silêncio que a decepção nos impunha.

O Amazonas está enchendo. Surnizuno, Solimões, Maranhão, rio que embalou meu sono de menina, rio que fala em meu pai, rio mestre de meus primeiros sonhos. Vejo, relembro, ouço um por um os caboclos de minha terra, irmãos daqueles que estão, neste momento, manejando com força os jacumãs, enfrentando a fúria inclemente das águas.

Barbosa Rodrigues recolhendo uma lenda conta que foram as lágrimas da lua que deram origem ao rio Amazonas. Caboclo viaja agora essas lágrimas em busca de um pouso; Surnizuno enfurecido avança, enche, arrasa, com sua boca beijada pelo amor de Nonhon. Ouçam o barulho das águas imensas e o rumor violento dos jacumãs rompendo aquela ira. Deixem que a enchente de agora acorde minhas lembranças: meu sono não tem mais, para embalá-lo, a voz do rio das lendas. Os meninos sonhadores de ontem envelheceram, envelhecem, alguns morreram, outros estão distanciados e ausentes. Ficaram brancas as cabeças; estão construídas as vontades. E o rio continua aquele que sempre amamos, calmo na sua calma, violento na sua violência, pardo, verde, negro, brincando com as cores, amamentando lendas, ensinando amor: construindo e destruindo.

“Começam a faltar gêneros alimentícios”, “A fome vem chegando”, dizem os últimos telegramas, trazendo-me violentamente à realidade. Parece que Surnizuno quando julga que nós o esquecemos e o traímos, quando pensa que o abandonamos, nós seus filhos, nós que o tivemos embalando nossos sonos, como um pai inclemente se irrita, enfurece, bate, magoa.

Estou aqui, Amazonas, nada valendo mas sofrendo, com a tua fúria, a dor do caboclo meu irmão. Estou aqui, meu pai, relembrando e bradando, evocando e apelando, não aos governos que neles não creio mas aos homens, a Jurupari, a Tupã: não deixemos morrer de fome caboclo, mulher de caboclo, filhos de caboclo.

Ajudemos os heróis obscuros do nosso rio: salvemos o caboclo amazônico, lição humana de tenacidade, bravura e inteligência. Salvemo-lo pelo amor com que amamos aquele rio, o nosso rio, Surnizuno, Solimões, Maranhão, Amazonas.

  

ENEIDA. Cão da Madrugada. 2ª ed. Rio de Janeiro: Livraria José Olympio Editora, 1955. p. 17-22

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