segunda-feira, 16 de abril de 2012

LA ESTRELLA SOLITARIA

Isaac Melo
Monumento à Galvez em frente a Assembleia Legislativa do Acre.
Luis Gálvez Rodríguez de Arias. Assim chamava-se o espanhol que, em 14 de julho de 1899, havia criado e proclamado, em plena selva amazônica, o Estado Independente do Acre, que resistiu pouco menos de um ano. Galvez não só declarou uma República como do nada construiu um estado progressista, com leis próprias, ministérios, educação pública, exército, polícia, correios e bombeiros.

A literatura por sua vez sempre apresentou Galvez num estereótipo de aventureiro, fanfarrão e mulherengo, não inverossímel de todo. O exemplo clássico é o mundialmente conhecido e celebrado “Galvez: Imperador do Acre” (1976) do amazonense Márcio Souza. Já nas primeiras páginas, em tom satírico e humorístico, o amazonense anuncia sardonicamente a vida e a prodigiosa aventura de Dom Luis Galvez nas fabulosas capitais amazônicas e a burlesca conquista do território acreano.

Verdade é que Galvez nunca fora um modelo de referência moral, galanteador que era. Assim como é verdade que o Acre o modificou profundamente, ao ponto do ex-sócio de cabaré se transformar num presidente justo, honesto e respeitado não pela força dos winchesters, mas, ironicamente, por sua conduta moral. Por algum tempo estive a procura de outras referências acerca do fundador da república acreana. Parte significativa da literatura aborda-o em segundo plano, o coadjuvante menor de uma história maior.

Pouco tempo atrás chegou às minhas mãos “La estrella solitaria”, presente de minha amiga Leila Jalul, escritora acreana radicada na Bahia. O romance é de autoria do espanhol Alfonso Domingo, lançado em 2003, em Sevilla. A obra foi agraciada com o VII Prêmio de Novela Ciudad de Salamanca. Nela o autor faz um resgate histórico da figura de Luis Galvez, embora se trate de um romance. A sua composição orienta-se por um forte rigor histórico e viagens do escritor aos locais em que viveu o personagem, sendo 22 arquivos visitados na Espanha, Brasil, Argentina e Cuba, em sete anos de pesquisa.

O romance abre a narrativa com Galvez, em Manaus, deitado com a bailarina principal de um cabaré. Absorto, enquanto a luz cálida dos trópicos invade o quarto, se perde no pensamento de que para ele havia chegado a hora de fazer algo realmente importante: fortuna e sobretudo fama. O ano era dezembro de 1898.

Naquele momento, sob o boom da borracha, que cobria 30% da renda brasileira, o deserto empatanado havia se convertido num novo e movimentado centro cultural do mundo. Ali era possível encontrar várias nações e vários idiomas a compor a Babel amazônica. A cosmopolita Manaus era uma metrópole com cinquenta mil habitantes vestidos à moda europeia. Um lugar criado para esquecer as asperezas da selva. Refúgio dos barões da borracha, com suas mansões senhoriais, seus parques e suas fontes barrocas. Aquela cidade tinha um sonho. Porque se à selva devia sua fama e sua fortuna, seu coração não lhe pertencia: estava além do imenso rio que a comunicava com o Atlântico.
Uma velha fotografia, na qual Luis Galvez escreveu:
 “Luis Galvez no Governo do E. I. do Acre, em 1899”,
serviu de matriz a Perci Lau para reconstituir, a bico de pena,
o Presidente em seu gabinete de trabalho.
Graças a suas reservas, que pareciam inesgotáveis, o Acre se ergueu como o Eldorado da borracha, e Manaus e Belém, seus guardiões. A capital do Amazonas, ironicamente, se tornou o que era pelo o que no fundo odiava: a selva, o rio, o sangue das árvores.

Essa busca de aventura e fortuna atraiu Galvez para a Amazônia, mas não sabia ele que isso o conduziria a maior empreitada de sua vida, e mudaria todo o curso de sua existência. Tornaria-se a estrela solitária que iluminaria os acreanos no caminho da nova república que queria integrar-se na desejada pátria brasileira. Sonhou um Estado moderno e modélico, com ordem, onde imperaria a lei numa sociedade de homens livres. Planejou um estado de legislações avançadas que promovessem a agricultura e a indústria para distanciar-se da pura extração de borracha. Já intuia muito antes que qualquer outro que aquele ouro branco era também a perdição do Acre, como de fato ocorrera: “o leite dava, o leite tirava”.
Chegada de Luis Galvez ao forte de São Joaquim, no atual Estado de Roraima, depois de sua expulsão de Manaus, segundo ilustração publicada no Jornal do Brasil (28/12/1902). Da esquerda para a direita: Luis Galvez, Bachini, Horacio Azevedo e alferes Saldanha, comandante do Forte.
No nono mês de sua república no entanto, o sonho de Galvez havia chegado ao fim, deposto pela Marinha do governo brasileiro. Mas Acre e Galvez permaneceriam unidos para sempre. Ali havia dado o melhor de si mesmo. Uma estrela solitária, fugaz, cujo destino foi brilhar um dia para se perder logo no firmamento. Depois de sua empreitada acreana foi deportado para a Espanha, sua Cádiz. De lá, recuperado, foi para a Argentina, Buenos Aires, onde vivia seu amigo de vida e de aventura amazônica, Guillermo Uhthoff. Fez um breve retorno ao Brasil, e seguiu caminho para Cuba.

Única fotografia conservada de
 Luis Galvez antes de 1900.
Já velho Galvez retornou à Espanha. Sem dinheiro e sem propriedades, viveu num modesto quarto numa pensão no centro de Madrid. Morreu como havia vivido, uma estrela solitária, numa tarde fria de fevereiro de 1935, aos 71 anos. Morreu, todavia, como o único espanhol a ganhar uma guerra contra os Estados Unidos.

A novela de Alfonso Domingo, embora ainda sem tradução em língua portuguesa, é um trabalho que merece ser conhecido, não só pela qualidade literária, mas pelo resgate histórico da figura de Galvez, esquecido e estereotipado por longos anos. A minissérie global, “Amazônia: de Galvez a Chico Mendes”, da novelista acreana Glória Perez, muito se embebeu da fonte do romancista espanhol, claramente perceptível em todo o tecido da trama que envolve o presidente da república da goma.



REFERÊNCIA
DOMINGO, Alfonso. La estrella solitaria. Sevilla: Algaida Editores, 2003.

* Veja também a entrevista com Alfonso Domingo feita por Altino Machado para o Blog da Amazônia.
** As ilustrações de Luis Galvez em seu gabinete e no Forte São Joaquim foram retiradas de TOCANTINS, Leandro. Formação Histórica do Acre I. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1979.
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