| Fotos: Isaac Melo |
sexta-feira, 16 de novembro de 2018
SOBRE OS FESTIVAIS DAS NOVAS ESPERANÇAS
João Veras
O que mais queres
tu de mim, colonizador?
Além desse acre de
terras com fartas madeiras sem lei?
Que eu rogue por
seus empréstimos, essa tua riqueza que me roubas?
Que eu continue
seguindo as tuas bulas, fórmulas e mapas-armadilhas?
Que eu viva a sorri
pra ti? A abrir pernas, estradas e mentes?
Queres ainda mais
meus pobres conhecimentos que valem outro?
Minhas ignorâncias
sobre tuas estratégias de saber?
Que eu faça mais
poses para tuas fotografias de viagens?
Que eu consuma mais
as tuas artes, as que eu não entendo e as que são feitas justamente para eu
entender?
Que eu continue
acreditando em teus deuses?
Que eu viva a te
receber como um dos meus melhores?
Queres ainda que eu
morra desejando ser como você?
Que eu viva
sonhando ser um dia você?
Que eu seja você?
E que me mantenha
sem vestes a seios nus matando a sede dos teus baratos com minhas bebidas?
Ofertando-te o que me resta de sagrado?
O que mais queres,
além de meu corpo, da minha história, dos meus sonhos?
Pois agora eu não
te dou mais! (...assim pensou alguém lá nos fundos da aldeia, no mais
respeitoso silêncio).
terça-feira, 13 de novembro de 2018
MÃE NHÁ EUGÊNIA
Leila Jalul
Os negros que conheci
na minha infância, invariavelmente, eram empregados domésticos ou seringueiros.
Assim foram o velho Bahia, (da Bahia, só o nome), o seu Teodorico Francisco do
Sacramento, o João Mulato, Benedito e Deolinda, tios de minha mãe, Antonio Lopes,
Nhá Eugênia e Irineu Serra. Destes, apenas Antonio Lopes era cearense, de
Quixeramobim. Os demais vieram diretamente do Maranhão. Alguns eram quilombolas
nas terras de Sarney.
Os negros que conheci
na minha infância, invariavelmente, eram empregados domésticos ou seringueiros.
Assim foram o velho Bahia, (da Bahia, só o nome), o seu Teodorico Francisco do
Sacramento, o João Mulato, Benedito e Deolinda, tios de minha mãe, Antonio Lopes,
Nhá Eugênia e Irineu Serra. Destes, apenas Antonio Lopes era cearense, de
Quixeramobim. Os demais vieram diretamente do Maranhão. Alguns eram quilombolas
nas terras de Sarney.
Como os antigos
sabem, nas casas dos grandes comerciantes e seringalistas, havia empregado para
tudo. Sem salário, de preferência. Eles ganhavam um teto, uns molambos para
vestir, uma rede para embalar o corpo e as saudades e o apelido de “agregado”.
Empregados remunerados só os de balcão e os que sabiam ler e escrever, ainda que
um tiquim de nada. Não errando no troco e nas anotações de borrador, já tava de
bom tamanho.
Mãe
Nhá Eugênia, por economia, era lavadeira e torradeira de café na casa do meu
avô. Em dias marcados, acendia o fogo de lenha a céu aberto, pegava o tisnado torrador
feito de metade da lata de querosene de vinte litros, a pá, os grãos e lá se ia
para a tórrida função. O café, já catado e esquentado ao sol, era medido numa
lata de banha, misturado ao açúcar gramixó, na proporção correta e, pá pra lá,
pá pra cá, mexia os grãos, ao som dos estalidos da lenha. A fumaça invadia seu
rosto. Algumas fagulhas iam parar em seus braços e mãos, sem direito a
reclamação.
–
Nhá, deixa eu ajudar um pouquinho?
–
Sai daqui, traste, cê qué ficá preta como a Nhá?
–
Nhá, deixa eu bater no pilão? Só um pouquinho, deixa?
–
Sai daqui, diacho! Minina impertinente qui tu é! Sai daqui ou tu qué ficar feia
como a Nhá?
Nhá
mostrava sempre os braços musculosos para mostrar que tinha forças, apesar dos
não sei quantos anos. Com ela aprendi a dar um beliscão no músculo até subir
aquela bolotinha: o mosquito, dizia ela. Dizia, ainda, que precisava ser forte,
até achar os filhos que se haviam embrenhado nos seringais e não davam
notícias.
De
todos ela lembrava. No entanto, era pela filha Florinda o choro que derramava.
–
Fia, desde que a danada ajuntou-se com aquele desgramado, fie duma égua, que
num se alembra mais da mãe. Num sei se tem minino, minina, num sei. Nhá, com a
força do Pai do céu, ainda vai saber. Desalmada...
O
tempo passando e Nhá já não era mais a negra forte. Vovó foi notando que ela
não estava bem. Sempre acordava antes do sol, mas foi ficando devagar,
levantando com dificuldade, dizendo coisa sem coisa. Foi ficando biló,
peidadinha da cabeça. Passou a tremelicar que nem vara verde.
Uma
noite, lembro como se hoje fosse, já com meus 9 anos, acordei com Nhá Eugênia
andando e falando sozinha. As palavras eu não compreendia, porém, lá no seu
resmungo, ouvi o nome de Florinda, ou Flô, como chamava sua “minina”.
O
café já não torrava. A roupa não mais lavava. As tarefas foram passadas para
Iracy, a arrumadeira. E Nhá Eugênia dizia, quando o juízo voltava:
–
Ô minina Iracy, prestenção, a roupa do seu Ibrahim tá ficando uma mundiça!
Esferga a folha do mamoeiro, minina! Tu é braba dimais! Tescunjuro! A gente
insina, insina e o diacho num aprende! Vôte!
Num
dia qualquer de 1957, Nhá procurou a desalmada Florinda. Passou a noite
procurando. Deve de ter achado. Não acordou. Só pode ter achado...
DIÁRIO DE BERNARDO SOARES
Há sensações que são
sono, que ocupam como uma névoa toda a extensão do espírito, que não deixam
pensar, que não deixam agir, que não deixam claramente ser. Como se não
tivéssemos dormido, sobrevive em nós qualquer coisa de sonho, e há um torpor do
sol do dia a aquecer a superfície estagnada dos sentidos. É uma bebedeira de
não ser nada, e a vontade é um balde despejado para o quintal por um movimento
indolente do pé à passagem.
Olha-se,
mas não se vê. A longa rua movimentada de bichos humanos é uma espécie de
tabuleta deitada onde as letras fossem móveis e não formassem sentidos. As
casas são somente casas. Perde-se a possibilidade de dar um sentido ao que se
vê, mas vê-se bem o que é, sim.
As
pancadas de martelo à porta do caixoteiro soam com uma estranheza próxima. Soam
grandemente separadas, cada uma com eco e sem proveito. Os ruídos das carroças
parecem de dia em que vem trovoada. As vozes saem do ar, e não de gargantas. Ao
fundo, o rio está cansado.
Não
é tédio o que se sente. Não é mágoa o que se sente. E uma vontade de dormir com
outra personalidade, de esquecer com melhoria de vencimento. Não se sente nada,
a não ser um automatismo cá em baixo, a fazer umas pernas que nos pertencem
levar a bater no chão, na marcha involuntária, uns pés que se sentem dentro dos
sapatos. Nem isto se sente talvez. À roda dos olhos e como dedos nos ouvidos há
um aperto de dentro da cabeça.
Parece
uma constipação na alma. E com a imagem literária de se estar doente nasce um
desejo de que a vida fosse uma convalescença, sem andar; e a ideia de convalescença
evoca as quintas dos arredores, mas lá para dentro, onde são lares, longe da
rua e das rodas. Sim, não se sente nada. Passa-se conscientemente, a dormir só
com a impossibilidade de dar ao corpo outra direção, a porta onde se deve
entrar. Passa-se tudo.
Que
é o pandeiro, ó uso parado?
PESSOA, Fernando.
Livro do desassossego. Barueri: Cirando Cultural, 2018. p.80-81
sexta-feira, 19 de outubro de 2018
CLUBE DA MADRUGADA
Pe. Nonato Pinheiro
Há mais de um
decênio que o Clube da Madrugada vem se firmando como expressão de tenacidade e
pujança no campo das artes e das letras, movimento de vitalidade e renovação,
dirigido por uma plêiade de talentosos moços, que encaram o problema da cultura
com dignificante espírito de seriedade.
(Da Academia
Amazonense de Letras)
Há mais de um
decênio que o Clube da Madrugada vem se firmando como expressão de tenacidade e
pujança no campo das artes e das letras, movimento de vitalidade e renovação,
dirigido por uma plêiade de talentosos moços, que encaram o problema da cultura
com dignificante espírito de seriedade.
Quando surgiu o
movimento inspirado em manifestações similares noutras áreas literárias e
artísticas do país, no espírito que animou a “Semana de Arte Moderna”,
promovida em 1922, no Teatro Municipal de São Paulo, com palestras,
conferências, declamações e exibição de artes plásticas, já era eu acadêmico, e
senti, no dealbar ou na floração daqueles primeiros impulsos renovadores, certa
descrença da parte de alguns vultos de nossas letras planiciárias. Desde o
início, entretanto, observei nos rapazes acentuada posição para levarem a coisa
a sério. Liam, estudavam, trocavam ideias e comentavam os últimos lançamentos
do país, no mundo livresco. Acompanhavam o momento artístico e literário, aqui
e alhures, com vivo interesse. Não dispunham de uma sala, sequer, para seus
encontros. Que importava? Qualquer porão ou nesga de jardim bastavam aos seus
intercâmbios culturais. A praça de Heliodoro Balbi foi palco das primeiras
tertúlias e continua a ser teatro dos encontros dos clubistas, aos lampejos do
sol, se é dia; sob o pálio das estrelas quando é noite.
Crescia o
movimento. Novos sócios vinham unir-se aos primeiros. Alguns transferiram-se
para a metrópole tentacular, sonhando com melhores vantagens e posições. Outros
permaneceram, mantendo crepitante a chama do ideal. Outros ainda retornaram,
renovando-se no espírito primitivo que animou o Clube. Vieram os primeiros
lançamentos. E ao editar-se a primeira seleta, a “pequena antologia madrugada”,
já o movimento estava consolidado. Cada nova manifestação dos clubistas era uma
explosão e afirmação de pujança, de rigor, de vitalidade. Da fase sonhadora,
mesclada talvez de certa indisciplina, compreensível nas instituições
nascentes, passou-se às fases das definições, no encalço de uma disciplina e de
um roteiro. As equipes movimentaram-se conscientemente, e a cidade tomou
conhecimento de que os rapazes se decidiram a tomar posição, a despertar
vocações nascentes, a incrementar o movimento artístico e literário, servindo
com devotamento à cultura. O Clube da Madrugada era uma realidade seivosa.
Tenho consciência
nítida da que sempre estimulei esses moços, que surgiam diante de minhas
pupilas tocados pela centelha eletrizante de um ideal superior. É só
consultarem minhas colaborações na imprensa amazonense, que já se avoluma de
vinte anos, e terão a prova convincente. Cheguei a sugerir ao escritor Péricles
Moraes, presidente da Academia Amazonense de Letras, ao tempo da fundação do
Clube da Madrugada, de quem fui colaborador imediato e cotidiano nos movimentos
culturais que entendiam com a Casa de Adriano Jorge, que observasse os rapazes,
que lhes acompanhasse os passos na seara das letras. Avancei a ideia do
aproveitamento de alguns para a Academia, no intuito de uma revitalização do
sodalício. Os clubistas têm consciência dessa posição. Outros confrades, como
Aristóphano Antony, também assim pensavam.
Como quer que seja,
entendo que a linha do Clube da Madrugada não deve de incremento literário e
artístico, tendo em mira o progresso cultural do Amazonas. Não devem ser forças
antagônicas, mas forças vivas, formando uma mesma dinâmica pelo soerguimento
pensamental, pelo esplendor das letras e das artes, pelo culto do idioma e da
literatura nacional.
O Clube da
Madrugada possui nomes expressivos em seus quadros: Aluísio Sampaio, Alencar e
Silva, Edson Farias, João Bosco Evangelista, Álvaro Páscoa, Carlos Gomes,
Farias de Carvalho, Jorge Tufic, Arthur Engrácio, Pedro Amorim, Ivens Lima,
Jefferson Peres, Afrânio Castro, Evandro Carreira, Miguel Barrela, João Bosco
Araújo, Saul Benchimol, Antonio Augusto Gurgel do Amaral, J. Maciel, Hahnemann
Bacelar, Luiz Bezerra, Pe. L. Ruas, Sebastião Norões, Getúlio Alho, Ernesto
Pinho, Ernesto Penafort, Antísthenes Pinto, Óscar Ramos Filho, Pedro Santos,
Cosme Alves Neto, Guimarães de Paula, Nauro Machado, Nazareno Tourinho, Assis
Brasil, Astrid Cabral, Nivaldo Santiago, Teodoro Botinelly de Assunção,
Leopoldo Peres Sobrinho, Djalma Passos, Moacir Couto de Andrade. Servi-me de
uma relação que me foi oferecida pelo clubista Jorge Tufic, cuja ordem nominal
mantive.
Já é volumosa a
coleção dos livros lançados pelos clubistas. Farias de Carvalho brindou-nos com
“Pássaro de Cinza”, bem festejado pela crítica. É sem favor um dos mais belos
talentos poéticos da nova geração, refulgindo ainda como excelente declamador.
Jorge Tufic, outro poeta de raça e intelectual de elevadas preferências
mentais, deu à estampa “Varanda de Pássaros”, na qual, em verdade, só gorjeia
uma ave: o pássaro de sua maviosa inspiração. Alencar e Silva, que já nos havia
dado “Painéis”, voltou com melhor garbo e amadurecimento em “Lunamarga”, sua
última conquista, saudada com desbordante entusiasmo. Padre Luiz Ruas, um dos
brasões mais refulgentes do Clube, é autor de “Aparição do Clown”, que revelou
um poeta de impressivos e expressivos surtos e uma inteligência de radiosa
claridade. “Poesia Frequentemente” é de Sebastião Norões, discípulo fervoroso
de Dario e Guillén, livro que patenteia um intelectual e poeta de muita
sensibilidade e intuição. Antísthenes Pinto, que estreara como inspirado poeta
em “Sombra e Asfalto”, em que há claridades de plenilúnios e olhares serenos de
pupilas de sonhador, surge agora como novelista, sobraçando o seu “Chavascal”,
núperlançado. Na crítica literária acompanho com interesse e aplauso a
desenvoltura de Aluísio Sampaio e Arthur Engrácio, cujas recensões refletem a
agudeza e o faro de conspícuos analistas. Engrácio ainda brilha no conto e na
novelística, e suas “Histórias de Submundo” dão-nos o fôlego e as dimensões do
contista.
Na pintura, na
escultura, na xilogravura, no campo fascinante das artes plásticas, o Clube da
Madrugada apresenta uma plêiade de admiráveis artistas, alguns de renome
nacional; Moacir Andrade, Hahnneman Bacelar, Getúlio Alho, Afrânio de Castro,
Álvaro Páscoa e outros que honrariam os melhores e mais exigentes salões de
arte.
Na eloquência e
oratória há um nome que se impõe vitorioso: Evandro Carreira, já consagrado num
concurso nacional de oratória. No campo das ciências sociais e econômicas Jefferson
Peres e Saul Benchimol são figuras de alto relevo, que dignificam qualquer
instituição de cultura. No mundo empolgante do canto e da música esplendem
Nivaldo Santiago, Pedro Amorim e outros.
O Clube da
Madrugada possui uma flor escarlate em seu jardim, que lhe dá realce e encanto:
Astrid Cabral, a mais talentosa de quantas alunas tive no Instituto de
Educação. É a única mulher, a florir com o seu formoso talento no sodalício
presidido pelo meu amigo Aluísio Sampaio. Embora ausente, sei que Astrid não
perde o contato com o seu Clube, e sempre envia suas produções.
Muitos são os que
me perguntaram e perguntam acerca de minha posição em face do movimento do
Clube da Madrugada. É de plena fraternidade e simpatia. Embora minha formação
intelectual tenha sido eminentemente clássica e acadêmica, a verdade verdadeira
é que nunca me prendi a escolas, pelos menos de um modo exclusivo. Sou como a
abelha industriosa, que vai de flor em flor, à cata do néctar para o fabrico do
mel delicioso. Sempre me atraiu o princípio da variedade: “varietas delectat”.
Tenho poetas de minha mais alta estima e preferência em todas as escolas e
correntes literárias. Afinal, o que monta não é a escola, mas o talento do
intelectual e do poeta. Só há uma realidade: é a POESIA. Como quer que seja,
dou em letra o meu abraço aos sócios do Clube da Madrugada, exortando-os à
continuação da peleja em prol do progresso cultural de nossa terra. Ergamos bem
alto o nome do Amazonas na comunhão nacional pela afirmação da nossa
inteligência, no cultivo fascinante das boas letras e das belas artes!
(Publicado no Jornal
do Comércio de 03 de abril de 1966. Mantido ipsis litteris o texto original,
com adaptação à nova ortografia).
MINIBIOGRAFIA.
Raimundo Nonato Pinheiro nasceu em Manaus, em 1922, e morreu em 1994. Era
conhecido como Pe. Nonato Pinheiro, como geralmente assinava seus artigos
jornalísticos. Foi sacerdote, jornalista, filólogo, latinólogo, professor,
poeta, escritor, membro da Academia Amazonense de Letras e do Instituto
Geográfico e Histórico do Amazonas. Grande orador e articulista brilhante de
cultura polimorfa. Publicou as seguintes obras: “Dom José Pereira Alves,
fulgores do Episcopado” (Editora Vozes, 1954); “Dom João da Matta” (biografia,
1956; e uma 2ª edição, Editora Valer, Manaus: 2008). Publicou na imprensa local
artigos, crônicas, poesias e ensaios.
Retirado de jorge-tufic.blogspot.com
quarta-feira, 17 de outubro de 2018
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