segunda-feira, 16 de julho de 2012

A MONTANHA DOS VENTOS

LUIZ FELIPE JARDIM


Everdingen - Alegoria do nascimento
de Frederik Hendrik
Esta história do general e suas canções, existe a pouco mais de dois mil anos. Tem origem na Magna Grécia e foi muito popular na região da Anatólia no período posterior a Alexandre Magno. É, portanto, do tempo do florescimento do estoicismo e do maniqueísmo, e de ambos, contraditoriamente, contém alguns elementos.

Como já foi contada pelo menos três trilhões de vezes, nesses dois mil anos, e nas mais diversas línguas faladas e mudas, escritas e apagadas, acrescento aqui o seu trilionésimo primeiro ponto de quem conta um conto. Ressaltando, porém que pelo fato de eu havê-la escutado uma única vez e quando tinha 16 anos de idade, qualquer semelhança com a original é, aliás, seria verdadeiramente espantosa coincidência...


A MONTANHA DOS VENTOS...


...Era uma vez um soldado. Mais que isso: um grande soldado. Um soldado vencedor. Havia vencido em dezenas de batalhas. Havia matado dezenas e dezenas de pessoas. Havia feito sofrer a milhares de pessoas por onde passara. Era um grande soldado vencedor.

Por ser um grande soldado, fez-se general. Mais que isso: um grande general. Um general vencedor. Por ter bem mais poder como general, matou muito mais dezenas e dezenas de pessoas. Fez sofrer milhares e milhares mais.  Era um grande general vencedor.

Albert Bierstadt - Na Montanha
Certo dia, ao pé de uma montanha muito alta, em um lugar que fora palco de muitas batalhas entre exércitos rivais e que agora era um campo desolado, estéril, quase sem vida, ele encontrou um homem já de bastante idade a quem pediu um pouco de água. O ancião atendeu-o com delicadeza e naturalidade, mas não o reconheceu e não o reverenciou.

O General, já ficando irado, perguntou-o se não o reconhecia.

O ancião disse, então: "O que fez você de bom para ser reconhecido pelas pessoas"?

O general surpreendeu-se com o atrevimento do velinho, mas, orgulhoso, começou a enumerar as coisas boas que já havia feito. Matara tantas pessoas naquela batalha. Decapitara tantas outras naquela outra. Havia destruído pontes, casas, animais etc. etc.

Por fim perguntou se o ancião já o reconhecia.

Ao que o velhinho respondeu: "Me diga o que você fez de bom para ser reconhecido pelas pessoas".

O general chegou a pegar no cabo da espada que tinha sempre consigo, tal foi seu espanto com a ousadia daquele homem magro que o interpelava daquela maneira.

Mas, numa atitude rara, o general conteve-se e recomeçou a narrar seus grandes feitos. Falou de mais e mais mortes. De mais e maiores sofrimentos. De decapitações, esquartejamentos, mutilações, orfandade, demências de toda sorte... Falou da guerra e dos guerreiros dentre os quais ele era o maior. Falou durante muito tempo, muitas horas, quase um dia. Por fim convencido de que sim, perguntou ao velho se já o reconhecia.

O velinho respondeu: "Me diga o que de bom você fez para ser reconhecido pelas pessoas".

O general ardeu em fúria. Quase, quase o velinho era mais uma vítima dos seus grandes feitos. Mas, numa atitude ainda mais rara e surpreendente, o general conteve o golpe de espada que já tocava a garganta o ancião.

Na noite desse dia ele não conseguiu dormir bem. Nem na noite seguinte, nem nas demais, nem em muitas e muitas noites desde aquele dia. Mal começava a dormir e o velinho lhe aparecia em sonhos e reafirmava a pergunta. Ele narrava seus feitos, mas nunca encontrava algo de bom que houvesse feito para dizer e convencer ao velinho.

O general foi aos poucos compreendendo toda a maldade que havia protagonizado em toda a sua vida. Percebeu que só havia cultivado e disseminado ódio pelo mundo em que estivera.

Abatido, mas como grande homem que era resolveu abandonar os exércitos onde sempre vivera desde que, órfão de pai e mãe perdidos em guerras, fora adotado por guerreiros do seu clã. Suas costas lhe doeram quando se fecharam atrás de si os portões da sua vida de guerras.

Queria se redimir. Queria compensar com o bem o mal que já houvera feito. Tinha agora trinta anos, queria poder viver outros tantos para equilibrar a balança da equidade.

Jan Asselyn - O Cisne Ameaçador
Soube, então que no alto da montanha daquele deserto em que um dia encontrou o ousado ancião, havia um mosteiro. Soube que nele habitava um grande monge. O mais sábio que jamais existira. Esse sábio, que conhecia a linguagem dos pássaros e a vontade das plantas; que conhecia o sentimento dos peixes, que dava conselhos ao tempo e apaziguava os tormentos dos ventos que em sua montanha nasciam por certo se sensibilizaria com sua história e lhe ensinaria como se redimir dos seus feitos.

Resolveu ir ao templo, lá no alto da mais alta montanha da região. Foram dias difíceis. Mesmo para ele que tinha vigor de guerreiro subir a montanha não era fácil. Dias e dias mal alimentado, mal dormido, acossado por insetos, quase sem água... Até que, já quase se entregando ao abandono, viu-se diante do templo.

Recebido por monges, num enorme pátio onde houvera dado, bebeu, alimentou-se e contou sua história e o porquê de estar ali. Queria ser recebido e aconselhado pelo Grande Monge.

Mas isso também não era fácil. Ninguém ‘falava’ com o Grande Monge. Ele sim, é que falava com as pessoas. Ele é que sabia o momento certo de olhá-las, ou não. Havia monges que há anos esperavam por um simples olhar que ainda não acontecera. Falar com ele então!!! Havia que se ter paciência. Deixar o Grande Mestre escolher o momento certo para as coisas certas.

Ficou decidido que o ex-soldado, todas as manhãs varreria uma ampla sala por onde todas as manhãs, o Grande Monge passava ao ir para o seu salão. Assim, todos os dias ambos poderiam ser vistos. Após a passagem do Mestre o ex-soldado deveria varrer e manter limpo o enorme pátio por onde houvera chegado ao templo.

Na manhã seguinte, antes do nascer do sol, lá estava o ex-general varrendo a sala antes da passagem do Mestre, que logo depois apareceu com sua comitiva. O general pode então vê-lo. Nunca houvera visto uma pessoa assim, com tanta luz, com tanta paz, com tanta bondade... O mestre, por sua vez, sem parar, dirigiu-lhe um breve olhar, um leve sorriso e seguiu para seu salão.

Enquanto varria o pátio, monges comentavam que raramente acontecera de o Mestre olhar para alguém em tão pouco tempo, e muito menos olhar sorrindo. Só pessoas muito especiais, de grandes feitos houveram tido tal merecimento.

Na manhã seguinte, antes do nascer do sol lá estava o ex-general varrendo a sala antes da passagem do Mestre que nesse dia não lhe dirigiu olhar. Nem nesse dia nem nos seguintes.

Mas, em todos os dias, e nos seguintes, lá estava o ex-soldado varrendo a sala e o pátio. Humilde e serenamente.

Como a vida é curta, mas os dias são longos, e as tarefas do seu dia-a-dia também o eram, foi preenchendo os dias cantando canções enquanto trabalhava. Como conhecia muito poucas, começou a criar canções para ter o que cantar. As músicas que cantava falavam de um lugar que ele ia povoando de imaginações a cada dia. Num dia pessoas chegaram ali. Em outros dias construíram habitações e uma aldeia. Em outros fizeram plantações, e plantaram alimentos, jardins e bosques. Todos os dias, enquanto varria o pátio cantava essas canções que eram diferentes a cada dia, pois a cada dia acrescentava imagens novas à paisagem de sons que construía. A cada dia desenhava, na tela imaginária em que tecia, as paisagens sonoras que animavam o seu canto nas longas passagens dos dias.

E assim se passaram dias e dias. Anos e anos. O lugar imaginário de que falavam as canções já nem era mais uma aldeia, nem uma vila. Era, já, uma grande cidade. Todos os dias ele houvera varrido a sala antes da passagem do Mestre ao nascer do sol. Houvera humildemente retirado cada granito de pó que pudesse haver e ver dentro da sala, mas nunca, em mais de dez mil dias o Mestre sequer lhe olhou. Nem lhe sorriu. Nem lhe falou.

Trinta anos haviam se passado desde que ali chegara. Num arroubo resolveu ir embora. Percebeu que houvera perdido muito tempo. Que o Mestre jamais falaria com ele. Que tudo fora em vão. Que nada aprendera do que fazer para reparar o mal que fizera outrora.

Largou a vassoura no pátio, e sem despedidas se pôs a descer a montanha. Foi-se embora.

Não foi fácil. Dias e dias de fome, de sono, de frio... Até que, ao pé da montanha caiu desfalecido.

Acordou-se em uma sala ampla, clara, cheirosa. Estava em um hospital. Muito diferente dos hospitais de campo de batalha que conhecia. Nesse havia luz.

Um médico veio até ele, falou-lhe de sua debilidade, e disse-lhe que em pouco tempo estaria recuperado.

Everdingen - As Quatro Musas e Pegasus
Em pouco tempo, enquanto se despedia, perguntou a uma paciente, de quem se fizera amigo, onde ficava exatamente aquele lugar. A amiga respondeu que ali era o antigo deserto que havia ao pé da grande montanha. Contou que seu povo sofrera muito com as muitas guerras que aconteciam naquela região. Até que um dia, o vento que nascia das montanhas começou a soprar canções. As canções, que o vento lhes soprava, e que troavam no deserto, eram canções simples, envolventes que diziam coisas simples a serem feitas: onde construir casas; onde encontrar e como cuidar da boa água; como fazer nascerem e crescerem plantas e bosques; como encontrar alento para as tristezas; como compreender detalhes de um gesto amigo.  Primeiro as crianças, depois os mais velhos, logo todos passaram a cantar e a experimentar fazer o que diziam as canções que o vento cantava ao soprar.

As pessoas ficaram mais ternas, tolerantes, alegres, amigas, boas. A cidade foi se fazendo com as formas e fisionomia que as canções do vento mostravam e as pessoas se fizeram mais criativas.  Por isso a cidade era assim acolhedora e bela. E por isso nela havia claridade, árvores, pássaros, alimentos, felicidade e vida em todos e em tudo. Disse também que todos estavam agora apreensivos. Depois de trinta anos o vento parou de soprar as canções. Todos estavam sem entender, e por isso preocupados. Não por dependência do que diziam as canções, afinal, todos sabiam e faziam o que deviam saber e fazer para serem felizes juntos, mas pela saudade que sentiam de cantar com o vento. De cantar com o vento e dizer da alegria de serem os amigos que eram e que sabiam ser.

O ex-soldado despediu-se da amiga e passeou pela cidade. Não precisava de guia, conhecia cada cantinho daquele lugar, cada uma das ruas; cada uma das casas; cada uma das plantas e cada detalhe de suas flores. Viu que reconhecia os rostos das crianças e dos jovens e que todos o olhavam como se muito íntimo de todos fosse. Todos os que o olhavam, tinham marcados no semblante aquele mesmo sorriso que um dia o Grande Mestre tinha no rosto quando para ele olhou uma única vez.

Olhou com orgulho para as ruas, para as construções, para as árvores e animais, para as pessoas e para a vida que em tudo havia.

Sorveu o ar daquela alegria, atravessou a cidade e seguiu seu caminho.

Subiu novamente a montanha. Foram dias difíceis. Dias e dias mal alimentado, mal dormido, acossado por insetos, quase sem água... Até que, já quase se entregando ao abandono, viu-se diante do templo.

Comeu, bebeu. Recuperou-se.

Na manhã seguinte, antes do nascer do sol, lá estava ele varrendo a sala antes da passagem do Grande Monge que logo surgia com sua comitiva. Nessa manhã, o Mestre parou diante dele e voltou-lhe o olhar com um leve sorriso. Num gesto cerimonial, com a mão direita pousada sobre o peito esquerdo e uma leve inclinação da cabeça, fez-lhe um honroso cumprimento. Um cumprimento simples, verdadeiro. De quem, verdadeiramente admira e ama a quem com seu cumprimento honra. Cumprimentou-o e foi para o seu salão.

Após a passagem do Mestre, o ex-general foi para o pátio, sorveu alegria da brisa que ali nascia ao nascer do sol, com o peito cheio dessa alegria, pôs-se ao seu trabalho e se pôs a varrer e a cantar. Cantava canções que falavam de um lugar de lindos bosques, boa água, de belas pessoas. De pessoas que ouviam e compreendiam o que cantava o vento, e ao vento cantavam a alegria de serem assim como eram, amigas e boas...


* LUIZ FELIPE JARDIM é historiador e cronista acreano.

5 comentários:

Anônimo disse...

Eu digo que Felipe é um autor especial. Pra lá de especial.
Um carinho grande para ele e para o dono do blog.
Leila

Anônimo disse...

Oi, Leila, você sempre generosa com os principiantes... Obrigado.
Mas, especial mesmo é a fábula, independente de quem a conta. Não é à toa que é contada há mais de dois mil anos. Nesse tritrilionésimo ponto que lhe adicionei, ela flerta com o maniqueismo e o estoicismo mas conclui com um abraço à idéia que Platão tinha sobre amizade. Idéia que, aliás, prevalecia na época. A de que a qualidade da amizade entre seus cidadãos determinava a qualidade do Estado. Bons amigos, bom Estado. "A amizade só pode ser autêntica se for uma meio para ser chegar ao bem", ''o homem deve ser bom para o Estado ser bom'', dizia ele.
Como vemos, existem amigos e amigos. A idéia de amizade variou muito no tempo.
Mas, Leila, depois do Neo Platonismo da Idade Média, acho que agora temos o Não Platonismo. Onde a idéia de amizade é exatamente oposta àquela de Platão. Parece que quanto menos amizade entre seus cidadãos mais forte é o Estado. E os dirigentes, aliás, os 'gestores' do Estado são eleitos pelo dom que têm de conquistar amigos mas não de ser bom amigo... Mas isso é assunto para outra 'fábula'...
Um forte abraço do amigo
Felipe

Olivia Maia disse...

Olá Felipe, que maneira linda de contar esse fábula. Lembrei com carinho da coleção de cd com histórias infantis que me deste há muito tempo... que maneira boa de gente grande ser feliz - ler fábula escrita por um grande históriador.
abraços de afetos (alguns também pro Isaac)

Luis Felipe disse...

Olívia Maia, a Menina da Chuva.
A lembrança mais antiga que tenho de você, Olívia, é a de um dia de chuva em que estavam você e seu irmão Milton 'pegando jambo' ali onde hoje é o Ministério Público. Naquele que era um enorme quintal, havia uns seis pés de jambo espalhados e três reunidos. O Gorilinha estava lá em cima de um deles pegando os jambos, ou melhor, passeando por entre os jambeiros como só ele e os gorilinhas de verdade sabiam fazer, e você estava lá embaixo pegando os frutos que ele jogava e guardando-os sobre uma camisa estirada no chão e molhada pela chuva. Belos bosques, boa água, belas pessoas.
Você morava na Av. Brasil, quase em frente ao Vasco. A Sônia Mubárac morava quase no outro extremo da Avenida, rente a Catedral. A Leila Jalul morava na mesma quadra da Sônia e, como esta, ao lado do Colégio das freiras. Ou seja, há uma linha imáginária, 'um L', que vai de sua casa à da Leila e que unia vocês três. Hoje vocês escrevem livros. Contam histórias. Nas avenidas do Brasil, em forma de escritos, espalham as canções que trazem dentro de si. Nessas canções, estão muito daqueles bosques, da boa água, das belas pessoas que trazemos dentro de nós.
E por falar em água boas, lembra do Boa Água, lá da Floresta?
E por falar em belas pessoas, dê lembranças minhas a Laura, Tancredo, Mário, Tancremildo e Teca.
Abraço do amigo
Felipe
Ps.
Intrometendo-me nessa linha imaginária que imaginei, a coisa vira um quadrado e fica assim: o primeiro L começa na sua casa, vai até o Sesc, daí até a casa da Leila. Da Leila nasce o outro L, é só puxar uma linha reta que ela vai dar no quintal da minha casa; dai, faz-se outra linha que vai dar na porta da sua casa. Estamos num retângulo/quadrado.
Mas os que tem isso a ver? Nada, nada, diria e escreveria em bom mau portunhol: es SOnia, leiLA, LUiz, oliVIA. SO LA LUVIA...
Viu só como você é a Menina da Chuva?

Vássia Silveira disse...

Que lindo, Felipe! Seu "ponto" alimentou minha saudade, desejos e esperança por uma vida mais simples e plena de significado.