quinta-feira, 12 de julho de 2012

AMORCEGAÇÃO

morcego
            persegue
                       na noite
                       no norte
           secreto
do som

soma
   sequencia
                   no cimo
                   do sonho
   sirene
sonora

namora
           morando
                       na ponta
                       na porta
           sonando
a amada

insensato
            insiste
                       no ato
                       no fato
           do amor
cegando

realidade
            rebrilha
                       na aurora
                       do dia
           nega
paixão

morcego
           espera
                       na volta
                       da noite
           o amor
chegar

insensato
            persiste
                       no ato
                       do fato
           do amor
cegando



AMORCEGAÇÃO figura na Antologia dos Poetas Brasileiros: Fase Moderna (Volume 2), organizada por Manuel Bandeira, com colaboração de Walmir Wayla, em 1967. Uma nova edição saiu em 1996, no Rio de Janeiro, pela editora Nova Fronteira. 'Amorcegação" também saiu em MONTEIRO, Clodomir. Derroteiro de Rotinas. São Paulo: Quíron/Práxis, 1976. p.55 
CLODOMIR MONTEIRO é o atual presidente da Academia Acreana de Letras.

terça-feira, 10 de julho de 2012

A GUERRA DENTRO DE NÓS

LUIZ FELIPE JARDIM


Não somos assassinos. Somos primatas. Somos das árvores. Não somos naturalmente do chão. A natureza fez a nossos antepassados adaptando-os, anatômica e fisiologicamente, para viverem nas árvores, alimentando-se de frutas, folhas, insetos. Carne, só alguma ou outra vez.

Assassinos são os lobos, os felinos, os ursos. Esses foram talhados para matar. Foram feitos com especializações para predar, matar e se alimentar de outros animais.

Nós, ao contrário, éramos presas, mesmo que eventuais, já que tínhamos a boa proteção das copas.

Nas árvores desenvolvemos nossa visão binária o que nos dá bom senso de profundidade e distância; desenvolvemos boa percepção das cores, um pressuposto para diferenciar folhas e frutos, bem como as etapas de amadurecimento das frutas; desenvolvemos nosso gosto e nossa predileção pelo doce que as frutas contêm. Fizemo-nos ágeis, sociáveis e de grande movimentação e mobilidade.

Durante muito tempo vivemos numa espécie de paraíso, onde pudemos nos desenvolver qualitativa e quantitativamente.

Qualidades e quantidade necessárias para sobrevivermos ao que viria.

Por algum motivo, ou combinação de motivos, o paraíso acabou. Alterações climáticas significativas, provavelmente, acabaram com as árvores onde vivíamos e com elas nossa fonte de alimento. Fomos expulsos do paraíso no qual nos desenvolvemos durante milhões de anos e para o qual estávamos perfeitamente adaptados. Das árvores, caímos numa terra hostil. Num inferno dominado pelos assassinos de savana. Os grandes caçadores: leões, leopardos...  cães, com os quais teríamos que competir.

Tivemos que nos fazer bípedes. Ou nos fazíamos assim, ou desapareceríamos. E assim fizemos. Pusemo-nos em pé. A princípio não foi nada fácil, mas pagando um mico aqui, (para diversão e delícia dos predadores) e outro acolá, acabamos por nos fazer hábeis em caminhadas, em longas caminhadas e até em corridas.

Como as frutas e tubérculos já não existiam na quantidade que precisávamos, tivemos que comer carne. A princípio, restos de carne abandonadas por outros animais, carniça.

Depois tivemos que matar com mais frequência. Ou fazíamos isso ou desapareceríamos. E assim fizemos. Tornamo-nos assassinos.

Cossacos Atacados pela Guarda Real
Edouard Detaille
Diferentemente dos grandes predadores, que têm essa característica de maneira inata, nós precisamos desenvolver artificialmente as habilidades para matar. Como primatas, temos significativas doses de agressividade, e demonstramos isso, até com certa frequência, em frequentes disputas, em algumas ou outras escaramuças, mas quase sempre do tipo “muito trovão para pouca chuva’’. Nada que se compare à agressividade dos animais naturalmente violentos. Além disso, não temos as garras e nem os dentes que têm os especialistas para trucidar suas presas. Para superar essas deficiências, criamos garras artificiais e fizemos facas, machados e lanças. Não temos a velocidade de um veado, mas se usamos nossa força para dar a uma lança força e velocidade, podemos surpreendê-lo e abatê-lo. Para isso tivemos que plantar, cultivar e fazer crescer dentro de nós, num longo processo de hominização e humanização, um sentido que os primatas não têm tão desenvolvido: o senso de cooperação. Isso fez-nos mais eficientes, mais hábeis para a caça, e nos deu um sentido de grupo, de união e dependência mútua que, além de ampliar ainda mais nosso talento para a caça, tornou-o uma vocação, uma inclinação natural da humanidade e dos humanos em que nos fazíamos. Talento e vocação se uniram em nós e nos tornamos poderosos matadores.

Quando aprendemos a controlar o fogo, fizemos uma grande revolução: apropriamo-nos do movimento mecânico, objetivo e o transformamos em calor.  Apropriamo-nos da realidade objetiva e invisível e a transformamos em luz. Luz e calor sob o nosso controle. Isso nos trouxe enormes transformações físicas e culturais. Por exemplo: ao ingerirmos carne já ‘meio que digerida’ quando a comemos assada ou cozida, tornamos desnecessário o enorme estômago que tínhamos e nos desfizemos da parte que já não necessitávamos do nosso aparelho digestivo; diminuímos significativamente nossa mobilidade no espaço; ampliamos o tamanho de nosso cérebro e capacidades e habilidades manuais.

O controle sobre o fogo tornava-nos mais protegidos contras os predadores diurnos e noturnos como os dentes de sabre e os leopardos que estiveram sempre em nosso encalço e dizimaram milhares e milhares de clãs de hominídeos e humanos ao longo dos milhões de anos da nossa pré-história. O fogo nos proporcionava uma claridade adicional às noites ampliando as possibilidades de sociabilização, aprimoramentos da linguagem, transmissão de informações e conhecimentos em espaços relativamente seguros. Coisa impensável pouco antes. Por destruir grande parte dos germes presentes nas carnes, tivemos diminuídas em grande número a mortalidade e enfermidades ligadas à ingestão de carne crua.

Não somos naturalmente assassinos. Fizemo-nos assassinos.  A necessidade urgente de nos tornarmos caçadores, aliados a algumas características próprias, como um grande cérebro, a rotação do polegar e a capacidade preênsil das mãos daí advinda, deu aos nossos ancestrais uma fúria assassina que os fizeram superar os especialistas na ‘arte’ de abater outros animais. Em pouco mais de um milhão de anos nos fizemos assassinos mais hábeis do que os assassinos especialistas que levaram milhões e milhões de anos sendo aperfeiçoados pela natureza para a predação. Em consequência, tivemos garantidos não só a reprodução da humanidade como o permanente aperfeiçoamento de qualidades inatas e adquiridas. Não voltamos ao paraíso, mas nos adaptamos ao inferno onde caímos das árvores e nele instalávamos nosso reino e reinado.

A Liberdade Guiando o Povo
Eugène Delacroix
Mas as transformações que nos garantiram tais conquistas evolutivas nos trouxeram sérios problemas também. Ao nos fazermos primatas de rapina, lobos inteligentes, compulsivos perseguidores de presas - mesmo as simbólicas que se desenvolviam paralelamente, como as brincadeiras infantis ou os jogos de adultos - permitimos à nossa espécie fazer da nossa espécie também presa. Inauguramos a guerra. Instauramos, no inferno em que já vivíamos um novo tipo de relação entre sociedades da mesma espécie baseada na truculência, na violência, como se de outra espécie fosse. A guerra. Ao compensarmos, com nossa inteligência, nossas deficiências como caçadores desenvolvemos eficientes métodos de ensino/aprendizagem. E nos ensinamos e aprendemos a ser cruéis com nossos inimigos. Sejam animais de outras espécies, sejam hominídeos ou humanos. A guerra é a face mais sombria e cruel do instinto humano da caça. No inferno nos fizemos senhores dos felinos e dos cães que o dominavam.

Quando o ser humano se transforma em caça e o caçador é o próprio animal humano, a selvageria não tem limites. A vítima se transforma em ser de outra espécie e deve, por isso, ser aniquilada. Os que dizem que a humanidade é naturalmente pacífica, mansa, estão redondamente enganados. Somos caçadores, temos instinto de caçadores e estamos sempre no encalço de alguma coisa, caçando. Mesmo as inocentes brincadeiras infantis são, na sua maioria, treinamentos e aperfeiçoamentos do instinto da caça. Esconde-esconde, manja, barra, bandeirinha envolvem elementos fundamentais da caça: definição do alvo, perseguição, captura e premiação. Neotênico, o animal humano levou para a vida adulta a diversão proporcionada pelos jogos infantis e criou os esportes com os quais se diverte com ‘caças simbólicas’. Atualmente o futebol é um dos mais poderosos substitutivos da caça propriamente dita. Esse atributo de satisfazer parte de seu instinto de caça com substitutivos simbólicos, como jogos, brincadeiras e outras atividades sociais que inventamos com tal propósito, atenua os efeitos profundamente nocivos que a não satisfação do instinto nos provocam, diluindo parte considerável das necessidades instintivas. Mas não é suficiente para nos fazer dóceis, mansos, não violentos. Ao nos fazermos humanos, fizemo-nos assim: caçadores, guerreiros.

Para que a espécie não perecesse diante de tamanha agressividade e violência, teve que desenvolver poderosos inibidores do instinto.  Posturas de submissão, como aquelas em que nos prostramos diante de um superior hierárquico; fortes sentimentos como lealdade, fidelidade e outras mais. No entanto, o mais importante inibidor é o espaço político. Este é, por natureza, um espaço de representação dos interesses divergentes, contraditórios ou antagônicos. Um espaço onde aquele que pretende manifesta e defende sua pretensão, e onde aquele que resiste à pretensão manifesta e defende os seus interesses. Naturalmente que um ou mais interesses acabarão por se impor aos demais. Mas de um modo humano e ‘civilizado’ evita-se o combate físico e mortal. A palavra combate tem origem na idéia de ‘lutar consigo mesmo’. Assim faz a nossa humanidade.

A guerra não existe somente ‘lá fora’. Está dentro de nós. Internalizada de tal maneira, que nos tornamos indiferentes aos que estão sofrendo as suas consequências neste momento. No Sudão, Afeganistão, Chade, Síria, milhões de seres humanos estão sendo massacrados, humilhados, violados, estão vivendo ‘vida de cão’ e, embora saibamos disso não nos indignamos ou não temos suficiente indignação para nos rebelarmos. O ‘treinamento’ que fazemos para sermos sempre bons caçadores - mesmo que simbólicos, como com a perseguição do sucesso profissional, a perseguição ao diploma acadêmico ou aos eleitores - cria uma capa de indiferença que neutraliza os sentimentos de piedade, a não ser que envolvam nossos interesses pessoais ou nacionais.
Guernica (1937) - Pablo Picasso
Estamos treinados e preparados pelo nosso espírito de humanidade a não acabarmos com as guerras. Mas a aceitá-las e a reproduzi-las. Guerra é Guerra. Guerra é História. Guerra é Cultura.

Dissemos acima que, quando controlamos o fogo, fizemos uma grande revolução: transformamos o movimento mecânico em calor. Essa revolução nos trouxe inúmeras transformações tanto físicas como culturais.

Meio milhão de anos depois, fizemos o movimento inverso, fizemos uma nova revolução: transformamos o calor em movimento mecânico. Inventamos o ‘movimento a vapor’. Somente se passaram duzentos anos desde então, mas as marcas dessa revolução já se fazem presentes: altíssimo desenvolvimento tecnológico; destruição do vírus da varíola; criação de potentes antibióticos; carro, aviões, foguetes, pouso na lua; etc. etc. Mas a guerra continua. Dentro de nós.

A minha esperança (que, aliás, é um poderoso atributo do bom caçador - no Acre chamamos de ‘espera’ a modalidade de caça em que o caçador aguarda longa e pacientemente sua presa) é que, assim como o controle sobre o fogo contribuiu para fixarmos o instinto de caçador no instinto do espírito da humanidade, essa nova revolução iniciada há poucos duzentos anos, nos ajude a erradicar o instinto da caça do nosso espírito e que possamos recuperar parte da animalidade perdida, roubada por uma humanidade violenta, desumana. Aceitar, compreender e recuperar aspectos positivos de nossa natural condição de animais, de primatas que somos nos tornarão mais humanos. Paradoxalmente, só a consciência de nossa animalidade poderá desenvolver, alargar e fazer evoluir a nossa humanidade.

Sou professor de História, sei que nunca chegarei a ver isso, talvez nem mesmo em sonhos, mas ‘sonho’ com o dia em que os colegas do futuro, já não falarão de Júlio Cesar, Napoleão, Plácido de Castro ou Lampeão. A não ser como referências negativas que realmente são.

segunda-feira, 9 de julho de 2012

HISTORIOGRAFIA DAS RELAÇÕES CULTURAIS EURO-ACREANAS

(tradução de texto de aula)
Antonio Alexandre Bispo
(partes, sem notas e bibliografia)

O Acre adquire uma posição especial na história do Brasil, uma vez que o território pertence ao país apenas desde um século (abril de 1904). Ele é a última das regiões incorporadas à nação no decorrer do processo secular de expansão territorial da América de língua portuguesa. Segundo os tratados do tempo colonial (Tratado de Madri, 1750; Tratado de Santo Ildefonso, 1777), a região encontrava-se na parte da América Latina dominada pela Espanha e pertenceu, mais tarde, em parte aos territórios da Bolívia e do Peru (Tratado de Ayacucho, 1867).

No decorrer do século XIX, essa região foi penetrada por homens vindos de outras partes do Brasil através dos rios Madeira, Purús, Juruá, Tarauacá, Iaco, Acre e seus afluentes. Primeiramente, as florestas e os rios dessa região de delimitações inexatas foram exploradas por coletadores, pescadores e caçadores isolados. Entre eles, salientaram-se, entre outros, Francisco Manoel da Cruz e Flores Nicolau José de Oliveira, que alcançaram o Tarauacá já antes de 1847. Em meados do século XIX, as partes inferiores e depois as regiões superiores dos rios foram devassadas por pessoas encarregadas em trazer índios que viviam isolados para as aldeias. Entre 1847 e 1850, o Juruá foi explorado pelos irmãos Christovam e Antonio (ou José) Coelho, assim como pelo peruano Pedro José Sevalho, à procura de ovos de tartaruga e de óleo de copaíba. As atividades econômicas foram desenvolvidas sobretudo por comerciantes de Belém. A primeira exploração do Purús parece ter sido a de João Rodrigues Cametá, que viajou por esse rio em 1852 com objetivo de "pacificar" índios. No mesmo ano, também o Juruá foi corrido por Romão José de Oliveira, outro "pacificador" de índios dessa região. A segunda exploração do Purús foi realizada em nome do Govêrno do Amazonas pelo pernambucano Serafim Salgado, que subiu o rio até a desembocadura do Iaco. Manuel Urbano da Encarnação, de ascendência africana, foi o líder da terceira expedição, realizada em 1861, com o objetivo de encontrar um caminho à Bolívia para a importação de gado. Esse explorador teve a fama de ser aquele que melhor conhecia a região e é visto por alguns estudiosos como o verdadeiro explorador do Purús e descobridor da primeira árvore de caucho dessa região. João da Cunha Corrêa é considerado como sendo o "desbravador do Juruá", um rio pelo qual viajou entre 1857 e 1858. Em 1860, uma grande expedição de 12 barcos, com 100 pessoas, explorou o Juruá e seus afluentes durante nove meses à procura de salsaparilha (Smilax officinalis, Kunth), uma vez que a ocorrência dessa planta já se esgotara na parte inferior dos rios.

Para a ciência, o Acre foi descoberto em 1864/65 por William Chandless, que viajou pelo Purus e pelo Acre sob a égide da Sociedade Geográfica de Londres. Em 1867, explorou o Juruá. Em meados dos anos sessenta já estava encerrada essa primeira fase da investigação geográfica do Purús, do Acre e do Juruá. A partir de 1870, estabeleceu-se uma ligação fluvial regular com Manaus. Após 1872, Antonio Rodrigues Pereira Labre, do Maranhão, ganhou fama de "desbravador" da região dos rios Ituxi ou Iguiri, assim como de seus afluentes. Em fins da década de setenta, iniciou-se a exploração econômica regular das regiões das partes altas dos rios. João Gabriel de Carvalho e Mello, proveniente do Ceará, e que após uma estadia longa no Acre mandou vir a sua família e achegados do Nordeste, é considerado como sendo o pioneiro da "Marcha ao Oeste", que, com a sua "Caravana dos Imigrantes" (1878) iniciou a fase da vinda em massa de nordestinos para a região. Ele é visto como o organizador do primeiro seringal para a exploração econômica do látex, em Anajás, situado na região superior à Boca do Acre. Essa fase pioneira da colonização do Acre foi financiada em parte por um comerciante português acreditado em Belém, Elias José Nunes da Silva, Visconde de Santo Elias. Comerciantes portugueses desempenharam importante papel na história do Acre e tornaram-se muitas vezes proprietários de terrenos com árvores economicamente aproveitáveis.

A corrente imigratória intensificou-se na época da grande sêca no Nordeste, em 1877/78. Os nordestinos vinham para a Amazônia na expectativa de lucros rápidos e de trabalho, em grande parte independente, na coleta de castanhas naturais, sobretudo porém na exploração da borracha, então muito valorizada pela procura nos Estados Unidos e na Europa, esta incrementada no decorrer do desenvolvimento técnico e industrial do século XIX (desenvolvimento do processo de vulcanização em 1839, do automóvel em 1879 e dos pneumáticos em 1890). As ocorrências naturais de árvores de látex concentravam-se sobretudo nas partes altas dos rios da Amazônia, de modo que as regiões do Acre, ainda praticamente sem população, ofereciam as melhores perspectivas de ganho. De acordo com a distribuição natural das árvores, os imigrantes se localizavam em localidades dispersas, as "colocações", ou formavam povoados incipientes nas proximidades das barracas (taperis, mais tarde barracões) às margens dos rios. As condições de trabalho - as árvores encontravam-se espalhadas na floresta - favorecia a disperção dos imigrados e dificultava a formação de centros urbanos. Além do mais, os imigrantes procuravam, na sua maioria, enriquecimento rápido para um retorno tão rápido quanto possível ao Nordeste; não eram, na verdade, colonizadores no sentido próprio do termo.

Em 1887, viviam na região do rio Acre cerca de 10.000 pessoas sem procedência indígena ao lado de cerca de 20.000 índios. Uma nova corrente imigratória foi causada pela seca de 1888 no Nordeste do Brasil. No fim do século, a região do rio Aquiry contava com cerca de 80 seringais, no Purús havia 37 e no Yaco 28. Em 1902, a região do Juruá já teria ao redor de 300 ou 400 seringais. Essa situação gerou conflitos com índios, com bolivianos e peruanos, levando a tentativas de emancipação. Sobretudo a exploração da região da bacia do Juruá foi acompanhada por conflitos violentos entre índios e recém-chegados.

O General Thaumaturgo de Azevedo, que participou como representante do Brasil na comissão mista de demarcação de fronteiras de 1895, à vista da presença brasileira dominante nessa região, empenhou-se pela revisão dos tratados internacionais. A Bolívia criou postos alfandegários, proibiu, em 1899, atividades de contratados brasileiros na região e fundou a cidade de Puerto Alonso no rio Aquiry, onde praticamente apenas viviam brasileiros. Motivo de grande preocupação do lado brasileiro foi um plano boliviano de arrendamento da região do Acre aos Estados Unidos, plano este comunicado às autoridades do Amazonas por um colaborador da delegação diplomática da Bolívia em Belém e que também estava a serviço da Espanha, de nome Luiz Galvez Rodriguez de Arias. Como o Governo central do Brasil reconhecia os direitos da Bolívia, foi organizada uma expedição não-oficial, com a ajuda de empresas amazônicas, na sequência da qual proclamou-se a independência do Estado do Acre, em 14 de julho de 1899, sendo Galvez Rodriguez de Arias proclamado presidente. A situação escalou-se com o arrendamento do território a uma sociedade estrangeira com capitais norte-americanos e ingleses (Bolivian Syndicate).

Um gaúcho de formação militar, José Plácido de Castro, que chegara em 1899 no Acre, tornou-se, em 1902/03 líder de um movimento revolucionário armado dos brasileiros insatisfeitos da região. Para impedir um conflito militar entre o Brasil e a Bolívia, proclamou-se a independência do Estado. Em tratos diplomáticos entre o Brasil - representado pelo Barão do Rio Branco - e a Bolívia, chegou-se ao Tratado de Petrópolis, assinado no dia 17 de novembro de 1903, pelo qual o Acre passou a pertencer ao Brasil. Em 1904, constituiu-se o Território do Acre (lei 1181, de 25 de fevereiro); logo após (decreto 5188, de 7 de abril), o território foi dividido em três Departamentos, governados por prefeitos nomeados pelo Presidente do Brasil: o Alto-Acre (capital Rio Branco), o Alto-Juruá (capital Cruzeiro do Sul) e o Alto-Purús (capital Senna Madureira). Em 1912, o Departamento do Alto-Juruá foi subdividido, surgindo o Departamento do Alto-Tarauacá. Em 1920, criou-se o cargo de Governador de todo o território, também a ser nomeado pelo Presidente.

Os conflitos do Peru foram de diferente natureza daqueles do Acre com a Bolívia, cujas pretensões de posse eram reconhecidas pelo Governo brasileiro. A presença peruana na região do Juruá e do Purus intensificou-se em fins do século XIX, quando peruanos penetraram nas florestas à procura de árvores de caucho. Como essas árvores eram cortadas para que se coletasse o produto, esses peruanos não se fixaram na região. Para a proteção de seus interesses, o Peru enviou tropas militares ao Juruá, em 1902, e ao Purús, em 1903/1904. Houve conflitos com indígenas e com cidadãos brasileiros. Em 1909, assinou-se um pacto de neutralidade para a região do Juruá e do Purús, instalando-se uma comissão mista de demarcação. Euclides da Cunha e o Coronel Belarmino Mendonça representaram o Brasil nas comissões de demarcação; as fronteiras foram estabelecidas pelo tratado de 8 de setembro de 1909.

No início do século XX, o Acre adquiriu um significado extraordinário na economia do Brasil devido à procura internacional de borracha, o que durou até 1911. Era a região onde melhor se multiplicava a Hevea Braziliensis. Esse território chegou a estar em terceiro lugar no volume de exportação, logo após os importantes estados de São Paulo e Minas Gerais. Após 1912, com a repentina queda da procura e da produção da borracha, essa região entrou em decadência crítica por décadas, de forma ainda mais grave do que as demais regiões da Amazônia, o que marcou profundamente a história sócio-econômica e cultural do Acre de grande parte do século XX.

Do ponto de vista eclesiástico, a Prelatura livre do Acre e Purus, pertinente à província eclesiástica de Belém do Pará, foi criada em 1919, sendo entregue a Servitas italianos sob o patrocínio de S. Peregrinus Latiosus (Pellegrino Laziosi) OSM (1265-1345). O serviço pastoral, estruturado gradualmente, baseou-se em quatro centros paroquiais, dos quais se organizava o trabalho no território por meio de missões itinerantes.

Até hoje, o Estado do Acre vive do ponto de vista econômico sobretudo da castanha e da matéria prima da produção da borracha. Desde os anos setenta, procurou-se fomentar investimentos por parte de empreendedores do Sul e Sudeste do Brasil para projetos pecuários, com o apoio da Superintendência do Desenvolvimento da Amazônia. Na parte sudeste, em região de maior população do Estado, latifundiários e empresas adquiriram grandes propriedades, derrubaram as florestas e passaram a usar da terra como pasto. Com esse desenvolvimento, teve início um movimento emigratório crescente de pessoas que até então viviam dos produtos da floresta (coletadores de castanha e de caucho) para a capital Rio Branco e para as regiões da fronteira boliviana, onde hoje vivem cerca de 15.000 famílias de "brasivianos". A Bolívia foi levada a considerar como necessária para a segurança nacional a criação de uma nova unidade do país, administrada militarmente ("Pando"), em área do antigo Departamento El Beni. Como consequência dos graves problemas sociais e ecológicos desse desenvolvimento das últimas décadas, os atingidos - nativos e imigrantes que viviam da floresta - passaram a se organizar em movimentos de resistência, o que chamou a atenção internacional para o Acre. Francisco (Chico) Mendes, de renome internacional sobretudo após o seu assassinato, pleiteava o estabelecimento de reservas florestais naturais para os coletadores, o que, em parte, chegou a ser realizado. A discussão, no presente, não se reduz à procura da forma mais adequada de exploração econômica da floresta; ela é marcada por questões relativas à produção de energia nas regiões de fronteira, ou seja, das ocorrências recentemente descobertas de petróleo e gás na bacia do Juruá, no Amazonas, e à projetada construção de uma represa no rio Madeira.


* Texto originalmente publicado na Revista Brasil-Europa/Correspondência Euro-Brasileira.

sexta-feira, 6 de julho de 2012

HÉLIO MELO POR ELE MESMO

Hélio Melo é a sabedoria seringueira elevada a máxima potência. De jeito simples e de arte genial, deixou um dos acervos mais expressivos da arte acreana. Além disso, era escritor e músico.
“Eu, pelo menos, graças a Deus, peguei este apelido de artista.”
Hélio Melo

Mais sobre Hélio Melo

quinta-feira, 5 de julho de 2012

MEU SER BASTIÃO


Via Appia Antica

A moça, um tanto simpática, foi nos conduzindo por entre as catacumbas terra abaixo, enquanto o clima escaldante de Roma cedia lugar a uma temperatura enregelante, depois de uma longa caminhada pela estreita e milenar via Appia Antica. À medida que avançávamos por entre túneis estreitos e labirintosos, ela parava e nos assinalava uma ou outra tumba, acentuando a diferença conforme as condições sócio-econômicas de cada um, ou se era pagã ou cristã. Ainda estãos lá as lâmpadas que alumiavam as tumbas, as ânforas de azeite, as pinturas, os símbolos sobrevivendo às mãos esfaimadas do tempo.

Basílica de São Sebastião ad catacumbas.
A Basílica está erguida sobre as catacumbas.
Explicações para cá. Explicações para lá. Por mais que me agradassem, não era o ponto de vista histórico, nem arqueológico que me impulsionava naquele momento, e sim o da fé. Era a história de um soldado romano do II século que me atraía. Subimos uma pequena escada que dava para um salão mais amplo, porém sem nenhum ornamento. Sob um rústico altar, sustentado por quatro colunas, se encontrava um sarcófago de pedra. Na fadiga de quem já contou tal história centenas de vezes a centenas de peregrinos e turistas, a moça anunciou, sem muito entusiasmo, que ali estava os restos mortais do mártir Sebastião.

Num deslize da guia, pois é proibido, conseguir sacar esta fotografia, tendo ao fundo,
sob o altar, o sarcófago com os restos mortais do mártir Sebastião.

Não se sabe com precisão a história de São Sebastião. Também é difícil separar os fatos históricos das lendas, que, com o decorrer dos séculos, se propagaram. O certo é que desde cedo o local se tornou um ponto de convergência e peregrinação de inúmeros cristãos, e que se estende até os tempos hodiernos. São os mistérios da fé. Talvez kierkegaard tenha razão, a fé é um salto no escuro. É a coragem de se lançar, mesmo não tendo certeza alguma. E, paradoxalmente, nessa ausência de certeza racional é que consistiria a salvação.

Uma das flechas, segundo a Tradição,
utilizada no martírio de Sebastião.
Duramos pouco junto à tumba do santo que um dia fora traspassado por flechas por se confessar cristão. Continuamos a percorrer aquelas passagens estreitas e pálidas. Durante os primeiros séculos, o cristianismo era uma religião ilegal e perseguida. As frias catacumbas serviam como lugar seguro para os cristãos se reunirem e celebrarem. Aí nas paredes e em lascas de pedras estão inúmeros escritos desse tempo, sobretudo, referindo-se a Pedro e Paulo, cujas relíquias foram trazidas para essas catacumbas, por volta do ano 258, para serem protegidas da invasão dos sarracenos.

Catacumba é um termo cunhado a partir dessa tumba de São Sebastião ad catacumbas, tido como uma das tumbas mais conhecidas e visitadas de Roma. As catacumbas eram cemitérios subterrâneos utilizados pelos primeiros cristãos antes do Edito de Milão, a partir do qual o Império Romano se manteria neutro em relação ao credo religioso. Com a passar dos tempos catacumbas passou a designar todos os cemitérios cristãos subterrâneos. O aspecto rude e sem muita beleza no interior das tumbas vem da concepção cristã da vida eterna após a morte. Esta seria apenas uma passagem. A tumba servia apenas de descanso ao corpo, à matéria, sendo restabelecido e plenificado na ressurreição, a exemplo do próprio Cristo.

Minha admiração pelo mártir Sebastião se intensificou a partir de uma pequena comunidade católica encravada em plena selva amazônica. O seringal Capela, no Rio Muru, distante um dia de barco de Tarauacá, realiza a cada 20 de janeiro, anualmente, o novenário dedicado ao ex-soldado romano. Sobretudo nas últimas três noites o número de peregrinos dobra na pequena localidade. Nesse longínquo ermo, a milhares e milhares de quilômetros de onde vivera o santo, Sebastião revive no pensamento daquela gente simples, que talvez não saiba muita coisa dele. Aí acorrem não pelo santo em si, mas, em sentido mais profundo, por aquele anseio maior que reside no mais profundo de cada um, Deus.

A Igreja nos apresenta os santos como fonte de inspiração, um sinal de que a mensagem de Cristo pode ser vivida, apesar das fragilidades humanas, podendo estas também ser superadas. Atualmente vivemos uma inversão, em que a inspiração, no sentido ético, foi sobrepujada pela intercessão. Fazer milagre parece ser a única razão dos santos. Sendo que o verdadeiro milagre talvez se iniciasse com uma sincera mudança interior do nosso jeito de ser e de se relacionar com o que vemos e o que não vemos. Infelizmente abundam os vendedores do templo, os milagreiros, que barateiam a graça e a negociam como se Deus fosse um mero joguete ao nosso bel prazer. Por outro lado, os profetas escasseiam, enquanto padres-shows abundam entre plumas e paetês, a alimentar o povo com pão e circo, em vez de oferecer e propiciar o verdadeiro Pão da Vida.
Estátua em mármore de São Sebastião (1672), obra do escultor Giuseppe Giorgetti.
Basílica São Sebastião ad catacumbas.
Sou grato às pessoas do Seringal Capela, pois o meu rosto é semelhante ao delas. Sou grato ao mártir Sebastião. O homem antes do santo. O santo porque profundamente viveu sua humanidade. Humano é o que sou. Ser humano é o que me ensina Sebastião. Por me reconhecer plenamente humano é que o divino a mim começa a se desvelar. O amor de Deus nos vem não porque somos santos. O amor de Deus nos envolve porque antes somos humanos. A grandeza humana é reconhecer sua pequenez. Só quem é pequeno pode caber no coração de Deus.

quarta-feira, 4 de julho de 2012

A CULTURA DE UMA "MORAL" DA EGOLATRIA

PROFª. INÊS LACERDA ARAÚJO


Nossa época vê surgir um novo tipo de personalidade que pode ser analisado de um ponto de vista moral. E de que ponto de vista moral? Sugerimos um contraste com uma moral que propõe uma vida virtuosa no sentido do cultivo de hábitos moderados, como a ética de Aristóteles.

O que um executivo, um profissional hoje em geral cultiva, aprecia e valoriza?

Ele precisa ser empreendedor, seu corpo é seu ego, o estilo de vida depende de mostrar-se, construir um eu e fazer sua vida girar em torno desse ego, bastante inflado. O corpo precisa de músculos, vestir-se requer marcas, conviver exige espaços de prazer imediato, como bares e restaurantes da moda, shoppings e todo e qualquer lugar onde ele possa exibir suas conquistas. Pode ser um automóvel ou um objeto da mais recente tecnologia.

O respeito, o cuidado com relação aos outros, a bela e boa vida interior são deixados de lado. Coisa de fracos ou inferiores.

O ególatra aprecia e tem como objetivos apenas o que pode ser medido, calculado, ranqueado. Escalar degraus na empresa, sucesso profissional, viajar para mostrar para onde foi, aliás, mostrar-se é imperativo. E como é fácil, mil fotos, filmes, eu fiz isso ou aquilo, o menor gesto ou atitude é sempre o de uma conquista de si que é exposta diariamente nas redes sociais. Sua vida gira em torno de si mesmo, a "moral" da egolatria. Valores são todos os que levam ao crescimento ou engrandecimento de si mesmo. Foi publicado recentemente um livro chamado, pasmem, "A anatomia da liderança ética" (sic), auto-ajuda para ter sucesso.

Para que modéstia ou moderação? Para que sinceridade ou autenticidade? Para que desprendimento ou altruísmo?

Essas e outras capacidades como a coragem moral, a justa indignação, a busca da calma e da paz interior, não servem ao ególatra.

Ao passo que contar vantagem, a gabolice, as bravatas, vencer a qualquer preço, isso lhe serve. Por vezes precisa ser subserviente, ele curva a espinha se precisar. O que pode levar ao despeito, ao vazio, sempre insatisfeito, talvez mesmo infeliz.

Entretanto, é possível ser bem-sucedido no trabalho, ser uma boa pessoa na vida familiar, cultivar amizades e atingir certa plenitude e satisfação, mesmo em meios competitivos.

É uma questão de estilo de vida, de escolha de valores, de reflexão e moderação. Buscar o que é justo. Uma vida plena não pode ser medida, ela não cabe em escalas ou rankings.


* INÊS LACERDA ARAÚJO - filósofa, escritora e professora aposentada da UFPR e PUCPR.

terça-feira, 3 de julho de 2012

BRASILEIRO POR OPÇÃO- IX

JOSÉ AUGUSTO DE CASTRO E COSTA


Don José Paravicini após a abordagem ao vapor "Franklin", ainda prosseguiu subindo o rio Acre por mais uns três dias, chegando um pouco acima da volta da Empresa, onde travara conhecimento com Neutel Maia e Raimundo Sargento, precursores da notável jornada migratória brasileira, arrojados ao trabalho, com vistas a prosperar seus seringais.

A todos, a autoridade boliviana cientificara de seus propósitos e projetos, dando ênfase, sobremaneira, ao domínio da Bolívia na região acreana.

Razoavelmente satisfeito com a investida, D. Paravicini retorna à Puerto Alonso, para avaliar o andamento dos afazeres recomendados e concretizar a cobrança do imposto de exportação dos produtos retirados daquela área considerada boliviana, equivocamente por autoridades brasileiras.

É bom lembrar que os bolivianos não haviam esquecido de que o "Rio Tapajós" havia sido fretado da "Amazon Steam Navigation" ao valor de quarenta e cinco contos de réis, pelo período de um mês, acrescido de um conto e quinhentos réis por dia que excedesse ao prazo. O vapor "Rio Tapajós", conduzindo a comitiva de D. José Paravicini, havia zarpado de Belém na madrugada de 14 de dezembro de 1898 e o vencimento do frete estaria para ocorrer dentro de poucos dias. Do dia 14 de janeiro para adiante, o frete do "Rio Tapajós" correria por conta do acréscimo, avaliado em um conto e quinhentos réis, fato que poderia ser sanado com o dinheiro da exportação dos produtos acreanos.

Os bolivianos agradaram-se da aparência de Puerto Alonso, transformada em tão pouco tempo, destacando-se o adiantado estágio das primeiras construções de pequenas barracas na clareria aberta na floresta, deixando à vista uma extensa planície.

Instalado o posto alfandegário em Puerto Alonso, pode-se dizer que também instalados estavam os ânimos acirrados de brasileiros e bolivianos na área.

Desencalhado alguns dias depois, o vapor "Franklin" transpôs o porto de Puerto Alonso sem dar a menor atenção aos sinais do pessoal da alfândega, cometendo uma tremenda desobediência às formalidades e exigências das autoridades bolivianas, o que foi considerado um estupendo desacato e revoltante hostilidade.

Decididos a não se submeterem às novas ordens, o Superintendente da Vila Antimarí e o Juiz de Direito da Comarca manifestaram-se por escrito ao Comandante do "Rio Tapajós", solicitando melhores esclarecimentos sobre a exagerada e acintosa fiscalização dos que se diziam representantes do Governo da Bolivia. Intimavam a que o Comandante do "Rio Tapajós" levasse imediatamente ao conhecimento da comissão boliviana que as autoridades do Amazonas estavam firmemente resolvidas a fazer cessar o abuso que os bolivianos praticavam, e os certificassem de que deveriam, dentro de 24 horas, lhes fornecer provas que justificassem plenamente aquela norma de conduta, responsabilisando ao comandante do navio e à respectiva empresa, por tudo quanto pudesse ocorrer.

Como não obtiveram respostas conclusivas, porém dúbias, inconsequentes e preocupantes, o Superintendente e o Juiz tomaram por bem interpelar pessoalmente a Don José Paravicini, que os informou, em alto e bom tom, que não lhes devia satisfações, de vez que era um Plenipotenciário e só privava entendimentos de potência a potência.

Os brasileiros, por medida de prudência, retiraram-se de Puerto Alonso com destino ao Antimarí, donde o Superintendente designou, de imediato, o Secretário José de Carvalho para, em Manaus, expor, os que julgava serem sérios e preocupantes acontecimentos, ao Governador do Amazonas, solicitando providências.

A autoridade boliviana continuaria baseada em Puerto Alonso, representando seu país e tentando imprimir nova ordem administrativa, sob a inspiração das leis de sua nação.

Como reflete o binômio organização e método, gerador de um natural efeito administrativo, o exercício de D. Paravicini agradara a uns (principalmente bolivianos), mas desagradara grandemente a outros.

Observe-se que o desempenho de Don José Paravicini na região acreana prendia-se sobremaneira ao objetivo de cumprimento do dever em seu torrão patriótico. Tudo que se fizera seria para o bem da Bolívia. Por isso ele se dedicara, de corpo e alma, à construção de uma estrutura organizacional composta de um Governo a oferecer serviços administrativos, judiciários e econômicos, sem descuidar-se da proteção religiosa.

A conduta de D. Paravicini, talvez por exagerar no passionalismo patriótico, temperado com o propósito de firmar e ampliar o domínio da Bolívia com rígida severidade, revelando visível arrogância em ambiente brasileiro, começara a propagar-se de modo negativo em Manaus, repercutindo por todo o Brasil, veiculado pela imprensa amazonense e carioca.


Leia também:


* José Augusto de Castro e Costa é cronista e poeta acreano. Mora em Brasília e escreve o Blog FELICIDACRE.

segunda-feira, 2 de julho de 2012

BRINCANDO COM BARBIES

LEILA JALUL


Há dias que João Marcelo, cinco anos incompletos, andava pelos cantos da casa, dizendo não a tudo que lhe fosse oferecido. Nem o bolo de cenoura com cobertura de calda de achocolatado atraía a sua atenção. Nem o desenho animado do canal da TV a cabo e nem o petisco de requeijão cremoso. Desprezou, inclusive, as barras de chocolate pelas quais choramingava e batia os pés na seção de doces do supermercado. Estava cabisbaixo e inapetente de todo.

Preocupada, a mãe Diana não mais sabia o que fazer. Perguntado se estava com alguma dor, apenas balançava a cabeça apontando para a garganta.

Hora de acionar a pediatra. Exames laboratoriais e pesquisa na região das amígdalas, laringe e faringe não apontaram nenhuma anormalidade. Nenhuma infecção. Nada que pudesse gerar alardes. Do ponto de vista clínico estava normal. Ainda assim a “dor” continuava e o seu comportamento permaneceu inalterado.

Arredio, moleza no corpo e horas passadas no quarto em penumbra quase total, levou a mãe a procurar outro profissional para uma melhor inspeção.

Novos exames, alguns até assustadores para uma criança de menos de cinco anos, também foram realizados. Chegou-se a realizar uma tomografia e o diagnóstico descartou todos os temores da mãe e do médico.

E lá se foi João Marcelo para o divã. A dor na garganta passou para o peito. Assim foi revelado na primeira sessão com a profissional que, com todas as técnicas e jeitos, tentou penetrar na alma da pequena criatura.

Na sala da brinquedoteca, entre carrinhos, trens, quebra-cabeças, cartões, canetas coloridas e peças para montagens de casas, castelos e outros tipos de construção que, manipulados pela criança, poderiam revelar os motivos dos nós na garganta e opressão no peito do pequeno João Marcelo. Depois de hora de relógio, dando canseira à mãe, João Marcelo não esboçou qualquer reação. Parecia não se emocionar com nada que lhe fora apresentado e que mexeria com a emoção de qualquer outro menino da mesma idade.

Seis sessões seguidas e nenhum relatório conclusivo do abatimento. A psicóloga não arrancava nem palavras e nem a tristeza armazenada no semblante do pequeno. Até que um dia, brilhou a luz. Reação inesperada para a mãe; compreensão do busiles da questão para a profissional. Tudo esclarecido da forma mais simples possível e na própria sala da brinquedoteca.

Disposto a explorar outros brinquedos que não os disponibilizados pela psicóloga, João Marcelo avistou uma casa de bonecas, e nela, timidamente, entrou e de lá saiu com três bonecas Barbies nas mãos: Barbie noiva, Barbie havaiana e Barbie banhista, esta última com um chamativo biquíni “cavadão”.

Pronto! Questão esclarecida, embora não resolvida. Os caminhos, porém, estavam abertos. O fator preponderante que perturbava o menino tinha a ver com bonecas. Bonecas Barbies, principalmente. Os olhos dele brilharam enquanto esteve com três delas nas mãos.

Como primeira orientação da psicóloga, de imediato, a mãe deveria ir conversar com a professora de João Marcelo. A professora, por sua vez, deveria fazer perguntas aos coleguinhas para descobrir se algum deles queria falar sobre o amigo que havia tempo estava “dodoizinho” e não frequentava a escola.

Foto: Revista Crescer
Nada foi mais espontâneo que o depoimento de Matheus, também de cinco anos, que, falando a linguagem própria, mais ou menos assim declarou:

- Tia, os meninos não gostam do João Marcelo porque ele disse que adora a Barbie. Depois que ele falou isso, nenhum menino quis mais nem chegar perto dele. Lucas disse que o pai dele não queria que ele brincasse com o João porque “bichice” pega e quem ficasse com ele ia virar “boiola”. Também o Mário empurrou o João Marcelo e chamou ele de “bicha”.

Assim sabido, a conversa entre a psicóloga e a aflita mãe foi elucidativa, a ponto de serem ditas algumas verdades que ela não estava preparada para ouvir. Disse-lhe a psicóloga que, muito mais que João Marcelo, ela, sim, necessitava de apoio profissional.

Isso não é um conto, adianto. Antes fosse uma ficção. Fictícios, só os nomes.

O caso me foi relatado há pouco mais de dois meses. Não vou abordar o problema do bullying, nem citar tratados de questões genéticas, menos ainda falar da crueldade das crianças, principalmente quando essa virulência não é congênita. As crianças não nascem com ela correndo nas veias. É resultado de defeitos adquiridos. A crueldade está nos pais, passa para os filhos, circula livremente nas escolas, se estende aos amigos de bairro e faz morada na própria entidade familiar vista de forma mais alargada (tios, primos, etc.), até ferir de morte a mente de uma criança como João Marcelo, que só tem cinco anos e não pode ser responsabilizado pelas misérias e ignorâncias humanas. E quantos Joões, Josés e Marcelinhos existem por este mundo vil?

Culturas mais pobres que a nossa ignoram esse abominável tipo de preconceito. Até os índios, tidos como marginais, tratam melhor os seus curumins. A sociedade que se diz culta, a que tem acesso às mídias, burramente insiste em não atentar para questões que bem já deveriam estar assimiladas. O machismo que se quer manter ainda vivo é o maior causador dos sofrimentos a que estão submetidas mulheres e crianças.

A literatura sobre o assunto é farta. Na internet é vastíssima e de fácil leitura. E ainda melhor: é “de grátis”. Basta acessar e lá estão artigos e mais artigos sobre meninos que brincam com bonecas, o que se insiste em julgar uma perversão.

Tratar a homossexualidade como doença é coisa tão hedionda quanto o nazismo. Imaginar que a preferência por determinado tipo de brinquedo demarca e define a sexualidade de uma criança é crime sem perdão.

Menino que, em tenra idade, tem veneração pela boneca de belo corpo, belo rosto, belas roupas, cultuada em várias partes do mundo e que atende pelo nome de Barbie, ao contrário do que imaginam os pais, pode ser uma demonstração de gosto pela beleza da mulher e não uma pura vontade de ser uma delas ou semelhante a elas. Os mistérios e as belezas do mundo lúdico de uma criança não devem e nem podem ser medidos de forma tão grotesca e errônea.

Conheço mães de seis, sete, oito filhos, de origem humilíssima, que não se desencantam ou se assombram com o fato de um moleque de 10, 12 anos que, na brincadeira com irmãos e irmãs, se traveste com roupas e sapatos de salto tirados do seu guarda-roupas. Também conheço gente que ostenta anel de doutor e que se apavora e se torna agressivo quando seu casal de crianças brinca com os brinquedos um do outro, como se bolas e bonecas fossem definidoras de sexualidade, ou seja, bola é coisa de macho e boneca é coisa de meninas e de promessas de “boiolas”.

Uma particularidade é bem evidente: meninas que gostam de bola e até se arriscam a jogar futebol, de um modo geral não são vistas como candidatas a serem lésbicas. Não necessariamente serão “sapatonas”. A intolerância recai, infeliz e quase que exclusivamente, sobre meninos que gostam da Barbie ou de outra boneca qualquer, seja a Moranguinho, seja a Suzy e assemelhadas.

Não cabe mais viver nessa escuridão. Um mínimo de amor não será gasto em vão para entender que a sexualidade é direito personalíssimo, sagrado e intrasferível. Desde a infância, inclusive, quando a criança já tiver mais percepção do seu corpo e dos seus desejos. É responsabilidade do pai e da mãe situar filhas e filhos no mundo e lutar pelos direitos deles à felicidade, ainda que desafiando os padrões de gênero, caminho nada fácil numa sociedade em que o gênero é limitadamente binário: masculino e feminino.

O caso do João Marcelo foi decidido de forma simplista e criminosa. Ele foi transferido para outro estabelecimento e levou consigo o gosto pela boneca Barbie, seja ela noiva, havaiana ou banhista de biquíni “cavadão”. Deve ter angariado novos coleguinhas e, com toda certeza do mundo, foi terminantemente proibido a, na escola, ou fora dela, jamais dizer do encanto que sente por ela. No momento ele foi sumariamente trancafiado num armário, quem sabe homofóbico! Não se pode afirmar, no entanto, é se os apertos em sua garganta e em seu peito desaparecerão. Também não se pode afirmar se ele sairá do armário e nem como.

Dirá o tempo. No momento ele tem apenas cinco anos. É um anjo. E pouco sabe de sexo. E de maldade...

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Nota da autora:
Expresso minha admiração e agradeço as orientações que me foram enviadas pela Dra. Fátima Oliveira para a elaboração deste artigo.