sexta-feira, 6 de abril de 2012

“TÃO HUMANO ASSIM, SÓ PODIA SER DEUS”

Levado no seio materno, mas reconhecido pelo profeta; também este, encerrado no seio, exulta por causa do Verbo, por cuja causa foi gerado. Envolto em panos, mas liberto dos panos da sepultura. Reclinado no presépio, sim, mas glorificado pelos anjos, revelado por uma estrela, adorado pelos magos. (...)

Fugiu para o Egito, mas fez refugar os erros dos egípcios. Para os judeus, “sem forma nem beleza”, mas Davi o proclama “o mais belo dos filhos dos homens”, refulge sobre a montanha e sua face torna-se mais brilhante que o sol – iniciando no mistério futuro.

Como homem foi batizado; como Deus destrói os pecados; não por necessitar de purificação, mas para santificar as águas. Tentado como homem, venceu como Deus; exortou-nos, como vencedor do mundo, a termos confiança.

Teve fome, mas alimentou milhares, é o pão da vida, o pão do céu. Teve sede, mas clamou: “Se alguém tem sede, venha a mim e beba”; também prometeu que jorraria uma fonte naqueles que cressem.

Cansou-se, mas é repouso para os fatigados e sobrecarregados. Ficou pesado de sono, mas tornou-se leve sobre o mar, intimou os ventos, ergueu Pedro que afundava.

Pagou imposto, mas tirado do peixe, e reina sobre aqueles que o exigem. Chamaram-no de samaritano e de possesso do demônio; no entanto salva o que descera de Jerusalém e caíra nas mãos dos ladrões, é bem conhecido dos demônios, expulsa-os e precipita no abismo a legião de espíritos e, como o raio, vê cair o príncipe dos demônios.

Querem apedrejá-lo, mas não o atingem. Reza, mas atende às preces. Chora, mas enxuga as lágrimas. Pergunta onde puseram Lázaro, pois é homem; ressuscita a Lázaro, pois é Deus.

É vendido, e muito barato, trinta dinheiros; mas compra o universo e por preço altíssimo, o próprio sangue. Como ovelha é lavado ao matadouro, mas pastoreia Israel, agora também o mundo inteiro. Como cordeiro é mudo, mas é a Palavra, anunciada pela voz do que clama no deserto.

Sentiu fraqueza e foi ferido, mas cura toda debilidade, toda doença. Sobre o lenho é erguido, pregado; mas pelo lenho restitui a vida, salva o ladrão crucificado a seu lado, cobre-se de trevas o universo visível.

Dão-lhe vinagre a beber, alimentam-no com fel. A quem? Àquele que muda a água em vinho, que destrói todo gosto amargo, Àquela doçura e todo nosso desejo.

Entrega a alma, mas tem o poder de retomá-la de novo, o véu do Templo se rasga (patenteia as realidades supernas), fendem-se as pedras, mortos ressuscitam.

Morre, mas vivifica; com sua morte destrói a morte. É sepultado, mas ressurge. Desce aos infernos, mas leva as almas para o alto, sobe aos céus, mas virá para julgar os vivos e os mortos e porá à prova estas tuas palavras.

São Gregório Nazianzeno (329 – †389)

NAZIANZO, São Gregório de. Discursos Teológicos. Petrópolis: Vozes, 1984.
*Frase-título da postagem é do poeta Fernando Pessoa.
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