OUÇAM O RUÍDO DOS JACUMÃS
Eneida (1904-1971)
Telegramas de jornais
acordaram em mim lembranças, saudades de um ardente amor: “O Amazonas está
enchendo”; “as águas do Amazonas sobem”; “cidades amazônicas estão sendo
inundadas”; “várzeas e cais de Santarém e Alenquer desapareceram sob as águas”;
“o caboclo sai e quando volta não encontra a palhoça que águas engoliram”.
O Amazonas: se eu
pudesse dizer, sem ser ridícula, que esse rio embalou meu sono de menina; se eu
pudesse contar, sem parecer piegas, que meu pai, caboclo autêntico, desde que
chegávamos à idade de quatro anos começava a levar-nos para viajar com ele, esse
rio que tanto amava; se eu pudesse relembrar que diante daquelas águas, aquele
homem contava-nos lendas, falava-nos em volume, trajetória, afluentes, furos,
igarapés, paranás. Por que esconder este amor pelo Amazonas se nele vislumbrei
iaras, vi saírem botos para conquistar mulheres (tanta criança sem pai pelo
mundo, ó boto!); se nele sei que viajam cobras grandes? Porque esconder este
amor e não relembrar, num cenário de lua clara, a pororoca enchendo meus
ouvidos, bulindo com a minha respiração, anunciando-se distante com um
ensurdecedor rumor de mundos rolando? Por que não falar em meu pai, se ele foi
um legítimo cidadão daquelas águas, comandando pequenos navios, vivendo uma a
uma a clemência, a impiedade, a paz e a guerra daquele mar que era o seu rio?
Para aquele caboclo que amava muito mais o rio do que a terra, ficar longe das
águas, era olhar silenciosa e pacientemente o chão, como se duvidasse da
existência de outra coisa fora do rio, dos igarapés, dos afluentes.
O rio está enchendo e,
com certeza, foi de noite, já bem tarde, que caboclo acordou com as águas
subindo; sacudiu as redes de pintas vermelhas armadas em jiraus; despertou a família;
ajeitou uns molambos que secavam na ponta de paus e, atendendo às ordens
impiedosas de um proprietário a quem deve sempre os aluguéis, caboclo teve
ordem de despejo. Não usará uma praga ou uma blasfêmia. Sempre foi assim desde
que se entende: quando o rio enche leva casas, destrói moradias. Se lhe
disserem que nunca houve uma enchente igual àquela, caboclo resmungará sorrindo
incrédulo, e talvez formule uma ironia. Sempre foi assim. Agora, como das
outras vezes, caboclo sabe que deve é procurar outro lugar até outro dia, outra
vez em que o rio volte à sua fúria e arrase, leve, carregue, arranque, arraste,
avance.
Caboclo, mulher de
caboclo que foi uma curiboca muito bonita, três barrigudinhos opados – três ou
mais de três – jogam-se dentro da igarité que os transportará. Para onde? Aí,
acolá, numa cabeceira onde o rio pareça não estar tão mau. Caboclo sabe que
terá que remar lutando contra a força das águas, manejar com firmeza os jacumãs.
O rio e ele são velhos conhecidos, velhos amigos: um sabendo a audácia, a
bravura, manhas e artimanhas do outro. Caboclo olha para a mulher e os filhos.
Os curumins têm barriga grande, mas caboclo sempre viu crianças assim, foi
também menino de barriga grande, seus olhos estão habituados. Se existem
crianças diferentes, de barriga magra, seca, isso é lá pelas capitais – Belém,
Manaus –, ali por perto, não. E ninguém diga a caboclo que farinha dágua não é
alimento.
Os corpos morenos, pés
largos, cabelos lisos, olhos amendoados, deslizam pelos jiraus; quando caboclo
construiu assim sua casa bem no alto, trepada em paus, é porque sabia já que o proprietário,
aquele Amazonas tão calmo na sua serenidade, tão inclemente na sua fúria, um
dia o expulsaria. Lá vai ele agora rompendo águas, pequenino, mudo, heroico,
frente a frente com a grandeza do rio que enche, arrasa, devasta, cresce e
avança.
Foi um amor que nasceu
muito cedo em mim, este amor pelo rio, rompendo em caudal na minha juventude,
despertando meu primeiro desejo poético, inspirador de minha primeira
irreprimível ambição rítmica. Lembro Tunguragua, pai de Surnizuno, exigindo de
Nunó – a lua – que derramava somente leite na boca de Paqueima – a madrugada –
que fizesse também auroras sangrentas. Surnizuno, filho de Tunguragua, depois
se chamou Solimões, Maranhão e finalmente Amazonas. Isso tudo acontecia naquele
tempo, quando deuses, rios, florestas e pássaros falavam, sentiam e agiam, eram
gente. Surnizuno despertou o amor de Nonhon, a virgem que guardava em si os tesouros
da terra e ela, um dia, cheia de amor, beijou-o na boca. O beijo de Nonhon não
interessava Surnizuno porque ele não a amava; a carícia enfureceu-o, a ousadia
irritou-o e assim, de sua tremenda cólera, surgiu a pororoca. Como castigo pela
audácia que tivera, Capú transformou o corpo de Nonhon numa ilha: a do Marajó.
(Não se beija impunemente o Amazonas). Sobre o corpo de Nonhon feito ilha,
Paqueima teve ordem de realizar os desejos de Tunguragua: enfeitá-la com madrugadas
sangrentas.
Surnizuno está
arrastando casas, inundando cidades, enfurecido e inclemente como se agora, de
novo, Nonhon houvesse beijado sua boca.
O rio está enchendo,
mas não levará em sua aluvião as lembranças que guardo, as recordações que ele
próprio desperta em mim: lembro um dia em que, grupo de meninos sonhadores,
quisemos conhecer de perto uma musa. Sim, precisávamos ver, tocar, sentir uma
dessas criaturas entronizadas na poesia, marcadas por um amor; éramos demasiadamente
jovens, puros e crentes. Escolhemos então aquela que merecera de Hermeto Lima o
soneto: “Essa que passa por aí, senhores, de cor morena e de fidalgo porte, é a
princesa ideal dos meus amores, a mais franzina pérola do Norte.”
Nunca poderei esquecer
aquela cena: a casinha humilde onde batemos, a espera numa sala triste com
cadeiras cobertas de panos de crochê, nossa respiração suspensa, nossos olhos
brilhando com a ingenuidade dos que ainda estão distantes dos vinte anos. E a
musa surgiu: velha, feia, triste, tão feia e tão triste que matou o brilho de
nossos olhos. “Quisemos revê-la no passado, reconstituí-la, ressuscitá-la,
senti-la como naquele momento em que o Cristo de marfim a olhava tanto como se
fosse apaixonado dela”. Mas a pobrezinha não colaborava em nossos desejos, não
estimulava, nem pelo físico, nem pela frase, nossa vontade; chegou mesmo a
negar aquele amor; negou sua própria vida; sentíamos que sua velhice tinha
vergonha de sua mocidade. Não percebeu sequer que só queríamos de nossa
adolescência um título: poetas. Quando saímos daquela casa, trazíamos dentro de
nós uma tristeza tão grande, um tão honesto sofrimento, que o bonde que nos
reconduziu à cidade, à vida, à nossa juventude e aos nossos sonhos, rangendo,
balouçando, declamando seus ferros velhos e suas molas gastas, não conseguiu
abalar o grande silêncio que a decepção nos impunha.
O Amazonas está
enchendo. Surnizuno, Solimões, Maranhão, rio que embalou meu sono de menina,
rio que fala em meu pai, rio mestre de meus primeiros sonhos. Vejo, relembro,
ouço um por um os caboclos de minha terra, irmãos daqueles que estão, neste
momento, manejando com força os jacumãs, enfrentando a fúria inclemente das
águas.
Barbosa Rodrigues
recolhendo uma lenda conta que foram as lágrimas da lua que deram origem ao rio
Amazonas. Caboclo viaja agora essas lágrimas em busca de um pouso; Surnizuno
enfurecido avança, enche, arrasa, com sua boca beijada pelo amor de Nonhon.
Ouçam o barulho das águas imensas e o rumor violento dos jacumãs rompendo
aquela ira. Deixem que a enchente de agora acorde minhas lembranças: meu sono
não tem mais, para embalá-lo, a voz do rio das lendas. Os meninos sonhadores de
ontem envelheceram, envelhecem, alguns morreram, outros estão distanciados e
ausentes. Ficaram brancas as cabeças; estão construídas as vontades. E o rio
continua aquele que sempre amamos, calmo na sua calma, violento na sua
violência, pardo, verde, negro, brincando com as cores, amamentando lendas,
ensinando amor: construindo e destruindo.
“Começam a faltar
gêneros alimentícios”, “A fome vem chegando”, dizem os últimos telegramas,
trazendo-me violentamente à realidade. Parece que Surnizuno quando julga que
nós o esquecemos e o traímos, quando pensa que o abandonamos, nós seus filhos,
nós que o tivemos embalando nossos sonos, como um pai inclemente se irrita,
enfurece, bate, magoa.
Estou aqui, Amazonas,
nada valendo mas sofrendo, com a tua fúria, a dor do caboclo meu irmão. Estou
aqui, meu pai, relembrando e bradando, evocando e apelando, não aos governos
que neles não creio mas aos homens, a Jurupari, a Tupã: não deixemos morrer de
fome caboclo, mulher de caboclo, filhos de caboclo.
Ajudemos os heróis
obscuros do nosso rio: salvemos o caboclo amazônico, lição humana de tenacidade,
bravura e inteligência. Salvemo-lo pelo amor com que amamos aquele rio, o nosso
rio, Surnizuno, Solimões, Maranhão, Amazonas.
ENEIDA. Cão da Madrugada. 2ª ed. Rio de
Janeiro: Livraria José Olympio Editora, 1955. p. 17-22

Nenhum comentário:
Postar um comentário