quinta-feira, 15 de outubro de 2009

UM ÍNDIO ACREANO REINVENTA A PINTURA

Chico da Silva
(1910 - 1985)
Chico da Silva. O que está por trás deste nome tão simples é a história daquele que é considerado o maior pintor de estilo primitivo do Brasil. E poucos sabem que a sua obra hoje se encontra nas principais coleções de arte do mundo – como na coleção da Rainha da Inglaterra. A seguir transcrevo o artigo de Cassandra de Castro Assis Gonçalves (bolsista IC-FAPESP) sobre o nosso Chico da Silva.

“Marcadas pelo talento, o acaso e a decadência, a vida e a obra de Chico da Silva são das mais intrigantes da História da Arte brasileira e também um retrato da falta de suporte por parte do governo e dos próprios artistas em oferecer a oportunidade de um grande artista, ainda que simples como Chico da Silva - analfabeto toda a vida - de se profissionalizar.

Francisco Domingos da Silva nasceu em 1910, às margens do “Alto Tejo” no Acre, e aos 10 anos veio para Pirambu, bairro pobre de Fortaleza-CE. Perdeu o pai logo cedo, passando então, a fazer todos os tipos de serviços - consertando sapato, fogão, cobrindo guarda chuva, etc. para sobreviver. Em suas muitas andanças pela cidade, Chico às vezes parava em frente a um muro branco e fazia desenhos com carvão ou tijolo, colorindo-os com folhas. Foram estes desenhos, na Praia Formosa, que chamaram a atenção do crítico de arte e pintor Jean-Pierre Chabloz que passou a procurá-lo e foi seu primeiro incentivador.

Chabloz ensinou Chico da Silva a pintar com guache e passou a dar o material para que ele pintasse, além de comprar todas as suas telas - comprou mais de 40. Foi por intermédio dele que Chico da Silva expôs sua arte, pela primeira vez, no III Salão Cearense de pintura e no Salão de Abril de 1943, em Fortaleza. Em 45, junto com outros artistas cearenses, expõe na Galeria Askanasy e, durante a década de 50, suas obras vão ser vistas em várias galerias da Europa, conseqüência de um artigo a seu respeito no CAHIERS D’ART, conceituada publicação francesa, que o considerou um pintor genuinamente primitivo.

Deslumbrado com o dinheiro e a fama, Chico da Silva passa a gastar com álcool e mulheres; atento à supervalorização dos seus quadros, quer produzir cada vez mais, e passa a recorrer a ajudantes, na verdade meninos e meninas que pintavam os quadros que ele só assinava - cerca de 90% dos quadros com data posterior a 72 eram falsos. A esta altura o artista estava cercado de aproveitadores que o exploravam, exigindo cada vez uma produção maior, vendendo quadros de Chico em mercados, feiras e até na porta de hotéis, por valores ínfimos.

Em meio a denúncias de falsificação, Chico da Silva é indicado para expor na XXXIII Bienal de Veneza (Itália), em 66, onde recebe Menção Honrosa. Chabloz, decepcionado com os rumos que artista e obra tomaram, rompe com ele em 69, afirmando em um artigo do Jornal do Brasil, intitulado Chico da Silva ou a ingenuidade perdida, que sua arte estava morta.

O processo de decadência do artista se agravara com a morte da mulher, Dalva, em 75, e tem seu ápice em 1976, quando foi internado com cirrose hepática e tuberculose crônica, permanecendo um ano no hospital. Mesmo se recuperando fisicamente, Chico continuou bebendo e jamais conseguiu recuperar sua arte. O maior artista primitivo do Brasil, que imprimia nas suas pinturas toda a mitologia da região amazônica realizava através de uma expressão quase surrealista, e que está representado nas maiores coleções do mundo - como a da Rainha da Inglaterra - nunca teve suporte para estruturar sua carreira, apenas incentivos isolados, que o jogou em um meio desconhecido que o deslumbrou e, dentro do qual, sem orientação, acabou por perder-se.”

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Algumas de suas obras:




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Fonte das imagens: MAUC
Obs: Não foi possível precisar o nome de cada obra, pois o site de onde foram retiradas, expirou.

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

O SONHO DE UMA SOMBRA

Píndaro


A sorte dos mortais
cresce num só momento;
e um só momento basta
para a lançar por terra,
quando o cruel destino
a venha sacudir.

Efêmeros! que somos?
que não somos? O homem
é o sonho de uma sombra.
Mas quando os deuses lançam
sobre ele sua luz,
claro esplendor o envolve
e doce é a vida.



Referência e sugestão:
Píndaro. Poesia: Grega e Latina. Sel. e trad. Péricles Eugênio da Silva Ramos. São Paulo: Editora Cultrix, 1964.

terça-feira, 13 de outubro de 2009

FREI PAULINO, O PADRE SERINGUEIRO

RELATO DE UM DOS MAIORES TEÓLOGOS DO BRASIL, CLODOVIS BOFF, ACERCA DE FREI PAULINO, O SACERDOTE MAIS ATUANTE NA DEFESA DOS POVOS DA FLORESTA E MAIS QUERIDO DO ACRE. O RELATO É DE 1980, MAS CONTINUA ATUAL.


Ele é o responsável da missão dentro da imensa paróquia (50.000 quilômetros quadrados) de Sena Madureira. Anda sempre com uma batininha surrada, por razões de pobreza e comodidade, segundo ele. Baixo e magro, tem um olhar de touro e uma voz cavernosa. Pode ficar falando de 2 a 3 horas aos homens da floresta em tom elevado, como nos discursos, e não se cansa.
As viagens missionárias que faz pelos rios e pela mata, chamadas “desobrigas”, podem durar meses. Come e bebe o que comem e bebem os seringueiros. E dorme em rede, como eles. É um homem profundamente integrado no mundo dos filhos da mata. É um autêntico “padre seringueiro”. Quando volta para casa vai direto para o hospital, para se recuperar do desgaste da desobriga.

Foi dos primeiros missionários do Acre a defender no passado a tese do respeito à cultura dos índios e do aproveitamento pastoral de sua religião. Num curso de antropologia em Manaus, Darcy Ribeiro, grande estudioso e amigo dos índios, não deu nada por esse homenzinho rústico, com sua batina surrada e tradicional. Mas, depois que o ouviu falar, ficou impressionado e lhe ofereceu alguns livros seus como homenagem.

Até pelos anos 70, Frei Paulino fazia uma pastoral ainda baseada na assistência e sacramentalização. Era a época. Depois começou a ler alguns livros que lhe passava o bispo. Lia-os enquanto fazia as viagens de barco pelas voltas infinitas dos rios da Amazônia. Leu, por exemplo, o livro de José Comblin, Sinais dos Tempos e Evangelização, que fala da religião do povo brasileiro e do como a Igreja brasileira deve evangelizar. Era o vento do Vaticano II que passava sobre a floresta. Aí o Frei Paulino mudou. Passou para uma pastoral de evangelização, de conscientização, de libertação, de comunidades. E, com essa virada, viraram também os seringais. Já não pousava na casa grande e confortável do patrão. Ia dormir nas choças dos seringueiros. Começou a abrir os olhos do povo para seus direitos. Denunciava as injustiças que ia vendo. Virou profeta, ao modo de Amós, o lavrador.

Os seringalistas e fazendeiros, os políticos e marreteiros exploradores passaram a ter raiva dele. Sentiram-se traídos por quem julgavam um aliado seguro. Mas ai de quem fala mal de Frei Paulino diante de um seringueiro! Quem não o conhece nestas matas do Acre? Hoje ele casa gente que batizou. Nem sei quantos anos faz que anda pelas matas e rios, buscando e reunindo o rebanho de Cristo disperso.
Ainda hoje ele lê bastante nas viagens. Leva consigo apenas uma sacola com objetos de culto e um algum livro. Já andou virando tudo aquilo no meio do rio. Durante o treinamento no Icuriã estava lendo o meu livro Teologia e Prática. Admirei a coragem dele de ler um livro tão duro – mais duro que tronco de cumaru-ferro. Tirou-o de sua sacola de borracha (que é para não molhar). Estava todo manchado de óleo. É claro, misturado com tanta coisa dentro do saco.

No treinamento, o pessoal se apresentava a dois. Tocou-me apresentar Frei Paulininho. Para indicar ao mesmo tempo seu espírito missionário, sua pobreza e sua popularidade, disse apenas isso, com a mão no seu ombro: “Aqui está o Frei Paulino, uma mistura de São Paulo, de São Francisco e do Padim Ciço!” Ele sorria com aquele seu rosto limpo, como anjo feito a terçado...


Referência e sugestão:
BOFF, Clodovis. Deus e o homem no inferno verde: quatro meses de convivência com as CEBs do Acre. Petrópolis: Vozes, 1980.

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

HÉLIO MELO, O PINTOR DA SELVA

"Então, como aprendi sem professor, podem me chamar de pintor da selva. Porque só quem viveu lá dentro é capaz de descobrir os mistérios da natureza por meio de nossos irmãos índios, donos da floresta."
Hélio Melo


Hélio Melo (1926-2001), grande expoente das artes plásticas do Acre. Autodidata, cursou apenas até a terceira série do antigo primeiro grau, porém, um homem multifário, pois também era compositor, músico e escritor. Seus livros revelam mais que um imaginário pessoal, pois são preciosidades que resgatam aspectos peculiares da cultura amazônica, com suas lendas, histórias fantásticas e reais. Hélio escreve a partir de suas vivências, o que agrega a seus escritos autenticidade e brados de vida. Conforme ressaltou Naylor George, na apresentação de O caucho, a seringueira e seus mistérios: “ele escreve o que conversa e o que sente da mesma maneira que pinta uma tela, ou ainda da mesma forma que toca um violino. Ele é a simbiose de uma arte múltipla que se revela clara e cristalina...”.

A histórica revista Outras Palavras, assim descreve, sinteticamente, Hélio: “Nasceu e passou boa parte de sua vida - dos 12 aos 41 anos - dentro de um seringal. Foi entre o corte nas estradas de seringa, que o artista rabiscou seus primeiros desenhos e aprendeu a tirar som do primeiro instrumento: um violão. Mais tarde, ele iria abandonar este e um outro instrumento - o cavaquinho - pela paixão ao violino, que aprendeu a tocar de ouvido, no meio da floresta. Encantado com a beleza e os mistérios da Amazônia, o pequeno Hélio aproveitava as horas de folga preenchendo folhas brancas com desenhos que misturavam lápis e uma tinta extraída do sumo de uma planta. Em 1959, deixou para trás o seringal e veio para Rio Branco em busca de uma vida melhor para a família. Na capital acreana, foi trabalhar como catraieiro, levando e trazendo passageiros de uma margem à outra do rio Acre. No início da década de 70, com a construção da primeira ponte ligando os dois lados da cidade, a procura pela velha catraia diminuiu e Hélio Melo tratou de arrumar outro ofício que lhe garantisse o sustento da mulher e dos cinco filhos. Foi barbeiro ambulante e depois vigia. Em meados da década de 80, matriculou-se num curso ministrado pelo também pintor Genésio Fernandes”.
Estrada da floresta (1983)
Col. Mansour

Ferramentas do seringueiro (1983)
Col. Museu da Borracha

Homem defumando
Col. Museu da Borracha

Burro sobre a árvore
Col. Museu da Borracha

Família e mulher vaca
Col. Garibaldi

Serradores
Col. MASP

Árvore vaca e árvore bezerro
Col. Camargo

Seringueiro fazendo corte na ávore
Col. Mansour

Árvore vaca
Col. Goldfarb

A árvore que chora
Col. Camargo

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"Nos campos e queimadas não se vê o canto dos passarinhos. Tudo perde a sua graça. A mata que é vida dos pássaros e dos homens, aos poucos vem transformando a floresta em um sertão isolado.

Os Pássaros também sentem o desmatamento. Uns choram seus ninhos desbaratados e outros seus filhotes, esmagados pelas árvores tombadas pelo homem, que se diz inteligente.

A floresta é o véu da terra que sustenta o oxigênio, além disso, existe um verde vivo e outras cores que ninguém consegue definir. Enfim, para pintar uma mata do jeito que ela é, sem o sumo das plantas é impossível".

Hélio Melo em A experiência do Caçador e Os Mistérios da Caça
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Hélio Melo conta sua história.


REFERÊNCIAS PARA APROFUNDAR
MELO, Hélio. A experiência do Caçador e Os Mistérios da Caça. Rio Branco: Bobgraf – Editora Preview, 1996.
MELO, Hélio. Os Mistérios da Mata e Os Mistérios dos Répteis e dos Peixes. Rio Branco: Bobgraf – Editora Preview, 1996.
MELO, Hélio. O Caucho, a Seringueira e Seus Mistérios e História da Amazônia. Rio Branco: Bobgraf – Editora Preview, 1996.
* Imagens retiradas de Universes in universe.

terça-feira, 6 de outubro de 2009

É UMA MANEIRA DE DIZER


Quando tornar a vir a primavera talvez já não
me encontre no mundo.
Gostava agora de poder julgar que a primavera é gente
para poder supor que ela choraria,
vendo que perdera o seu único amigo.
Mas a primavera nem sequer é uma coisa:
é uma maneira de dizer.
Nem mesmo as flores tornam, ou as folhas verdes.
Há novas flores, novas folhas verdes.
Há outros dias suaves.
Nada torna, nada  se repete, porque tudo é real.


PESSOA, Fernando. Poesia Completa de Alberto Caeiro. São Paulo: Companhia das Letras, 2005.

Imagem: Sandro Botticelli, A Primavera (1482)

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

OS PRIMEIROS JORNAIS DO VALE DO JURUÁ

Em O Juruá Federal, obra datada de 1930, de autoria de José Moreira Brandão Castello Branco Sobrinho, juiz do 1º termo da comarca de Cruzeiro do Sul na época, trás importantes dados acerca da região acreana do Vale do Juruá, quando o Acre ainda era Território Federal. Uma das peculiaridades é o resgate histórico que o autor faz dos principais jornais que circulavam na época. Vejamos alguns deles:

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1. O Progresso – o primeiro número saiu no dia 7 de Septembro de 1904, e o último no dia 30 de Septembro de 1905. Foi o primeiro jornal impresso que houve no Alto Juruá, tendo sido publicado na foz do rio Amonea, no Seringal Minas Geraes. O seu número inicial coincidiu com a data da installação da Prefeitura do Alto-Juruá. Era hebdomadário, litterario, noticioso e humorístico, de pequeno formato, com quatro paginas e de tiragem inferior a 100 exemplares.

2. O Cruzeiro do Sul – foi fundado pelo ex-prefeito, coronel Thaumaturgo de Azevedo, tendo sido sempre órgão official do governo Departamental. Saiu pela primeira vez no dia 3 de Maio de 1906, sendo suspenso provisoriamente a 10 de Janeiro de 1915, por falta de papel apropriado. Voltou a circular no dia 14 de Fevereiro do mesmo anno. Seu último número tem a data de 1 de Março de 1918, por ter sido suspenso definitivamente de ordem do Ministro do Interior Carlos Maximiliano. Prestou grandes serviços ao Departamento e teve como redactores os principais jornalistas que hão passado por esta região, entre outros Manuel Fran Pacheco, Belisario de Sousa Filho, João Craveiro Costa, João Alfredo de Mendonça, Manuel do Valle Silva, Olegario da Luz Castro e Esmeraldo Coelho. Era semanário, tendo saído algum tempo duas vezes por semana, com quatro ou seis paginas.

3. O Rio Juruá – foi publicado em Villa Thaumaturgo, de 5 de Janeiro a 6 de Março de 1907. Semanário Litterario e humorístico.

4. O Alho – o primeiro número é datado de Janeiro de 1908, não precisando o dia. Era quinzenal, critico e humorístico, tendo o seu último número a data de 7 de Septembro de 1908.

5. O Mimo – foi mensal e bi-mensal, critico, noticioso e litterario e publicado em Villa Thaumaturgo de 11 de Julho de 1909 a 30 de Janeiro de 1910. Teve como redactores Leoncio Louzada, João Medeiros, Alexandre Sussuarana e José Castello Branco.

6. O Correio do Juruá – semanário noticioso e litterario, publicado sob a direção de Francisco Pereira e Homonono de Figueiredo, de 7 de Março de 1912 até o anno de 1913, não sabendo o mez.

7. O Alto Juruá – publicado de 12 de Agosto a 30 de Dezembro de 1913. Era órgão da Intendencia Municipal, semanário, noticioso e litterario, tendo como redactor Alfredo Cordeiro da Rocha.

8. O Bacurau – tinha como director Eulelio Theophilo e era humorístico, critico e litterario. Seu primeiro numero tem a data de 3 de Septembro de 1916, sendo seu último número do mesmo anno.

9. O Estado – desde a sua fundação obedece á orientação do Partido Autonomista do Alto Juruá, do qual é órgão. Foi seu fundador João Craveiro Costa, que tem sido sempre seu director. Em 1923, passou a ter como redactor chefe Odilon Moura. É político, noticioso e litterario, tendo saído o seu primeiro numero no dia 12 de Agosto de 1916.

10. O Rebate – seu director é Antonio Alves Magalhães, que desde o numero 16 se tornou também proprietário. Dos números 11 a 15 foi propriedade de Eulelio Theophilo. Não tem ligações políticas, tendo saído pela primeira vez no dia 19 de Junho de 1921. É noticioso, critico e litterario.

Obs: foi mantida a ortografia tal qual o livro.
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Ao todo José Moreira descreve 22 jornais existentes na época. Aparecem ainda nomes interessantes nesses jornais como de Craveiro Costa, autor de "A conquista do deserto Ocidental", Thaumaturgo de Azevedo, etc. A maioria dos jornais não ultrapassavam a tiragem de 100 exemplares, com exceção de alguns que chegaram de 200 a 800 exemplares. Um bom começo, para a adversidade da região e da época. Material que vale uma boa pesquisa. Salve, historiadores acreanos!


Referência e sugestão:

SOBRINHO, José Moreira Brandão Castello Branco. O Juruá Federal: Território do Acre. Rio de Janeiro: Imprensa Nacional, 1930.

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

JOSÉ DE ANCHIETA BATISTA e o...

...MENINO DA RUA DO BAGAÇO
José de Anchieta Batista é "acreibano", usando sua expressão. Nasceu na cidade de Teixeira, na Paraíba. Formado em Ciências Contábeis pela UFPB exerceu diversos cargos públicos no Acre, aonde ainda trabalha. Autor dos Livros: Cantos e Lamentos (1987), Menino da Rua do Bagaço (1991) e Contabilidade para principiantes (1989). Atualmente mora em Senador Guiomard – Ac. Conforme o poeta anunciou em seu blog (Blog do Anchieta), estava trabalhando na organização de seu mais novo livro. A obra já foi enviada à editora (Publit, do RJ) e chama-se MENINO DA RUA DO BAGAÇO, com lançamento previsto para 13 de Novembro de 2009, em Rio Branco. Quem o acompanha por meio de seu blog, sabe da qualidade de sua poesia. MENINO DA RUA DO BAGAÇO  será uma valiosa contribuição aos quadros da poesia acreana, confirmando seu autor como uma das grandes expressões poéticas do Acre atual. Não sou eu que digo, é sua obra que demonstra.
***

INCONGRUÊNCIAS


Não sou noite, nem sou dia,
Nem vento, nem calmaria,
Não tenho voz, nem sou mudo,
Não sou nada, nem sou tudo,
Não sou fome, nem fartura,
Nem sensatez, nem loucura,
Nem relento, nem abrigo,
Não sou longe, nem sou perto,
Não sou mar, nem sou deserto,
Não sou rei, nem sou mendigo...

Sou o que presta e não presta,
Sou funeral e sou festa,
Sou errado e sou correto,
Sou letrado e analfabeto,
Sou deista e sou ateu,
Sou os outros e sou eu,
Sou pacífico e sou brabo,
Sou real, sou ilusão,
Sou o sim e sou o não,
Sou um deus, sou um diabo...

Sou parte da romaria,
Sou a fina hipocrisia,
Sou mais ou menos a média
Da tragédia e da comédia...
Sou verdade e sou mentira
Sou a calma e sou a ira,
Sou alegria e sou pranto,
Sou achado e sou perdido,
Sou sorriso e sou gemido,
Sou o encanto e o desencanto...

Sou passado e sou presente,
Precavido, inconsequente,
Sou o ódio e sou o amor,
Sou medo e sou destemor,
Sou machado e sou o lenho...
Não sei de onde é que venho,
Não sei pra onde é que vou...
...E assim perdido na estrada,
Numa confusão danada,
Não sei que diabo é que sou!!!


José de Anchieta Batista (no blog)

*
Acompanhe o Blog do Anchieta!

sexta-feira, 25 de setembro de 2009

OLHANDO O MAR


"Aqui
nesta pedra,

alguém sentou
olhando o mar

O mar
não parou
pra ser olhado

Foi mar
pra tudo que é lado"


PAULO LEMINSKI 
in:Caprichos e Relaxos

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

AS INESQUECÍVEIS DE ZÉ LEITE

A MINHOCA DO KALUME


Governador do Acre, Jorge Kalume decidiu marcar presença acreana com produtos da terra na Feira dos Estados em Brasília. Providenciou a importação de abacaxis gigantes de 22 quilos de Tarauacá, macaxeiras de porte avantajado, “pélas” de borracha de 150 a 200 quilos, cajus sumarentos e grandões, ouriços de castanha-do-pará, enfim, produtos da terra de fazer queixo de brasileiros e brasileiras caírem. A expo de Kalume foi sucesso.
Um grupo de militares admirava o tamanho dos abacaxis e outros itens, JK empolgado descrevia a fertilidade do solo acreano. Na andança, param diante de uma pele de jibóia e antes que o governador falasse alguma coisa, um coronel interpelou-o:
– Governador Kalume, pelo amor de Deus não me vá dizer que isso aí é o couro de minhoca do Acre!

***

Referência e sugestão:
LEITE, José Chalub. Tão Acre: Humor acreano de todos os tempos. Rio Branco: BOGRAF Editora Preview Ltda, 2000.

Livro de humor acreano igual não há.

*

Saiba um pouco mais, do livro e autor, aqui 

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

É ESTRANHO

Henriqueta Lisboa


É estranho que, após o pranto
vertido em rios sobre os mares,
venha pousar-te no ombro
o pássaro das ilhas, ó náufrago.

É estranho que, depois das trevas
semeadas por sobre as valas,
teus sentidos se adelgacem
diante das clareiras, ó cego.

É estranho que, depois de morto,
rompidos os esteios da alma
e descaminhando o corpo,
homem, tenhas reino mais alto.



LISBOA, Henriqueta. Flor da Morte. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2004.

> Henriqueta Lisboa (1901-1985) é autora de uma significativa obra poética, que alia ao diálogo crítico com a tradição lírica ocidental gestos próprios de inovação. Em sua poesia confluem tendências simbolistas e modernistas. Se a busca do ser, em Henriqueta Lisboa, corresponde à busca da verdade poética, nesse percurso aflora a presença da morte, com seu poder de negatividade. Dessa experiência dá testemunho um de seus melhores livros – Flor da Morte –, que reúne poemas escritos entre 1945 e 1949.

segunda-feira, 17 de agosto de 2009

NAVIO QUE PARTES

Fernando Pessoa


Navio que partes para longe,
Por que é que, ao contrário dos outros,
Não fico, depois de desapareceres, com saudades de ti?
Porque quando te não vejo, deixastes de existir.
E se se tem saudades do que não existe,
Sente-se em relação a cousa nenhuma;
Não é do navio, é de nós, que sentimos saudades.


PESSOA, Fernando. Poesia completa de Alberto Caeiro. São Paulo: Companhia das Letras, 2005.

segunda-feira, 6 de julho de 2009

A BELÍSSIMA “INVOCAÇÃO À MARIAMA” DE D. HÉLDER CÂMARA



"Mariama, Nossa Senhora, mãe de Cristo e mãe dos homens!

Mariama, mãe dos homens de todas as raças, de todas as cores, de todos os cantos da Terra.

Pede a teu filho que esta festa não termine aqui, a marcha final vai ser linda de viver.

Mas é importante, Mariama, que a igreja de teu filho não fique em palavras, não fique em aplausos.

O importante é que a CNBB, a Conferência dos Bispos, embarque de cheio na causa dos negros.

Como entrou de cheio na pastoral da terra e na pastoral dos índios.

Não basta pedir perdão pelos erros de ontem.

É preciso acertar o passo de hoje sem ligar ao que disserem.

Claro que dirão, Mariama, que é política, que é subversão, que é comunismo.

É Evangelho de Cristo, Mariama!

Mariama, mãe querida, problema de negro acaba se ligando com todos os grandes problemas humanos.

Com todos os absurdos contra a humanidade, com todas as injustiças e opressões.

Mariama, que se acabe, mas se acabe mesmo a maldita fabricação de armas.

O mundo precisa fabricar é paz.

Basta de injustiças!

Basta de uns sem saber o que fazer com tanta terra e milhões sem um palmo de terra onde morar.

Basta de uns tendo que vomitar para comer mais e 50 milhões morrendo de fome num só ano.

Basta de uns com empresas se derramando pelo mundo todo e milhões sem um canto onde ganhar o pão de cada dia.

Mariama, Nossa Senhora, mãe querida, nem precisa ir tão longe, como no teu hino.

Nem precisa que os ricos saiam de mãos vazias e os pobres de mãos cheias.

Nem pobre, nem rico!

Nada de escravo de hoje ser senhor de escravos amanhã.

Basta de escravos!

Um mundo sem senhores e sem escravos.

Um mundo de irmãos.

De irmãos não só de nome e de mentira.

De irmãos de verdade, Mariama!"

 

Dom Hélder Câmara



terça-feira, 23 de junho de 2009

ANÚNCIO DA ROSA

Carlos Drummond de Andrade


Imenso trabalho nos custa a flor.
Por menos de oito centavos vendê-la? Nunca.
Primavera não há mais doce, rosa tão meiga
onde abrirá? Não, cavalheiros, sede permeáveis.

Uma só pétala resume auroras e pontilhismos,
sugere estâncias, diz que te amam, beijai a rosa,
ela é sete flores, qual mais fragrante, todas exóticas,
todas históricas, todas catárticas, todas patéticas.

                                               Vede o caule,
                                               traço indeciso.

Autor da rosa, n'ao me revelo, sou eu, quem sou?
Deus me ajudara, mas ele é neutro, e mesmo duvido
que em outro mundo alguém se curve, filtre a paisagem,
pense uma rosa na pura ausência, no amplo vazio.

                                               Vinde, vinde,
                                               olhai o cálice.

Por preço tão vil mas peças, como direi, aurilavrada,
não, é cruel existir em tempo assim filaucioso.
Injusto padecer exílio, pequenas cólicas cotidianas,
oferecer-vos alta mercancia estelar e sofrer vossa irrisão.

                                               Rosa na roda,
                                               rosa na máquina,
                                               apenas rósea.

Selarei, venda murcha, meu comércio incompreendido,
pois jamais virão pedir-me, eu sei, o que de melhor se compôs na noite,
e não há oito contos. Já não vejo amadores de rosa.
Ó fim do parnasiano, começo da era difícil, a burguesia apodrece.

                                               Aproveitem. A última
                                               rosa desfolha-se.


ANDRADE, Carlos Drummond de. A rosa do povo. Rio de Janeiro: Record, 1984.

quarta-feira, 10 de junho de 2009

Richard Rorty: filósofo da cultura

"Mas é revoltante pensar que nossa única

esperança de uma sociedade decente consiste

em amolecer os corações auto-satisfeitos de

uma classe que se dedica ao lazer."

Richard Rorty

 

Pensar filosoficamente não é atributo exclusivo do filósofo nem tampouco de quem estuda filosofia. Por longos séculos, a filosofia foi vista como a mãe de todos os saberes e nessa condição, inúmeras tradições filosóficas, encerraram-na numa espécie de redoma de cristal, sendo alcançada apenas por nobres espíritos que por meio de pensamentos altamente elaborados atingiam a Verdade.

O pensamento filosófico de Richard Rorty (1931-2007) caminha na contramão da tradição que busca uma verdade redentora, uma essência real das coisas, um meta-vocabulário ou um vocabulário ideal que contenha todas as opções discursivas genuínas. O trabalho rortyano de crítica estende-se para incluir ainda a filosofia analítica contemporânea, e quer conduzir ao abandono, tanto do modo antigo (metafísico), quanto moderno (epistemológico), de fazer filosofia. Isto é, na proposta "não-fundacionista" de uma filosofia trazida inteiramente para dentro do mundo (de nossas práticas), como interpretação e como formação (ou edificação), e não mais como uma espécie de "dona da razão".

Rorty pertencia à tradição neo-pragmatista norte-americana e foi um dos mais importantes filósofos contemporâneos. Uma das características mais marcantes de sua reflexão intelectual é a capacidade de construir diálogos entre tradições filosóficas que costumam ser tomadas de modo independente, e sugerir leituras tão inovadoras de outros autores que a história das idéias e o mapa dos problemas filosoficamente relevantes se vê redesenhado.

Para Rorty, é necessário redescrever a filosofia e sua tarefa, na qual ela aponte para um horizonte de utopia e esperança liberal, de cultura aberta, onde a imaginação seja valorizada como caminho poético para a construção de um futuro diferente, aceitando radicalmente a contingência e a finitude. Sua proposta de filosofia é de uma filosofia da cultura, para a qual o filósofo deve estar disposto a dialogar com as várias áreas das chamadas ciências humanas, principalmente com a literatura e a história.

Segundo Rorty, devemos evitar encapsular a filosofia como muitos pensadores têm feito, por isso, se faz necessário mudar a concepção a respeito da utilidade da filosofia. Isso será alcançado, se algum dia o for, por um longo e lento processo de mudança cultural, ou seja, de mudança no senso comum, mudança nas percepções disponíveis para ser impulsionadas por argumentos filosóficos. Nesse sentido, é que Rorty sugere abandonarmos a terminologia absoleta da filosofia, pois ela progride ao se tornar não mais rigorosa, mas mais criativa. Abandonar essa terminologia absoleta, segundo Rorty, torna-nos mais sensíveis à vida ao nosso redor, pois nos ajuda a parar de tentar cortar materiais novos, recalcitrantes para atender a antigos padrões.

Como pragmatista, Rorty bebe bastante do pragmatismo de John Dewey que ressaltava que a filosofia não pode oferecer nada mais que hipóteses, e essas hipóteses têm valor apenas à medida que tornam as mentes humanas mais sensíveis à vida ao seu redor. Isso leva Rorty a dizer que o progresso filosófico ocorre à medida que encontramos uma maneira de integrar as visões de mundo e as percepções morais herdadas de nossos ancestrais às novas teorias científicas ou às novas teorias e instituições sociopolíticas ou a outras inovações.

Nossa relação com a tradição, ressalta Rorty, precisa ser uma nova escuta do que já não pode mais ser ouvido, ao invés de um discurso sobre o que ainda não foi dito. Para ele, a glória do pensamento de um filósofo não é a de que ele inicialmente torna todas as coisas mais difíceis, o que não deixar de ser verdade, mas a de que no fim o filósofo torna as coisas mais fáceis para todo mundo. Rorty pensa na superação da tradição da metafísica Ocidental que faz alusão a Uma Descrição Verdadeira e que exibe o padrão subjacente à aparente diversidade.

Rorty pretende, de certa forma, uma literalização da filosofia, pois ele a ver apenas como mais um gênero literário. A proposta de Rorty é que possamos escrever sobre filosofia de modo não-filosófico, chegar a ela a partir do exterior, ser um pensador pós-filosófico. A grande crítica de Rorty a filosofia é que ela muitas vezes tornou o filósofo insensível para perceber o mundo a sua própria volta. O que é cômico em nós, ressalta Rorty, é que estamos nos tornando incapazes de ver coisas que qualquer outra pessoa pode ver – coisas como o aumento ou a diminuição do sofrimento – à medida que nos convencemos de que essas coisas são "meras aparências". É como se a reflexão filosófica tivesse tornado o homem inapto para o mundo. 

Por sua vez, a literatura tem desempenhado um papel imprescindível para a reflexão moral. Para Rorty, a literatura, e não a filosofia é a única capaz de promover a verdadeira noção de solidariedade humana, pois as palavras de romancistas como George Orwell e Vladimir Nabokov foram mais eficazes na tentativa de nos sensibilizar diante da crueldade que as indagações de inúmeros filósofos. Ele afirma que narrativas dramáticas podem muito bem ser essenciais para a escrita da história intelectual. Em vez do filósofo, Rorty pensa no romancista como aquele capaz de nos sensibilizar para os casos de crueldade e humilhação que muitas vezes não percebemos.

A reflexão filosófica elaborada por Richard Rorty é imprescindível a todas as pessoas interessadas em filosofia contemporânea e no que ela pode fazer pelo mundo moderno. Rorty transita muito bem entre as diversas tradições filosóficas, com leituras totalmente originais acerca dos mais diferentes pensadores, fato que torna o seu pensamento um dos mais combatidos e apreciados na atualidade.

 

Referências e sugestões:

RORTY, Richard. Contingência, ironia e solidariedade. (Tradução Vera Ribeiro). São Paulo: Martins, 2007.

RORTY, Richard. Verdade e progresso. (Tradução de Denise R. Sales). Barueri, SP: Manole, 2005.

RORTY, Richard. Ensaio sobre Heidegger e outros: escritos filosóficos (2). (Tradução de Marco Antônio Casanova). Rio de Janeiro: Relume Dumará, 1999.

ARAÚJO, Inês Lacerda. Castro, Susana de (orgs). Richard Rorty: filósofo da cultura. Curitiba: Champagnat, 2008.

SOUZA, José Crisóstomo de (org.). Filosofia, racionalidade, democracia: os debates Rorty & Habermas. São Paulo: Editora UNESP, 2005.
 

 

Isaac Melo