segunda-feira, 16 de abril de 2012

LA ESTRELLA SOLITARIA

Isaac Melo
Monumento à Galvez em frente a Assembleia Legislativa do Acre.
Luis Gálvez Rodríguez de Arias. Assim chamava-se o espanhol que, em 14 de julho de 1899, havia criado e proclamado, em plena selva amazônica, o Estado Independente do Acre, que resistiu pouco menos de um ano. Galvez não só declarou uma República como do nada construiu um estado progressista, com leis próprias, ministérios, educação pública, exército, polícia, correios e bombeiros.

A literatura por sua vez sempre apresentou Galvez num estereótipo de aventureiro, fanfarrão e mulherengo, não inverossímel de todo. O exemplo clássico é o mundialmente conhecido e celebrado “Galvez: Imperador do Acre” (1976) do amazonense Márcio Souza. Já nas primeiras páginas, em tom satírico e humorístico, o amazonense anuncia sardonicamente a vida e a prodigiosa aventura de Dom Luis Galvez nas fabulosas capitais amazônicas e a burlesca conquista do território acreano.

Verdade é que Galvez nunca fora um modelo de referência moral, galanteador que era. Assim como é verdade que o Acre o modificou profundamente, ao ponto do ex-sócio de cabaré se transformar num presidente justo, honesto e respeitado não pela força dos winchesters, mas, ironicamente, por sua conduta moral. Por algum tempo estive a procura de outras referências acerca do fundador da república acreana. Parte significativa da literatura aborda-o em segundo plano, o coadjuvante menor de uma história maior.

Pouco tempo atrás chegou às minhas mãos “La estrella solitaria”, presente de minha amiga Leila Jalul, escritora acreana radicada na Bahia. O romance é de autoria do espanhol Alfonso Domingo, lançado em 2003, em Sevilla. A obra foi agraciada com o VII Prêmio de Novela Ciudad de Salamanca. Nela o autor faz um resgate histórico da figura de Luis Galvez, embora se trate de um romance. A sua composição orienta-se por um forte rigor histórico e viagens do escritor aos locais em que viveu o personagem, sendo 22 arquivos visitados na Espanha, Brasil, Argentina e Cuba, em sete anos de pesquisa.

O romance abre a narrativa com Galvez, em Manaus, deitado com a bailarina principal de um cabaré. Absorto, enquanto a luz cálida dos trópicos invade o quarto, se perde no pensamento de que para ele havia chegado a hora de fazer algo realmente importante: fortuna e sobretudo fama. O ano era dezembro de 1898.

Naquele momento, sob o boom da borracha, que cobria 30% da renda brasileira, o deserto empatanado havia se convertido num novo e movimentado centro cultural do mundo. Ali era possível encontrar várias nações e vários idiomas a compor a Babel amazônica. A cosmopolita Manaus era uma metrópole com cinquenta mil habitantes vestidos à moda europeia. Um lugar criado para esquecer as asperezas da selva. Refúgio dos barões da borracha, com suas mansões senhoriais, seus parques e suas fontes barrocas. Aquela cidade tinha um sonho. Porque se à selva devia sua fama e sua fortuna, seu coração não lhe pertencia: estava além do imenso rio que a comunicava com o Atlântico.
Uma velha fotografia, na qual Luis Galvez escreveu:
 “Luis Galvez no Governo do E. I. do Acre, em 1899”,
serviu de matriz a Perci Lau para reconstituir, a bico de pena,
o Presidente em seu gabinete de trabalho.
Graças a suas reservas, que pareciam inesgotáveis, o Acre se ergueu como o Eldorado da borracha, e Manaus e Belém, seus guardiões. A capital do Amazonas, ironicamente, se tornou o que era pelo o que no fundo odiava: a selva, o rio, o sangue das árvores.

Essa busca de aventura e fortuna atraiu Galvez para a Amazônia, mas não sabia ele que isso o conduziria a maior empreitada de sua vida, e mudaria todo o curso de sua existência. Tornaria-se a estrela solitária que iluminaria os acreanos no caminho da nova república que queria integrar-se na desejada pátria brasileira. Sonhou um Estado moderno e modélico, com ordem, onde imperaria a lei numa sociedade de homens livres. Planejou um estado de legislações avançadas que promovessem a agricultura e a indústria para distanciar-se da pura extração de borracha. Já intuia muito antes que qualquer outro que aquele ouro branco era também a perdição do Acre, como de fato ocorrera: “o leite dava, o leite tirava”.
Chegada de Luis Galvez ao forte de São Joaquim, no atual Estado de Roraima, depois de sua expulsão de Manaus, segundo ilustração publicada no Jornal do Brasil (28/12/1902). Da esquerda para a direita: Luis Galvez, Bachini, Horacio Azevedo e alferes Saldanha, comandante do Forte.
No nono mês de sua república no entanto, o sonho de Galvez havia chegado ao fim, deposto pela Marinha do governo brasileiro. Mas Acre e Galvez permaneceriam unidos para sempre. Ali havia dado o melhor de si mesmo. Uma estrela solitária, fugaz, cujo destino foi brilhar um dia para se perder logo no firmamento. Depois de sua empreitada acreana foi deportado para a Espanha, sua Cádiz. De lá, recuperado, foi para a Argentina, Buenos Aires, onde vivia seu amigo de vida e de aventura amazônica, Guillermo Uhthoff. Fez um breve retorno ao Brasil, e seguiu caminho para Cuba.

Única fotografia conservada de
 Luis Galvez antes de 1900.
Já velho Galvez retornou à Espanha. Sem dinheiro e sem propriedades, viveu num modesto quarto numa pensão no centro de Madrid. Morreu como havia vivido, uma estrela solitária, numa tarde fria de fevereiro de 1935, aos 71 anos. Morreu, todavia, como o único espanhol a ganhar uma guerra contra os Estados Unidos.

A novela de Alfonso Domingo, embora ainda sem tradução em língua portuguesa, é um trabalho que merece ser conhecido, não só pela qualidade literária, mas pelo resgate histórico da figura de Galvez, esquecido e estereotipado por longos anos. A minissérie global, “Amazônia: de Galvez a Chico Mendes”, da novelista acreana Glória Perez, muito se embebeu da fonte do romancista espanhol, claramente perceptível em todo o tecido da trama que envolve o presidente da república da goma.



REFERÊNCIA
DOMINGO, Alfonso. La estrella solitaria. Sevilla: Algaida Editores, 2003.

* Veja também a entrevista com Alfonso Domingo feita por Altino Machado para o Blog da Amazônia.
** As ilustrações de Luis Galvez em seu gabinete e no Forte São Joaquim foram retiradas de TOCANTINS, Leandro. Formação Histórica do Acre I. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1979.

sábado, 14 de abril de 2012

SOBRE OS CIENTISTAS ATEUS

Profª. Inês Lacerda Araújo


Cientistas famosos e conceituados como o biólogo Richard Dawkins, o físico Stephen Hawking e Lawrence Krauss (ver entrevista em Época) se declaram ateus em nome de descobertas e teorias da ciência, e em razão do método científico fornecer provas.

Os argumentos utilizados se baseiam nas evidências acerca da origem da vida em nosso planeta (biologia) e no que até agora a astrofísica tem pesquisado sobre como o universo surgiu. A mais famosa teoria, como todos sabem, é a de uma explosão inicial de energia. E isso do nada.

Ora, na área cultural que as religiões ocupam há milênios, seres superiores ou, no caso do monoteísmo, Deus é a absoluta origem de todas as coisas. Para os gregos não poderia haver criação a partir do nada. Impossível o não ser gerar o ser. Para os cristãos, a geração divina de todas as coisas veio, sim, do nada. A pergunta não é como Deus poderia ter criado tudo do nada, como fazem os cientistas, pois assim usam uma questão científica para "provar" seu ateísmo. Os cristãos não precisam sequer pôr esse tipo de questão, Deus é onipotente e isso basta para aqueles que creem.

Não se pedem provas ou teorias para amparar crenças, a base delas é a fé transmitida pela tradição oral ou textos sagrados.

Quando um cientista faz profissão de fé em uma teoria científica, comete alguns equívocos:

- a ciência exige revisão permanente, todas suas teorias, ainda que sustentadas por cálculos e comprovação por meio de testes e/ou instrumentos, devem permanecer abertas para revisão. A ciência não pode se arvorar em palavra final. Se as teorias forem consideradas verdade final, a primeira teoria considerada científica bastaria e até hoje professores ensinariam a teoria de que tudo se compõe de terra, água, ar, fogo e éter (física aristotélica);

- se a ciência é convincente e seus resultados fantásticos, nem por isso ela ilumina corações e mentes com o conforto espiritual proporcionado pela fé religiosa ou pela crença em Deus;

- estados e nações em que a ciência e as religiões ocupam lugares específicos com funções próprias a cada uma delas, há maior tolerância e ambas são livremente praticadas e respeitadas.

Nada disso justifica, porém, a imposição de certas religiões ou chefes religiosos para que nas escolas em lugar do ensino de ciência (física, biologia em especial) sejam adotadas uma doutrina ou uma crença (criacionismo em lugar do darwinismo, por exemplo).

A separação entre Estado, religião e educação é imprescindível para assegurar a todos os cidadãos, justamente, que eles possam seguir uma crença, se assim desejarem, e aprender, informar-se e formar-se nas diversas e necessárias disciplinas escolares.

Essas reflexões que a abordagem filosófica enseja não são uma condenação do ateísmo. O problema do ateísmo é usá-lo como bandeira político-ideológica de defesa da ciência como saber absoluto. Dessa forma ela, ciência, extrapola suas funções e se assemelha a uma religião. Algo estranho e paradoxal: a fé no ateísmo...



* INÊS LACERDA ARAÚJO - filósofa, escritora e professora aposentada da UFPR e PUCPR.

quinta-feira, 12 de abril de 2012

MAPINGUARY - Amancio Leite


Certo seringueiro, um dia
Chegou correndo da estrada
Na qual, há tempos não ia,
Não trouxe leite que desse
Para melar a bacia!


Chegou cedo, muito cedo;
Antes da hora marcada,
Seu companheiro ainda andava
Lá pela volta da estrada.
Fez assim, só porque dera
Uma carreira danada!

O triste vinha afrontado,
Verde-amarelo e sem fala!
Saltando dentro de casa
Deitou-se em meio da sala.
Seu rifle de doze tiros
Não trazia uma só bala!

Que teria acontecido
Com aquele pobre rapaz!
Se teria ele esbarrado
Com o velho satanás?
Talvez, depois saberemos
Quando chegar Zé Thomaz.

Zé Thomaz - o companheiro
Chegou, depois de uma hora.
Quando o viu, gritou de longe:
- “Que foi ‘seringueiro espora?!’
Teria você ‘encontrado’
Mapinguary ou caipora?”

“- Encontrei mapinguary:
(Respondeu-lhe João Tomé)
Me ‘atrepei’ numa ‘pupunha’
Com as alpargatas no pé...”
“- Então me conte ‘direito’
como esse danado é!”

“- Ele é maior que um boi
Daqueles do rio da Prata...
Chega ‘estremecia’ a mata...
Fez-me ‘atrepa’ na ‘pupunha’
Calçando as alpargatas!”

“- Mas rapaz... será ‘possível’
Que não deste ‘ao menos’ um tiro?...”
“- Ora, eu não dei... dei só doze!
Mas, de que mais me admiro
É ‘que ele’ fez tanta conta
Que não mudou nem de giro!”

“- Mas onde foi que encontraste
Tamanha ‘fera’ de fama?...”
“- Foi no ‘cabeço’ da volta
Junto à madeira da ‘cama’
Cá mais atrás, eu vi, ‘fresco’
O rasto dele na lama...”

“- Esse bicho é cabeludo
E todo cheio de escama?”
“- Eu lá pude ‘reparar’
Pra esse ‘filho de mulher-dama’?
Que além de ser muito feio
É todo cheio de trama!...”

“- E o resto dele, como é?
Se parece com o de burro?”
“- Parece, mas é maior!
E se tu lhe visse o ‘esturro’!...
Eu penso que aquele... figa,
Mata as ‘onça’só de murro.”

“- Que vê, ‘vamo’ quinta-feira
Que é dia que ninguém corta...
Hoje é segunda e é das ‘arma’
(Santo pra quem tem mãe morta)
Tu vai só vê o ‘esfolado’
Na baixa da ‘ponte-torta’...”

“- Eu tava ‘cuiendo’ o leite
Da madeira do ‘cabeço’
Quando vi um grito longo
‘Como’ outro não conheço!
Me deu um tremor nas perna
Que quase a terra eu não desço...”

“- Mas, afinal desci sempre
Me assustando de Cupim!
Rifle com bala na agulha
Mão no cabo do ‘ispadim’.
Quando eu cheguei debaixo
Ele gritou mesmo assim
Desta vez foi ‘redobrado’
Gargalejando no fim!”

“- Eu armei o ‘pau-furado’
Me encostei na ‘seringueira’
Quando o monstro ‘pretejou’
Eu pensei que era um bandeira...
Baixei a bala pra cima...
Mas qual José. Foi ‘besteira’!”

“- Enquanto o cão coça o olho
Dei dez tiros no danado...
Mas ele, nem ‘mode’ coisa!
Nem ficou ‘arrepiado’
Continuou avançando
No meu rumo, me provando
Que tinha o ‘corpo-fechado’.”

“- Aí dei-lhe mais dois tiros.
Pronto! O rifle virou pau...
Meus cabelos espencaram
As pernas virou mingau...
Meti a mão na poltrona,
Nem uma bala, sinhá dona,
Danou-se seu ‘Nicolau’.”

“- Aí, eu vi ‘que morria...’
- A coisa tava amarela! –
Na ‘madeira’ eu não subia
Pois é de sete tigelas
Chorei de ser seringueiro...
‘Cacei’ os dois ‘companheiros’
Já tavam no ‘pé-da-goela’!”

“- Me pus de trás da ‘madeira’
Me deitei rés com o chão.
‘Me peguei’ com São Francisco
De todo o meu coração...
(Mas, o lá do Canindé!)
Nisto, o bicho pois-se em pé
Olha lá o estirão!...

Tanto é alto ‘como’ é grosso
O renegado ‘Mapim’
Eu me pegava com os santos
Não da ‘fé’ ele de mim!
Oh! Que aperto... que agonia...
Meu... - aquele - não cabia
Nem um talo de capim...!”

“- Ele ‘arreganhou’ as unhas
E me arranhou a ‘madeira’!
Nisto, eu me ergui e corri
Pro pé da ‘Tucumanzera’;
Nesta, - ‘calcule você’ –
Subi mais depressa que
‘Largatixa’ em cajazeira!”

“- Ele só fez ‘espiar’!
Mas nem ligou-me ‘importância...’
Se não fosse o São Francisco,
- Adeus ‘história’ adeus dança! –
Quem diabo a coisa contava?...
Porque nesta hora eu tava
No ‘porão’ daquela pança!...”




SOBRE O AUTOR.: Amâncio Leite, um cearense acreanizado, viveu em Cruzeiro do Sul, no Vale do Juruá, Acre, no início do século XX. Foi seringueiro e um exímio poeta regionalista. Sua poesia desvela a vida dos seringueiros e seus anseios no seio da floresta amazônica. De sua autoria tem-se registro de um livro intitulado “Os cantares seringueiros” que veio a lume por volta do ano de 1930, dos quais sabe-se da existência de raros exemplares.

*Poema originalmente publicado em Almanacre do jornalista Elson Martins.
** Pintura de Amarina Prado

quarta-feira, 11 de abril de 2012

É DIFÍCIL PEDIR PERDÃO?

Profª. Luísa Galvão Lessa
Linguagem e Cultura
Uma das coisas mais injustas da vida é o fato de não se poder controlar o tempo. Depois, esse tempo que move a vida pode ser cruel com as pessoas. Jovens erram porque sabem pouco. Velhos erram quando, achando que sabem tudo, tentam consertar as coisas que estragaram quando jovens. Reparação é fato para objetos, não para pessoas mortais. Nem sempre é possível consertar os erros do passado, mas é possível não repeti-los. É ato digno repará-los com a palavra ”perdão”, desde que o intuito não seja por “panos quentes”, encontrar justificativas para aquilo que não é justificável.

A vida caminha, independentemente de erros e acertos, para o curso inexorável do tempo, sempre avançando. A vida não caminha para trás. Por isso não tem sentido lamentações de erros, é preciso não cometê-los, repetidamente, fingindo está fazendo o certo. Enganar os outros é algo terrível, enganar a si mesmo é uma estupidez! É digno agir com inteireza, seriedade, assumindo aquilo que foi mal feito e procurar fazer bem feito, importando-se com o bem maior que é a vida, a felicidade, a justiça. Minimizar os erros é o pior que pode fazer o ser humano. Culpar os outros, algo cruel, grosseiro, avassalador.

Quando um erro é grande demais, é questão de honradez tentar repará-lo, fazendo uma autoanálise, procurando saná-lo, pedir perdão e não insistir em permanecer na mesma encruzilhada. Não se deve achar que tudo foi bobagem, pois o ser humano é um ente repleto de sentimentos e de memória. Não se deve viver de mágoas, mas não se pode fazer de conta que nada aconteceu. Os acertos da vida também se fazem com as memórias do passado. É preciso abandonar maldades, repor verdades, reparar enganos, perdoar e fazer-se perdoar. A palavra desculpa existe para ser usada, não como metáfora, mas com as veias do coração.

O difícil é que nem todas as pessoas conseguem enxergar seus próprios erros, põem, sempre, culpa nos outros. É mais fácil culpar alguém a redimir-se de incorreções, pecados, exageros, excessos maldosos. Há pais que acham que os filhos são santos. Acobertam tudo quanto fazem e, com isso, atribuem à culpa aos outros. Erro grosseiro, porque os filhos se tornam insuportáveis diante do mundo. As pessoas, modo geral, não os suportam pelo excessivo mimo que recebem dos pais. Eles não sabem resolver nada na vida porque têm os pais para fazer isso para eles. Não lutam, deixam os pais lutarem por eles. Não procuram um espaço ao sol, os pais trazem o sol para eles.

A reparação do sofrimento causado às outras pessoas pode ser um caminho árduo, solitário e triste, mas será que se deve ignorar tal tarefa só porque ela é difícil?! Voltar atrás não é melhor do que se perder no caminho, deixar-se de ser feliz? O ser humano precisa ser honesto, correto, corajoso. É preciso agir, sempre, com muita dignidade. Não se pode consertar tudo e nem mudar o que já foi, mas enquanto vida houver é possível tentar, pois há esperança. E mudar não é ato de humilhação, é ação de grandeza. Todas as pessoas já tiveram, de uma maneira ou de outra, experiências difíceis na vida. Isto faz parte dessa viagem sobre a Terra – e embora muitas vezes acredite-se que “as coisas podiam ter acontecido de outra maneira” - o fato é que elas não podem ser mudadas, ficaram no passado, magoaram, feriram, sangraram o coração. Todavia, com a experiência passada é possível fazer um presente melhor, analisando erros e acertos.

Finaliza-se a reflexão dizendo que a dor faz parte da vida - como faz parte a alegria, a fome, e a vontade de sonhar. Não adianta fugir, porque ela termina nos encontrando. Mas sua única função é nos ensinar algo. Aprendemos suas lições, e isso basta. Sigamos em frente com a coragem de olhar para trás e fazer do presente um momento sempre melhor. Viver dignamente é a estrada mais florida.




*Luísa Galvão Lessa é da Academia Acreana de Letras e da Academia Brasileira de Filologia.

terça-feira, 10 de abril de 2012

ACREDITANDO NO ACRE

José Augusto de Castro e Costa
                                                                           Foto: Eduardo Duarte
Segundo o filósofo grego Platão, o filosofar é um ato de contemplação do mundo, pois ao observar-se as coisas e os fatos tomamos ciência de suas modificações e sentidos. É verdade que contentar-se com a aparência dos acontecimentos é não conhecer seus elementos intrínsecos, é acomodar-se na superfície. Diga-se mais: apenas a aparência é a apresentação do não revelado, do que não foi dito, o qual só através da convivência se exterioriza.

O Acre é um estado bastante novo, repleto de esperança. Triunfante de uma luta sangrenta, detentor de “um imortal e sagrado troféu”, seu destino é o ápice.

Contemplando-se o Acre, observando-se suas coisas e fatos aprendemos suas motivações e sentidos, despertados na densa floresta, de sua gente forte e viril, de seus feitos históricos e seu progresso vivificante.

A verdade, por ser algo substantivo, é o essencial, que compõe a natureza das coisas e dos seres. Só alcança a verdade aquele que consegue ir além da aparência. Neste ponto não se trata de otimistas e pessimistas, conformistas e fatalistas. Chegar à verdade é mergulhar nas águas do mundo, distanciar-se da superfície em busca dos segredos de sua profundeza. Contemplar a realidade é um ato de descoberta e revelação. O cotidiano é o melhor exemplo, pois é rico em ocorrências e questões reveladoras das contradições, valores e aspirações humanas.

Observar o dia-a-dia de uma cidade é como ler um livro. Somos provocados, a todo instante, por ocorrências de todo gênero, expressivas dos interesses, condutas e paixões que dominam o convívio social. O Acre, por certo, está inserido nesse contexto. O cotidiano e a verdade de qualquer ponto do planeta, é o cotidiano e a verdade de qualquer ponto do Acre.

O progresso está presente, também no Acre, a cobrar o seu preço. Vemos nossos antepassados, acreanos de nascimento, quando não de coração, a trazer a satisfação de sua independência, de suas edificações em alvenaria, das primeiras aberturas de estradas, do enquadramento e estabilização de seu funcionalismo, da pavimentação de suas vias públicas, do empreendedorismo estrutural, do assistencialismo social. Tudo, porém, tem seu preço, não raras vezes atrelado a mazelas. O trânsito é um bom exemplo disso: não são poucos os condutores egoístas, a por em risco a vida dos outros, e arrogantes, que usam seus veículos como se fossem armas. As ruas se transformaram em vitrines, com placas, outdoors, anúncios. O comércio tomou de conta de todos os espaços de nossas vidas. A existência é um mercado. Tudo está à venda: comida, automóveis, ilusões. O ser humano, neste mundo onde reina o ter, virou mero consumidor.

A sociedade se transformou numa máquina que devora o corpo e o ser das pessoas.

É nessa dinâmica que vemos o Acre envolto e, por ser ele parte integrante dessa engrenagem, acredita-se vê-lo brevemente apresentando elevados níveis do Índice de Desenvolvimento Humano - IDH, utilizado pela ONU para medir a qualidade de vida de sua população.

É possível contemplar o Acre e acreditar na possibilidade de nele não ver desemprego nas ruas, observar habitações no mínimo em bom estado, não flagrar prostituição infantil, detectar a existência de esgotos sanitários, ver postos de saúde sem filas, admirar a aparência física das pessoas, bem nutridas, bem vestidas e bem cuidadas, não ver mendicância aberta ou disfarçada, notar a existência de escolas limpas e em perfeito funcionamento, tranquilizar-se com o dinamismo do transporte público ordeiro e com a notória segurança pública. Acredite-se nessa possibilidade bilateralmente salutar – para o nosso torrão e para nós!

Acreditar no Acre é ver a expressão no rosto dos transeuntes, a espelhar o ânimo, a presença de um projeto de vida e de uma perspectiva de futuro.



*José Augusto de Castro e Costa é cronista e poeta acreano.

segunda-feira, 9 de abril de 2012

SUBINDO NAS TAMANCAS - Leila Jalul

Dona Joaninha Santelmo era elétrica e fogueteira. Andava a passos miudinhos e acelerados, fazendo o barulho insuportável do toc-toc dos tamancos de pau pisando firme no chão. Quando estava braba, enfezada com alguém ou diante de alguma injustiça, o pisado ganhava força e velocidade.

De sua boca as palavras saíam e soavam com o vigor que queria nelas imprimir. A força da verdade. Fosse nua, fosse crua: a verdade, somente a verdade.

Mulher simples, de mente acutíssima e crítica, às vezes até podia parecer grosseira. Ao contrário: era apenas justa nas avaliações sobre pessoas e situações. Da idade real fazia segredo que, nem depois de morta – dizia - revelaria a ninguém. Sabia-se, no entanto, que andou tendo vida marital com o filho de um oficial combatente da guerra do Paraguai e que, lá pelo início do século passado, tinha nascido em Montevidéu e foi batizada como Juanita Perez Salvatierra. A quem se importasse e atrevesse em saber de suas primaveras, respondia de chofre: - sou mais velha que o mundo e mais nova que você, seu merda! Virava as costas e fechava-se em copas.

A pensão vitalícia deixada pelo marido dispensava-a do trabalho fora de casa. Ainda assim, de bom gosto, cuidava de crianças pequenas, para que os pais pudessem trabalhar sem maiores preocupações. Na minúscula creche, em contrapartida, ganhava um bom dinheiro que, também de bom grado, salvava as amigas em estado de necessidade. Sabia das mazelas de cada uma. Enquanto viveu, sabe-se, nenhuma delas e seus filhos menores dormiram de barrigas vazias. Uma benfeitora, pois.

A casa onde viveu tinha cores. No jardim de latas de óleo de cozinha, penduradas por toda a parte externa da pequena casa de madeira, eram plantados pés de “bocas-de-leão”, “boa noite”, “dólares em penca”, “boninas” e “onze horas”. Samambaias silvestres brotavam em cascas de cocos. Matinhos insignificantes e sem catalogação, desde que tivessem um verdinho de tonalidade diferente da do gramado, eram apreciados, integravam a paisagem e revelavam o gosto e a boa mão da plantadeira Joaninha Santelmo.

Apesar disso, de todo esse amor pelas cores e flores, não suportava mulheres com roupas justas, por demais coloridas e as de rostos melecados por rouges e batons vermelhos. Visse uma assim na rua, já dizia: - “não parece uma macaca amarrada pela barriga? Só parece!”

De sua inseparável amiga, a brilhante e luzidia Rizoleta Artemísia Cruz, a tudo perdoava. – “Rizô é doida! Tem mente fraca. Tadinha dela! Desse batom que usa e que a deixa com um bico de brasa, desses vestidos escandalosos que lhe cobrem o esqueleto, só Deus e eu sabemos as razões de tanta extravagância!”

No dia em que Rizô foi enterrada, entre pesares e indignações, Joaninha Santelmo, já na saída do cemitério, chamou para uma conversinha o padre Anselmo Tavares e Marilourdes Cruz, a única filha da amiga falecida, vinda de Brasília para as exéquias.

Em sua casinha, com cara de pedra e tamancos batendo forte, foi logo falando:

- Padre Anselmo e Marilourdes, esta será a primeira e a última vez que falarei sobre a doença e a morte de Rizoleta. Chamei o senhor, padre Anselmo, para que sirva de testemunha do relato que farei sobre os últimos anos de vida da minha boa amiga.

Dirigindo-se à Marilourdes, com voz dez vezes mais dura e cortante, disse:

- Menina, você sabe que é a responsável pela prematura morte de sua mãe. Estou afirmando; não perguntando. Ela não soube conviver com as dores e o desprezo que você e o engomadinho do seu marido lhe causaram. Quando você nasceu, disso deve saber muito bem, Rizô virou-se em dez para tê-la como princesa. Seu pai não quis saber de você e nem dela. Não me pergunte quem ele é. Não revelaria, ainda que soubesse. Seu pai e sua mãe foram a Rizô. O seu melhor colégio, a melhor roupa, saúde, carinho e tudo, tudo, o que você teve e usufruiu nesta vida, deveu-se aos esforços e ao amor que ela lhe dedicava.

Com certa tristeza, continuou a “espinafrar” a ingrata filha:

- Quando você ficou mocinha, dela partiram as orientações para a escolha de um bom caminho. Quando adulta, dela, também, partiu o apoio irrestrito em todas as suas decisões. Sua felicidade, garota, era a dela. Estou certa disso. Estou afirmando; não perguntando.

Preciso avivar sua memória de lombriga. Desejo que você reveja o quanto foi ingrata com sua mãe e reconheça que, quando os médicos lhe desenganaram por conta de anemia profunda, foi pelas mãos de Rizô que você foi salva. As transfusões de sangue que recebeu custaram caro. Seu sangue, menina, é classificado como egoísta. Sendo AB+, é receptora universal e doadora restrita. Lembro-me, como se fosse hoje, a luta que empreendeu para arrebanhar doadores e que estes comparecessem no dia e hora marcados. Até transfusão direta, lembra? Na luta pelo seu restabelecimento, esgotada, Rizoleta emagreceu mais de vinte quilos. Estou afirmando; não perguntando. Você há de lembrar. Claro que lembra!

Marilourdes, até então, não havia derramado uma única lágrima. Nem quando o caixão desceu à sepultura. Talvez não desejasse engelhar a pele e desnortear as aplicações de botox que lhe preenchia as bochechas. A velha Joaninha, exasperada, quando viu a moça tentando derramar água dos olhos, com descaso, pediu que se poupasse das lágrimas. E prosseguiu na lição de moral.

- Suas lágrimas, neste momento, são dispensáveis. Vou lhe contar uma particularidade de sua mãe. Ela teve três mortes, em três momentos que lhe destruíram o coração fraquejado: quando você e o escroto do seu marido não a receberam bem no apartamento funcional da Asa Sul, em Brasília; quando do nascimento de sua primeira filha, também primeira neta de Rizô, sem que ela fosse sequer convidada para conhecê-la e, por fim, quando lhe foi negado um tratamento para a profunda depressão que lhe acometeu e causou a morte. Em três momentos você, tal qual Simão Pedro renegou Jesus, igualmente procedeu com Rizoleta. Não foi um bom proceder, estou ciente disso. Não estou perguntando; estou afirmando.

“Sim, se morre de tristeza, Marilourdes. Sim, se morre! Se pensa que você e seu marido são melhores que Rizoleta, tenha fé, não são e nem jamais serão. Onde Rizoleta botou a bunda, os dois, jamais, terão o direito de colocar as caras. A bondade e a alegria dela são privilégios de poucos. Só dos que amam, entenda. Volte agora para o seu marido e para sua filha. Viva a vida cretina e falsa do entorno do poder. Faça bom uso da morte de sua mãe. Estando ela morta, seu passado também estará morto. Já não existirá a vergonha que ela lhe deveria causar. Viva, se puder! Viva tudo! Viva, se possível, carregando a cruz do remorso.

Não posso afirmar, pois não sou Deus, que o fato de Rizoleta ter morrido em plena Sexta-feira da Paixão do Senhor, seja apenas uma grande coincidência ou se a vida quer lhe ensinar uma lição. Hoje, em plena data que se comemora o Sábado de Aleluia, é um bom dia para refletir sobre o gesto traidor de Judas Iscariotes. Há o momento certo do arrependimento, pense nisso. Não há pecador que, arrependido, não mereça perdão”.

Padre Anselmo Tavares, como testemunha que se preza, ouviu babando e calado até o fim.

Não fez julgamentos. Não foi solicitado para julgar, menos para perdoar. Fez boca de siri e semblante de múmia até o final do relato da velha amiga de Rizô. A única reação que esboçou foi quando viu, ajoelhada aos pés de Dona Joaninha Santelmo, Marilourdes implorar:

- Mãe, me perdoa? Deus, me perdoa?

Joaninha Santelmo, sem nada dizer, sem mais nada a tratar, dispensou os dois. Queria estar sozinha, cuidando de outras vidas coloridas. As plantinhas das latas de óleo estavam ressecadas e murchas. A morte da flor Rizoleta deixou-as em segundo plano.

E saiu ligeirinha, batendo fortemente as tamancas... Durante a rega, absorta, ficou a pensar no mistério da ressurreição.



*publicado originalmente no site Lima Coelho.

domingo, 8 de abril de 2012

FELIZ RESSURREIÇÃO! FELIZ PÁSCOA!

PÁSCOA DO SENHOR JESUS

VIVA FESTA COMUNHÃO
NO JARDIM LIBERTAÇÃO
PÓS EXILIO POVO AQUECE
TRÁS DAVI E SALOMÃO
ASMO PÃO RECORDA FUGA
VAI LEVANDO A DOR DO MUNDO
DESCE O CORPO REDENTOR
SAGRA TERRA SOB A CRUZ

CÁLICE DA NOITE CHEIA
FLORES SÃO DA LUZ PRIMEIRA
PAZ CALVARIO LUA MESSE
VERÃO VINHO EUCARISTIA
DOCE ADORNO ANDAR TRANSMUDA
SOL INVERNO MARTIRIA
DIA PLENO DO AMOR
MESA FARTA DA FAMILIA

FELIZ PASCAL SOBE O MONTE
PASCOAL DAS OLIVEIRAS
SANTUARIO UNE A PRECE
FINO AZEITE DA UNÇÃO
SINO ANDOR ANDAR AJUDA
SOLO OUTONO PARUSIA
ASCENSÃO CELEBRAÇÃO
PÁSCOA DO SENHOR JESUS




Clodomir Monteiro
Rio Branco

sexta-feira, 6 de abril de 2012

“TÃO HUMANO ASSIM, SÓ PODIA SER DEUS”

Levado no seio materno, mas reconhecido pelo profeta; também este, encerrado no seio, exulta por causa do Verbo, por cuja causa foi gerado. Envolto em panos, mas liberto dos panos da sepultura. Reclinado no presépio, sim, mas glorificado pelos anjos, revelado por uma estrela, adorado pelos magos. (...)

Fugiu para o Egito, mas fez refugar os erros dos egípcios. Para os judeus, “sem forma nem beleza”, mas Davi o proclama “o mais belo dos filhos dos homens”, refulge sobre a montanha e sua face torna-se mais brilhante que o sol – iniciando no mistério futuro.

Como homem foi batizado; como Deus destrói os pecados; não por necessitar de purificação, mas para santificar as águas. Tentado como homem, venceu como Deus; exortou-nos, como vencedor do mundo, a termos confiança.

Teve fome, mas alimentou milhares, é o pão da vida, o pão do céu. Teve sede, mas clamou: “Se alguém tem sede, venha a mim e beba”; também prometeu que jorraria uma fonte naqueles que cressem.

Cansou-se, mas é repouso para os fatigados e sobrecarregados. Ficou pesado de sono, mas tornou-se leve sobre o mar, intimou os ventos, ergueu Pedro que afundava.

Pagou imposto, mas tirado do peixe, e reina sobre aqueles que o exigem. Chamaram-no de samaritano e de possesso do demônio; no entanto salva o que descera de Jerusalém e caíra nas mãos dos ladrões, é bem conhecido dos demônios, expulsa-os e precipita no abismo a legião de espíritos e, como o raio, vê cair o príncipe dos demônios.

Querem apedrejá-lo, mas não o atingem. Reza, mas atende às preces. Chora, mas enxuga as lágrimas. Pergunta onde puseram Lázaro, pois é homem; ressuscita a Lázaro, pois é Deus.

É vendido, e muito barato, trinta dinheiros; mas compra o universo e por preço altíssimo, o próprio sangue. Como ovelha é lavado ao matadouro, mas pastoreia Israel, agora também o mundo inteiro. Como cordeiro é mudo, mas é a Palavra, anunciada pela voz do que clama no deserto.

Sentiu fraqueza e foi ferido, mas cura toda debilidade, toda doença. Sobre o lenho é erguido, pregado; mas pelo lenho restitui a vida, salva o ladrão crucificado a seu lado, cobre-se de trevas o universo visível.

Dão-lhe vinagre a beber, alimentam-no com fel. A quem? Àquele que muda a água em vinho, que destrói todo gosto amargo, Àquela doçura e todo nosso desejo.

Entrega a alma, mas tem o poder de retomá-la de novo, o véu do Templo se rasga (patenteia as realidades supernas), fendem-se as pedras, mortos ressuscitam.

Morre, mas vivifica; com sua morte destrói a morte. É sepultado, mas ressurge. Desce aos infernos, mas leva as almas para o alto, sobe aos céus, mas virá para julgar os vivos e os mortos e porá à prova estas tuas palavras.

São Gregório Nazianzeno (329 – †389)

NAZIANZO, São Gregório de. Discursos Teológicos. Petrópolis: Vozes, 1984.
*Frase-título da postagem é do poeta Fernando Pessoa.

terça-feira, 3 de abril de 2012

UMA HISTÓRIA DE VIDA COM 82 MALÁRIAS, 34 MIL BATIZADOS; CARTAS À DILMA; REZA PELOS PASTORES E LUTA CONTRA O MANEJO INSUSTENTÁVEL

"Meu sonho era que os seringueiros aprendessem a ler. Quero só um pouco mais de saúde para servir a Deus e aos seres humanos"

SILVÂNIA PINHEIRO E WÂNIA PINHEIRO, DA AGÊNCIA CONTILNET
Recém-saído de uma Unidade de Terapia Intensiva (UTI), em Brasília...
Recém-saído de uma Unidade de Terapia Intensiva (UTI),
em Brasília...
...padre Paolino mostra disposição, aos 86 anos, para continuar sua missão
...padre Paolino mostra disposição, aos 86 anos,
para continuar sua missão

Entardecer entrevistando o padre Paolino Maria Baldassari, 86 anos (completados nesta segunda-feira,02 de abril), seria um simples final de dia para qualquer jornalista experiente, não fosse o fato desse italiano, nascido em Bologna, residindo há 58 anos no Acre, ser um vigário agarrado a causas nobres que impressionam até os mais solidários e ousados religiosos.

Recém-saído de uma Unidade de Terapia Intensiva (UTI), em Brasília, padre Paolino, velho conhecido dos seringueiros e dos indígenas da Amazônia, passou por momentos difíceis. Ele foi submetido a uma cirurgia de hérnia e um cateterismo, antes confundido por alguns médicos com uma pneumonia.
Para Agência ContilNet, ele fala sobre suas 82 malárias...
Para Agência ContilNet, ele fala sobre suas 82 malárias...
...34 mil batizados; reza pelos evangélicos; morte, etc...
...34 mil batizados; reza pelos evangélicos; morte, etc...


“Fizeram todos os exames e, no final, viram que o problema estava no coração. Não sinto dores, somente tosse”; conta ele, sereno e entusiasmado com o desembarque em Sena Madureira, município distante 144 quilômetro de Rio Branco, onde Paolino espera viver até o último dia de sua vida.
Igreja Nossa Senhora da Conceição, em Sena Madureira/Fotos: Wania Pinheiro
Igreja Nossa Senhora da Conceição,
em Sena Madureira/Fotos: Wania Pinheiro
Entretanto, os dias do conhecido “Santo do Iaco” não estão contados. Empolgado para celebrar as missas de domingo e colocar em dia os assuntos administrativos da Igreja Nossa Senhora da Conceição, matriz que coordena, ele lamenta apenas a dieta recomendada pelos médicos. “Eles mandaram eu comer bastante, mas não tenho fome. Quero cuidar da minha igreja e dos meus fiéis”, afirma.

Filho de Angelina Zanarini e Arthur Baldassari, um pedreiro, construtor de igrejas, que trabalhava arduamente para sustentar os oito filhos nos tempos difíceis da guerra, Paolino seguia o mesmo caminho do pai se doando também ao trabalho braçal. “Eu comecei a trabalhar para ajudar minha família. Me sentia responsável por ela. Mas, Deus me mostrou que ela não precisava de mim. Meu irmão me doou alguns milhares para ajudar o Acre. Um exemplo é a Fazenda Esperança, que compramos para recuperar dependentes químicos, que custou R$ 200 mil”, relata.

Numa entrevista à Agência de Notícias ContilNet, padre Paolino discorre sobre assuntos simples, porém pessoais. Diz que já escreveu três cartas para a presidenta Dilma Rousseff; conta como se tornou padre; fala sobre sua luta em defesa dos povos da floresta; diz que reza pelos evangélicos; explica porque não vai a velórios; comenta sobre os 34 mil batizados realizados no Acre; as 82 malárias de que foi acometido; o susto com a doença que o levou a passar dias na UTI e revela o que é notório para um homem que escolheu servir a Deus e ao ser humano com toda sua força e essência: sua pureza sexual.

Agência ContilNet – É verdade que o senhor escreveu três cartas para a presidenta Dilma Rousseff?

Padre Paolino – Sim.

Agência ContilNet – E o que o senhor falou a ela?

Padre Paolino – Falei sobre o manejo sustentável que, para nós, é manejo insustentável.

Agência ContilNet – O senhor tem cópias das cartas?

Padre Paolino – Não.

Agência ContilNet – E o senhor não usa internet?

Padre Paolino – Não. Só escrevo. Enxergo melhor com o olho direito para ler e o olho esquerdo para ver de longe.

Agência ContilNet – O senhor está em fase de recuperação de um problema cardíaco após ter passado alguns dias internado numa UTI, em Brasília. Como está sua saúde agora?

Padre Paolino – Fiz uma cirurgia de hérnia e teve consequências. Fui para Brasília. O Tião Viana fez de tudo para me levar. Lá, eu fiquei num hospital que uma cadeira de roda custa R$ 70 mil. Contei mais de 40 enfermeiros, e os exames do coração são feitos no nosso quarto mesmo. O médico mandou eu comer muito, tomar meus remédios, mas o trabalho pesado não foi proibido. Agora estou cansado. Antes eu andava 50 quilômetros a pé, agora com 50 metros estou cansado (risos). Compraram um sapato para mim que antes eu tinha raiva. Achava que era vaidade, coisa de playboy, mas vi que são confortáveis e que fazem bem para os pés.
Durante a conversa, padre Paolino mostra os hematomas das injeções aplicadas durante sua internação
Durante a conversa, padre Paolino mostra
os hematomas das injeções aplicadas
 durante sua internação

Agência ContilNet – E o senhor não teve medo de morrer?

Padre Paolino – Não. Eu gosto de viver. Quando morrer, quero ser enterrado no cemitério humilde de um seringueiro, a floresta.

Agência ContilNet – Quantas malárias o senhor já pegou nas inúmeras desobrigas que fez pelos rios da nossa região?

Padre Paolino – Oitenta e duas. Fui campeão de malária. Ganhei até do bispo Dom Júlio Mattioli, que pegou 36.

Agência ContilNet – O senhor está no Acre há 58 anos. Como o senhor veio para a Amazônia? É possível retornar para a Itália depois de décadas?

Padre Paolino – Tinha 15 anos quando entrei no seminário. Escolhi morar no Acre quando eu ainda estava lá. Eu conhecia o estado através de uma revista missionária dos Servos de Maria, que falava das desobrigas do padre Miguel nos rios Iaco e Purus, em 1942.
Quando cheguei aqui, fui para Brasiléia, Boca do Acre e então Sena Madureira. A cada dez anos eu vou à Itália, mas hoje há poucos parentes. Quando vivemos muito, muitas pessoas que amamos morrem ao longo desse tempo. Lá, tenho um sobrinho meu de 36 anos que é padre. Ele esteve aqui em Sena, e levei ele para acampar no Caeté.

Agência ContilNet – O senhor é um dos médicos mais procurados pelos seringueiros, indígenas e pessoas de classe alta. Como conciliar a medicina e a prelazia?

Padre Paolino - Quando eu era criança, entre 7 e 8 anos, admirava os médicos e os padres pela disposição deles em atender um chamado de emergência do seu próximo. Na minha mente, lembro que uma vez minha irmã estava com pneumonia e eu vi meu pai desesperado à espera do médico. Ele chegou na neve, encapuzado, montado num cavalo e disse: Arthur, só vim atendê-lo porque escolhi ser médico e fiz um juramento de nunca negar assistência a ninguém, pois hoje estou mais doente do que sua filha. Então, eles eram meus heróis, pois naquela época não havia TV, rádio ou internet. Eu gosto de cuidar dos doentes. Uma vez uma mulher me procurou e gritava de dor de cabeça, e eu disse: espera aí, que vou te botar boa em cinco minutos. E coloquei.

Agência ContilNet – É verdade que o senhor não vai a velórios?

Padre Paolino – Deixei de ir a velórios depois que vi que as pessoas vão para esses locais tomar café, falar alto e beber álcool, muitas vezes. Aconteceu a primeira vez em Brasiléia e, a partir daí, eu disse que esperaria o morto na igreja. Faço a missa de sétimo dia. Fiquei escandalizado com o que vi, mas acho que o padre não pode faltar a um velório.

Agência ContilNet – Há ideia de quantos batizados e casamentos o senhor já realizou no Acre?

Padre Paolino - Casamentos não sei, mas batizados foi algo em torno de 34 mil.

Agência ContilNet – Como o senhor analisa a situação dos valores da família e da vida atualmente?

Padre Paolino – O mundo está virado.

Agência ContilNet – Como é o seu devocional?

Padre Paolino – Eu rezo três vezes ao dia.

O vigário Baldassari pede a caneta e escreve com o próprio punho o nome da cidade onde nasceu...
O vigário Baldassari pede a caneta e escreve com o próprio punho
o nome da cidade onde nasceu...
...a cidade de Bolonha,na Itália, onde deixou os pais e oito irmãos, quando mudou-se para o Acre
...a cidade de Bolonha,na Itália, onde deixou os pais e oito irmãos,
quando mudou-se para o Acre

Agência ContilNet – E a sua relação com os evangélicos?

Padre Paolino – Eu rezo por eles. O que queremos é que existam pastores cada vez mais dedicados para levar o Evangelho para a mata, os pobres, os índios, os seringueiros. Respeito todos os que nasceram evangélicos, como os que nasceram catóĺicos também devem ser respeitados. Só não entendo porque uma pessoa diz que deixou de beber depois que mudou da igreja católica para a evangélica. Por que ela não deixa de beber na Igreja Católica mesmo? A Igreja não manda ninguém se embriagar, se prostituir, ou cometer outros pecados. Essas são decisões pessoais. Falam sobre adoração de imagens. Conheço o Salmo 121 e gosto dos santos. Quando eu cheguei ao Acre, apenas os Pinheiros, do rio Macauã, eram católicos, o restante das famílias eram evangélicas. O problema é que banalizaram as religiões. Todo homem precisa dela, e com o tempo retornam. Foi assim com os anglicanos, os luteranos. Lamentavelmente quando se quer acabar com uma pessoa, se fala mal dela. Confundiram tudo.

Agência ContilNet – O senhor sabe que é muito amado pelo Acre?

Padre Paolino – Alguns me amam; outros, têm raiva de mim.

Agência ContilNet – É verdade que sua família já doou milhões para o Acre?

Padre Paolino – Meu irmão já me ajudou muito. Quando quero ir à Itália, ele manda minhas passagens. Minha família me ajudou em tudo. E um exemplo foi a Fazenda Esperança, que compramos por R$ 200 mil. Também adquirimos aparelhos de ultrassonografia para o hospital Santa Juliana. Além das construções que fizemos como escolas, cooperativas, marcenarias, e muitas outras coisas.

Agência ContilNet – Quanto a relacionamentos pessoais, o senhor nunca se apaixonou?

Padre Paolino – Não. Tinha 14 anos quando decidi ir para o seminário. Além do mais, havia uma pobreza extrema naquela época e uma religiosidade muito forte.
Depois de uma tarde descontraída e um diálogo aberto sobre sua vida, ele se despede da reportagem
Depois de uma tarde descontraída e um diálogo aberto sobre sua vida,
ele se despede da reportagem

Agência ContilNet - Os indígenas do Acre vivem hoje um verdadeiro caos no tocante à estrutura de saúde oferecida pelo Governo Federal. Além desse problema, há ainda os casos de miséria, prostituição, fome e outros. Sua convivência há mais de 45 anos com esses povos lhe traz à memória alguma solução para esses problemas sociais?

Padre Paolino – O problema dos índios é um só: eles morarem na cidade. É necessário que sejam tomadas atitudes imediatas para que eles voltem para o seu habitat natural, voltem a produzir seu alimento, seus medicamentos naturais. Lamento muito a situação em que eles se encontram. Antes eu não deixava eles virem para a cidade e, quando vinham, só trazia de dois. E eles ficavam na igreja comigo. Não iam para a rua, onde o acesso ao álcool e a festas são fáceis. Acho que muitas pessoas tentaram ajudá-los, mas pensando fazer o bem, fizeram o mal. Eu mesmo dei gado e motores para eles, e deu tudo errado. A aposentadoria, então, foi o fim deles.

Agência ContilNet- Por que, padre? A aposentadoria não é um direito do cidadão?
Padre Paolino – Sim, mas deve-se encontrar uma forma de levar esse benefício até eles, já que quando eles chegam na cidade vão em busca dos prazeres da vida urbana. Os Kulinas estão todos alcoolizados, homens, mulheres e crianças. É uma pena!

Agência ContilNet- E de quem é a culpa?

Padre Paolino – Da ganância.

Agência ContilNet – De quem, padre?

Padre Paolino – Os índios por si só não têm noção de maldade, dos riscos que a vida aqui fora oferece, o mal que o álcool pode fazer ao ser humano. E hoje, por conta da ganância de muitos, estão sendo penalizados. Quando eu ficava por meses nas aldeias com eles, eles me pediam: “Paolino, traz álcool pra nós”. Mas, eu dizia: não. Vamos plantar, construir as casas e se consultar. Nós fazíamos entre 40 a 70 consultas médicas por dia. Eles têm fé em mim porque são um povo simples e humilde.

Agência ContilNet – Então, o problema seria político, administrativo, ou o quê?

Padre Paolino – Não adianta colocar a culpa nos governos e nas prefeituras. O Jorge Viana, o Tião Viana, o Binho, eu mesmo, todos tentaram ajudar os índios. O Jorge Viana deu motores para os índios, e eles colocaram óleo de cozinha no que deveria colocar gasolina. Eles ganharam as mais belas embarcações e afundaram todas, além de desativarem 22 motores. Os indígenas eram para viver bem nas suas aldeias, mas muitos deles estão perdidos. Hoje, vários caciques recebem dinheiro para ajudar seu povo, mas os índios vêm para a cidade tomar banho de esgoto e se alcoolizar. Essa é a triste realidade. Os Jaminawas, então, está uma desgraça. Parece um círculo vicioso, que não se resolve. A única maneira seria voltar ao sistema antigo de seringal, dando condições para eles fazerem seu roçado, material para pesca. O melhor presente que você pode dar para um índio é um anzol.

Padre Paolino volta aos seus aposentos para descansar e cumprir orientações médicas
Padre Paolino volta aos seus aposentos para descansar
 e cumprir orientações médicas
Agência ContilNet – Não existiria uma política diferenciada para ser aplicada em favor dos indígenas?

Padre Paolino – Alguém tinha que administrar esta situação,mas deveriam ser leais a eles e não enganarem. Antes, eles eram sadios, não tinham doenças. Hoje, há casos de miséria, fome, prostituição e até DST como gonorreia. Agora, não adianta fazer sanitário e chuveiro para índios que vivem nas aldeias. Isso é uma estupidez. Já vi eles ganharem bombas para puxar água e levarem a bomba para ser usada nos motores dos barcos. Aqui em Sena mesmo eu fiz a Casa do Índio, e eles chegavam de madrugada, alcoolizados, queimando tudo, arrancando o assoalho. Eles têm sua própria cultura e isso deve ser respeitado. Eles merecem respeito e atenção. Os índios têm grandes qualidades que devem ser reconhecidas e defeitos que devem ser compreendidos.

Agência ContilNet – E as entidades responsáveis por esses povos? O que estão fazendo?

Padre Paolino – Depois de ter visto os fracassos da Funasa, do Cimi, da Uni e os meus, me dei conta de que o gado foi o princípio do alcoolismo. Por que eu tinha que dar gado para eles? Quanto à Funai, eu sempre estive em guerra com ela porque eu queria os índios nas aldeias e ela inventou de levar os índios para Brasília e para os Estados Unidos.

Agência ContilNet – O senhor tem preferências políticas?

Padre Paolino – Nunca votei na minha vida.

Agência ContilNet – Como é sua relação com a imprensa? O senhor gosta de jornalistas?

Padre Paolino – Às vezes sim; outras, não. Eles têm o costume de falar o que a gente não disse.

Agência ContilNet – E existe algo que o senhor não fez?

Padre Paolino – Fiz muitas coisas, mas nem tudo deu certo. Me lembro que uma vez fui a pé de Sena para Rio Branco, mas depois dos 80 anos a gente percebe que a nossa força cai.

Agência ContilNet – Qual o seu maior sonho para o Acre e a Amazônia?

Padre Paolino – Meu maior desejo era que os seringueiros soubessem ler. Hoje, quero continuar servindo as pessoas através do Evangelho e da medicina.

segunda-feira, 2 de abril de 2012

COMO SE COMEÇA A FILOSOFAR?

Profª. Inês Lacerda Araújo
Filosofia de todo dia


Para filosofar basta fazer certo tipo de indagação: por que? como? quando?
E ir fundo com as questões. Quais são as causas mais essenciais e imprescindíveis de todas as coisas? Como é possível existirem tais coisas, como elas vieram a ser, não é incrível que haja o ser e não o nada? O que determina que um ser tenha as propriedades e características que o distinguem dos demais? Há um tempo, um "quando" responsável pela origem de tudo?


Essas perguntas também são feitas pelas religiões, e recebem respostas definitivas: no começo o caos ou o nada, depois a organização por forças cósmicas ou por Deus como nas crenças monoteístas. Tudo faz sentido, há um destino para todos os seres e em especial para os seres humanos.

A ciência também propõe investigar e procura respostas para o que nos intriga: tempo finito ou infinito, qual é a origem do universo, como a vida começou? Mas, ao contrário da filosofia e da religião, os cientistas não visam conciliar, consolar, dar sentido, apaziguar a existência humana, nossas dúvidas, nossos anseios.

A filosofia, sim. Ela busca pela razão de sermos no mundo, o que nos move, se há um sentido na história da humanidade, o que se pode mudar e o que nos condiciona.
O questionamento filosófico exige dialogar. Exige que nesse diálogo entrem pessoas dispostas a argumentar, a raciocinar, a ouvir as razões do outro, buscar respostas, inclusive com o risco de não encontrá-las, o que não leva a desistir do diálogo. Até mesmo o cético necessita argumentar para expor suas dúvidas.


Mas se o caminho for o da imposição dogmática, o diálogo cessa. Sempre que um dos lados se considera com a plena razão, resta ao outro submeter-se. É a morte da filosofia e o nascimento da intolerância, da violência, da censura.

Sendo assim, por que os próprios filósofos dificultam o acesso a essas indagações com seu vocabulário especializado, com termos e expressões que parecem nem fazer sentido?

Quem ler o prefácio da Crítica da Razão Pura ou o da Fenomenologia do Espírito desiste, a menos que haja um professor para debulhar conceitos e noções, comparar, expor com termos acessíveis o difícil pensamento dos mestres da filosofia.

Aulas de filosofia são exemplos de diálogos em estilo platônico: examinar conceitos revirando-os para que os alunos possam acompanhar o significado, ou seja, seu uso ou usos.

Se, ao final da aula pelo menos alguns alunos chegarem, eles próprios, a novas questões, se eles chegarem a esse ponto: "Como é que eu nunca havia pensado nisso!", a aula foi bem-sucedida.

Mudar algo na cabeça das pessoas, como disse certa vez Foucault, levá-las a pensar novamente o que estava assentado e dado como evidente, isso é filosofar.

Outros filósofos acrescentariam que há também a esperança iluminista de que tais diálogos melhorem nossas relações, ainda primitivas sob muitos aspectos.




* INÊS LACERDA ARAÚJO - filósofa, escritora e doutora em Estudos Linguísticos. É professora aposentada da UFPR e PUCPR.

domingo, 1 de abril de 2012

HOJE DE ALMA ACREANA NA MÃO

Jairo Nolasco
Jurubeba Juruaensis
Cansado desta patusca sobre polítiqueiras já me preparava para curtir meu final de semana na calmaria de minha Ipapeconha, quando o carteiro chegou e o meu nome gritou com um pacote nas mãos - hoje, entrega-se tudo menos cartas.

Deixemos de frescuragens!

Na verdade os Correios entregaram já faz dois dias. Só hoje é que aqui em casa lembraram de me passar a bola.

Fiquei muito satisfeito em receber o livro por camaradagem do seu autor, o tarauacaense do seringal Sumaré, Isaac Melo, que escreve o blog ALMA ACREANA , direto de Belo Horizonte/ MG.

Irei ler, com calma, deitado em minha rede à margem de qualquer igarapé que banha Ipapeconha para melhor ouvir "o estalar do papel no toque dos dedos (p.7)".

Ainda assim já adiantei a leitura do capítulo que narra um pouco sobre a história do alagoano Craveiro Costa, que marcou presença aqui em Cruzeiro do Sul, notadamente na área educacional.

Aí já começou bater a curiosidade: onde se localizava, na cidade, o Liceu "Afonso Pena" do qual o autonomista Craveiro Costa foi nomeado diretor em 1907?

E em qual morro da cidade (seria o da Glória?) o professor, literato e jornalista morou durante muito anos?

A cada vez que tomo conhecimento sobre os principais personagens dos primórdios da civilização nacional aqui no Juruá, percebo o quanto eram intrigantes.

Eu não procuro herois. À teia do social e do histórico ninguém escapa ileso, se for homem humano. Não devemos julgá-los pela ótica de nosso tempo. Eles foram gente com pecados e acertos lá no seu tempo e espaço.

De alguns os bons feitos ficaram.

Entretanto, uma coisa eu estou comprovando cada vez mais: já fomos melhores em termos de qualidade em nossos dirigentes políticos e intelectuais.

Hodierno, as antas prevalecem por aqui e estão cada vez mais abastardas. E seus maiores feitos? A iniquidade consciente!

Mas deixemos essas tranqueiras pra lá. Cansei.

Ipapeconha, meu paraíso, aí vou eu!

E quanto a você meu caro Isaac, se o seu livro "é singelo e simples como a água do nosso Juruá", deve como tal ser caudaloso a nos levar a conhecer um pouco dessa Alma Acreana dividida em cada curva de nossos rios , meandros.

Aí a gente vai juntando, vai.

Obrigado pelo fraterno. Saiba que é reciproco.

---

Nota: Tudo que a gente escreve, mesmo sem grandes pretensões e recursos, como o Alma Acreana, é sempre gratificante e enriquecedor o diálogo que surge a partir de quem nos lê. Agradeço aos amigos que receberam tão singelo trabalho e partilham suas impressões, abrem outras portas, outras possibilidades. Quanto ao Jairo é um sábio nato, uma inteligência arguta do nosso Juruá. // Já está quase pronta uma nova edição para a venda na internet.