domingo, 12 de novembro de 2017

CANÇÕES/POEMAS DE HÉLIO MELO

CARIU CARIU
Hélio Melo

Seringueiro está perdendo seu valor
Cariu cariu
Tempo bom por pouco tempo
Era bom já se acabou

Nos querer só a terra morar
A seringa é que dá vida
E a tendência é terminar

Nossa luta pela terra
Foi de guerra
Tanto sangue derramado
Em vão
Confiamos na existência
De Tupã
Recobramos nossa vida
Em nossos dias de amanhã


MAPINGUARI
Hélio Melo

Olha ele aí
Olha ele aí
Bicho feio da floresta
Que jamais pode existir
Olha ele aí
Olha ele aí
Bicho feio da floresta
Que jamais pode existir

Canacuri índio guerreiro
Da raça jamamadi
Alertava os seringueiros
Aos perigos a existir
Não adianta
O homem forte
Corre perigo de morte
Enfrentar mapinguari

Mapinguari é uma fera
Que corre grande perigo
Índio para o matar
A flecha tem que acertar
Ou no olho ou no umbigo

Canacuri canacuri
Vamos unir nossas forças
Pra matar mapinguari
Vamos unir nossas forças
Pra matar mapinguari


PRANTO DOS ANIMAIS
Hélio Melo

Os animais também choram
Sem esperança de alegria
No lugar das derrubadas
Eram suas moradias

Os animais também veem
A falta de ecologia
Sentem falta de alimento
Que ataca a cada dia
São as causas principais
Que os animais
Não terem mais alegria

Na mata só se vê o
Fogo na floresta sumindo
Muitos prédios se construindo
Do outro lado nem se fala
Só se ouve zum zum da bala
Aos animais perseguindo


FIM DA CAMINHADA
Hélio Melo

Numa toalha
Banhada de sangue
O homem da floresta
Adormeceu
Adormeceu quando uma forte
Tragédia
Fez os seu corpo ficar
Pálido e frio
Que não teve tempo de dar
O último adeus aos
Companheiros

Se seus restos mortais falassem
Diria para seus amigos
Terminei minha jornada
Mas valeu a pena
Meu trabalho mesmo
Sofrendo perseguições

Espero que minha ausência
Não se transforme em
Desespero e sem
Entusiasmo para que
Sejam colhidos os frutos
Da semente que plantei


NO QUINTAL DE MINHA CASA
Hélio Melo

No quintal de minha casa não pensei
Pois haviam preparado
Tudo para mim
Mas não pensei
Não pensei
Numa hora tão minguada
Uma emboscada
Foi a casa do meu fim

O mundo inteiro abalou
Na rádio na televisão
Seu nome ficará na história
De fracasso e glórias
De um tempo que marcou
Mas não pensei
Não pensei
Numa hora tão minguada
Uma emboscada foi
A causa do meu fim


MELO, Hélio. Via Sacra na Amazônia. Rio Branco: Fundação Elias Mansour, 2003. p.41-45

quarta-feira, 8 de novembro de 2017

MEU TEMPO DE CRIANÇA NOS SERINGAIS DO RIO MURU (Parte 3)

Txai Antônio Macêdo
Crônicas Indigenistas

A vida na colocação Currimboque

Ali era louco, era inóspito, como se dizia lá: "Tudo no bruto há 18 anos". 

A colocação Currimboque, onde estávamos morando e trabalhando, fazia já dezoito anos que não era habitada por ninguém. Por isso, tudo ali já havia regenerado, mas foi preciso trabalharmos muito para edificar casa de morada, defumadores, galinheiros, cercado para jabutis, roçados e reabertura das estradas de seringa.

Nossa colocação distava cerca de seis horas da sede do Barracão Colombo localizado na margem direita do Rio Muru. As colocações que se avizinhavam eram: Cius, com seis horas de viagem a pé já nas águas do igarapé Ciús, pertencente às águas do Rio Envira; Cocal com quatro horas de viagem a pé; Campos da Cruz, com duas horas de viagem a pé e; Paiol da Lama, com três horas de caminhada pela floresta.

Em alguns finais de semana aparecia lá na nossa casa o seu Antônio Bento, da colocação Campo da Cruz e o Chico Mano, da colocação Paiol da Lama. Estas visitas eram uma boa maneira de sair da rotina e do isolamento, que eles viviam em suas moradias, para vir conversar com meu pai, mesmo tendo sido um homem que enquanto criança 'veio de fora'. Meu pai era um cidadão bem informado, sabia ler e escrever e, por sinal, escrevia muito bem. O mais importante é que ele era possuidor de uma caligrafia muito bonita, que ficava mais bonita ainda quando ele utilizava uma pena e um tinteiro.

Além das vantagens de ser ali um lugar novo e farto, muitas eram as 'desvantagens' contidas nas conversas de finais de semana, entre a minha família e os seringueiros vizinhos. Aqueles senhores e senhoras não escolarizados contavam histórias de onças, de Mapinguarí, da Mãe da Seringueira, da Mãe D’água. Tinham também histórias das pautas que seringueiros tiravam com o capeta, para tirar mais látex e produzir mais borracha. Alguns contavam histórias sobre cangaço. Falavam das histórias do Honorato Cobra Grande, do boto que saia das águas e ia para as festas para namorar as moças.

Falavam de almas e de mistérios da mata como, por exemplo, da Caipora, que eu acho que também se confunde com o Caboquinho da Mata. Tinha muita história sobre o 'tempo dos coronéis de barranco' e de alguns homens valentes. Falava-se sobre panemas colocadas por outros seringueiros que invejavam os caçadores mais felizardos.

Os seringueiros costumavam pedir ajuda de outros seringueiros, sobre como o que fazer para se livrar das panemas e, também, para devolver o mal aos invejosos que fizeram maldades. Eu sei que existem várias maneiras de resolver este tipo de situação. Como se trata de segredos da cultura da floresta eu prefiro manter oculta, mas, afirmo que existe e funciona.

Falava-se muito das correrias praticadas contra os índios, ditos 'brabos' e da tara das balanças utilizadas pelos Barracões da região, e de como alguns seringueiros colocavam barro, cocão, machado, pedra ou farinha de mandioca na borracha para pesar mais.

Uma conversa bem presente era a cobrança de renda das estradas de seringa, os altos custos das mercadorias (que naquela época já era consumido nos seringais), a falta de assistência médica, as visitas dos mateiros florestais e, também, da briga que porventura houvesse acontecido na festa da casa de alguém. Claro que apareciam conversas sobre algum rapaz ter roubado a filha de alguém conhecido.

Quando os assuntos dos adultos se esgotavam, meu pai tinha um enorme prazer de me colocar para falar para os adultos e crianças presentes sobre a história da descoberta do Brasil, que naquela época eu sabia decorada e hoje já nem me lembro tanto, até porque confundem invasão com descoberta.

Fui uma criança que não teve adolescência...

No primeiro ano vivendo nesta colocação, eu acompanhava meu pai nas atividades das estradas de seringa. Atividade essa que veio a ser minha profissão inicial, na qual eu era chamado de 'seringueiro toqueiro', ou 'seringueiro mirim'. Nesse tempo eu já contava com meus oito anos de idade.

Do segundo ano em diante já passei a assumir cortar*, vindo a colher em duas estradas de seringa onde eu ficava acompanhado só por Deus mesmo. Estas estradas eram conhecidas pelos nomes de São José 'de Cima' e São José 'de Baixo', pois as mesmas ficavam ao longo de um igarapé chamado São José. Então, pensando bem, eu realmente nunca estava só com Deus, pois, estava sempre junto a São José.

Aos oito anos de idade eu já tinha: faca de bainha; terçado 127; raspadeira; poronga; cabrita; faca de seringa; estopa; balde feito de frande de lata de banha de porco; saco encauchado; capanga de cartuchos e; minha mucal (espingarda) calibre 20. Eu assumi cortar e colher essas duas estradas de seringa para substituir o meeiro Chicó, que trabalhava de meia com meu pai**.

A borracha produzida pelo Chicó tinha muita água, na balança ela quebrava muitos quilos, entre uma pesada e outra. Por isso, meu pai passou a desconfiar do trabalho dele, passando a prestar mais atenção o que estivesse acontecendo. Assim, descobriu-se que Chicó varava as estradas e colocava água no látex, para que meu pai pudesse achar que ele tirou a mesma quantidade de do leite de seringa, que meu pai conseguia tirar de cada estrada em cada dia de corte.

Eu Vivi a verdadeira aventura de um seringueiro mirim, que por sua vez já havia lido e decorado grande parte do livro Páginas Brasileiras.

Em muitas ocasiões, trilhando a minha estrada de seringa, ou nos varadouros por onde andava, me recordava temerosamente daquelas histórias contadas pelos adultos sobre o Mapinguari, a Mãe da Seringueira, os índios brabos e, especialmente, quando me dava conta de que uma onça acabara de passar por cima de meus rastros na estrada de seringa, e que isso tinha acontecido ali, naquele mesmo dia ou há poucos minutos. Era pavoroso quando eu via uma cobra na floresta, eu tomei muitos sustos apavorantes, e quando ouvia o grito de algum animal que ainda não era de meu conhecimento, confesso que eu ficava com os nervos à flor da pele.

Meu maior temor era que a qualquer momento eu viesse encontrar um animal furioso, ou mesmo uma desumana assombração. Eu ficava na espreita, com medo de topar com um índio brabo. Nossa! Índio brabo! Isso tudo era demais para mim naquela época.

Mas nesse trabalho tinham coisas lindas também.

Eu ficava maravilhado quando encontrava bandos e bandos de macacos-prego, cairara, guariba, barrigudo, macaco-preto, macaco-da-noite, macaco-de-cheiro, zog-zog, parauacu, bigodeiros e soin. Os Soins são tão bonitinhos.

Eu ficava muito tempo só olhando os animais: bandos de araras; papagaios; jacus; mutuns; inambus; nambu galinha; nambu azul; nambu macucal; nambu relógio; nambu preta; surulinda e; Tucanos. Pasmava quando conseguia ver um Gavião Real.

Nossa colocação ficava num local de muita fartura, porque, além de outros abundantes recursos naturais, tinha muita caça, e até por isso mesmo tinha muita onça: onça pintada da malha grande; onça pintada da malha pequena; onça preta; onça vermelha e falavam até de onça branca.

Tinha tanto Jabuti naquela floresta que em três meses nós juntamos cento e sessenta jabutis, e a gente criava alguns num cercado feito de ripas de paxiúba ao lado de nossa casa. Alguns jabutis dependendo da quantidade de malhas que ele possui no casco podem ser, ou não, mandingueiros (representantes de ciências ocultas especiais para o caçador). Neste caso específico, tal jabuti é colocado num chiqueiro feito na sapopemba e passa ser alimentado com comidas especiais como: fígado de caça, Jaracatiá, cajarana, cajuzinho, ubaia, jenipapo, dentre outras comidas.

Tinha muito peixe no Igarapé São José, que era grande cheio de pedras e cachoeiras e de difícil navegação. Minhas duas estradas de seringa margeavam este Igarapé. Achava fantástico quando eu me aproximava cautelosamente da beira de um daqueles lindos poços para ver abaixo das águas cristalinas repletas de peixes curimatã, pirapitingas e matrinchãs malhadas. Eu ficava encantado de olhar tanta beleza e riqueza ali à luz dos meus lindos olhos esverdeados, até pela cor das plantas silvestres ciliares daquele majestoso Igarapé, circundado pela floresta e com o nome de São José.

Naquele tempo que fui seringueiro, dos meus oito aos doze anos de idade, ainda pude ver e viver o 'cativeiro' e a coação aplicada pelos seringalistas contra os seringueiros. Uma situação nunca dá para esquecer.

Pude ver que a ignorância ali no mundo dos seringais superava o saber, visto que a escola para quem vivia e trabalhava na floresta não existia. Eu já sabia ler e escrever o meu nome, mas, é porque aprendi com meu próprio pai, o meu grande professor.

Os patrões eram cruéis, arrogantes e prepotentes. Mas, haviam homens que não aceitavam tais crueldades, ficando simplesmente quietos, parados, de braços cruzados. Eu vi, por exemplo, meu irmão mais velho, Raimundo Batista de Macêdo, fazer um desses patrões, de nome Francisco Ribeiro, 'tirar' sua 'conta corrente' em cima de uma barra de sabão zebu.

Os patrões roubavam nos preços dos bens industrializados, através da tara das balanças, na cobrança de renda e na hora de extrair a conta corrente de um seringueiro. Pagavam a borracha produzida sem qualquer tabelamento, e tudo ficava ao bel prazer dos deles. A desinformação gerava uma bruta ignorância nos seringais deixando as pessoas um tanto selvagem mesmo.

Certo dia, quando já era adolescente – palavra que só viemos ouvir muito tempo depois que conhecemos cidade, até porque você saía de menino para homem, fiquei muito apavorado com o que ouvi na floresta. No entanto, não se devia voltar para casa falando de algo que lhe assustara e não explicar aos outros do que na verdade se tratava, pois, quem se assustasse tinha a obrigação de verificar, olhar de perto para contar de certo, o que era aquilo que lhe botou tanto medo. Então, joguei o medo fora e fui olhar para ter certeza do que se tratava.

Olhem leitores, estes momentos, para uma criança na floresta não é nada fácil. Moral da história: tratava-se de um casal de jabutis fazendo amor em meio a sombra do verde pálido, num universo quase inteiramente livre, não fosse pela minha penetra presença morrendo de medo naquela localidade.

Principalmente, até descobrir que se tratava de um casal de jabutis fazendo amor selvagem. Quando meus olhos viram aquilo apesar da tara demonstrada pelo jabuti em cima da jabota, vi que se tratava de um sério caso de amor e fui me retirando, mas, o meu coração continuava batendo ligeiramente apressado. Porém, como já faltava pouco para chegar a casa, fui me acalmando e já cheguei no meu lar pronto para contar aquela história a meus pais e aos meus irmãos. Engraçado, todos riram muito, e para mim, aquilo era realmente algo muito estranho.

* Cortar – termo usado para definir a extração do látex, através dos cortes típicos feitos pelos coletores seringueiros;
** O Meeiro é um seringueiro mantido pelo seringueiro titular da colocação, e produz a borracha sob a responsabilidade do Titular. Este ganha a metade da produção do ano de safra. Era como um seringueiro agregado, e era mantido com comida, roupa lavada e dormida na casa que trabalha.

Antônio Batista de Macêdo, o Txai Macêdo, é sertanista da FUNAI e uma figura importantíssima para o indigenismo e para os povos indígenas no Acre. Juntamente figuras como com Txai Terri, Dedê Maia foi (e continua sendo) uma memória viva do que foram os anos de luta, desafios, vitórias, alegrias e tristezas em prol das questões indígenas nesse rincão da Amazônia. Vivas a esse grande txai, cuja história merece ser contada e recontada por quem  admira e conhece o seu trabalho. (Jairo Lima)

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terça-feira, 7 de novembro de 2017

COELHO NETO

ROGEL SAMUEL


- Bolo de cupuaçu, Mestre? - perguntou Lima Silva, servindo o moço.
- Sim, sim. A vida é a variedade... Assim como o paladar pede sabores diversos, assim a alma exige novas impressões, disse Coelho Neto.
- É uma iguaria amazonense, disse Karl Waldemar Scholz. Mas só na minha casa existe esta receita.
- Por quê? – quis saber o escritor num gesto de curiosidade.
- Minha cozinheira aplicou a receita da torta de maçã alemã.
- Apfelstrudel? – perguntou Coelho Neto, em perfeita pronúncia alemã.
- Sim, respondeu Scholz. Contém pedaços de castanha do Pará e calda de cupuaçu.
- Uma delícia, disse o escritor, provando e balançando a cabeça.
Era dia 10 de setembro de 1899.
Coelho Neto deixaria Manaus no dia seguinte, no paquete “Manaus”.
Antes de partir, pose para o fotógrafo Lucciani.
Coelho Neto, maranhense, filho de um português e de uma índia, desembarcou na noite de 11 de agosto. Estava na cidade há 26 dias, no Hotel Cassina. Ele já era famoso aos 35 anos.
Alto, magro, discretamente elegante.
Tinha publicado, naquela época, sete romances, sete livros de contos, quatro volumes de crônicas, três novelas, dois volumes de “educação moral e cívica”, dois poemas dramáticos, uma balada e uma conferência.
Era redator da “Gazeta do Rio”, de Patrocínio; e do “Diário de Notícias”, de Rui Barbosa.
Dava aula de história da arte na Escola Nacional de Belas Artes.
Coelho Neto pertencia ao grupo de Bilac, Murat, Aluísio de Azevedo, Raimundo Correia, Paula Ney, Guimarães Passos, Raul Pompéia, Martins Fontes.
Já na primeira noite em Manaus esteve reunido com a intelectualidade amazonense.
Jantou com Raul de Azevedo, Fran Paxeco e Cláudio de Sousa, que era médico em Manaus.
Cláudio de Sousa, depois, entrou para a Academia Brasileira de Letras.
No dia seguinte, no Teatro Amazonas, foi assistir, junto com o Governador Ramalho, à opereta portuguesa: “Os 28 dias de Clarinha”.
No outro dia, almoçou com amigos, a bordo, visitou Eduardo Ribeiro na sua chácara, almoçou na casa do diretor do “Amazonas Comercial”,  no Palácio do Governo, na chácara de Inácio Pessoa, na casa de Th. Vaz.
Visitou o Centro Artístico, o Congresso, o Ginásio, a Escola Normal, o Instituto Benjamin Constant, o quartel de polícia, o hospital da Beneficência Portuguesa.
Participou de um piquenique no Tarumã, de um baile de gala no “Sport Club”... Coelho Neto parecia chefe de estado.
No Teatro Amazonas durante a operetta “Dia e noite”, foi glorificado com duas bandas de música e por discurso de Claudio de Sousa. Houve hino nacional e discurso do próprio escritor.
- Volto amanhã para o Rio, disse Coelho Neto.
E acrescentou:
- Estou cansado e saudoso. Deixei no Rio um filho recém-nascido e a viagem foi longa.
- Muito longa? - indagou, vivamente, Lima Silva.
- Parei no Espírito Santo, na Bahia, em Sergipe, em Pernambuco, na Paraíba, em Fortaleza, no Maranhão, no Pará.
Depois de alguns minutos de conversação, Lima Silva disparou:
- Tem visto Thaumaturgo de Azevedo?
Houve momento de constrangimento. Coelho Neto corou.
O arguto Lima Silva queria saber o que estava por trás daquela viagem, pois o escritor não devia ter vindo a Manaus somente para almoçar e ser homenageado.
Sabia que Coelho Neto era ligado aos militares republicanos, como secretário-geral da Liga de Defesa Nacional. Coelho casou-se com Maria Gabriela Brandão, logo após a Proclamação da República, tendo como padrinho o próprio Presidente Deodoro da Fonseca. O casal teve treze filhos, dos quais só sete sobreviveram. Devia conhecer de perto o ex-governador Thaumaturgo, que era amigo de Deodoro.
- Sim, tenho visto, disse ele, meio sem jeito.
- E Fileto Pires Ferreira? – perguntou Lima Silva.
- Este está recluso na sua casa no Andaraí. Mora no meio de um pântano...
- No meio da floresta?
- Sim, não visita ninguém, nem recebe, mas luta por seus direitos. Está preparando um livro que vai chamar-se “A verdade sobre o caso do Amazonas”.
- E depois de um gole, acrescentou:
- Por aqui ninguém fala dele, só de Eduardo Ribeiro.
- Sim, é verdade.
- É a glorificação do Eduardo Ribeiro. O governo de Fileto parece que nem existiu, que foi uma nulidade.
- Mas não foi, redarguiu Lima Silva. Foi melhor do que o de Eduardo.
- Como assim? – indagou o escritor.
- Fileto governou 19 meses. Eduardo quase 8 anos. No Governo de Eduardo Ribeiro, houve a construção... (e Lima Silva foi descrecendo as realizações de Eduardo Ribeiro).
- Tudo isso? Perguntou o escritor maranhense?
- Sim. Mas nos 19 meses do Governo de Fileto Pires houve a inauguração do Serviço de Eletricidade, escavações, nivelamentos e calçamentos das ruas 7 de Dezembro, Demetrio Ribeiro, Quintino Bocaiúva, Marechal Deodoro, Independência, Barroso, Saldanha Marinho, Marcilio Dias, 10 de Julho, Jose Clemente, Monsenhor Coutinho (Progresso), Emilio Moreira, Ramos Ferreira, Ipixuna, Oriental e Marques de Santa Cruz...  215.000 m3 de aterros e desaterros. Fileto fez o aterro do Igarapé dos Remédios, com 80.000 m3 de terra retirada da praia do Rio Branco, onde hoje está Escola Técnica Federal, no trecho entre Mundurucus e ponte dos Remédios. Fez a continuação das obras do Palácio da Justiça e do Palácio do Governo (nunca concluído). O Palácio do Governo, obra monumental, jamais concluída, seria o maior prédio já construído no Brasil de sua época. Fileto terminou a rampa da Praça 15 de Novembro e dos jardins da Matriz. Fechou o contrato do melhoramento do porto e para o estabelecimento da viação urbana e suburbana. Manaus nos fins de 1897 já possuía 16 quilômetros de linhas, 25 bondes para carga e 10 para passageiros, tendo transportado 171.783 usuários, a 250 reis a passagem. Fileto fez a iluminação dos bairros do Mocó, Cachoeira Grande e Cachoeirinha. Instalou 300 lampiões a nafta, fez a construção da rede complementar de água, instalou o serviço telefônico de 330 aparelhos, cujo início de funcionamento se deu em 1897. Fileto concluiu as obras do Teatro Amazonas, que estavam paradas e o inaugurou em 31 de dezembro de 1896.
- Tudo isso em 19 meses?
- Sim. E não deixou dívidas, mas um monstruoso saldo. Ele começou seu governo pagando as dívidas, pois Eduardo Ribeiro tinha deixado o Governo quebrado. Fileto pagou todas as dívidas do governo anterior e alavancou as obras.
- O Sr. tem razão, doutor.
No fim daquela tarde Lima Silva desconfiou que Coelho Neto tinha vindo ao Amazonas como observador político da capital para preparar o desfecho que ia ser cassar a pretensão de Eduardo Ribeiro de assumir o Senado.

sexta-feira, 3 de novembro de 2017

MEU TEMPO DE CRIANÇA NOS SERINGAIS DO RIO MURU (Parte 2)

Txai Antônio Macêdo
Crônicas Indigenistas

Meus tempos de criança eram tempos difíceis, mas, mesmo assim muito animado. Muitas coisas aconteciam...

Um grito na floresta

Eu já trabalhava ajudando a minha mãe nos roçados. Meu ofício era carregar água limpa das fontes, para minha mãe e minhas irmãs beberem quando se encontravam trabalhando nos roçados.

Junto com minha irmã Kom Kem, durante o verão, pescávamos camarão em meio aos paus dos igarapés e fazíamos comidas muito gostosas, mas, eu gostava mesmo era do camarão assado no espeto e na brasa do fogão. E nesses momentos passávamos sempre por muitas aventuras, como, certa vez, quando fomos ‘pastorear’ passarinhos do tipo graúna e chupão, que comiam todo arroz dos roçados.

Nesse ‘serviço’ enquanto ficávamos de olho, de dentro da floresta ecoou um forte e tenebroso grito, que chegou a tremer a terra em nossos pés. Esse grito foi tão forte que mesmo muito abalados, eu e Kom Kem disparamos correndo feito loucos cruzando o igarapé do Caucho num vapt-vupt, e muito cansados, conseguimos chegar a nossa casa. Eu logo fui pro colo de nossa mãe e somente depois de muito esforço é que conseguimos contar o que tinha acontecido no roçado.

A morte do José Bonito

Nesses anos, também aconteceram casos muito sinistros, como, num dia domingo, onde acontecia uma ‘pamonhada’ de milho verde na nossa casa. Os nossos vizinhos costumavam vir aos domingos nos visitar, comer canjica e pamonha de milho verde.

Nesse dia calhou de logo ali no terreiro de nossa casa, um sujeito de nome José Bonito, junto com outro de nome Carlos Brás e seu irmão, que haviam tido uns desacertos antes, se encontraram. Mal se toparam e já se travaram numa briga, ali mesmo no terreiro. A confusão terminou com José Bonito morto com uma facada.

Depois dessa morte, colocaram uma cruz de madeira, para indicar onde caiu morto José Bonito. E essa cruz ficou fincada no nosso terreiro a partir de então. A gente era criança e tínhamos medo de alma. Mas, quando a gente queria ganhar uma coisa um do outro irmão ou irmã, então a gente colocava a coisa a prova. O melhor tempo de enfrentamento era sempre à noite e a maior prova era ir lá onde caiu morto José Bonito, arrancar a cruz e trazer pra mostrar para o outro que cumpriu o acordo.

Pior ainda, era que tinha que voltar e fincar a cruz no local. Vixi, isto era arrepiante.

Os porcos da dona Preta Peneira

A vida sempre nos prega peças, e muitas vezes nossa capacidade de resolução se dá de formas nem sempre aconselháveis...

Minha mãe costumava plantar suas roças perto de casa, mas tinham uns porcos, que pertenciam a uma senhora conhecida como dona Preta Peneira, que todos os dias invadiam o nosso roçado e comiam todas as roças. Eu e Kom Kem vivíamos correndo de um lado pro outro tangendo esses porcos.

Num daqueles dias em que a paciência, embora seja procurada não é encontrada, a minha mãe que tarrafeava* e atirava muito bem, pegou a espingarda, me chamou e, junto com ela fomos ao roçado. Quando chegamos lá, logo se viu que nossas roças estavam cheia de porcos devorando os nossos alimentos. Minha mãe não contou pipoca: pegou a espingarda e enquanto ela atirava, eu municiava a espingarda. - Assim minha mãe matou oito porcos da dona Preta Peneira.

Os filhos homens de dona Preta eram valentes, e minha mãe mandou que eu fosse a casa dela dizer para ela ir tirar os porcos de dentro do nosso roçado. Eu deveria dizer que ela levasse uma canoa para levar seus porcos, pois os mesmos já estavam mortos. Eu me arrepiei todo, mas, obediente, fui cumprir o mandado da minha mãe e tive a sorte ainda de voltar pra casa, na canoa de dona Preta, uma senhora gorda e morena que não usava as peças baixas. Ela estava sentada na popa e eu na proa do barco e, enquanto ela remava, se descuidava muito e eu via ‘coisas’ que, naquela época de criança, não podia sequer pensar, quanto mais ver aquilo. E assim, entre uma visão e outra, chegamos ao porto da casa de minha mãe.

Dona Preta e seus filhos foram buscar os porcos mortos, que se encontravam no meio de nossas roças. Eu tremia de medo e minha mãe parecia tranquila, no entanto, continuava segurando a sua espingarda nas mãos enquanto saía na varanda ordenando que tirassem os animais mortos de dentro de seu roçado. Ela pediu ainda que aqueles rapazes não machucassem suas roças, como seus porcos o fizeram. Graças a Deus não houve revolta e nem revanche e tudo ficou na paz... e eu tranquilo.

Do Igarapé do Caucho à Colocação Currimboque, no Seringal Colombo

Eu já contava oito anos de idade quando Nossa família decidiu se mudar para o Seringal Colombo.

Então, organizamos a nossa caravana de mudança e eu ganhei a responsabilidade de conduzir a canoa das galinhas. Os pintinhos piavam e defecavam tudo, e fedia exageradamente. Todos os dias eu tinha que tirar todas as capoeiras de galinha para fora do barco, lavar a canoa, recolocar as capoeiras de galinha e ‘varejar’ o dia inteiro, e assim se foram onze dias varejando e subindo o Rio Muru no odor das galinhas. Pior ficava quando dava uma chuva, as galinhas se molhavam e ai é que elas fediam mesmo.

Deixamos o Rio Muru e desta feita adentramos o igarapé São José. Com destino a colocação Currimboque, cerca de seis horas a pé da margem do rio Muru. Varejei mais quatro dias na canoa das galinhas subindo esse Igarapé. Aquilo era mesmo um verdadeiro ‘pau de arara’, e nós de tão enfadados, dormíamos nos barrancos do Igarapé, e assim finalmente chegamos ao nosso novo lugar para morar e trabalhar. Meus pés constantemente em contato com as águas dos rios findaram ganhando uma ‘frieira d’água’ que quase me custou os próprios pés. Alguns costumam chamar tal frieira d’água pelo nome de ‘Capa Rosa’.

A colocação Currimboque já estava há dezoito anos desocupada, ou seja, faziam dezoito anos que ninguém morava ali. Não tinha casa, não tinha roças, não tinha farinha e não tinha nada, mas, tinha muita caça e muito peixe. No entanto, não tinha o que chamamos de ‘mistura’: farinha de mandioca para comer peixe e carne como já era costume de quem morava e vivia do extrativismo nos seringais, e vivia da caça, da pesca e de roças de subsistência. - Porém, logo plantamos mandioca, milho, banana, abacaxi e outras plantas frutíferas. Passamos a recolher cocos de ouricuri na floresta, fazer disso farinha e dessa forma potencializar a nossa alimentação cotidiana.
Lembranças...

Todos que tiveram a oportunidade de ler estes textos, sobre minha infância nos seringais, fiquem espertos porque esta história continua sendo contada no próximo texto.

* pescar com tarafa.
** varejar – usar uma longa vara para impulsionar o barco.



Antônio Batista de Macêdo, o Txai Macêdo, é sertanista da FUNAI e uma figura importantíssima para o indigenismo e para os povos indígenas no Acre. Juntamente figuras como com Txai Terri, Dedê Maia foi (e continua sendo) uma memória viva do que foram os anos de luta, desafios, vitórias, alegrias e tristezas em prol das questões indígenas nesse rincão da Amazônia. Vivas a esse grande txai, cuja história merece ser contada e recontada por quem  admira e conhece o seu trabalho. (Jairo Lima)