terça-feira, 10 de julho de 2012

A GUERRA DENTRO DE NÓS

LUIZ FELIPE JARDIM


Não somos assassinos. Somos primatas. Somos das árvores. Não somos naturalmente do chão. A natureza fez a nossos antepassados adaptando-os, anatômica e fisiologicamente, para viverem nas árvores, alimentando-se de frutas, folhas, insetos. Carne, só alguma ou outra vez.

Assassinos são os lobos, os felinos, os ursos. Esses foram talhados para matar. Foram feitos com especializações para predar, matar e se alimentar de outros animais.

Nós, ao contrário, éramos presas, mesmo que eventuais, já que tínhamos a boa proteção das copas.

Nas árvores desenvolvemos nossa visão binária o que nos dá bom senso de profundidade e distância; desenvolvemos boa percepção das cores, um pressuposto para diferenciar folhas e frutos, bem como as etapas de amadurecimento das frutas; desenvolvemos nosso gosto e nossa predileção pelo doce que as frutas contêm. Fizemo-nos ágeis, sociáveis e de grande movimentação e mobilidade.

Durante muito tempo vivemos numa espécie de paraíso, onde pudemos nos desenvolver qualitativa e quantitativamente.

Qualidades e quantidade necessárias para sobrevivermos ao que viria.

Por algum motivo, ou combinação de motivos, o paraíso acabou. Alterações climáticas significativas, provavelmente, acabaram com as árvores onde vivíamos e com elas nossa fonte de alimento. Fomos expulsos do paraíso no qual nos desenvolvemos durante milhões de anos e para o qual estávamos perfeitamente adaptados. Das árvores, caímos numa terra hostil. Num inferno dominado pelos assassinos de savana. Os grandes caçadores: leões, leopardos...  cães, com os quais teríamos que competir.

Tivemos que nos fazer bípedes. Ou nos fazíamos assim, ou desapareceríamos. E assim fizemos. Pusemo-nos em pé. A princípio não foi nada fácil, mas pagando um mico aqui, (para diversão e delícia dos predadores) e outro acolá, acabamos por nos fazer hábeis em caminhadas, em longas caminhadas e até em corridas.

Como as frutas e tubérculos já não existiam na quantidade que precisávamos, tivemos que comer carne. A princípio, restos de carne abandonadas por outros animais, carniça.

Depois tivemos que matar com mais frequência. Ou fazíamos isso ou desapareceríamos. E assim fizemos. Tornamo-nos assassinos.

Cossacos Atacados pela Guarda Real
Edouard Detaille
Diferentemente dos grandes predadores, que têm essa característica de maneira inata, nós precisamos desenvolver artificialmente as habilidades para matar. Como primatas, temos significativas doses de agressividade, e demonstramos isso, até com certa frequência, em frequentes disputas, em algumas ou outras escaramuças, mas quase sempre do tipo “muito trovão para pouca chuva’’. Nada que se compare à agressividade dos animais naturalmente violentos. Além disso, não temos as garras e nem os dentes que têm os especialistas para trucidar suas presas. Para superar essas deficiências, criamos garras artificiais e fizemos facas, machados e lanças. Não temos a velocidade de um veado, mas se usamos nossa força para dar a uma lança força e velocidade, podemos surpreendê-lo e abatê-lo. Para isso tivemos que plantar, cultivar e fazer crescer dentro de nós, num longo processo de hominização e humanização, um sentido que os primatas não têm tão desenvolvido: o senso de cooperação. Isso fez-nos mais eficientes, mais hábeis para a caça, e nos deu um sentido de grupo, de união e dependência mútua que, além de ampliar ainda mais nosso talento para a caça, tornou-o uma vocação, uma inclinação natural da humanidade e dos humanos em que nos fazíamos. Talento e vocação se uniram em nós e nos tornamos poderosos matadores.

Quando aprendemos a controlar o fogo, fizemos uma grande revolução: apropriamo-nos do movimento mecânico, objetivo e o transformamos em calor.  Apropriamo-nos da realidade objetiva e invisível e a transformamos em luz. Luz e calor sob o nosso controle. Isso nos trouxe enormes transformações físicas e culturais. Por exemplo: ao ingerirmos carne já ‘meio que digerida’ quando a comemos assada ou cozida, tornamos desnecessário o enorme estômago que tínhamos e nos desfizemos da parte que já não necessitávamos do nosso aparelho digestivo; diminuímos significativamente nossa mobilidade no espaço; ampliamos o tamanho de nosso cérebro e capacidades e habilidades manuais.

O controle sobre o fogo tornava-nos mais protegidos contras os predadores diurnos e noturnos como os dentes de sabre e os leopardos que estiveram sempre em nosso encalço e dizimaram milhares e milhares de clãs de hominídeos e humanos ao longo dos milhões de anos da nossa pré-história. O fogo nos proporcionava uma claridade adicional às noites ampliando as possibilidades de sociabilização, aprimoramentos da linguagem, transmissão de informações e conhecimentos em espaços relativamente seguros. Coisa impensável pouco antes. Por destruir grande parte dos germes presentes nas carnes, tivemos diminuídas em grande número a mortalidade e enfermidades ligadas à ingestão de carne crua.

Não somos naturalmente assassinos. Fizemo-nos assassinos.  A necessidade urgente de nos tornarmos caçadores, aliados a algumas características próprias, como um grande cérebro, a rotação do polegar e a capacidade preênsil das mãos daí advinda, deu aos nossos ancestrais uma fúria assassina que os fizeram superar os especialistas na ‘arte’ de abater outros animais. Em pouco mais de um milhão de anos nos fizemos assassinos mais hábeis do que os assassinos especialistas que levaram milhões e milhões de anos sendo aperfeiçoados pela natureza para a predação. Em consequência, tivemos garantidos não só a reprodução da humanidade como o permanente aperfeiçoamento de qualidades inatas e adquiridas. Não voltamos ao paraíso, mas nos adaptamos ao inferno onde caímos das árvores e nele instalávamos nosso reino e reinado.

A Liberdade Guiando o Povo
Eugène Delacroix
Mas as transformações que nos garantiram tais conquistas evolutivas nos trouxeram sérios problemas também. Ao nos fazermos primatas de rapina, lobos inteligentes, compulsivos perseguidores de presas - mesmo as simbólicas que se desenvolviam paralelamente, como as brincadeiras infantis ou os jogos de adultos - permitimos à nossa espécie fazer da nossa espécie também presa. Inauguramos a guerra. Instauramos, no inferno em que já vivíamos um novo tipo de relação entre sociedades da mesma espécie baseada na truculência, na violência, como se de outra espécie fosse. A guerra. Ao compensarmos, com nossa inteligência, nossas deficiências como caçadores desenvolvemos eficientes métodos de ensino/aprendizagem. E nos ensinamos e aprendemos a ser cruéis com nossos inimigos. Sejam animais de outras espécies, sejam hominídeos ou humanos. A guerra é a face mais sombria e cruel do instinto humano da caça. No inferno nos fizemos senhores dos felinos e dos cães que o dominavam.

Quando o ser humano se transforma em caça e o caçador é o próprio animal humano, a selvageria não tem limites. A vítima se transforma em ser de outra espécie e deve, por isso, ser aniquilada. Os que dizem que a humanidade é naturalmente pacífica, mansa, estão redondamente enganados. Somos caçadores, temos instinto de caçadores e estamos sempre no encalço de alguma coisa, caçando. Mesmo as inocentes brincadeiras infantis são, na sua maioria, treinamentos e aperfeiçoamentos do instinto da caça. Esconde-esconde, manja, barra, bandeirinha envolvem elementos fundamentais da caça: definição do alvo, perseguição, captura e premiação. Neotênico, o animal humano levou para a vida adulta a diversão proporcionada pelos jogos infantis e criou os esportes com os quais se diverte com ‘caças simbólicas’. Atualmente o futebol é um dos mais poderosos substitutivos da caça propriamente dita. Esse atributo de satisfazer parte de seu instinto de caça com substitutivos simbólicos, como jogos, brincadeiras e outras atividades sociais que inventamos com tal propósito, atenua os efeitos profundamente nocivos que a não satisfação do instinto nos provocam, diluindo parte considerável das necessidades instintivas. Mas não é suficiente para nos fazer dóceis, mansos, não violentos. Ao nos fazermos humanos, fizemo-nos assim: caçadores, guerreiros.

Para que a espécie não perecesse diante de tamanha agressividade e violência, teve que desenvolver poderosos inibidores do instinto.  Posturas de submissão, como aquelas em que nos prostramos diante de um superior hierárquico; fortes sentimentos como lealdade, fidelidade e outras mais. No entanto, o mais importante inibidor é o espaço político. Este é, por natureza, um espaço de representação dos interesses divergentes, contraditórios ou antagônicos. Um espaço onde aquele que pretende manifesta e defende sua pretensão, e onde aquele que resiste à pretensão manifesta e defende os seus interesses. Naturalmente que um ou mais interesses acabarão por se impor aos demais. Mas de um modo humano e ‘civilizado’ evita-se o combate físico e mortal. A palavra combate tem origem na idéia de ‘lutar consigo mesmo’. Assim faz a nossa humanidade.

A guerra não existe somente ‘lá fora’. Está dentro de nós. Internalizada de tal maneira, que nos tornamos indiferentes aos que estão sofrendo as suas consequências neste momento. No Sudão, Afeganistão, Chade, Síria, milhões de seres humanos estão sendo massacrados, humilhados, violados, estão vivendo ‘vida de cão’ e, embora saibamos disso não nos indignamos ou não temos suficiente indignação para nos rebelarmos. O ‘treinamento’ que fazemos para sermos sempre bons caçadores - mesmo que simbólicos, como com a perseguição do sucesso profissional, a perseguição ao diploma acadêmico ou aos eleitores - cria uma capa de indiferença que neutraliza os sentimentos de piedade, a não ser que envolvam nossos interesses pessoais ou nacionais.
Guernica (1937) - Pablo Picasso
Estamos treinados e preparados pelo nosso espírito de humanidade a não acabarmos com as guerras. Mas a aceitá-las e a reproduzi-las. Guerra é Guerra. Guerra é História. Guerra é Cultura.

Dissemos acima que, quando controlamos o fogo, fizemos uma grande revolução: transformamos o movimento mecânico em calor. Essa revolução nos trouxe inúmeras transformações tanto físicas como culturais.

Meio milhão de anos depois, fizemos o movimento inverso, fizemos uma nova revolução: transformamos o calor em movimento mecânico. Inventamos o ‘movimento a vapor’. Somente se passaram duzentos anos desde então, mas as marcas dessa revolução já se fazem presentes: altíssimo desenvolvimento tecnológico; destruição do vírus da varíola; criação de potentes antibióticos; carro, aviões, foguetes, pouso na lua; etc. etc. Mas a guerra continua. Dentro de nós.

A minha esperança (que, aliás, é um poderoso atributo do bom caçador - no Acre chamamos de ‘espera’ a modalidade de caça em que o caçador aguarda longa e pacientemente sua presa) é que, assim como o controle sobre o fogo contribuiu para fixarmos o instinto de caçador no instinto do espírito da humanidade, essa nova revolução iniciada há poucos duzentos anos, nos ajude a erradicar o instinto da caça do nosso espírito e que possamos recuperar parte da animalidade perdida, roubada por uma humanidade violenta, desumana. Aceitar, compreender e recuperar aspectos positivos de nossa natural condição de animais, de primatas que somos nos tornarão mais humanos. Paradoxalmente, só a consciência de nossa animalidade poderá desenvolver, alargar e fazer evoluir a nossa humanidade.

Sou professor de História, sei que nunca chegarei a ver isso, talvez nem mesmo em sonhos, mas ‘sonho’ com o dia em que os colegas do futuro, já não falarão de Júlio Cesar, Napoleão, Plácido de Castro ou Lampeão. A não ser como referências negativas que realmente são.
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