sexta-feira, 13 de julho de 2012

BRASILEIRO POR OPÇÃO – X

JOSÉ AUGUSTO DE CASTRO E COSTA


Don José Paravicini estava à frente da administração do Alto Acre há três meses quando, de repente, rebenta um tumulto revolucionário na Bolívia, sob o comando do general Pando, em oposição ao Presidente Don Severo Alonso.

Na qualidade de funcionário público, ocupante do cargo de Ministro Plenipotenciário da Bolívia, Don Paravicini tomara a providencial atitude de reassumir seu posto na capital brasileira, onde ficaria aguardando o desenrolar das medidas adotadas pelo novo governo boliviano.

Em Puerto Alonso, assumiria a função de delegado-substituto Don Moisés Santivañez, titular do cargo de Cônsul em Belém do Pará.

O General Don José Manuel Pando é justamente aquele militar boliviano que por volta de 1894, após uma tentativa de golpe contra seu governo, refugiou-se no rio Beni, atingindo o Acre, de onde testemunhara o sucesso extrativista brasileiro.

Ao assumir as atividades em Puerto Alonso, Don Moisés Santivañez encontraria a seu serviço, deixado por Don Paravicini, um armazém bem provido de mercadorias, uma serraria manual, grande quantidade de ferramentas, móveis e utensílios, material de expediente e mais de quarenta barracas construídas.

Enquanto a Bolívia respirava, sufocada, nova atmosfera política, com alteração de  comandos, transformação de gabinetes e transição de encargos, em Manaus os ânimos dos brasileiros aqueciam-se e alastravam-se, alimentados pelo combustível inflamado e lançado por José  Carvalho, transformando a imprensa brasileira num porta-voz  dos periódicos amazônicos, que transcrevia artigos, notícias e comentários sobre o que ocorria de negativo no Acre.

As representações políticas do Amazonas e do Pará levam ao conhecimento do Congresso Nacional e da Presidência da República os sentimentos de um povo em uma demanda, na qual se acham envolvidos não apenas os dois estados, mas a integridade do território brasileiro – a alma de uma nação.

O espírito de rebeldia dos brasileiros inconformados estava realmente bastante inflamado, tomado por uma espécie de paixão, ardente.

As autoridades bolivianas, ao tomar ciência das manifestações dos brasileiros, passaram a argumentar, em correspondência ao governo brasileiro, acusando a imprensa amazonense de jornalismo exacerbado, tendencioso e agressivo.

Os fatos intensificavam-se e ardiam em progressão geométrica acerca da problemática acreana, focalizado na suposta invasão boliviana.

Entretanto, apenas os que se aproximavam do fogo poderiam sentir sua veemência e teriam a percepção de que, a qualquer momento, uma séria refrega poderia ocorrer.

Em Puerto Alonso, o gabinete de Don Moisés Santivañez, buscava desarmar o espírito de rebeldia, insinuando-lhe maus pressentimentos.

Esse espírito de obstinação de um grupo de discordantes, inconformados e inflamados, sob a coordenação do advogado José Carvalho, que acabara de regressar de Manaus, deu início a um movimento que viria perturbar o ânimo em Puerto Alonso.

Desde a noite de 30 de dezembro de 1898, no barracão da Intendência da Vila do Antimarí, que o bisneto da heroína da revolução pernambucana, estupefato, estranhara, espantara-se e incomodara-se com a invasão boliviana, vindo a debruçar-se diuturnamente sobre meios de combatê-la. Nasce, de José Carvalho, a primeira insurreição acreana.

Esse jovem cearense, era mais um exemplo de tantos outros nordestinos, que por uma razão ou por outra, costumavam, no final do século XIX, depois de formados,  tomar a decisão de realizar seus  desejos de conhecer o Amazonas e o Acre, que tanto seduziam seus espíritos aventureiros.

Após vencer, pesarosos, amistosas oposições, embarcavam em algum vapor e, a poucos dias de viagem, estavam penetrando na imensa planura de matas gigantescas, sob o equador, onde o sol desce verticalmente para o ocaso, e a ausência de horizonte e de crepúsculo causa uma impressão que jamais será esquecida.

Para a região acreana seguiram outros jovens das mais diversas profissões, como Dr. Acauã Ribeiro, Martinho Rodrigues, Francisco Mangabeira (autor da letra do Hino Acreano) e muitos e muitos outros jovens que, verdadeiramente, sentiam arder o patriotismo no coração, que não sujeitavam-se ao domínio estrangeiro no solo pátrio, que como tal haviam descoberto e desbravado – é bom frisar!

Acendendo, então o facho da insurreição, o advogado cearense partiu do seringal Caquetá, de Joaquim Victor da Silva, numa canoa com oito homens, saltou, duas horas depois em Puerto Alonso e intimou, em nome do povo acreano, o Cônsul Moisés Santivañez a abandonar o Acre e embarcar com todos os bolivianos, cerca de cinquenta, no vapor “Botelho”, ali esperado, a qualquer momento com destino a Manaus.

Houve um princípio de discussão áspera, com rebates ríspidos de ambas as partes, que durou alguns minutos. O jovem advogado concluiu seus argumentos fazendo ver que, não estando as demarcações devidamente aprovadas, pelos poderes competentes de ambos os países, e, sobretudo, sendo brasileiro o utis possidetis, aqueles acreanos não reconheciam legal o governo da Bolívia no Acre.

No dia seguinte, a 1° de maio de 1899, José Carvalho voltaria com trinta homens para receber a rendição, sem resistência, da praça fortificada, donde foi arreada a bandeira boliviana, perante o majestoso silêncio dos brasileiros, em respeito à tristeza dos vencidos.

Todavia, prestigiados pelo governo do Brasil, voltariam depois os bolivianos a ocupar o Acre, dando lugar a uma série de revoltas de seus habitantes, que optavam para continuar brasileiros. A única opção seria tornar aquele torrão brasileiro!

Essa heroica e desamparada resistência, inflamou por fim a sensibilidade patriótica em todo o Brasil.


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* José Augusto de Castro e Costa é cronista e poeta acreano. Mora em Brasília e escreve o Blog FELICIDACRE.
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