segunda-feira, 10 de junho de 2013

ARTE POÉTICA

Verlaine (1844-1896)


Música sim mais antes de tudo,
O Ímpar prefere e jamair o Par,
Mais vago e mais solúvel no ar
E sem que nele pese um veludo.

Procurar dever se for preciso
Tuas palavras com desamor:
Procura amar ária furta-cor
E que o Preciso une ao Indeciso.

É belo olhar por detrás dos véus,
Hora a tremer quando é meio-dia
Por uma tarde de outono fria,
O caos azul dos astros nos céus!

Na meia-tinta a minha arte ponho,
Jamais a cor, só a meia-tinta!
Só a esperança, a cor indistinta,
Frauta à buzina e mais sonho ao sonho!

Deixa bem longe a Ponta daninha,
O que é mordaz e a Risada impura,
Fazem chorar os olhos da altura,
E todo este alho que há na cozinha!

Mata a eloquência mas de asfixia!
Tendo o valor porém, ó poeta,
De tua rima tornar discreta,
Sem teu cuidado aonde ela iria?

E quem dirá os males da rima?
Que criança surda ou que negro louco
Fez esta jóia que vale pouco,
Que soa falso se a toca a lima?

Música ainda, música sempre!
Seja o teu verso algo a voar,
Fuga de uma alma a ir por um ar
De céus de que ninguém mais se lembre.

Seja o teu verso esta boa aventura
Esparsa ao vento, cru, matutino,
Que vai florindo menta mais timo...
E tudo o mais é literatura. 



VERLAINE, Jean-Marie. Poemas. (Trad. Jamil Almansur Haddad). São Paulo: Difusão Européia do Livro, 1962. p.191-192

sexta-feira, 7 de junho de 2013

EUCLIDES DA CUNHA

Agradeço ao escritor Arquilau de Castro Melo a gentileza do envio de sua obra EUCLIDES DA CUNHA – Expedição ao Acre, livro que revela um capítulo interessante da história acreana envolvendo um dos maiores nomes de nossas letras.

P.S. em breve, resenha da obra.

quinta-feira, 6 de junho de 2013

A GUERRA DO PURUS VISTA POR BRASILEIROS E PERUANOS

Arquilau de Castro Melo
site JusBrasil


Este ano (à época, 2009) pelo Brasil afora vão ser comemorados os 100 anos de morte do escritor Euclides da Cunha. Há uma série de eventos que estão sendo preparados para lembrar a passagem desse gênio brasileiro que amava a sua terra como poucos o fizeram. Já há algum tempo eu pensava em conhecer parte do caminho que Euclides da Cunha percorrera há 104 anos, navegando por cerca de seis meses pelo rio Purus, para delimitar a fronteira do Brasil com o Peru. Naquela ocasião o escritor e engenheiro militar chefiava a Comissão Mista Brasil-Peru que, era representada também, pelo capitão de corveta Pedro Buenaño, da Marinha Peruana. A Comissão saiu de Manaus em abril de 1904 e percorreu o Purus desde a foz até as suas cabeceiras, retornando somente em outubro daquele ano.

Na semana passada tirei dez dias de férias para revisitar parte do trecho percorrido pela Comissão, em território do nosso Estado, daí porque iniciamos a nossa viagem em Sena Madureira e fomos até foz do rio Curanja, que vem a ser um dos mais importantes afluentes do Purus, já em território peruano a aproximadamente seis horas de voadeira a partir de Santa Rosa do Purus, pequena cidade brasileira situada à margem direita do Purus, com cerca de 4 mil habitantes. Não chegamos até a última localidade em que o grande escritor brasileiro esteve, contudo tivemos oportunidade de percorrer boa parte de seu caminho, visitando os mesmos seringais por onde ele passou observando as transformações ocorridas nesse período.

Os seringais embora ainda preservem os mesmos nomes, tais como São Salvador, Liberdade, Fortaleza, e Sobral, já não são mais explorados enquanto unidades de fabrico de látex, visto que os preços baixíssimos pagos pela borracha deixaram de ser compensadores e, hoje, os ex-seringueiros vivem às margens do rio sobrevivendo da agricultura de subsistência, plantando milho, arroz, feijão, mandioca e banana. O dinheiro que precisam para a compra de mantimentos vem da pensão que recebem como Soldado da Borracha ou do programa Bolsa Família.

Nossa Viagem navegando ora de baleeira, ora de voadeira demorou 10 dias subindo o Purus, com pequenas paradas para acompanhar os serviços do Projeto Cidadão e visitar aldeias indígenas de Kaxinawás e Kulinas, abundantes tanto do lado brasileiro como do peruano.

A Comissão Mista brasileiro-peruana tinha por objetivo conter os ânimos de seringalistas e seringueiros brasileiros envolvidos em conflitos armados com patrões e caucheiros peruanos, bem como estabelecer os limites territoriais entre os dois países. Embora os governos dos dois países não hajam, efetivamente, autorizado as suas tropas a se envolverem nos conflitos - em que morreram dezenas de brasileiros e outros tantos peruanos - seringalistas e patrões peruanos, informalmente, se valiam dos serviços dos militares de seus respectivos países para defender os seus próprios negócios.

Em face dos graves conflitos que se desenrolavam no Purus e no Juruá, Euclides da Cunha, antes de embarcar para o Purus, advertira através de dois artigos "Conflito Inevitável" e "Contra os Caucheiros", publicados na imprensa carioca, que se não fossem adotadas medidas urgentes pelas chancelarias os dois países, fatalmente, se envolveriam em um conflito armado no coração da Amazônia, de proporções inimagináveis, o que para ele, seria mais desastroso que a própria guerra do Paraguai, recém encerrada.

OS COMBATES SEGUNDO OS BRASILEIROS

Nos conflitos armados as facções, de regra, atribuem grandes baixas aos adversários e minimizam as suas próprias perdas. Veja, por exemplo, a versão brasileira sobre os fatos que ocorreram no alto Purus: Soares Bulcão, jornalista e escritor cearense que viveu em Sena Madureira nos anos de 1915 a 1918, autor da obra "Subsídio para a História do Alto Purus", relata que o Alto Purus era explorado e ocupado exclusivamente por brasileiros "sem a menor perturbação estrangeira" mas a campanha vitoriosa de Plácido de Castro contra a Bolívia, induziu a República do Peru a adotar medidas de proteção de suas fronteiras com o Brasil, até então desguarnecidas. E assim, em junho de 1903 destacou um contingente de 19 praças, comandado por um tenente do Exército para instalar um posto aduaneiro na foz do Chandless, surpreendendo os brasileiros que ali se achavam há mais de 30 anos, sem contestação e que tinham o lugar como parte do território do Brasil.

Informado da invasão o general Olímpio da Silveira que ocupava o cargo de governador do Acre, na ausência de Plácido de Castro, enviou ao coronel José Ferreira de Araújo, cearense e proprietário do seringal Liberdade 200 carabinas manulicher além de grande quantidade de munição e este, então reuniu 70 homens e se dirigiu à boca do Chandless e ali intimou o comissário peruano a desocupar o território. Travou-se, então, uma batalha que durou uma noite, finda a qual os peruanos se renderam e, cinco deles, inclusive o oficial comandante da tropa, foram orientados a retornar a sua cidade de origem (Loreto) contudo, quando passavam pelo seringal Funil teriam sido assassinados em emboscada. Bulcão assinala que a atitude dos brasileiros merecia ser reprovada, porém tratava-se de represália "os massacres de famílias brasileiras (por peruanos) nos seringais Sobral e Funil, acompanhados das mais repugnantes cenas de concupiscência, vitimando crianças impúberes e senhoras respeitáveis pela sua posição e idade, não podem ser descritos sem um assomo de justa indignação".

Após seis meses desses incidentes um novo destacamento militar do Peru, composto por cerca de 200 caucheiros e 30 praças chefiados por Francisco Vargas Fernandes voltou ao Purus e se apropriou de vários seringais dentre eles Sobral, Funil e Cruzeiro "saqueando-lhes todas as provisões, depredando benfeitorias e massacrando pacíficos moradores", concluindo Bulcão que "é impossível descrever as cenas de selvageria praticada ali contra famílias indefesas; elas são do número daquelas que a história deve ocultar, para poupar aos pósteros da lembrança de fatos que envergonham e rebaixam a espécie humana".

Os brasileiros sempre comandados pelo coronel José Ferreira de Araújo voltaram a enfrentar os peruanos sendo certo que a última batalha foi travada na confluência dos rios Santa Rosa e Purus. Ali os peruanos organizaram trincheiras, com sacos de barro, de frente para o rio Purus esperando os barcos com os brasileiros, mas estes, antes de chegarem ao local, desembarcaram um contingente de 200 homens que se aproximaram a pé e surpreenderam os peruanos pelas costas e, sem dó e nem piedade, foram eles fuzilados em tiroteio que demorou mais de 24 horas. Nesse embate cerca de 80 peruanos perderam a vida.

OS COMBATES SEGUNDO OS PERUANOS
(o outro lado da história)

Já o escritor peruano Hildebrando Fuentes, em sua obra "APUNTES GEOGRÁFICOS, HISTÓRICO, ESTATÍSTICOS, POLÍTICOS I SOCIALES DE LORETO" de 1906, cita o testemunho ocular de seu compatriota Virgilio Salazar, patrão caucheiro que define a questão como uma tentativa das autoridades brasileiras de impor impostos a patrões peruanos por explorarem borracha do território brasileiro, mesmo que os peruanos estivessem trabalhando acima da foz do Chandless, que foi provisória e mutuamente acordada como a linha divisória entre os dois territórios nacionais. No dia 25 de setembro de 1904, o capitão de polícia de Chandless, dom Jorge Barreto, seu tenente Don César Cosío e nove soldados foram cercados por 200 soldados brasileiros e seringueiros armados, sob o comando do coronel José Ferreira de Araújo e de seu compatriota José Cardoso da Rosa. Após dois dias de cerco, os invasores mandaram a mensagem de que os peruanos deveriam se render e descer a bandeira peruana. Quatro patrões da borracha peruanos convenceram Barretos a se render, e ele desceu para Manaus. O tenente Cosío recebeu ordens de subir o Chandless com quatro soldados, que foram então todos mortos pelo capitão Emiliano "Marca-Fogo", sob ordens de Cardoso da Rosa.

As tropas brasileiras subiram então o Chandless e capturaram Eliseo Vasquez, Virgilio Salazar e Carlos Scharff no seu acampamento Unión. Esse acampamento foi completamente saqueado, e Scharff foi mandado sob guarda armada a Manaus. Os brasileiros então tomaram posição em Fortaleza, acima do Chandless.

Scharff foi libertado em Manaus e rumou então a Iquitos para pedir ajuda ao coronel Portillo, prefeito de Loreto. Coronel Portillo mandou Lopez Saavedra, como novo capitão de polícia, com os tenentes Valdivia e Giorzo e 30 homens da Guarnição de Loreto, que foram reforçados por 200 patrões e seus trabalhadores. Eles se estabeleceram em Curanjá, e o engenheiro Von Hassel foi mandado a Chandless para dizer ao coronel Araújo e a Cardoso da Rosa para se retirarem imediatamente. Von Hassel foi feito prisioneiro. Uma equipe de resgate foi enviada, que consistia em Frederico Lafuente, Florêncio Ruiz, Carlos Zeballos e seis bogas (remeiros). Eles também foram feitos prisioneiros. Enquanto isso havia uma disputa em Curanjá, porque os patrões e trabalhadores insistiam em ser liderados por Scharff na luta, e não pelo capitão de polícia Lopes Saavedra. Este último recusou o arranjo, e a maioria dos homens dispersou, ficando apenas 67 homens sob o comando de Lopez Saavedra. Este desceu com seus homens o Santa Rosa, a meio caminho entre Curanjá e o Chandless, e posicionou 30 na margem direita e 37 na margem esquerda.

No dia 30 de março de 1904, 270 brasileiros apareceram nos navios a vapor "Acreana" e "Mercedes", roubados respectivamente de Julio Arana e Carlos Scharff, e tomaram a margem direita, aprisionando os soldados. A margem esquerda foi então atacada, mas eles resistiram tão ferozmente que 58 brasileiros morreram e o resto bateu em retirada. As forças peruanas então se retiraram, e no dia seguinte os brasileiros atacaram o campo abandonado, quando para se vingarem dessa derrota e vergonha, os brasileiros vitimaram Lafuente, Ruiz, Zeballos e os seis remeiros que eles mantinham cativos desde que chegaram às cabeceiras do Chandless para as negociações. Esses cidadãos determinados e valorosos foram crucificados em uma cruz de madeira e depois banhados em querosene, seus corpos foram colocados sobre 2000 pedaços de lenha que foram postos em chamas em sua furiosa covardia".

Fuentes escreve:

O túmulo dessas vítimas desafortunadas foi mais tarde honrado pelo capitão de corveta Dom Pedro Buenaño, líder da comissão científica do Purus que após sepultar as vítimas rabiscou, numa folha de zinco, um extravagante epitáfio:
 
"F. LA FUENTE
F. RUIZ
D. OCAMPA
P. REATEGUI
M. MONTALBÁN
Peruanos fuzilados e quemados por bandoleros brasileros"
 
A respeito desse episódio Euclides, indignado com a ousadia de Pedro Buenaño, escreveu ao Barão do Rio Branco:
 
"Ao considerar estes dizeres - vi-lhe de pronto a desvalia - mas ao mesmo passo avaliei os deploráveis efeitos que eles causariam no meio de uma população em cujo ânimo estão ainda bem vivas as recordações dos fatos ali ocorridos. Pensei em retirar a improvisada lápide, tornando logo ciente disto o comissário peruano a quem enviaria um próprio. Mas em tal caso o sítio do Funil seria o termo de nossa missão. Haveria um rompimento..."

O Barão, em telegrama a Euclides respondeu que possuía a "relação nominal de 11 ou 12 brasileiros que foram fuzilados em Catai ou em Curanja, depois da invasão peruana de 1904".

Como se vê embora se tratasse de uma Comissão Mista composta por diplomatas o clima não era nada amistoso pois os embates entre peruanos e brasileiros que redundaram em perdas de vida ainda estavam bem frescos na memória dos povos de ambas as nacionalidades como explica Euclides numa crônica que veio a publicar no seu retorno ao Rio de Janeiro sob o título de "A MINHA TERRA É RETILÍNEA E ALTA COMO AS PALMEIRAS":

"Foi o que sucedeu em Curanjá a 3 de julho."

Ofereceram-me um banquete (ao chefe peruano e a mim), as principais pessoas do lugar. Aceitei-o com prazer: estava ainda na ilusão de uma simpatia que desapareceria em breve. Dirigi-me ao local (uma casa comercial de C. Scharf, entregue à direção do seu guarda-livros, o alemão Alf. Shultz) e fui - logo surpreendido com a profusão de bandeiras peruanas em pleno contraste com a ausência da nossa - sendo, entretanto, facílimo aos promotores da festa adquirirem-na no próprio acampamento.

Notando este fato, pensei em retirar-me e aguardava a primeira oportunidade para o fazer, sem alarde ou escândalo, quando observei, entre as ramagens que decoravam as paredes de paxiúba da sala do festim, algumas folhas de palmeira cujas faces internas de um amarelo muito intenso contrastavam com o resto da folhagem. Era uma solução a atitude contrafeita que me impusera..., o espetaculoso patriotismo daquela gente. Realmente, pouco depois de sentados à mesa, tomei de golpe a palavra, sem aguardar o momento oportuno para os brindes, e numa rápida saudação agradeci o convite que se me fizera - e isto por dois motivos essenciais:

Primeiro - como americano - sentindo-me feliz com todas as manifestações de cordialidade entre homens oriundos de raças quase irmãs, talvez destinados a íntimas alianças no futuro para reagirem ao imperialismo crescente das grandes nacionalidades; em segundo lugar - como brasileiro - profundamente comovido diante da "inteligente gentileza" e requintada galanteria com que se tinha posto naquela sala a bandeira de nossa terra. (o espanto dos convivas foi absoluto!) Esclareci-o então dizendo-lhes que uma extraordinária nobreza de sentir fizera que eles ao invés de irem procurar no seio mercenário de uma fábrica a bandeira de meu país tinham-na buscado no seio majestoso das matas, tomando-a exatamente das árvores que entre todas simboliza as idéias superiores da retidão e da altura. E terminei: "Porque, Srs. Peruanos, a minha terra é retilínea e alta como as palmeiras...".

Não poderei dizer... o efeito destas palavras, nem o constrangimento com que o chefe peruano e outros cumprimentaram-me declarando" que eu havia compreendido muito bem o pensamento deles...".

Concluídos os trabalhos da Comissão, brasileiros e peruanos celebraram no Rio de Janeiro, em setembro de 1909, o Tratado de demarcação, comércio e navegação, encerrando, definitivamente, os conflitos no Purus. Não há mágoas nem ressentimentos, peruanos e brasileiros convivem, hoje, pacificamente no Purus. Existe até um alentado comércio informal entre as cidades de Santa Rosa do Purus e Esperanza. A convivência é tão estreita que os moradores daquelas cidades, em datas comemorativas, confraternizam-se promovendo eventos que envolvem as duas comunidades.

Os conflitos fazem parte de um passado longínquo.

terça-feira, 4 de junho de 2013

Série HISTÓRIA QUE O ACRE ESCREVEU

CHICO BRASIL
 
José Augusto de Castro e Costa
 
 
Tudo que se escrever sobre o Acre, seja referente às pessoas, ou simplesmente à sua história, tem nascente enraizada no nordeste brasileiro.
 
A seca nordestina de 1877 não durou apenas três anos, ao contrário, prolonga-se até aos dias atuais, de maneira cada vez mais agravada.
 
A situação desesperada dos suplicados daquela época, forçaram milhares de nordestinos, sobretudo do interior cearense, a migrarem para outras localidades. Há relatos de episódios carregados de verdadeiro sofrimento, como o caso do naufrágio do navio Laura, ocorrido nas costas do Pará e dos flagelados recebidos com vaias e pedradas ao chegarem ao Maranhão.
 
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Após o Tratado de Petrópolis, quando a área em conflito, de aproximadamente 189.000 km², ficou, finalmente, sob a soberania nacional, muitos brasileiros embrenharam-se pela Amazônia, em busca, não apenas do látex encontrado no paraíso econômico, mas, também, por inexplicável atrativo, num ambiente estranho, em meio a culturas diversas, cediam aos seus espíritos aventureiros.
 
Mais ou menos na mesma época, vários jovens, após vencerem naturais oposições familiares, embarcaram rumo à imensidão amazônica, navegando num “céu d’água brutalmente enorme”, com destino ao Acre. Dessa forma, a região acreana, em razão do crescente aumento da produção da borracha, tornava-se a sina de muitos nordestinos.
 
Dentre eles, destacava-se Francisco Brasil, que ao chegar ao destino, procurou familiarizar-se ao cotidiano do lugar, ao modo de vida e aos costumes de seus habitantes para, em seguida, determinar-se a investir em um seringal.
 
Para tanto, refletira bem sobre sua condição de nordestino, acossado pela agressividade da seca e ainda levado pela ilusão do enriquecimento rápido com o extrativismo no Acre, não querida desperdiçar a oportunidade de trabalhar em terras da qual se dizia que “lá se juntava dinheiro até com ciscador”.
 
Seu Chico Brasil, natural do seu adorado Quixadá, então adquirira, por compra, o seringal Vila Nova e dedicara-se a esperar uma nova fase da borracha, o que de fato ocorreu nos anos da Segunda Guerra Mundial.
 
Naquela época o alto rio Acre contabilizava cerca de mais de um milhão de árvores de seringueira, das quais, 555.000 achavam-se em Xapuri.
 
O sensível e contínuo aumento da produção gomífera na região ampliava cada vez mais as estruturas de transporte de mercadorias, de passageiros e de escoamento dos produtos dos seringais que iam-se proliferando para outras localidades.
 
Assim, como seu Chico Brasil, muitos investiram no Acre, sempre observando um regulamento, onde lia-se:
 
“b) Trabalhar para se manter decentemente, porque, sendo os seringais um núcleo de trabalho, para onde se vai com a vontade exclusiva de ganhar dinheiro e consequentemente melhorar as condições de vida, só se pode adquirir o desejado com um trabalho firme e honroso”.
 
Seu Chico Brasil, como homem informado, era sabedor que os seringais rendiam muito e possuíam estrutura para tal, como o seringal Bom Destino, abaixo de Rio Branco, que possuía 1.500 estradas e o Iracema, que além de suas 1.605 estradas, produzira 549.384 quilos de borracha, anuais, segundo as estatísticas.
Lidar com a natureza dos seringais era um tanto quanto complicado, razão pela qual fazia-se necessário  tino administrativo  e  noções de atividades comerciais e contábeis, trato  com pessoal e mercadorias, elementos de destaque  na estrutura de um seringal, estrutura esta observada pela existência de dois grupos unidos pelo objetivo do ganho industrial e comercial, nas figuras  do patrão e do seringueiro.

Submetido a várias agruras, o seringueiro ainda era alvo de várias doenças, como impaludismo, beribéri, polinevrites e infecções intestinais, causadores de grande mortalidade.
Possuidor dos dotes referenciados, seu Chico Brasil estabeleceu-se em seu empreendimento e passou a enfrentar o cotidiano da vida ribeirinha, do amanhecer ao final do dia, da primeira refeição ao anoitecer, entre fiscalizações e contagens das pélas de borracha, anotações de sua produção e devido estoque, assim como a movimentação dos diversos artigos mercantis e das questões particulares.
 
Como proprietário, seu Chico Brasil sentiu, de saída, o impacto das dificuldades dos seringueiros envolvidos em débitos contínuos e praticamente insanáveis, numa verdadeira progressão geométrica.
 
A convivência com esse descompasso estabelecera, no espírito do jovem seringalista, humanista que era, uma crescente expectativa, em busca de uma solução bilateral, estendendo-se, por muitos anos, num misto de conforto e desconforto, de satisfação e desagrado, de alegria e mal-estar.
 
A forte intuição de seu Chico Brasil era tamanha que, ao examinar a progressão e queda do ciclo anterior e a sua rápida ascensão 30 anos depois, deduzira, pela lógica, que seria de bom alvitre passar adiante o Vila Nova, investir financeiramente em aplicações menos comprometedoras e empregar o tempo na atividade gerencial de outros seringais.
 
Casualmente, o primeiro seringal a gerenciar foi o Capatará, que teve Plácido de Castro como proprietário, passando daí a outros que ofereciam melhores propostas de gerenciamento, atividade que considerava proporcionar-lhe melhor proveito, em todos os sentidos.
 
Particularmente seu Chico Brasil era uma figura notável, simpática e acolhedora. Foi genitor, na companhia de dona Preta, de uma prole de onze filhos. Com a utilização de três letras pôs nome nos quatro primeiros filhos homens: Ruy, Ury, Yru e Ryu. Em seguida não se preocupou mais com essa particularidade, e vieram Roberto, Antonia, May, Ivo, Iso,  Ila e Isa.
 
Sua residência, em Rio Branco, à rua Marechal Deodoro, além de ampla e aprazível,  era cercada por um verdadeiro pomar, com espécimes de goiabeiras, cajueiros, mangueiras, laranjeiras, pitangueiras, jaqueiras, cajazeiras, ingazeiras, limoeiros, tangerineiras e outros pés de frutas, objetos de costumeiros sucos e doces,  preparados por dona Preta e  saboreados, inclusive, pelos peladeiros de rua, companheiros de seus filhos, nos finaizinhos  de tarde.
 
Gerenciando algum seringal, seu Chico Brasil vinha periodicamente a Rio Branco e, muito comunicativo, sempre tinha alguma história a contar, como a de que, certa tarde, ao verificar as plantas do jardim ao lado da horta, ouvira um leve chiado, que o fez voltar a cabeça, mas como nada viu, continuara a observação às roseiras. Chegou então, ao seu lado, um empregado do barracão, que, lentamente, arreou as duas latas d’água trazidas do rio, exclamando:
 
-- Uma cobra!
 
Bem às costas de seu Chico Brasil, achava-se uma enorme surucucu-pico-de-jaca, de mais de dois metros de comprimento. Ao ver a cobra enrodilhando-se e curvando o pescoço para trás, armando o bote, com a língua bífida a sair-lhe da boca, num desafio em linguagem muda e terrível, seu Chico pediu seu revólver e visou o fino pescoço erguido e, além, uma grossa volta do corpo da serpente, transpassando-os com a mesma bala, partindo-lhe em dois pontos a espinha dorsal. A cabeça pendeu inerte, com um filete de sangue a escorrer-lhe da boca, enquanto se entorcía o corpo nas convulsões da morte.
 
Aquele cearense já estava inteiramente adaptado à vida do seringal, porém, tempos depois a produção gomífera, que chegara a 94,4%, foi caindo para 10,98%, a seguir 2,3% e, em 1960, chegou a 0,43%.
 
Seu Chico Brasil resolveu, então aposentar-se e transferir-se com toda a família para São Paulo, onde viveu por mais alguns anos, cercado do carinho de  dona Preta, filhos, netos e bisnetos.
 
Por considerá-lo mais um intrépido brasileiro a regar com suor em solo acreano, frutos da dedicação do seu trabalho, perspicácia e inteligência, a vida de seu Chico Brasil é, por certo, uma história que o Acre escreveu.
 
 
* José Augusto de Castro e Costa é cronista acreano. Reside em Brasília. Neste blog, está escrevendo sua nova série intitulada HISTÓRIA QUE O ACRE ESCREVEU.
 
> Leia aqui outros textos de José Augusto de Castro e Costa.

segunda-feira, 3 de junho de 2013

O QUE É IDEALISMO?

Profa. Inês Lacerda Araújo 
Filosofia de todo dia
 


O sentido habitual em que se emprega o termo "idealismo" remete à busca de condições ótimas para realizar um projeto de vida considerado o melhor possível. Quando se diz que uma pessoa tem um ideal, significa que ela pretende atingir esse objetivo, mesmo que difícil, até mesmo próximo de um sonho impossível. 

O sentido filosófico do termo remete a ideia, isto é, o pensável, portanto, oposto a real, a material, a sensível. 

Platão celebrou a Verdade, o Bem e o Belo
Platão foi o primeiro filósofo idealista. Os seres reais, sensíveis e materiais podem ser destruídos, se decompõem e essas mudanças impedem que se chegue à pureza da essência, à permanência, àquilo que nossa alma inteligível, e apenas ela tem acesso. Mas como são as ideias, quer dizer, de que elas são feitas, qual é seu ser, como podem elas existirem se são ideias? 

São concebíveis pelo intelecto, em um mundo à parte, o mundo inteligível. Sem ideia de cada coisa seria impossível o saber, a própria filosofia. Sem ideias os seres não passariam de um emaranhado tosco, impossível pensar, conhecer e, portanto, comunicar. O sensível é cópia do inteligível, mas o comum das pessoas se engana, toma aquilo que vê e sente como ser verdadeiro, quando não passa de sombra do mundo das ideias: "os que contemplam a essência imortal das coisas têm conhecimento nítido e não opiniões", escreveu Platão.

Kant celebrou a razão
Do século IV a. C. vamos a Kant (1724-1804), cujo idealismo é transcendental. Enquanto o mundo perfeito platônico é transcendente, acima do sensível, apenas inteligível - para Kant o inteligível depende do sensível. Sem o material da sensibilidade organizado por meio de sua obrigatória inserção no tempo e no espaço, o conhecimento seria vazio. Tempo e espaço formatam o material sensível a fim de poder representá-lo, pois de outro modo seria caótico. As categorias e conceitos do entendimento são o nível seguinte, permitem formular juízos. Todo ser humano é dotado dessa capacidade ou dessas propriedades formais de sua subjetividade e isso não é algo pessoal nem sentimental, não pertence à nossa vida prática, território da moralidade. Pertence ao entendimento puro e a priori, quer dizer, os objetos que se conhece passam por um tipo de regulação para representar todos os fenômenos, dentro dos limites da razão pura. Ao contrário de Platão, é impossível chegar ao ser em si ideal, nossa capacidade de conhecer depende do que é concebível, e o concebível depende de formas, de regras, de leis como o princípio de causalidade. "O pensamento é o conhecimento mediante conceitos", diz Kant, e "transcendental" é o conhecimento que "não se ocupa tanto com objetos, mas de nosso modo de conhecer objetos na medida em que este deve ser possível a priori". 

Hegel celebrou a cultura
O idealismo de Hegel (1770-1831) é objetivo. As ideias não estão no mundo inteligível de Platão, nem no modo como as conhecemos, na pureza da razão kantiana. Elas foram forjadas pela história. Sem as transformações a que estão sujeitas por meio da cultura, do espírito humano em suas obras (arte, filosofia, religião), não haveria ideias nem humanidade, não haveriam os resultados da ação do espírito encarnado em realizações, não haveria sequer sentido (entenda-se por "sentido" tanto as significações da linguagem como caminho, rumo, progressão). O evoluir dialético das ideias culmina no Espírito Absoluto, sua realização nesse itinerário da consciência: a realidade do mundo humano é feita de saber, há lógica e saber em todas as obras humanas, desde a cultura antiga, passando pelo cristianismo até a conciliação do espírito consigo mesmo com a liberdade outorgada a todos nos Estados constitucionais modernos. 

As críticas a esses pensadores idealistas vieram do realismo, do ceticismo, do materialismo e de pragmatismo. Ficam para próximo (s) post (s). 


* INÊS LACERDA ARAÚJO - filósofa, escritora e professora aposentada da UFPR e PUCPR.