terça-feira, 25 de julho de 2023

REMATE DE MALES: Mário de Andrade


POEMAS DA AMIGA

(1929-1930)

 

a Jorge de Lima

 

I

 

A tarde se deitava nos meus olhos

E a fuga da hora me entregava abril,

Um sabor familiar de até-logo criava

Um ar, e, não sei porque, te percebi.

Voltei-me em flor. Mas era apenas tua lembrança.

Estavas longes, doce amiga; e só vi no perfil da cidade

O arcanjo forte do aranhacéu cor-de-rosa

Mexendo asas azuis dentro da tarde.

 

II

 

Si acaso a gente se beijasse uma vez só...

Ontem você estava tão linda

Que o meu corpo chegou.

Sei que era um riacho e duas horas de sede,

Me debrucei, não bebi.

Mas estou até agora desse jeito,

Olhando quatro ou cinco borboletas amarelas,

Dessas comuns, brinca brincando no ar.

Sinto um rumor...

 

III

 

Agora é abril, ôh minha doce amiga,

Te reclinaste sobre mim, como a verdade,

Fui virar, fundeei o rosto no teu corpo.

Nos dominamos pondo tudo no lugar.

O céu voltou a ser por sobre a terra,

As laranjeiras ergueram-se todas de-pé

E nelas fizemos cantar um primeiro sabiá.

 

Mas a paisagem logo foi-se embora

Batendo a porta, escandalizadíssima.

 

IV

 

Ôh trágico fulgor das incompatibilidades humanas!

Que tara divina pesa em nosso corpo vitorioso

Não permitindo que jamais a plenitude satisfeita

Descanse em nosso lar como alguém que chegou!...

 

Não tenho esperança mais nas vossas revelações!

Vós me destes o amor, me destes a amizade,

E na experiência de minha doce amiga me destes

Mais do que imaginei... Mas a volta foi cruel.

 

Eu sofro. Êh, liberdade, essência perigosa...

Espelhos, Pireneus, caiçaras e todos os desesperos,

Vinde a mim que outros agora aboiam pra eu marchar!

 

Tudo é suavíssimo na flora dos milagres...

Um pensamento se dissolve em mel e à porta

Do meu coração há sempre um mendigo moço esmolando...

 

Eu saí da aventura! Eu fugi da ventura!

Nós não estamos na cidade nem no mato.

Nós rolamos na ânsia dos fabulosos aeroplanos,

E vos garanto que agora não acabaremos mais!

 

V

 

Contam que lá nos fundos do Grão-Chaco

Mora o morubixaba chiriguano Caiuari,

Nas terras dele nenhum branco não entrou.

São planos férteis que passam a noite dormindo

Na beira dum lagoão, calmo de garças.

Enorme gado pasta ali, o milho plumeja nos cerros,

E os homens são todos bons lá onde o branco não entrou.

 

Nós iremos parar nesses desertos...

Viajando através de fadiga e miséria,

Os dias ferozes nós descansaremos abraçados,

Mas pelas noites suaves nossos passos nos levarão até lá.

E ao vivermos nas terras do morubixaba Caiuari,

Tudo será em comum, trabucaremos como os outros e por todos,

Não haverá hora marcada pra comer nem pra dormir,

Passaremos as noites em dança, e na véspera das grandes bebedeiras

Nos pintaremos ricamente a riscos de urucum e picumã.

Pouco a pouco olvidaremos as palavras de roubo, de insulto e mentira,

A terminologia das nações e da política,

E dos nossos pensamentos afinal desertarão as profecias.

Oh, doce amiga, é certo que seriamos felizes

Na ausência deste calamitoso Brasil!...

Fecho os olhos... É pra não ver os gestos contagiosos...

Ando em verdades que deviam já não ser do tempo mais...

A nossa gente vai muito sofrer e tenho o coração inquieto.

 

VI

 

Nós íamos calados pela rua

E o calor dos rosais nos salientava tanto

Que um desejo de exemplo me inspirava,

E você me aceitou por entre os santos.

 

Erguer do chão um toco de cigarro,

Fuma-lo sem saber por que boca passou,

A terra me erriçava a língua e uma saliva seca

Poisando nos meus lábios molhados renasceu.

Todos os boitatás queimavam minha boca

Mas quando recomecei a olhar, ôh minha doce amiga,

Os operários passavam-se todos para o meu lado,

Todos com flores roubadas na abertura da camisa...

O Sol no poente, de novo aurorai e nativo,

Fazia em caminho contrário um dia novo;

E as noites ficaram luminosamente diurnas,

E os dias massacrados se esconderam no covão duma noite sem fim.

 

VII

 

É hora. Mas é tal em mim o vértice do dia

Nesta sombra... Porque serás mais que os rapazes,

E bem mais, muito mais do que as amantes?...

Sombra!... Sombra de cajazeira perfumada,

Saudando a minha inquietação com a tua delícia!

Eu poderia dormir no teu regaço, ôh mana...

Abri-vos, rincões do sossego,

Não cuideis que é minha amante, é minha irmã!

 

Porém é muito cedo ainda, e no portão do Paraiso

O anjo das cidades vigia com a espada de fogo na mão.

 

VII (bis)

 

É uma pena, doce amiga,

Tudo o que pensas em mim.

Eu sei, porque acho uma pena

Também o que penso em ti.

Mesmo quando conversamos,

E uma pena, outras conversas

De olhos e de pensamentos.

Andam na sala, dispersas.

 

VIII

 

Gosto de estar a teu lado,

Sem brilho.

Tua presença é uma carne de peixe,

De resistência mansa e um branco

Ecoando azuis profundos.

Eu tenho liberdade em ti.

Anoiteço feito um bairro,

Sem brilho algum

 

Estamos no interior duma asa

Que fechou.

 

IX

 

Vossos olhos são um mate costumeiro.

Vossas mãos são conselhos que é indiferente seguir.

Gosto da vossa boca donde saem as palavras isoladas

Que jamais não ouvi.

Porém o que eu adoro sobretudo é vosso corpo

Que desnorteia a vida e poupa as restrições.

Oh, doce amiga! vossos castos espelhos de aurora

Despejam sobre mim paisagens e paisagens

Em que passeio feito um rei sem povo,

Cortejado por noruegas, caponetes e caminhos,

— Os caminhos incompetentes que jamais não me conduzirão a alguém!...

 

X

 

Os rios, ôh doce amiga, estes rios

Cheios de vistas, povoados de ingazeiras e morretes,

Pelo Capibaribe irás ter ao Recife,

Pelo Tietê a São Paulo, no Potengi a Natal.

Pelo Tejo a Lisboa e pelo Sena a Paris...

 

Os rios, ôh minha doce amiga, na beira dos rios

E a terra de povoação em que as cidades se agacham

E de-noite, que nem feras de pelo brilhante, vão beber...

Pensa um bocado comigo na vasta briga da Terra,

E nas cidades que nem feras bebendo na praia dos rios!

Insiste ao pé de mim neste meu pensamento!

E os nossos corações, livres do orgulho,

Mais humilhados em cidadania,

Irão beber também junto das feras.

 

XI

 

A febre tem um vigor suave de tristeza,

E os símbolos da tarde comparecem entre nós;

Não é preciso nem perdoar nem esquecer os crimes

Pra que venha este bem de sossegar na pouca luz.

 

É a nossa intimidade. Um fogo arte, esquentando

Um rumor de exterior bem brando, muito brando,

E dá clarões duma consciência intermitente.

A poesia nasce.

Tu sentes que o meu fluido se aninha em teu colo e te beija na face,

E, por camaradagem, me olhas ironicamente.

Mas estamos sem mesmo a insistência dos nossos brinquedos.

E o vigor suave da febre

Não intimida os nossos corações tranquilos.

 

XII

 

Minha cabeça poisa nos seus joelhos,

Vem o entre-sono, e é milagroso!

A vida se conserva em mim doada pelos seus joelhos,

E sou duma inimaginável liberdade!

 

Ôh espíritos do ar que os homens adivinham,

Dizei-me o que se evola do meu corpo!

Essa outra coisa vaporosa e brancacenta

Que não é fumo, nem echarpe,

Não tem forma porém não se desmancha

E baila no ar...

 

Todos os adeuses, todos os espelhos e girandolas

Voltijam no espaço que se enche e esvazia

Num tremor avido a esfolhar-se em pregas sem dureza...

Abre a rosa oculta em sinais,

Manhãs em vésperas de ser,

Pireneus sem desejo, enquanto à espreita,

Os objetos em torno me invejam

Buscando me prender na miséria da imagem...

Oh espíritos do ar, dizei-me a rosa incomparável

Que se evola reagindo em baile no ar!

Baile! Baile de mim no entre-sono!

Não é uma alma, não é um espírito do ar, não é nada!

E a outra coisa que baila, que baila, que baila,

Livre de mim! gratuita enfim! fútil de eternidade!

 

Ôh, brinca, brinca, minha melodia!

Sabiá da mata que canta a mei-dia!

Olha o coco, Sinhá!

 

ANDRADE, Mário de. Remate de Males. São Paulo: Eugenio Cupolo, 1930. p. 147-174

sábado, 22 de julho de 2023

ÁLGIDA: Moacir Marques da Silva

ÁLGIDA, de Moacir Marques da Silva, publicado pelas Edições do Governo do Amazonas, em 1967.

O texto, abaixo, consta na orelha do romance.

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Moacir Marques da Silva, agora surge, nas Edições do Governo do Amazonas, com o seu segundo romance “ÁLGIDA”, depois de ter alcançado boa cotação com a análise psicológica que desenvolveu com a novela “RENATA”.

“Renata” teve repercussão nacional. Ultrapassou nossas fronteiras.

Nesta segunda tentativa, parece que Moacir Marques da Silva, mais se amadureceu e vai alcançar uma posição definida entre os romancistas brasileiros.

“ÁLGIDA” é outra análise psicológica profunda, com grandes lances de emoções em diálogos bem equilibrados, lances de psicologia amorosa, onde uma mulher se apresenta sob o estilete de uma análise séria, verdadeiramente, à maneira do romance psicológico de Paul Bourget.

Este romance é bem feito. As descrições correm tranquilas, sem o empolado de certos iniciantes. É um livro bem feito, delicado, onde a vida social, o namoro de jovens aparecem, com tal naturalidade que encanta.

As entradas dos assuntos são perfeitas. São aberturas de lances ao “xadrez” no tabuleiro social da vida humana.

Moacir Marques da Silva pode ser considerado como a maior figura do romance amazônico, no bom sentido psicológico, na beleza das descrições, que são de uma naturalidade encantadora. O autor não se apressa. É uma revelação admirável seu nome. Mesmo quando surgiu com “RENATA”, o autor foi logo considerado o nome firmado, com uma certa e determinada técnica para escrever romances.

Dos choques entre os desenganos havidos com os temperamentos em luta, esposo e mulher desiludida, nessas muitas tragédias silenciosas que ocorrem em sociedade.

Só às noites, o silêncio, o “far niente”, o espiritual em chamas face os clamores da carne, esse sensualismo sutil que se percebe nos dramas sociais de Moacir Marques da Silva.

Os Robertos do mundo, face a assexualidade e a frieza de uma mulher que clama por melhor compreensão, pelo amor de seu esposo, meio bruto, egoísta.

Os desesperos entre Roberto e Núbia, são tão humanos como tão animais são os desajustes entre a frieza oriunda da brutalidade animal de um homem anômalo, estupidamente macho, sem ver a delicadeza da mulher que não era uma anormal, uma verdadeiramente fria, ÁLGIDA.

Reputa-se este romance como mais uma joia de nossas publicações.

Cenas delicadas, infantis, algumas, profundamente, sensuais, mais veladas, discretas, quase imperceptíveis, como devem ser certas passagens dos romances chamados psicológicos.

Moacir Marques da Silva cresce cada vez mais na admiração dos que querem a boa leitura, a habilidade dos que sabem escrever bem, claro, sem se perturbar com os lances finais dos capítulos.

Não podemos deixar de recomendar a leitura deste livro aos que admiram o bom romance, a boa a leitura, a inteligência ao serviço da arte, da beleza e da cultura.

sexta-feira, 14 de julho de 2023

VIAGEM PELO BRASIL 1817-1820: Spix e Martius

VIAGEM PELO BRASIL 1817-1820

Edição, em 3 volumes, capa dura

Prefácio de Mário Guimarães Ferri

Tradução Lúcia Furquim Lahmeyer

Revisão B. F. Ramiz Galvão, Basílio de Magalhães e Ernst Winkler

Anotações de Basílio de Magalhães

Belo Horizonte: Itatiaia; São Paulo; Edusp, 1981

Entre as obras de viajantes estrangeiros que percorreram o Brasil colonial, o livro deixado por Spix e Martius goza de reputação especial em face de seus atributos como narrativa de viagem, como inventário científico da Natureza local e como depoimento fiel, colorido e vivo, sobre o homem da época e sua complexa atividade social, econômica, cultural e política. Trata-se, pois, de uma das maiores contribuições ao conhecimento do Brasil dos princípios do século XIX, com os valores culturais do século XVIII e já às vésperas da Independência. Valoriza a edição a consagrada tradução de Lúcia Furquim Lahmeyer revista por B. F. Ramiz Galvão e por Basílio de Magalhães, este último também anotador da obra.

Na viagem, que durou três anos e meio (1817-1820), o botânico Martius e o zoólogo Spix, não obstante sua missão estritamente científica, deixaram-se fascinar pela sociedade brasileira na sua aventura de criar uma nação nos trópicos baseada na multiplicidade de raças e na tolerância cultural de suas correntes tributárias. Embora colônia, já os autores vislumbraram a nação futura. O convívio com negros, brancos, indígenas, mestiços, enfim, em São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Bahia, Pernambuco, Maranhão, Pará e Amazonas, amenizou o rigor científico da missão, do que resultou um livro de raro interesse do ponto de vista humano.

No primeiro volume, a riqueza da obra de Spix e Martius, como observação, como constatação e como compreensão dos problemas registrados na sociedade brasileira de então, põe a manifesto imensa simpatia pela terra, pelo homem e pela Natureza. A visão é universal, abrangendo Geologia, Botânica, Zoologia, Climatologia, Etnologia, Música, Política, Economia, diversões, alimentação, técnicas, transportes, condições sociais e, sociologicamente, as culturais. As regiões agora abrangidas pela narrativa incluem o Rio de Janeiro, São Paulo, São João de Ipanema e Vila Rica dos primórdios do século XIX, além da viagem marítima até o Rio de Janeiro. À Medida que aprofundam pelo interior do país ressaltam os autores, na complexidade geográfica e cultural brasileira, os contrastes com o litoral.

No segundo volume da obra, Spix e Martius narram a continuação da viagem partindo de Vila Rica em direção a Belém do Pará através das vastas regiões do Distrito Diamantino, Salvador, Ilhéus, Juazeiro, Oeiras e São Luís do Maranhão. Da mesma forma que no primeiro volume, são aqui realçadas observações, não só do domínio puramente físico da paisagem (relevo, flora e fauna), como de suas possibilidades de riqueza. E, na constante dos apontamentos da grande viagem, os autores continuam a recolher curiosos dados sobre a paisagem humana.

Spix e Martius testemunharam na região aurífera de Minas Gerais os derradeiros esforços da produção de ouro e diamantes, tanto da zona de Sabará como no famoso Distrito Diamantino. Este último ainda conservava os rigores da fiscalização que vinham do século XVIII, onde ninguém poderia entrar ou sair sem ordem escrita do Intendente-Geral. Administração e as técnicas de extração do diamante em Curralinho, Linguiça, Mata-Mata e outras minas são descritas em minúcias, abrangendo inclusive aspectos sociais. No capítulo referente ao Distrito Diamantino encontra-se tabela de produção de diamantes, desde o princípio da administração real, do ano de 1772, até 1818, quando Spix e Martius estiveram na famosa zona diamantífera brasileira.

A viagem é continuada agora pelo sertão interior até o Rio São Francisco. A Natureza e o homem são as constantes da narrativa, elementos de uma simbiose dramática em tão afastadas regiões. Os autores revelam comovente simpatia pelo sertanejo, registrando seu modo de vida, suas alegrias e doenças. Do mesmo modo o Rio São Francisco, pela sua imponência e importância, não poderia deixar de impressionar Spix e Martius, e recolhem soma enorme de informações da vida ribeirinha. A cidade de Salvador é evocada da mesma forma que Ilhéus e algumas vilas do sertão baiano com a vida das caatingas, além de Oeiras, São Luís do Maranhão, até a chegada a Belém do Pará. As estatísticas de que dispunham os autores na época são carreadas para ilustração de suas observações sobre a vida econômica das regiões percorridas. Do ponto de vista histórico, são apresentados elementos da formação do Piauí, Pernambuco, Alagoas, Paraíba, Rio Grande do Norte e Ceará.

No terceiro e último volume da obra, Spix e Martius focalizam, em páginas de grande realismo científico, com observações válidas até hoje, a surpreendente Amazônia. Toda sua geografia, ao lado da flora e fauna, em seus pormenores mais significativos, abrangendo a ilha de Marajó, as regiões do Tocantins, Xingu, Tapajós, Rio Negro e Madeira, além de outros cursos d’água de leste a oeste, perpassa aos olhos dos leitores com sua paisagem fantástica e seus fenômenos locais mais típicos, como o das “terras caídas” e o da pororoca. A descrição abrange as numerosas vilas das margens dos rios e do interior, como Fortaleza da Barra, Parintins, Vila de Ega, Tabatinga, Barcelos e outras tantas cujos nomes lembram as origens europeias e indígenas.

Ainda dentro das constantes generosas de sua viagem, Spix e Martius focalizam, com grande simpatia, a dramática aventura do homem nessa moldura de terra primitiva, aventura expressa em termos de moradias, de vida cotidiana, diversões, alimentação e higiene, todo um esforço humano para dominar a paisagem física adversa e sobreviver com seu destino de povoamento e conquista.

Trata-se de um quadro rico de informações e observações, tanto do ponto de vista da formação orogênica da Amazônia e do regime dos rios, como dos produtos naturais vegetais e minerais, da topografia, da etnografia e da economia política. Esta minúcia de dados de informação demonstra consciência de Spix e Martius sobre o trabalho que realizavam, “descrever nesta relação de viagem tanto a feição física do país como os costumes, a vida intelectual e burguesa dos habitantes, também as nossas impressões durante a estada ali, é tarefa cuja significação histórica tanto mais grandiosa parece quanto mais rápido o Brasil se vai antecipando no seu desenvolvimento”.

Ainda uma vez se põe em relevo, neste terceiro volume da importante narrativa de viagem de Spix e Martius pelo Brasil, a contribuição iconográfica dos autores, com desenhos originais de situações, paisagens, elementos humanos, que elucidam passagens do texto. Outrossim, as notas de Basílio de Magalhães valorizam o texto de Spix e Martius em suas implicações particularmente econômicas e históricas com a coleção de tabelas, dados estatísticos esclarecedores.

Continua também neste volume o anexo de peças musicais recolhidas entre os indígenas, principalmente indígenas remadores da Amazônia.

 

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Nota: texto retirado, respectivamente, da orelha dos três volumes.

quarta-feira, 12 de julho de 2023

CONVITE FRUGAL: Aníbal Beça


...

Na linha

inconsútil

de minha retina

eu ando pejado,

ainda ainda

de sonhos

de quando em quando

da clara infância.

 

Visão de liberdade

em pontos de amarramento.

 

Se quiser me acompanhar

nessa viagem,

lembrança de ainda lembrar :

As praias do Jotapu

o olor fresco

das frutas

mistura de areia e vento

na cama aberta do tempo.

 

Tem que primeiro

cantar

os sonhos por mim

cantados

em noite de pescaria

em noite de amor capenga

ao lado da gente do rio.

 

Agora o tempo

mudou

lembrança de ainda

viver

somente linha de sonho

tenra imaginação.

 

Chega de lenga-lenga

agora e agora

é procurar chegar

na chegança da realidade.

 

Vamos virar tartarugas

nas praias do Jotapu

vamos rolar com as caboclas

sentir pitiú no seu corpo,

mistura de erva doce

escama de tambaqui.

 

E quando estivermos

cansados

dos risos

do rocio, da noite

deitaremos

pelas praias

e brincaremos

de ser poeta

ao lado do bem querer. p. 13-14

 

 

POEMA IV

PARA LUIS BAECELLAR

 

O GATO PRETO

                         PENDURADO,

PULOU DOS

                       CABELOS VIRENTES

                                               DA MANGUEIRA

 

 

CAIU À

FRENTE

DO TRANSEUNTE

AZIAGO,

DANDO TRÊS MENEIOS DE AGOURO.

 

                         – E DEPOIS?

 

ESPARRAMOU-SE

NO LEVE TAPETE

DA SUPERSTIÇÃO. p. 23

 

 

MANHÃ DE FEIRA

 

Misturei-me

com cuias

pitingas

talas inajás.

Sorvi geadas

mastiguei cipós

enquadrei

cestas e paneiros

potes e moringas

no canto conciso

da manhã

de trote pobre.

 

Em outra ala

CUPUAÇU ! BURITI !

flagrados,

valsavam

no triângulo

feira

de manhãs de latão. p. 27

 

 

TOADA DE SERINGUEIRO

 

Mata rota

corta centro

leite jorra.

 

                         Larga faca

                         queima leite

                         vira fruto.

 

Mesa renda

compra rico

chuta pobre

 

                         Leite embarca

                         meta lucro

                         bolso cheio.

 

Pobre segue

torna leite

renda nova. p. 49

 

BEÇA, Aníbal. Convite frugal. Manaus: Edições Governo do Estado do Amazonas, 1966.

 

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“Convite frugal” é o livro de estreia do poeta manauara Aníbal Beça (1946-2009), publicado quando este contava vinte anos.

domingo, 11 de junho de 2023

CURTAS NO(I)TES ALIENÍGENAS

O QUE UM FILME PROVOCA NUMA CRIATURA ALIENÍGENA COMO EU

- João Veras 11/06/23

 

Foto: Edison Vara/ Agência Pressphoto

Notes alienígenas - Seguem aqui algumas pequenas e poucas notas pelas quais intento dialogar com o filme Noites Alienígenas, de Sergio de Carvalho. Muitas outras ficaram de fora. Nada de análises técnicas e teóricas sobre uma obra fílmica. Só pretendo demonstrar a dimensão reflexiva que o filme operou em mim. A questão não é definir o filme, mas dizer o que ele me provoca, me faz pensar, o que eu (não) pensava antes dele e passo a (não) pensar depois e com ele. Se altera, acrescenta, tira, não diz nada. É parte do meu particular plano de provar/provocar que os alienígenas existem, de não ignorá-los. Alienígenas como a obra e o cinema ditos acreanos e como eu mesmo (seu viv-ente cria-observa-dor), tão alienígena quanto qualquer alienígena acreano nesse mundo.

Vamos esperar a resenha sair - Passei grande parte da minha vida sendo ensinado que o conhecimento esperto, superior e autorizado vem de longe daqui de onde estou. Quando estudei letras, me ensinaram que vem pelos cânones nacionais da literatura e também das teorias linguísticas e literárias internacionais (as categorias de nacional e internacional nas quais não estamos inseridos). Na música, vem pelos astros, gênios e celebridades, do clássico e do popular da mpb ao rock and roll tudo fora de meu alcance criativo, senão tão só auditivo. Quando estudei ciências jurídicas, pelos doutos engravatados da doutrina, da teoria e da jurisprudência que nos chegam pelos seus festejados e caros livros e revistas especializadas. Nenhuma referência local. Aprender com eles e lhes reproduzir, eis a reza do saber para um bom estudante aplicado e futuro profissional competente. Partir de si frente a isso, questionar, remexer, negar, problematizar, inventar, criar, seriam empresas que não são um bom negócio para quem já nasceu sem o pedigree do saber, posto que sem as ditas moral e racionalidade moderna-colonizantes. Pressuposto um.

A indiferença da opinião - Por aqui, falo de Rio Branco - como falaria de todo lugar não reconhecido como lugar em si, senão em relação a um centro, aquele outro acima, superior – os acontecimentos artísticos frutos de criações locais, como o lançamento de um livro, a estreia de um filme, de uma peça de teatro, de um show, a abertura de uma exposição de artes plásticas... não são tidos como fatos históricos a merecerem registros, quiçá reflexivos. Nem reclamo que seja com algum entusiasmo, mas uma merecida efusão social ante um fato cultural que não é nada corriqueiro em um lugar como o nosso. Mas a coisa acontece como se não tivesse acontecido. Há muita pressa. Passam a página muito rápido, deixam de ver e sentir, quando as coisas são da cultura, como se a reduzissem ao entretenimento e suas operações negociais fugazes. Isto é de uma perversidade no sentido cultural contra e (só sentida por) quem é personagem desse enredo, o autor da obra ignorada. É por este quadro que tenho dito que somos, os do presente, criadores póstumos. Como foram os do passado. Parece existir uma vontade de viver a existência somente sobre o que já morreu. O que fazermos não é para o hoje, a forma sutil que encontraram para o desdém. Já vi esse filme. Vejo-o o tempo todo.

Não me refiro a falta de público. Público tem. Não é o da massa da indústria. Do tipo feito para o consumo pelo consumo. É o local. Qualquer dois e três serve. Ponto. Falo mesmo da ideia de um registro critico a merecer reflexão e diálogo com o tempo e lugar de sua criação. A obra se lança e não é percebida, não fica registro de como a sua geração vivente a recebeu, sentiu, a que lhe é imediatamente contemporânea. Registro de percepção/recepção que poderia advir também dos profissionais da academia, estes consagrados espaços de produção dos estudos e da critica estética (A Ufac tem potência para isso, os cursos de letras, música e teatro...), que parecem mais, quando se viram para este lado, adoradores de catacumbas e obituários, com seus heróis mortos. Adoram olhar as coisas de muito longe, o que um dia talvez tenha existido, lendas e mitos. Me refiro também aos meios de comunicação como a imprensa local e revistas especializadas. Falo do que não existe, mas que já existiu. Pressuposto dois.

O filme como uma obra de arte - Como um poço fundo de sentidos e(m) símbolos, signos, a compreensão de uma obra de arte, como um filme por exemplo, pode ir muito além dela em si como um artefato de narrativas, isto é, do seu enredo e também da sua forma que se nos apresentam na cara, expressos. É quando tudo nela está além dela e tem a ver, às vezes em uma profundidade estonteante, com o seu contexto cultural, político e social. É preciso assistir a um filme como se lida não com um objeto inerte e imperturbável, mas com um ser vivo do tipo complexo e enunciador a ocupar nossos sentidos com ideias de modo a remover eles das ralas superficialidades com que são manipulados ou até mesmo das suas inusualidades. É preciso tá cheio, mas de tampa aberta. Pressuposto três.

A invenção do nosso gosto dos outros - O gosto estético não é algo que brota natural, é uma aquisição cultural, uma montagem social. Aprendemos a gostar de cinema, a lidar com a sua linguagem, sua estética e discursos, se assistimos cinema. Saber que tipo de cinema é bom, interessante, provocador nos faz distinguir este tipo daquele que aprendemos a apontar como ruim, desinteressante, sem gosto. A objetividade da aprendizagem monotemática audiovisual se impõe à nossa subjetividade de potência pluritemática. Uma só cor é o que somos levados/ensinados a ver, enquanto a paleta fica esquecida na infância dos desenhos animados.

Pelo senso comum de certo tipo de ensino estético, tudo passa a ser ou isto ou aquilo. Isto que nos é familiar, aquilo que nos é estranho. Seguimos na reta do mono par opositivo, como nos tem sido ensinado: Ou é o bem ou é o mau. Ou é bom ou é ruim. Ou é feio ou é bonito. Ou é claro ou é escuro.

Não aprendemos a considerar juntos isto e aquilo tirando daí outra possibilidade como a do nem isto nem aquilo, mas outra compreensão, outra perspectiva, algo a se elaborar. Custamos a criar dentro dessa amarra pré conceitual, senão pré reflexiva, falo em um nível mais aprofundado de pensar, viver.

É que o isto - sempre em relação a algo como aquilo - já está formatado em nossa mente como a concepção a qual devemos ter firme e inabalada fé, como uma segura reprodução do tipo que nos guia, nos dar segurança, nos dando prazer.

Um filme sem o artista, o mocinho, o herói do bem (isto) em relação ao bandido, anti herói, do mau (aquilo) nos tira do esquadro da qualidade de uma narrativa fílmica ideal. Um filme sem um e outro não é filme. É uma coisa manca sem sustentação. Por isso, tanto sucesso a versão mais radical desse tipo que se impõe como ideal, que são, por exemplo, os blockbuster, os holiwodianos filmes grifes espetáculos de super heróis.

E assim, como expectadores devidamente programados, vamos ao cinema (saindo ou não de casa) para saber se a película se amolda à fôrma instalada em nosso formado gosto estético.

É que nos viciaram em arquétipos (no sentido mesmo de modelo originário), certos tipos massificados que nos uniformizam, a pensar a partir do cânone, do paradigma, do padrão, da referência a qual deve representar a nossa concepção estética, que caminha e se atualiza na moral (do bem contra o mau), de um mundo que advém exatamente desse aprendizado circular que não sai do mesmo lugar, da mesma cor.

Nesse sentido, o gosto estético mono moralizado se impõe quando o “dentro” se enrola com o “fora” se indistinguindo. Para ser mais exato arquetipicamente falando, é quando o “dentro” perde o duelo para o “fora”, sem alguma problematização. E a indistinção se formaliza quando a estética não redutora perde para a moral. Bingo! The end feliz!

Talvez isto possa explicar, em boa parte, o que vende na indústria do cinema e o que não. O que significa distinguir o que é produto da indústria e o que não é.

Não estou querendo com isso separar o bom do ruim. Não é isto que estou tentando dizer. Vou voltar ao começo. Seja o que for, o gosto estético é uma invenção social profundamente compromissada, nos tempos em que vivemos, com a indústria cultural de massa. Essa que costuma – esse é o seu negócio – formatar gostos, o que significa nos formar por arquétipos imagéticos, sonoros e narrativos para sermos consumidores e reprodutores de seus paladares. Pressuposto quatro.

O Pacha mama - O que fazemos aqui no Acre nesse campo do audiovisual não cabe no formato do artefato que a indústria se interessa e negocia. Esse princípio é válido em relação a todas as demais linguagens artísticas. Alguns atribuem a isso a incompetência de não se conseguir conformar-se ao padrão do colonizador. Coisa de péssimos copiadores, conscientes ou não. Isso é coisa que ora procede e ora não procede.

O Festival Pachamama se propunha a divisar – não à toa (é) era um festival que se diz(ia) de fronteira – no sentido de nos fazer perceber a existência de uma outra fílmografia que não à europeia e norte americana, a latino americana, cujos traços estéticos se apresentam distintos (inclusive intra território), fora do curso, do modelo, especialmente pela temática (coisas da vida latina) e objetivo (fazer pensar essas coisas sem distrair).

Já falei sobre isso que vou só tocar aqui: esse dito formato latino americano serviu ao longo do Pachamama também como um padrão ou sub padrão colonizador cuja estética o chamado cinema acreano ainda não conseguiu alcançar porque está condenado a carregar a velha alcunha de atrasado. É que estamos diante de uma cadeia colonizadora na qual o mais colonizado das espécies, o último marginal dela, não sobrevive pela visão dos centros das atenções. Muito embora vivo fora dele segue e teima. Pressuposto cinco.

Olhando as noites alienígenas - Ufa, consegui assisti ao consagrado filme vencedor do festival de gramado de 2023 – o Noites Alienígenas, de Sergio de Carvalho. Essa obra que tem sido tratada como acreana ou não.

O filme nos chega depois de passar pelos festivais mundo afora e Brasil não tão adentro e estrear em merecida noite de gala para seus convidados vips em uma das salas de cinema do shopping da cidade de Rio Branco e também no único espaço local da resistência do chamado cinema de arte, o Cine Recreio. Ufa, de novo.

Nunca uma obra de arte feita aqui levou tanto tempo para circular por aqui. O normal é estrear aqui e nunca mais tirar o pé justamente daqui. Mas o anormal é coisa do produto cinema quando está disposto e em condições de ocupar algum espaço comercial no mundo da indústria. É compreensível, por esta lógica, este guardado de tanto tempo para os locais, os ditos colonizados dependentes de reconhecimento externo de si e do que se apresenta como o gosto abençoado pelos expertos dentro e fora do mercado cultural. É comum por aqui se esperar o carimbo de qualidade de quem se diz saber mais.

Muito se discute - minto: não se discute quase nada por aqui – sobre a condição de um produto de arte ser ou não ser acreano. Se contém em sua substância o estatuto da acreanidade. Que é em parte folclorizada por governos ditos de esquerda, de centro e direita (os antigos e atuais lados colonizadores). O velho uso eleitoral das cores. O trivial se impõe e assim caminhamos para o óbvio: saiu daqui é produto local. Nasceu aqui já pode registrar como natural. E assunto encerrado. Por esse prisma, se pode defender naturalmente que a música de João Donato é acreana, do mesmo modo que as novelas de Glória Peres, as crônicas literárias esportivas de Armando Nogueira, as piadas do José Vasconcelos... só para citar os aclamados acreanos que despontaram no mundo das artes para além das fronteiras do aquiry. Será? Penso que não.

Na verdade, esse estatuto de pertencimento só é talvez reclamado daqui para lá. É de mão única. De lá para cá, nenhum deles é e cria arte acreana. Os personagens sabem disso. Todos fazem arte nacional. Lá tudo se universaliza e elimina o lugar que esteja fora do centro. Tornam-se ditos universais cria do brasilcentrismo das praças cariocas e paulistanas.

Outros consideram essa discussão uma bobagem. São os que defendem um caráter universal da obra de arte feita aqui, sem o qual não há qualidade. E o artista local, um cidadão do mundo. Localidade para eles é coisa de provincianismo e coisa e tal. Acontece que essa universalidade advém de algum lugar que se auto intitula universal. Vive-se em território dado e não no espaço acultural. Ou a cultura é o que transcende e paira no ar acima de tudo? E assim, como estamos circunscritos a um território dado (brasileiro), a uma língua única tornada oficial (a portuguesa) e a um povo (dito brasileiro a junção das três raças do colonialismo), a palavra de ordem é brasilidade, isto é, nação brasileira. Muito embora subsumido a isso grandioso estejam línguas, territórios e povos não reconhecidos (pelos marcos temporais que os expulsam da história), na prática, exatamente como constituinte da nação, da tal brasilidade. Pressuposto seis.

O coro e a grita dos descordantes - Alguém me disse que o filme foi salvo pelos atores. Que o enredo tem problemas. Que os personagens não estão maduros suficientes. Acho que posso senti falta de atores acreanos. Os atores e atrizes do teatro acreano, para ser mais preciso. Não servem para o cinema? Porque Karla Martins não fez a mãe? Onde está a música acreana dentro da sonoridade do que se assiste? É porque não existe ou não é boa? Como os filmes, as artes plásticas, a literatura, as fotografias... Porque Pia Vila não cantou sua própria música, a única representante da “cultura vira-lata” que toca quando passa os letreiros finais? A sonoridade da trilha tem a ver com o que se tem feito aqui nestes termos? Uma paisagem sem som? Para ficar só no que se considera inaudível. Mas não se pode reclamar do rap, do slam e do brega, suas atualizações locais, senão expressões acreanizadas e coisa e tal.

Assim como da leitura do outro sobre uma possível sonoridade local. Tudo é legítimo. Mas nada mais original que o ritual indígena (com a sua música, a sua língua, as suas imagens), se é para não reclamar da falta de algo tão próprio por estas bandas.

O personagem Alê canta Raul Seixas, acrescentado na letra nomes de povos indígenas do território acreano. Isso é música acreana? “Todo jornal que eu leio me diz que a gente já era...” – se é que foi! Eu sei que o desejo não é ser música acreana. Mas a adaptação passa a ideia de que não é possível cantar o aqui se não for pela dicção do outro. Uma tradução da adaptabilidade cultural com sucesso, ou melhor, montado no sucesso. “Eu conheço bem a fonte que desce daquele monte, ainda que seja de noites...”.

Cinema acreano? Por falar nisso - Noites Alienígenas se quer ser um filme acreano não pode fazer de conta que o cinema acreano não existe, isto é, não pode deixar de tocar nesse assunto que ele toca justamente pelo gesto da indiferença – quando nada do que diz respeito à história desse cinema invisível é colocado em questão na obra, como se quisesse inaugurar por si esse cinema aqui. Como se fosse o toque de midas a instaurar o cinema no Acre. Em termos, nesse sentido, vejo razão em Noites.

Talvez a afirmação do tipo cinema acreano ainda deva muito ao tempo para se firmar, se justificar. Como produto industrial, nem se fala. Como produto cultural ainda é um longo caminho. Como produto político, uma verdade. Fato. Como artefato da indústria pode ser, sim, o início – um fato isolado – um gesto histórico pelo reconhecimento vindo de fora do maior festival de cinema do Brasil. É a primeira vez que eles assistem algo com esse nome. É possível não se saber a respeito do que ainda se constrói. Do que ainda não se reconhece por dentro pelos de dentro. Do que ainda se evita. Não por isso, sendo isso um gesto de colonizado. É possível afirmar que algo não reconhecido socialmente exista? Para mim sim. Numa sociedade colonizadora sim. Por ela, é justamente o que ela não ver é que queima os olhos.

Um cinema a altura do mercado. Mesmo que seja o mercado limitado do chamado cinema latino americano, cuja circulação ainda se põe no limitado circuito de festivais, “a salvo” agora pelos streamings. O que resta da invenção daqui está acima da altura do mercado, porque não depende dele nem para nascer nem para andar, ora bolas. Por aqui é possível afirmar que o que não existe existe. Os alienígenas só não existem justamente porque existem.

Noites é filho do Festival Pachamama. Tem o seu DNA. Foi gerado ali, é do seu contexto, de sua estética, de seus desejos, muito mais que acreano, é de fronteira mesmo. Como seu autor. E as coisas acreanas não são? Não para lhe ignorar como tem sido usada a categoria universal com o mesmo fim. A fronteira é uma coisa e o Acre é outra. Não procuremos indistinguir para eliminar, tá bom?

Arte e poder na tela – Para a minha percepção, o cinema local é pouco afeito à história das relações de poder locais. A imaginação e a reflexão políticas não são os seus fortes tampouco os fracos, nem implícito nem explícito. O que se assiste nas telas daqui é um desviar determinantemente fugidio nesse aspecto.

De tal modo que a história do poder no Acre não pode ser possível tocada pela audiovisualidade. Nem mesmo os fatos mais gritantes (de apelo popular, espetacular), como a folclórica e bem manipulada politicamente narrativa da tal revolução acreana, também a do movimento dos seringueiros na década de 70 e a morte trágica de Chico Mendes, para ficar em três exemplos os mais impossíveis de se ignorar. Todavia se ignora. Quem faz cinema no Acre pouco se dispõe a enfrentar grandes narrativas como estas. Seja pelo apelo mítico, seja pelo crítico. O que não acontece com o teatro e a literatura, por exemplo. O teatro seria o melhor exemplo de uma arte que enfrenta a mentira oficial colonizadora de frente.

À Rede Globo foi dada a incumbência da ocupação e gestão, pela via do audiovisual, da historiografia oficial local. Para um pensamento critico local, a minissérie Amazônia: de Galvez à Chico Mendes, seria um belo contraponto. Todavia, quase todo mundo ficou na fila do marmitex ansiando participar da superprodução - sustentada financeira e ideologicamente em parte pelo Estado - para ser mero soldado coadjuvante das cenas de guerra contra os bolivianos. E o silêncio a respeito do audiovisual dessa obra continua a imperar lá se vão mais de 20 anos.

Para não dizer que não falei de qualidade ou a falsa questão da técnica - Ainda se acredita por aqui que no cinema a técnica está acima de qualquer coisa. Ela tanto possibilita como impede. Sem dinheiro para bancá-la, nenhum movimento, nem uma versão, nada, enquanto os celulares se prestam a ótimas selfies. O mais importante que o registro e o olhar crítico é o feito com os equipamentos de última geração, pelos quais se tem ótima luz, cor, brilho, som, efeitos... Armadilha de hollywood. Não é possível fazer cinema se não for como lá se faz. Armadilha da academia. Não é possível fazer cinema se não for pelas técnicas e teorias consagradas, inclusive no mundo underground do meio. Suponho que a história passa e a audiovisualidade local não vê.

A fuga do outro lado do rio da realidade – Nas noites, Rio Branco é reduzida a espaços a-estatais. Seja para o bem seja para o mal. Rio Branco é um mundo de bandidos sem polícia. É um mundo de desvalidos sem qualquer assistência social. Os problemas sociais parecem ser só conjunturais a se resolverem ali na miração (do indígena) ou na morte (do menino), no slam da comunidade do gueto da poesia marginal a se batalhar entre si. Não são estruturais, não são históricos. Tudo é no agora. O estado e o seu aparato policial, social, cultural e econômico não se apresenta na obra como personagem. O estado, esse dinossauro branco sentado no sofá da sala de tv é um ente inexistente na narrativa. As questões de todos os personagens não passam pelo crivo do poder (nem do politico, nem do capital, se é que podemos separar), senão pelos interesses personalíssimos e intrapessoais a se resolverem como se não existisse regra social (política e econômica), mas só aquelas produzidas por eles próprios.

Invariavelmente, os personagens sonham em sair, ir embora. Porque aqui, diz Alê, aqui é só solidão. Lugar do vazio? Tudo acontece porque tem que acontecer. Mãe e filho se acusam de nada fazerem diante de suas solidões. De seus vazios? A salvação indígena na cidade ou é a miração (do filho) ou é a igreja evangélica (da mãe) ou é um mundo alienígena (de Riva) ou é o slam dos jovens condenados à condição periférica. E as culpas são de quem participa dos eventos relacionados ao tráfico e as facções, senão dos alienígenas. Da “...solidão que fica e entra arremessando (todos) contra o cais.” Daí as condenações às peias e mortes entre si. Pá, pá, pá! Ainda vão continuar me ignorando, a dizer que eu não existo? Essa criatura verde e insustentável de tão profundamente alienígena?