sexta-feira, 8 de março de 2013

DOIS POEMAS DE CLODOMIR MONTEIRO

MULHER MULHERAIS MELHOR RADICAIS 
Clodomir Monteiro

Do dia internacional da mulher
8.3.2013

melhor murmúrio que onda do mar
fofa agitada formando maré
crista da onda com vida mulher
cavada espumante caldo cultura

mó moedura movendo o poder
frita calada na areia em pé
no dia a dia do seu mulhermar
sussurra juras transpira prazer

melhor deixar comandar esta praia
quem dela faz fluidez de ternura
fazer  leque mãe em tubo da vida
ao nos levar em seu tour de manobras

seja aqui ou nu Sunset Beach
melhor seguir bateria fervura
não marolar pipocar merrequinha
mulher mulherais melhor radicais


CORDEIRO COME LOBO[1]
no dia da mulher
Clodomir Monteiro
Ao depreda dor João Werner:
Em 8.3.13

quem  cordeiro de quem
se cada lobo  vem
sabe a fome consome
conforme nome  tem

online fim de linha
tiro eco poema
como errado se aninha
verso sim desalinha

eco  beleza não
convenção telecida
home  fome sem nome
corpo morde  seu tempo

sobre vive a fêmea
dor  instinto extinto
cheira língua e tato
dente  água ao prato

imersão pós instinto
surpresa assa palavra
deixa  ladra de pato
carne preda  poesia


[1] CONVENÇÃO CORDEIROS E LOBOS. Todos os signos conversam entre si.


* CLODOMIR MONTEIRO é poeta, e preside a Academia Acreana de Letras.
___________________________

DESDOBRADO DAS DOBRAS

Walt Whitman


Desdebrado das dobras da mulher o homem se desdobra,
e sempre está para se desdobrar:
desdobrado da mulher mais soberba da terra
está por chegar o homem mais soberbo da terra,
desdobrado da mais amigável mulher está para chegar o homem mais amigável,
só desdobrado do corpo perfeito de uma mulher pode fazer-se
um homem perfeito de corpo,
só desdobrado dos inimitáveis poemas da mulher podem criar-se
os poemas do homem (só daí vêm meus poemas),
desdobrado da arrogante e forte mulher que eu amo,
só daí pode vir o homem forte e arrogante que eu amo,
desdobrados pelos abraços vigorosos da mulher firme que eu amo,
só daí vêm os abraços vigorosos do homem,
desdobradas das dobras do cérebro da mulher procedem todas
as dobras do cérebro do homem, seguindo obedientemente,
a desdobrar-se da justiça da mulher toda a justiça do homem se desdobra,
desdobrada da simpatia da mulher é toda simpatia;
grande coisa é um homem sobre a terra e pela eternidade,
mas cada vírgula da grandeza do homem vem das dobras da mulher;
primeiro o homem toma forma na mulher, depois então pode 
tomar forma em si mesmo. 


WHITMAN, Walt. Folhas de Relva. [Tradução Geir Campos]. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1964. p.156

Fotografia premiada pela imprensa internacional, de Micah Albert. A catadora de lixo de Nairóbi (Quênia), que disse ao fotógrafo: "Queria ter tempo para ler os livros que diariamente encontro nesse lixão". Há ainda muito mais por lutar do que comemorar no dia INTERNACIONAL DA MULHER. De qualquer modo, minha singela homenagem e gratidão a cada uma, de quem também sou desdobrado, sobretudo, àquelas que fazem parte de minha vida.
Fonte da imagem: Blog Paulo Suess

A catadora de lixo de Nairobi (Kénia) disse ao fotógrafo: "Queria portao automatico fortaleza ter tempo para ler os livros que diáriamente encontro nesse lixão
A catadora de lixo de Nairobi (Kénia) disse ao fotógrafo: "Queria portao automatico fortaleza ter tempo para ler os livros que diáriamente encontro nesse lixão

quinta-feira, 7 de março de 2013

CANTO CXV

Ezra Pound


Os cientistas em terror
            e para a mente européia
Wyndham Lewis escolheu a cegueira
            antes do que ter sua mente parada.
Noite sob o vento entre garofani,
            as pétalas estão quase tranquilas
Mozart, Linnaeus, Sulmona,
Quando os amigos de alguém se odeiam
            como pode haver paz no mundo?
Suas rudezas divertiam-me nos verdes anos.
Uma pele de flor que feneceu
            porém a luz canta eterna
um lívido brilho sobre pântanos
            onde o feno de sal sussurra às mudanças das marés
Tempo, espaço,
            nem vida nem morte é a resposta.
E do homem buscando o bem,
            fazendo mal.
In meine Heimat
                        onde andavam os mortos
                                   e os vivos eram feitos de cartão.


Pound, Ezra. Os cantos. [trad. José Lino Grunewald]. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2006. p.789.

** Fiz uma viagem nesse livro de Pound, um dos maiores marcos da literatura no século XX. Em A arte da poesia, Pound dizia: "A função da literatura como força geratriz digna de prêmio consiste precisamente em incitar a humanidade a continuar a viver; em aliviar as tensões da mente, em nutri-la, e nutri-la, digo-o claramente, com a nutrição de impulsos." E isso expressa bem a própria obra de Ezra Pound.

terça-feira, 5 de março de 2013

A COVARDIA MORAL: HABERMAS E YOANI SÁNCHEZ

Profª. Inês Lacerda Araújo
FILOSOFIA DE TODO DIA


Há covardes que se rendem às dificuldades e obstáculos; tudo temem, são medrosos, "maricas" como se dizia. Não confundir com pessoas cautelosas.

Mas os piores covardes são os que praticam a covardia moral. O caso mais recente e notório foram as ofensas com que foi recebida a blogueira Yoani Sánchez no Brasil.

 Uma visita de cortesia e agradecimento que se tornou um caso de humilhação e de impedimento de livre comunicação. Um movimento orquestrado pela embaixada de Cuba arregimentou grupos de intolerantes que tentaram impedir que uma moça simples, corajosa, sincera e muito bem intencionada fosse ouvida e respondesse a questionamentos.

Evidentemente não era "agente da CIA" (como que até agora não foi presa?!). Mora em Cuba, ama seu país, denuncia a falta de perspectiva, de liberdade, teve que insistir muito para conseguir visto de saída. Seu país é uma ditadura, o povo permanece oprimido, e, se educação e saúde contam pontos, há pobreza exceto pelo setor turístico.

O embargo dos EUA prejudica? Que tal comercializar apenas com os países "comunistas"? A antiga URSS abandonou Cuba a sua própria sorte, não tinha mais como subsidiar a importação de açúcar. Toda a população sofreu.

E quanto às perseguições de dissidentes? Ser poeta e gay, por exemplo, pode significar prisão e tortura!

Por favor, senhores pseudo militantes a mando da embaixada de Cuba com assentimento do PT: antes de vociferar contra a blogueira, cuja coragem moral ficou evidente em suas declarações sobre a necessidade de diálogo, isto é, tolerância e compreensão, direito de resposta, esclarecimento das denúncias de violência, seria proveitoso que o bando de paus mandados soubesse do seguinte, pelo menos:

- que em Cuba não há lugar para a oposição;

- que progredir por meio de trabalho e empreender por meio da livre iniciativa é difícil, o governo apenas recentemente tem permitido ser proprietário de uns poucos meios de produção (solo para cultivo de hortaliças, por exemplo);

- que eles precisariam contrabandear os tênis de marca que certamente estavam usando quando de sua gritaria, seus celulares, e como ficariam os seus sonhos de consumo?

- provavelmente não usariam luxos como aparelhos nos dentes (aliás, faltam dentes na boca de Yoani);

- seria excelente uma temporada em Cuba para sentir in loco como vive a maior parte da população;

- que liberdade de expressão não pode ser confundida com manifestação agressiva pois esta tolhe o direito de resposta.

Por que Habermas nesta postagem?

Em sua teoria da ação comunicativa, Habermas considera que a razão progrediu, que o terreno favorável são as democracias. Nas ditaduras, como a de Cuba, há sempre apenas um lado, imposto autoritariamente. O diálogo entre pessoas e grupos inexiste, a livre comunicação é bloqueada. Ora, a ação estratégica cabe exclusivamente nas esferas política e econômica, onde prevalece a disputa de interesses.

Em contraste, na ação comunicativa deve haver reconhecimento recíproco de direitos e deveres, de respeito, por meio dela pessoas dialogam com informação, com intenção sincera, seguindo diretrizes sociais que alçam todos à condição de cidadãos. Em simples palavras, a ação comunicativa permite o entendimento entre as partes, o que é essencial às democracias modernas. Esclarecer, ouvir o outro, suas razões, expor as suas próprias razões, enfim, argumentar. Na argumentação ficam de fora todo tipo de autoritarismo, intolerância, imposição.

Esperemos que a lição tenha sido aprendida, que o PT, que estava por detrás das manifestações contra Yoani, retorne a pelo menos alguns de seus princípios éticos. Se não for pedir demais!

Em tempo: assistam ao filme de Julian Schnabel, sobre a perseguição ao poeta cubano gay Reinaldo Arenas.


* INÊS LACERDA ARAÚJO - filósofa, escritora e professora aposentada da UFPR e PUCPR.

segunda-feira, 4 de março de 2013

MATOU O MARIDO E FUGIU COM O CACHORRO

Leila Jalul
site Lima Coelho


O universo descrito por Nelson Rodrigues criou vertentes. Deturpado, maldito, tarado, doente mental, classifiquem-no como quiserem, o homem Nelson não deixou barato e continuou sua tara de escrever a vida como ela é. Sofreu críticas, é verdade. Sua alma suja, como diziam os puristas da literatura e do cinema, não foi afetada. Sua obra está aí provando que a sujeira está na mente humana e no ambiente em que ela se desenvolve. Pecaminoso é não dizer dela. Não retratá-la, aliás, é crime! 

Pois bem, não entrando no mérito do enredo dos seus trabalhos, que são muitos e por demais conhecidos, quero dizer de uma história de realidade cortante e cruel, dada e passada numa cidade baiana que, em muito pouco, difere da realidade de qualquer outra cidade brasileira tida e reconhecida violenta, tal como o Rio de Janeiro, que serviu de nascimento e berço da obra de Nelson.

Vamos lá? 

Rosita é uma boa moça. Ponto parágrafo. 

Filha de gente pobre com gente ruim. Ponto continuando. A mais nova de onze irmãos e também a mais bonita. Linda! Ponto de exclamação.

Vítima da fome que dói e corrói as entranhas, aos treze anos, foi passada de mão beijada pelo pai para um caixeiro viajante, nascido e corrompido na baixada fluminense, terra de bicheiros que ainda transitam alegremente por aí. Deivide, era seu nome. Tinha sessenta anos e um marca-passo incrustado no peito doente de doente machista. Orgulhava-se de ser afilhado de um Capo do Jogo do Bicho e benemérito de uma escola de samba de muitas premiações. Pensem num cara mentiroso! Pensaram? Multipliquem por dez! 

Nas rodas de amigos bebedores de cerveja e uísque falsificado, dizia Deivide que Rosita tinha um botão de flor apertadinho e peitinhos naturais de bicos durinhos e no formato do morro do Pão de Açúcar. - É mole? – perguntava aos imbecilizados expectadores baianos que lhe serviam de baba-ovos.

Porém, sempre existe na vida um porém, além de cardíaco, Deivide era diabético sem freios. E falava para a curriola: 

- Não sintam inveja de mim. Joãosinho Trinta, meu grande amigo, já dizia que, pela lei do mundo capitalista ou não, quem gosta de miséria é intelectual, verdade? Fiz da Rosita uma “leide”, moçada! Da miséria ao caviar, entendem? Uma surra todo dia e ela bate o ponto, sempre fogosa e radiante para lamber meu agigantado membro. A diaba tem uma garganta profunda e gulosa. Se a surra for pequena, lá se vem uma merda de lambidinha sem graça! Se grande, o mundo pega fogo! Meu gozo demora até ficar de língua para fora e com o corpo em picadinho. E sabem o que ela quer de mim? 

Ninguém se arriscava a dizer nada. Bastava ouvir. Deivide não era homem de esperar resposta de gente que não sabia o que era ser carioca da gema, afilhado de bicheiro famoso, amigo do carnavalesco Joãosinho Trinta, de saudosa memória e dono de Rosita, uma baiana de botão de rosa apertado e peitinhos duros, com o formato do Pão de Açúcar.

- Ela queria de mim um cachorro Poodle. Talvez para sentir-se uma madame. Somente isso! Dei ou não dei? 

... 

- Dei. Paguei cem conto de réis por um melequento de cruza duvidosa e, junto com uma flor de papoula, em papel de presente dourado, mandei pra diaba, antes de dar-lhe uma surra das boas. Um homem como eu não atira no escuro e nem gasta bala com gente incompetente. Depois disso, dessa acrobacia melosa, acreditem, a noite foi de orgia e de muita sacanagem. O meu “moleque” ficou esfoladão.

Esse foi o último encontro do nosso personagem canastrão com seus amigos da roda de cerveja e uísque falsificado.

Foi agora, depois do carnaval, que “Leide” Rosita tomou chá de sumiço. Ela e seu Poodle Bingo – o tomba-latas. 

Em dezembro do ano passado, expulsos de casa, foram parar em um muquifo alugado por Deivide. E foi na cama simples desse muquifo que, em decúbito dorsal, ele foi encontrado em estado de decomposição. Não havia sinais de violência. Tudo indicava que a morte foi natural.

Na emissora de rádio local da cidade baiana, por toda a manhã, antes de concluída a investigação, os radialistas amigos de Deivide noticiaram aos brados: 

MULHER MATOU O MARIDO E FUGIU COM O CACHORRO. 

Rosita foi localizada em uma fazendola pelo irmão mais velho. Já prestou depoimento e jura inocência. A história contada por ela foi bem diferente e convenceu o delegado a mandá-la de volta para casa e esperar o resultado do processo em liberdade. 

No seu relato, claro e lúcido, disse que Deivide a perseguia e queria, a todo custo, que ela não conversasse com ninguém, que não trabalhasse e não saísse de casa, nem que fosse para a igreja que costumava frequentar. E foi na quarta-feira de cinzas que, embriagado, entrou no muquifo para tomar satisfações por ela ter ido com uma amiga ver um bloco de sujo que passava na avenida. Disse que ele já entrou com um cinto nas mãos para açoitá-la. E foi então que, assustada, pulou a janela e sumiu com seu cachorro Bingo para a fazendola onde foi encontrada. 

Assim é a vida. A vida como ela é...

sábado, 2 de março de 2013

O SONHO DE DOM HÉLDER

Sonhei que o Papa enlouquecia 
E ele mesmo ateava fogo 
Ao Vaticano 
E à Basílica de S. Pedro... 
Loucura sagrada, 
Porque Deus atiçava o fogo 
Que os bombeiros 
Em vão 
Tentavam extinguir. 
O Papa, louco, 
Saía pelas ruas de Roma, 
Dizendo adeus aos Embaixadores 
Credenciados junto a ele; 
Jogando a tiara no Tibre; 
Espalhando pelos pobres 
O dinheiro todo 
Do Banco do Vaticano... 
Que vergonha para os cristãos! 
Para que um papa 
Viva o Evangelho, 
Temos que imaginá-lo 
Em plena loucura!... 


Meditações do Padre José 
(Pseudônimo de Dom Hélder Câmara)