sexta-feira, 13 de maio de 2011

O BAILE DO JUDEU - Inglês de Sousa

Ora, um dia, lembrou-se o Judeu de dar um baile e atreveu-se a convidar a gente da terra, a modo de escárnio pela verdadeira religião de Deus Crucificado, não esquecendo, no convite, família alguma das mais importantes de toda a redondeza da vila. Só não convidou o vigário, o sacristão, nem o andador das almas, e menos ainda o Juiz de Direito; a este, por medo de se meter com a Justiça, e aqueles, pela certeza de que o mandariam pentear macacos.

Era de supor que ninguém acudisse ao convite do homem que havia pregado as bentas mãos e os pés de Nosso Senhor Jesus Cristo numa cruz, mas às oito horas da noite daquele famoso dia, a casa do Judeu, que fica na rua da frente, a umas dez braças, quando muito, da barranca do rio, já não podia conter o povo que lhe entrava pela porta adentro; coisa digna de admirar-se, hoje que se prendem bispos e por toda parte se desmascaram lojas maçônicas, mas muito de assombrar naqueles tempos em que havia sempre algum temor de Deus e dos mandamentos de sua Santa Madre Igreja Católica Apostólica Romana.

Lá estavam, em plena judiaria, pois assim se pode chamar a casa de um malvado Judeu, o tenente-coronel Bento de Arruda, comandante da guarda nacional, o capitão Coutinho, comissário das terras, o dr. Filgueiras, o delegado de polícia, o coletor, o agente da companhia do Amazonas; toda a gente grada, enfim, pretextando uma curiosidade desesperada de saber se, de fato, o Judeu adorava uma cabeça de cavalo mas, na realidade, movida da notícia da excelente cerveja Bass e dos sequilhos que o Isaac arranjara para aquela noite, entrava alegremente no covil de um inimigo da Igreja, com a mesma frescura com que iria visitar um bom cristão.

Era em junho, num dos anos de maior enchente do Amazonas. As águas do rio, tendo crescido muito, haviam engolido a praia e iam pela ribanceira acima, parecendo querer inundar a rua da frente e ameaçando com um abismo de vinte pés de profundidade os incautos transeuntes que se aproximavam do barranco.

O povo que não obtivera convite, isto é, a gente de pouco mais ou menos, apinhava-se em frente a casa do Judeu, brilhante de luzes, graças aos lampiões de querosene tirados da sua loja, que é bem sortida. De torcidas e óleo é que ele devia ter gasto suas patacas nessa noite, pois quantos lampiões bem lavadinhos, esfregados com cinza, hão de ter voltado para as prateleiras da bodega.

Começou o baile às oito horas, logo que chegou a orquestra composta do Chico Carapanã, que tocava violão; do Pedro Rabequinha e do Raimundo Penaforte, um tocador de flauta de que o Amazonas se orgulha. Muito pode o amor ao dinheiro, pois que esses pobres homens não duvidaram tocar na festa do Judeu com os mesmos instrumentos com que acompanhavam a missa aos domingos na Matriz. Por isso dois deles já foram severamente castigados, tendo o Chico Carapanã morrido afogado um ano depois do baile e o Pedro Rabequinha sofrido quatro meses de cadeia por uma descompostura que passou ao capitão Coutinho a propósito de uma questão de terras. O Penaforte, que se acautele!

Muito se dançou naquela noite e, a falar a verdade, muito se bebeu também, porque em todos os intervalos da dança lá corriam pela sala os copos da tal cerveja Bass, que fizera muita gente boa esquecer os seus deveres. O contentamento era geral e alguns tolos chegavam mesmo a dizer que na vila nunca se vira um baile igual!

A rainha do baile era, incontestavelmente, a D. Mariquinhas, a mulher do tenente-coronel Bento de Arruda, casadinha de três semanas, alta, gorda, tão rosada que parecia uma portuguesa. A D. Mariquinhas tinha uns olhos pretos que tinham transtornado a cabeça de muita gente; o que mais nela encantava era a faceirice com que sorria a todos, parecendo não conhecer maior prazer do que ser agradável a quem lhe falava. O seu casamento fora por muitos lastimado, embora o tenente-coronel não fosse propriamente um velho, pois não passava ainda dos cinqüenta; diziam todos que uma moça nas condições daquela tinha onde escolher melhor e falava-se muito de um certo Lulu Valente, rapaz dado a caçoadas de bom gosto, que morrera pela moça e ficara fora de si com o casamento do tenente-coronel; mas a mãe era pobre, uma simples professora régia!

O tenente-coronel era rico, viúvo e sem filhos e tantos foram os conselhos, os rogos e agrados e, segundo outros, ameaças da velha, que D. Mariquinhas não teve outro remédio que mandar o Lulu às favas e casar com o Bento de Arruda. Mas, nem por isso, perdeu a alegria e amabilidade e, na noite do baile do Judeu, estava deslumbrante de formosura. Com seu vestido de nobreza azul-celeste, as suas pulseiras de esmeraldas e rubis, os seus belos braços brancos e roliços de uma carnadura rija; e alegre como um passarinho em manhã de verão. Se havia, porém, nesse baile, alguém alegre e satisfeito de sua sorte, era o tenente-coronel Bento de Arruda que, sem dançar, encostado aos umbrais de uma porta, seguia com o olhar apaixonado todos os movimentos da mulher, cujo vestido, às vezes, no rodopiar da valsa, vinha roçar-lhe as calças brancas, causando-lhe calafrios de contentamento e de amor.

Às onze horas da noite, quando mais animado ia o baile, entrou um sujeito baixo, feio, de casacão comprido e chapéu desabado, que não deixava ver o rosto, escondido também pela gola levantada do casaco. Foi direto a D. Mariquinhas, deu-lhe a mão, tirando-a para uma contradança que ia começar.

Foi muito grande a surpresa de todos, vendo aquele sujeito de chapéu na cabeça e mal amanhado, atrever-se a tirar uma senhora para dançar, mas logo cuidaram que aquilo era uma troça e puseram-se a rir, com vontade, acercando-se do recém-chegado para ver o que faria. A própria mulher do Bento de Arruda ria-se a bandeiras despregadas e, ao começar a música, lá se pôs o sujeito a dançar, fazendo muitas macaquices, segurando a dama pela mão, pela cintura, pelas espáduas, nos quase abraços lascivos, parecendo muito entusiasmado. Toda a gente ria, inclusive o tenente-coronel, que achava uma graça imensa naquele desconhecido a dar-se ao desfrute com sua mulher, cujos encantos, no pensar dele, mais se mostravam naquelas circunstâncias.

- Já viram que tipo? Já viram que gaiatice? É mesmo muito engraçado, pois não é? Mas quem será o diacho do homem? E essa de não tirar o chapéu? Ele parece ter medo de mostrar a cara... Isto é alguma troça do Manduca Alfaiate ou do Lulu Valente! Ora, não é! Pois não se está vendo que é o imediato do vapor que chegou hoje! E um moço muito engraçado, apesar de português! Eu, outro dia, o vi fazer uma em Óbidos, que foi de fazer rir as pedras ! Agüente, dona Mariquinhas, o seu par é um decidido! Toque para diante, seu Rabequinha, não deixe parar a música no melhor da história!

No meio de estas e outras exclamações semelhantes, o original cavalheiro saltava, fazia trejeitos sinistros, dava guinchos estúrdios, dançava desordenadamente, agarrando a dona Mariquinhas, que já começava a perder o fôlego e parara de rir. O Rabequinha friccionava com força o instrumento e sacudia nervosamente a cabeça. O Carapanã dobrava-se sobre o violão e calejava os dedos para tirar sons mais fortes que dominassem o vozerio; o Penaforte, mal contendo o riso, perdera a embocadura e só conseguia tirar da flauta uns estrídulos sons desafinados, que aumentavam o burlesco do episódio. Os três músicos, eletrizados pelos aplausos dos circunstantes e pela originalidade do caso, faziam um supremo esforço, enchendo o ar de uma confusão de notas agudas, roucas e estridentes, que dilaceravam os ouvidos, irritavam os nervos e aumentavam a excitação cerebral de que eles mesmos e os convidados estavam possuídos.

As risadas e exclamações ruidosas dos convidados, o tropel dos novos espectadores, que chegavam em chusma do interior da casa e da rua, acotovelando-se para ver por sobre a cabeça dos outros; sonatas discordantes do violão, da rabeca e da flauta e, sobretudo, os grunhidos sinistramente burlescos do sujeito de chapéu desabado, abafavam os gemidos surdos da esposa de Bento de Arruda, que começava a desfalecer de cansaço e parecia já não experimentar prazer algum naquela dança desenfreada que alegrava tanta gente.

Farto de repetir pela sexta vez o motivo da quinta parte da quadrilha, o Rabequinha fez aos companheiros um sinal de convenção e, bruscamente, a orquestra passou, sem transição, a tocar a dança da moda.

Um bravo geral aplaudiu a melodia cadenciada e monótona da varsoviana, a cujos primeiros compassos correspondeu um viva prolongado. Os pares que ainda dançavam retiraram-se, para melhor poder apreciar o engraçado cavalheiro de chapéu desabado que, estreitando então a dama contra o côncavo peito, rompeu numa valsa vertiginosa, num verdadeiro turbilhão, a ponto de se não distinguirem quase os dois vultos que rodopiavam entrelaçados, espalhando toda a gente e derrubando tudo quanto encontravam. A moça não sentiu mais o soalho sob os pés, milhares de luzes ofuscavam-lhe a vista, tudo rodava em torno dela; o seu rosto exprimia uma angústia suprema, em que alguns maliciosos sonharam ver um êxtase de amor.

No meio dessa estupenda valsa, o homem deixa cair o chapéu e o tenente-coronel, que o seguiu assustado, para pedir que parassem, viu, com horror, que o tal sujeito tinha a cabeça furada. Em vez de ser homem, era um boto, sim, um grande boto, ou o demônio por ele, mas um senhor boto que afetava, por um maior escárnio, uma vaga semelhança com o Lulu Valente. O monstro, arrastando a desgraçada dama pela porta fora, espavorido com o sinal da cruz feito pelo Bento de Arruda, atravessou a rua, sempre valsando ao som da varsoviana e, chegando à ribanceira do rio, atirou-se lá de cima com a moça imprudente e com ela se atufou nas águas.

“Des dessa” vez ninguém quis voltar aos bailes do Judeu.

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Inglês de Sousa (1853-1918) – escritor, jurista e político. Introduziu a escola literária naturalista no Brasil mediante uma obra voltada para a natureza e a vida amazônicas. A partir do primeiro trabalho, O Cacaulista (1876), fez dos problemas humanos da Amazônia a preocupação central de suas obras. Tal como o primeiro, seu segundo livro, O Coronel Sangrado (1877), não alcançou repercussão, mas inaugurou a corrente naturalista na literatura brasileira. O autor tornou-se conhecido com O Missionário (1888), em que descreve com fidelidade a vida numa pequena cidade do Pará. Publicou também Contos Amazônicos (1893). Nasceu em Óbidos, Pará, e faleceu no Rio de Janeiro.

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SOUSA, Inglês de. Contos Amazônicos. São Paulo: Martin Claret, 2005.

segunda-feira, 9 de maio de 2011

O QUE É CORRETO? O QUE É JUSTO?

Profª. Inês Lacerda Araújo*


Na obra de Richard Rorty A Filosofia como Política Cultural (já traduzida, 2009), há um capítulo com reflexões sobre o conceito de justiça. Rorty acha que justiça é a lealdade alargada, e pergunta: a quem ser leal? Em geral somos leais aos mais próximos, ao que atinge nossa família, nossos amigos, vizinhos; a lealdade decresce com o alargamento desse círculo, se um massacre acontece em um país africano, ou no Afeganistão, não nos atinge de perto.

Mas a justiça não é para todos?

Quando se perde postos de trabalho na indústria automobilística norte-americana, ganham os países periféricos cuja mão de obra é mais barata? A liberdade política deve prevalecer, ou a justiça econômica igualitária? Se houver uma catástrofe e os alimentos escasseiam, o que se conseguir vai para os mais próximos (lealdade) ou devem ser distribuídos (justiça)?

Esses casos servem para Rorty refletir sobre se a justiça e a lealdade, afinal, não viriam juntas, e ampliar a lealdade seria, então, prover a sociedade com uma justiça mais efetiva. Ele não segue a tradição kantiana de conflito entre razão e sentimento, em que prevalece a primeira que é universal e obrigatória, igual para todos. Rorty acha que a moralidade nasce da lealdade ao grupo, e que dilemas morais não resultam de conflito entre razão e sentimento, mas de construções de si alternativas, descrições de si, diferentes modos de dar sentido à vida em diferentes grupos sociais. Não há um centro permanente do eu ou da história, mas pluralidade de modos de dar conta de problemas e dilemas. Isso é mais leve e fácil quando se trata dos que nos são próximos, e mais difícil e pesado quando os grupos são maiores, outras culturas e povos.

Aos poucos, costumes cederam lugar ao julgamento por leis, questões de justiça deveriam ser resolvidas, pensa Rorty, não por regras transcendentais e universais, mas pelas circunstâncias envolvidas em cada caso.

A obrigação moral não é indiscutível e nem há uma resolução que sirva para todos os casos, compulsória. Justiça requer razoabilidade. Atender aos interesses de todos, resumidos nos direitos fundamentais que vigoram em sociedades modernas ocidentais, essa base histórica pode servir de parâmetro? Isso é justo?

Tratar casos similares de modo similar esbarra em crenças e culturas que tratam semelhantes de modo desigual (mulheres, negros, homossexuais, os “infiéis” nas culturas islâmicas, por exemplo). O consenso que ultrapassa fronteiras é próprio da cultura liberal ocidental dos últimos duzentos anos.

Na França proibiu-se a vestimenta muçulmana para mulheres, sem consenso até mesmo na Europa. É perigoso considerar que uma cultura é superior a outra (colonialismo, nazismo, etc.), mesmo porque não se trata de casos nos quais há uma verdade a ser aceita, não há um consenso acima da história para julgar quais são os procedimentos corretos.

Para Rawls, e Rorty concorda com ele, os princípios brotam de práticas que comunidades criaram e sobre as quais há acordo. É sempre preferível buscar o acordo e o consenso, pois eles podem evitar a ameaça e imposição pela força. Deve ser possível justificar demandas de acordo com princípios razoavelmente aceitos por uma comunidade, com os quais outras comunidades podem concordar.

E Rorty vai além, é possível construir novas identidades morais, alargar a lealdade com um grupo formado por grupos menores. Lealdade e justiça se combinam, argumentos racionais e o compartilharmento de valores e ideais dos outros, próximos ou distantes, isso pode levar a concluir que o outro tem suas razões e almeja objetivos parecidos, que ele é confiável. Razão e sentimento são complementares e não dicotômicos. Supor que os outros são razoáveis, significa que podemos compartilhar também de seus desejos e crenças. Se não há meios de entender ou compartilhar tais desejos e crenças, então é provável que a força e a violência entrem em cena.

Mas exigir que o outro seja razoável em questões em que nós somos razoáveis, é apelar excessivamente para um critério em que a autoridade é a Razão, leia-se razão ocidental. Tolerância, respeito aos direitos da mulher, dos homossexuais, seria tanto mais valioso quanto ficasse claro que são da cultura ocidental moderna. Ótimo se outras culturas forem abertas, mas melhor ainda é ser etnocêntrico, isto é, levar em conta a diversidade cultural e adotar práticas liberais, as únicas que melhoram as relações entre povos e culturas.

Rorty abomina a noção de normas morais obrigatórias.

Um exemplo: é possível e razoável tolerar mulheres quase nuas e/ou inteiramente cobertas? Em uma mesma cultura, em diferentes culturas?

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* INÊS LACERDA ARAÚJO - filósofa, escritora e doutora em Estudos Linguísticos.

sábado, 7 de maio de 2011

SIMONE BICHARA - Gratidão ao público


Simone Bichara desenvolve uma arte singular e bela. Conheço a artista e a obra, por isso, posso falar que ela é uma artista fascinante que desenvolve uma arte encantadora. Tem cativado um público cada vez maior e em diferentes lugares, o que vem tornando-a uma artista muito apreciada no cenário acreano e além-fronteiras.
Então, aproveitem para conhecer o seu trabalho e participar da promoção, e quem saber ter uma reprodução da Mandala Alma (acima) em sua parede, gratuitamente. Eu já me inscrevi.

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De Simone Bichara:
Como forma de gratidão à sensibilidade e carinho que temos recebido dos que aqui nos acompanha, o Blog Mandalas da Floresta sorteará uma impressão em papel fotográfico medindo 70 X 70 cm, da Mandala Alma, da artista plástica Simone Bichara. Essa peça foi confeccionada enquanto a artista convivia com índios em suas aldeias, numa profunda conexão com a natureza e os povos da floresta. Como foi elaborado em papel comum, o trabalho passou por uma restauração profissional, e depois por scanneação e impressão em alta qualidade em papel fotográfico. Para participar, basta ser seguidor (a) do Blog e deixar um comentário na postagem dizendo seu nome e sobrenome, endereço de e-mail e aonde você reside.

MAIORES INFORMAÇÕES e REGULAMENTO:

Grande abraço e boa sorte,
Produção - Exposição Mandalas da Floresta

quinta-feira, 5 de maio de 2011

A DIFÍCIL ARTE DE ESCREVER

Eu, como todo escritor, ou aspirante a escritor, devo ler bastante, tanto livros de autores consagrados como de novos escritores, sejam os já publicados ou os milhares de blogueiros (Alma Acreana, um blog que adoro!) espalhados pelo país e pelo mundo.

Profª. Luísa Galvão Lessa
Jornal  A Gazeta

Fala-se, hoje, sobre temática complicada, uma questão que envolve todas as pessoas que se arriscam nos caminhos do texto escrito. Escrevo há mais de 12 anos no Jornal “A Gazeta”. Confesso que gostaria de ter muitos interlocutores, pessoas críticas, no bom sentido, no desejo de construir, sempre, um melhor texto. Mas os leitores, modo geral, são silenciosos, apáticos, talvez porque o jornal não abra espaço para o leitor interagir com o escritor. Por isso, somente quando me encontram falam: leio seus textos, adoro-os, aprendo muito com eles. Mas a verdade é que eu gostaria muito de uma interação estreita com os leitores, que eles escrevessem e manifestassem opinião sobre o tema tratado. Assim, essas opiniões se somariam a minha e estaríamos numa construção ampla de um mundo melhor, mais justo e humano.

Escrevo, ainda, desde abril do ano passado, no jornal online “Gosto de ler”. Ali tenho 50 artigos publicados e 25.000 leitores. Muitos dialogam comigo. É algo fantástico! É uma tarefa gratificante porque à medida que um texto é lido o escritor sobe na escala dos textos mais lidos. Isso é muito estimulante. É bom escrever assim.

Mas tudo isso que escrevi serve, apenas, para indagar: como escrever bem? Ou melhor, o que é escrever bem? É uma questão complexa, pois envolve diferentes gostos e diferentes linhas de pensamento. Destacam-se, aqui, as principais: a de uma boa parte da crítica, principalmente a brasileira e a européia (com exceção, talvez, da Inglaterra), e a comercial.

Eu, como todo escritor, ou aspirante a escritor, devo ler bastante, tanto livros de autores consagrados como de novos escritores, sejam os já publicados ou os milhares de blogueiros (Alma Acreana, um blog que adoro!) espalhados pelo país e pelo mundo. Naturalmente, reflito sobre aquilo que leio, tento identificar o que ficou bom e o que ficou ruim. Infelizmente, vejo muita coisa ruim. E vejo muita gente que produz coisas ruins reclamar de poucas oportunidades no mercado editorial. Sei que eles têm razão, as oportunidades são poucas, mas um pouco de cuidado com o texto poderia facilitar. Foi então que me ocorreu: como fazer para escrever bem?

Menciono o livro "Os segredos da ficção", do Raimundo Carrero (três prêmios jabuti). É uma obra que vale a pena ser lida. Não é livro de auto-ajuda, mas ensina muito. O autor mostra que a literatura está ao alcance de todos àqueles que têm o impulso de criá-la e, também, a perseverança de trabalhar duro para transformar suas idéias em contos, novelas, romances, artigos, poemas. Se não há receitas para a boa literatura, existem, sim, caminhos para chegar a ela. E é nestas trilhas que o autor guia o leitor, falando diretamente a ele com a ajuda de ilustres gênios de diversos estilos e épocas que têm em comum a disciplina e o rigor na criação de seus universos ficcionais.

Dois de meus autores favoritos, Mario Quintana e Machado possuem estilos fabulosos, fantásticos que os fizeram grandes nomes na literatura mundial. O primeiro é conhecido pela genial simplicidade de seus textos, por isso, certamente, é considerado um dos maiores poetas brasileiros do século XX, pertencente à segunda geração do Movimento Modernista. Com um estilo tranqüilo e introspectivo, Quintana não se sentia à vontade para falar de sua vida pessoal. Em uma entrevista, chegou a dizer que a sua vida estava descrita nos seus poemas. "Minha vida está nos meus poemas, meus poemas são eu mesmo, nunca escrevi uma vírgula que não fosse uma confissão". O segundo, Machado Assis, possui estilo sutil e irônico. Suas crônicas são atuais até hoje, pois remetem a reflexões profundas de fatos corriqueiros, tocando na essência daquilo que observava com um meio riso de contemplação e quase sempre esse riso traz, implícita ou explicitamente, uma advertência. Em Machado de Assis, o fato em si tinha menor importância, o que interessava era a reflexão que esse fato provocava. Ao contrário de Flaubert – que esquecia do narrador por detrás da objetividade narrativa, e os naturalistas, à exemplo de Émile Zola, narrava todos os detalhes do enredo — Machado de Assis optou por abster-se de ambos os métodos para cultivar o fragmentário e interferir na narrativa com o objetivo de dialogar com o leitor, comentando seu próprio romance com filosofias, metalinguagens, intertextualidade.

Defendo, por isso, como orientação para aqueles que participam da Roda de Poesia, aqui no Acre, que cada escritor procure encontrar o seu estilo, a sua forma de lidar com as palavras, sem se preocupar com o julgamento dos outros. Grande parte da crítica se dá por afinidade, por gosto: e é assim que deve ser. Neste contexto, já ouvi umas pessoas dizerem que escrever bem é cortar palavras (é, repetindo Carlos Drummond de Andrade) e outras afirmarem que para se produzir um bom texto é preciso descrever bem a cena, com detalhes, para permitir que o leitor se envolva com o texto.

De fato, existem estas duas formas de se produzir literatura, e milhares de outras formas intermediárias ou até mesmo totalmente diferentes. Todas elas podem fazer sucesso e podem, também, ser bem aceitas pela crítica. Como falei anteriormente, em geral, é uma questão de gosto. Resta ao escritor produzir o máximo que puder, reler, corrigir, re-escrever. Resta a ele também mostrar o seu texto para outros, receber as críticas e, claro, saber diferenciar os comentários que se referem ao seu estilo daqueles que apontam para melhorias significativas em sua produção. Certamente, é uma tarefa difícil, mas ninguém disse que escrever bem é tarefa fácil.

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* LUÍSA GALVÃO LESSA é Pós-Doutora em Lexicologia e Lexicografia pela Université de Montreal, Canadá; Doutora em Língua Portuguesa pela Universidade Federal do Rio de Janeiro; Mestra em Letras pela Universidade Federal Fluminense. Ocupa a cadeira de número 34 da Academia Acreana de Letras.
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Nota: Luísa Galvão Lessa é colunista do Jornal A Gazeta (Acre) e do Site Gosto de Ler. Escreve também em seu blog Linguagem e Cultura.

segunda-feira, 2 de maio de 2011

OS NOVOS IMORTAIS DA ACADEMIA ACREANA DE LETRAS

No dia 28 de Abril último, a Academia Acreana de Letras realizou, no Teatro Plácido de Castro, em Rio Branco, a solenidade de empossamento de seus cinco novos membros. Os ‘novos imortais’ são: Francisco Gregório Filho, Edson Ferreira de Carvalho, Glória Perez, Moisés Diniz e Margarete Edul Prado de Souza Lopes. Os empossados ocuparão as cadeiras em que antes estavam Geraldo Gurgel de Mesquita (10), Luiz Cláudio Castro e Costa (17), Francisco de Oliveira Conde (23), Fernando de Castela (25) e Josué Fernandes (32).
Teatro Plácido de Castro
Foto: Val Fernandes

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FRANCISCO GREGÓRIO FILHO
Francisco Gregório Filho é natural de Rio Branco (AC). Quando adolescente, foi para o Rio de Janeiro, onde se formou em Artes Cênicas (UNIRIO). Foi ator, diretor e produtor de peças teatrais, gestor de programas e projetos culturais nas áreas de música, rádio e teatro. Foi professor do Curso de Leitura, Teoria e Prática, promovido pela PUC/RJ. Na década de 1990 começou a se dedicar às questões da leitura, tendo sido um dos organizadores do Programa Nacional de Incentivo à Leitura, implantado em 1992, na Biblioteca Nacional (1992 a 1996). Desde então desenvolve oficinas de formação de contadores de histórias para educadores sociais, estudantes e profissionais de diferentes áreas.

Funcionário da Biblioteca Nacional, participou da equipe técnica do Setor Educativo do Paço Imperial, e de maio a outubro de 2010, iniciou a implantação da Secretaria de Promoção da Leitura de Nova Friburgo, estado do Rio de Janeiro, primeira secretaria municipal dedicada à leitura no país. Tem Título de Notório Saber pela PUC/RJ, Condecoração de Ordem ao Mérito do Livro pela Biblioteca Nacional; Pesquisador da UNESCO / PUC/RJ do quadro da BN-MINC. No Acre, criou a rede de Casa de Leitura.

Como contador de histórias, vem se dedicando especialmente a um repertório voltado para os contos populares brasileiros. Seus livros publicados procuram dar conta das muitas histórias vividas e escutadas pelo Brasil a fora. Entre outros trabalhos, escreveu os seguintes livros: Grávidas histórias - Histórias de mulheres do Brasil (1998); Lembranças amorosas (Global); Difícil Passagem (Santa Clara, 2003)); Dona Baratinha e Outras Histórias (Rocco, 2006); Ler e Contar, contar e ler - caderno de histórias (Letra Capital, 2008 e 2011).

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EDSON FERREIRA DE CARVALHO
O mineiro Edson Ferreira de Carvalho é natural de Bambuí. Além de ser Bacharel em Direito (UFAC, 1998) graduou-se em Engenharia Agronômica (UFV, 1984) e fez Mestrado (1986) e Doutorado (1990) em Fitotecnia na Universidade Federal de Viçosa (UFV). Fez cursos de capacitação na área de Ecologia Florestal na Universidade para a Paz, da Organização das Nações Unidas (Costa Rica) e na Universidade Austral do Chile, bem com de Monitoramento e qualidade ambiental e Direitos Humanos, na Universidade das Nações Unidas (Japão). Participou das seções de capacitação do Instituto Internacional de Direitos Humanos (Estrasburgo, França) e da Corte Internacional de Justiça (Haia, Holanda). É Master em Educação Ambiental pelo Instituto de Investigaciones Ecológicas (Espanha) e especialista em Liderança e Administração Universitária pela Inter-American Organization for Higher Education – Canadá. Cursou Pós-doutoramento na Universidade de Notre Dame (Estados Unidos), na área de Direitos Especiais, como bolsista do CAPES. Recebeu o prêmio internacional Gilles Boulet, da Inter-American Organization for Higher Education (OUI). É membro fundador e ex-Diretor-Presidente da Fundação Instituto da Biodiversidade e Manejo de Ecossistemas da Amazônia Ocidental (Fundação BIOMA). Foi Tutor do Programa Especial de Treinamento (CAPES) e Vice-Reitor da Universidade Federal do Acre. Atualmente é Professor Associado da Universidade Federal de Viçosa e do Programa de Mestrado em Direito Ambiental da Universidade Federal do Amapá. Autor de artigos científicos e livros na área de Direito, orientou e co-orientou alunos de Mestrado e Doutorado, no Brasil e no exterior. Entre seus trabalhos estão os seguintes livros: Meio Ambiente & Direitos Humanos (Editora Juruá, 2005); Meio Ambiente como Patrimônio da Humanidade – Princípios Fundamentais (Editora Juruá, 2008), e Manual Didático de Direito Agrário (Editora Juruá, 2010).


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GLÓRIA PEREZ
Natural de Rio Branco, Glória Maria Ferrante Perez viveu no Acre até os 16 anos. O pai, escritor e ministro de Justiça, Miguel Jerônymo Ferrante, e família, mudaram-se para Brasília, depois São Paulo e Rio de Janeiro. Cursou Direito e Filosofia na UNB, bacharelado e Mestrado em História (UFRJ). Começou a carreira de autora em 1979, no seriado ‘Malu Mulher’, da TV Globo. Em 1983, ela deu sequência a minissérie ‘Eu Prometo’, de Janete Clair, depois de a titular ficar doente. Sucessos no Brasil e exterior, ela recebeu nos Estados Unidos, do FBI e do DEA, prêmios pela campanha para auxiliar os dependentes químicos, enfocados na novela ‘O Clone’. Em: ‘Carmem’, de 1987, escreveu sobre Aids. Em ‘Barriga de Aluguel’, de 1990, tratou de troca de bebês em maternidades. Homossexualismo, deficiência visual, cleptomania, islamismo, foram outros temas. Em ‘Amazônia, de Galvez a Chico Mendes’, aviva a saga acreana de se incorporar ao Brasil. Glória Perez escreveu também ‘Partido Alto’, ‘Desejo’, “De Corpo e Alma”, ‘Explode Coração’, ‘Pecado Capital’, ‘América’, que ganhou o prêmio internacional Emmy, na categoria melhor novela. ‘Caminhos das Índias’ e ‘O Clone’ foram adaptadas para versões latinas: ‘Camino a las Índias’, na TV Azteca e ‘El Clon’, na Telemundo. É co-autora do livro de poesias Mercado de Escravas (Achiamé, 1984).

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MOISÉS DINIZ
Moisés Diniz é neto de nordestinos de Riacho do Sangue, no Ceará, e índios Ashaninkas das margens do Rio Amônia, em Cruzeiro do Sul, no Acre, um pequeno pedaço de terra amazônica que, para se tornar brasileira, pegou em armas na Revolução Acreana. Moisés Diniz é oriundo da Congregação dos Irmãos Maristas, aonde chegou a professar os votos temporários de pobreza, castidade e obediência. É formado em Pedagogia pela Universidade Federal do Acre. Aprendiz da luta em Tarauacá, cidade acreana aonde se estabeleceu em 1985, aí ajudou a organizar sindicatos de trabalhadores urbanos e extrativistas, organizações comunitárias, juvenis, indígenas, de cultura e de mulheres. Foi eleito vereador e vice-prefeito em Tarauacá e, atualmente, exerce o terceiro mandato de deputado estadual. Moisés Diniz, como ele mesmo diz, está mais para a poesia do que para a política. “A poesia é a nossa alma que herdamos dos tempos imemoriais quando o homem ainda não havia se tornado lobo do semelhante. A política é a ferramenta necessária para vencer os lobos e lutar pela felicidade humana”. Entre outras obras, escreveu: Exclamações Populares; Bandeira Gêmea e O Santo de Deus (Edições Bagaço, 2009).

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MARGARETE EDUL PRADO DE SOUZA LOPES
Margarete Edul Prado de Souza Lopes nasceu em São Paulo (SP), mas foi criada desde criança em Tarauacá (AC). Entre outros títulos e cargos é bacharel em Letras Clássicas (Rio de Janeiro), licenciada em Letras/Inglês pela (UFAC), mestra em Teoria da Literatura (Universidade Estadual de Campinas) e doutora em Literatura Brasileira (Universidade Federal da Bahia). Coordenadora dos Cursos de Letras da UFAC, foi a primeira diretora do Centro de Educação, Letras e Artes, fundadora, e coordenadora por 11 anos contínuos, da Universidade Aberta da Terceira Idade. Pesquisadora do CNPq, desde 1997, com trabalhos na área de Literatura, Gênero, Geração e Mitologia. Professora-adjunta, da UFAC, é coordenadora do Núcleo de Estudos de Gênero na Amazônia e dirige a Revista Seringal de Ideias. Publicou: artigos especializados e livros sobre as escritoras acreanas: “Motivos de Mulher na Amazônia” (EDUFAC, 2006) e “Vozes Femininas da Floresta”. E, para a UNB, o “Ensino à Distância sobre História da Educação no Acre”. Atualmente, orienta bolsistas de iniciação científica e do mestrado da UFAC.

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Nota: Informações organizadas a partir, sobretudo, da Agência de Notícias do Acre.

Acesse aqui a página da

domingo, 1 de maio de 2011

PENÉLOPE MORTÍFERA - Leila Jalul

Enquanto na grande sala acontecia o velório, capionga, dona Ana chamou a irmã e, sem que fossem notadas, fugiram para o quintal. Estava como triste e irritada com a baderna que a turma estava fazendo na sua casa. Mal o caixão foi aberto, a sala foi literalmente invadida pela turba, mostrando a verdadeira face do ser humano. Uns riam, outros se aproximavam do caixão, outros levantavam o véu que cobria o rosto de Doroty. Alguns outros, nem uma persignação pela paz da falecida. Foram direto para a cozinha, ou comer biscoitos com café, ou guaraná com bolacha. Esfomeados e “maliducados”, dizia a senhora.

Diante de tantas tragédias vividas e experimentadas pela filha, dona Ana, por mais que procurasse razões e justificativas, não sabia entender a trajetória daquela menina, tão cedo morta.

O berço foi bom, pensava ela. Mariano, enquanto raciocinava, foi bom pai. Os irmãos Maria Raimunda e Marianinho foram bons irmãos. Os avós Pedro Maia e Adaltiva, com os quais conviveu, igualmente, foram bons avós.

- Onde errei, Estefânia?

- Não se martirize Ana! As linhas de Doroty foram traçadas por Deus. Nada pode ser feito contra os desígnios Dele!

- Irmã, foram quatro cadáveres! Não poderiam ter sido dois? Foram dois jovens abatidos, mal se aproximaram de minha filha! Pode-se até considerar dois aspirantes a namorados e os dois maridos! Não é esquisito? O primeiro, tinha ela 16 anos de idade. Foi o jovem Tales Machado. O garoto vivia em Portugal, estudando na tal da universidade dos doutores da capa preta. Ele morreu antes de completar um mês de namoro propriamente dito. Veio de férias e não mais retornou. A impressão que tive, quando tudo aconteceu, foi que Doroty, já possuída pelo anjo da morte, invocou que o rapaz viesse aqui só para morrer. Meu Deus do céu! Estás lembrada, minha irmã? Foi naquela boate vagabunda lá pros lados do campo de aviação. O antigo paquera da minha filha apunhalou o Tales bem na altura do peito! O metal ficou cravado!

- Lembro direito e com todos os detalhes. Dona Lina foi quem, abraçada ao filho, amaldiçoou Doroty. As palavras dela foram cortantes. Terá sido praga, Ana?

- Sei não... Pode ser que tenha sido! A segunda tragédia aconteceu com Marcondes Meira. Já no começo, comecinho, mesmo, previ que algo de ruim aconteceria. Doroty sacaneava com o coitado por ele ter aqueles pés abertos na posição de quinze pras três, e, ainda, aquelas “lindas” e enormes orelhas de abano. No dia do aniversário dela, o dos dezessete anos, a malvada só tinha olhos para o filho do Major Diógenes. Na manhã seguinte, deu no que deu! O menino Marcondes tomou o veneno de ratos e buft! Nem um bilhete deixou...

- Ana, ele era um fraco! Feio que só o diabo, não teria chances com Doroty. Desculpe, minha irmã, é até compreensível! De interessante, bastante, mesmo, só o conteúdo do cofre!

- Sim, Estefânia, e o Eduardo Marins? O moço era bonito! Um Adônis, quase!

- Bonito e intragável! Esse eu não conto, Ana. A morte dele, me desculpe, foi da vontade dele. Ele procurou. Onde já se viu dirigir a mais de 200 km por hora só por causa de um ciuminho besta? É certo que Doroty instigava, mas... quem é burro pede a Deus que o mate e ao “capiroto” que o carregue!

- É... Talvez você tenha razão. Mesmo assim, é de assustar, não? Agora, meu maior desgosto, foi quando vi o coitado do Ricardo Osman estendido no caixão. Eu tenho certeza que aquele rapaz morreu por consentimento de Deus e ajudado pelas mãos e pela ruindade de Doroty. Desde que as terras de herança dele foram invadidas e a justiça fez vistas grossas, o coitado entrou numa profunda depressão. Minha filha só amaldiçoava o infeliz. Ou dizia que ele era incompetente, um peso morto ou passava na cara o prato de comida que dava a ele. Muitas vezes vi o meu genro chorar ainda na mesa. As lágrimas misturavam-se com a comida. Nem gosto de lembrar...

As duas irmãs foram interrompidas por Marianinho.

- Mãe, a senhora tem que acabar com aquele furdunço lá em casa. Já tirei um povo de dentro do meu quarto e do da senhora. Tinha gente deitada nas camas. Pedi licença, tranquei as portas e guardei as chaves comigo. Uma doida, nem sei quem é, deixou cair uma meia-calça no buraco do assoalho e, depois, por esquecimento ou por querer, jogou uma ponta de cigarro. A fumaça levantou e tive que apagar o fogo. Estão pedindo mais café e biscoitos. Uma outra maluca até perguntou a que horas o almoço será servido. Vai ter almoço? O enterro não vai ser às duas da tarde? Ande! Não fico mais ali, por nada deste mundo!

Dona Ana, sempre de poucas e curtas palavras, ordenou ao filho que fechasse o caixão, apagasse as velas e encerrasse a guarda do corpo. Entrou no recinto, de cara dura e falou para ser bem ouvida:

- Ao enterro, já! Onde já se viu uma balbúrdia desse tamanho? Vá, Doroty! Que a terra lhe seja leve e que Deus lhe perdoe os erros e os desvios. Vá, minha filha! Ele é generoso!

Despedidas feitas, sem lágrimas ou lamúrias, dona Ana fechou as portas e janelas da casa e voltou a sentar-se debaixo do pé de Jambo. Estefânia foi junto. Precisavam conversar sobre a falecida.

- Estefânia, chega lá no meu quarto e abra o guarda-roupa. Debaixo do monte de lençóis há um diário de Doroty. Traga-o aqui que quero mostrar umas coisas. Também recolha aquelas duas miniaturas de gárgulas que estão sobre a cômoda. Quero dar fim àquelas monstruosidades. Vá, antes que Marianinho e Maria Raimunda voltem do cemitério!

- Pronto, Ana!

Trêmula, Ana abriu o diário. Além de algumas frases de efeito e anotações gerais, uns relatos sobre a morte dos namorados e dos maridos. Sobre os nomes de Tales, Marcondes, Eduardo e Ricardo, uma grossa cruz desenhada com caneta preta. Nada demais, não fossem os textos escabrosos, difamantes e vingativos sobre os homens que passaram em sua vida. Passaram e morreram! Os textos eram quase uma graças aos céus por terem morrido e desocupado seu caminho. Sobre Ricardo, último marido da filha, ao ler o texto, dona Ana ficou emocionada. Ao final estava expresso, de próprio punho e com letras fortes, o pensamento sobre o rapaz: “Ricardo, viver com um homem bonito e rico é como carregar penas; tolerar um homem frouxo e pobre, ainda que bonito, é um exagero de castigo! Não usufruí de tuas terras. Que a terra, então, usufrua do teu corpo e da tua burrice. Sem saudades! Doroty.”

- Estefânia, faça-me um favor. Coloca fogo neste diário. Antes, porém, arranca as duas páginas finais. Quebre estas peças ridículas e jogue os cacos no lixo.

- Está bem, Ana. Qual significado têm estas imagens horríveis? Você recorda daquela mulher que diziam prever o futuro? Doroty vivia por lá!
Gárgulas de Notre-Dame
- É, Estefânia. Minha filha era chegada no que ela chamava de “ciências ocultas”. Nada de coisas de macumba. Isso, eu nunca vi. Estas tais gárgulas são coisas meio que demoníacas, do tempo da idade média. Dizem que elas serviam para proteger as igrejas, mas, pelo que li, são peças que ajudam a escoar as águas que se acumulam nos telhados das grandes igrejas. Hoje, creio, não fazem mais essas macacadas. Quando briguei com Doroty, “gentil” e simplesmente respondeu-me que iria transformar sua casa numa verdadeira Catedral de Notre Dame. E ainda complementou que tinha muito “olho gordo” atravancando a vida dela. Diante da resposta grosseira que deu, apenas retruquei: pois então aguarde até que tenha sua própria casa. Na minha eu não permito coleção destas coisas tétricas e que têm parte com o “cascudo”, com o “bicho ruim”. Uma vez, até fico arrepiada, encontrei Doroty na frente do espelho, com uma vela acesa ao lado. Ela permaneceu mais de duas horas com o olhar fixo naquele espelho, como se estivesse hipnotizada. Vi mais umas coisas que indicavam que ela tinha uma mente doentia. Lembra daquela brincadeira com o copo e com as letras? O copo andava, lembra? Ela era useira e abusadeira daquela arte do “demo”.

- Lembro, Ana. Agora vamos tratar de esquecer, está bem?

Enquanto o diário estava sendo consumido pelo fogo, a velha senhora leu para a irmã as últimas anotações da filha: “Venci a parada! Os cinquenta idiotas e bandidinhos perderam a questão! Meu sorriso de Muttley (*) para eles! Medalha, medalha, medalha!”

Os cinquenta idiotas e bandidinhos não eram senão uns garotos e garotas que pleiteavam um sonho profissional. Doroty armou documentação falsa e brecou o pedido. E os sonhos, também! “Matar sonhos é crime...” finalizou dona Ana.

- Vamos entrar, Estefânia. A vida vai continuar... Eu necessitava desabafar com alguém e desabafei. Obrigada, muito obrigada por me ouvir! Só você, minha irmã!

- Vamos, Ana. Por Doroty, daqui pra frente, só nossas orações. Ela vai precisar!

- E muito!

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(*) Muttley é o cachorro do Dick Vigarista do desenho Corrida Maluca. Suas principais marcas são o desejo por medalhas, as fraudes para ganhar as corridas e a risada repugnante.

Nota da autora: dessa vez fui longe demais! Cinco cadáveres e mais cinquenta sonhos enterrados no chão. Credo!
Nota do Blog: texto publicado originalmente no site Lima Coelho.

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Para ler outras crônicas de Leila Jalul:
Site Lima Coelho, onde ela publica regularmente.

quinta-feira, 28 de abril de 2011

LEILA JALUL: OS ENCANTOS DE UMA CRONISTA

Isaac Melo


A literatura, nas palavras de Antonio Candido, é um sistema vivo de obras, agindo uma sobre as outras e sobre os leitores; e só vive na medida em que estes vivem, decifrando-a, aceitando-a, deformando-a. Se a obra é mediadora entre o autor e o público, este é mediador entre o autor e a obra, na medida em que o autor só adquire consciência da obra quando ela é mostrada através de terceiros. Essa reação do outro (leitor) é motivada pelo autor através da criação. Para Candido, isto quer dizer que o público é a condição do autor conhecer a si próprio, pois esta revelação da obra é a sua revelação, uma vez que escrever é propiciar a manifestação alheia, em que a nossa imagem se revela a nós mesmos.

O que será exposto aqui, antes de ser uma tentativa de crítica literária, para a qual me falta formação e competência, é uma impressão de leitor. Ao realizar minhas pesquisas e, consequentemente, ao escrever acerca de autores acreanos não me é fácil emitir um juízo isento de meus sentimentos, do impacto que me causam e da impressão que deixam ecoando em minha alma. É assim quando leio Leila Jalul.

As letras acreanas têm dado um salto importante nesses últimos anos, não tanto em relação à quantidade, mas em qualidade. O acreano está mais íntimo com as letras. O resultado é uma literatura que está deixando de ser um reflexo fiel (um reflexo, não um retrato) da história acreana, cuja bibliografia é abundante. Aqui comungando da ideia do crítico português Jorge de Sena quando afirmava que os escritores brasileiros jamais irão para além da superfície, enquanto continuarem a insistir em inventar uma alma brasileira como substituto para a realidade brasileira. O mesmo pode se pensar em relação aos escritores acreanos.

Leila Jalul se apresenta cada vez mais como uma importante referência para a crônica atual no Acre, um Estado em que a presença feminina aparece como um grande diferencial, num ambiente em que, até bem pouco, era quase exclusividade masculina. Nesse sentido, é difícil realizar qualquer tentativa de elencar autoras como “modelo”, pois há sempre o risco de se ser desonestos com outras. Porém, particularmente, tenho pensado em três autoras referenciais para a crônica atual, a quem ouso chamar de a trindade das letras acreanas, são elas: Florentina Esteves, Robélia Fernandes e Leila Jalul. Ou porque abriram caminhos e, de certo modo, tornaram-se um ponto de partida, ou porque inovaram no jeito de narrar, contar, dizer, criando um estilo que foge do padrão.

Como escritora, Leila Jalul iniciou na década de 90 com o livro de poesia “Coisas de Mulher, coisas comuns, coisas de mim”, publicado em Rio Branco em 1997. Depois vieram “Suindara” e “Absinto Maior”, ambos de 2007, respectivamente, crônica e poesia. Da Bahia, onde reside atualmente a escritora, veio a lume, em 2010, a quarta obra, “Das cobras, meu veneno”, sobre a qual este texto deter-se-á.

A professora Margarete Edul Prado de Souza Lopes, uma das grandes conhecedoras e estudiosas da literatura feminina no Acre, em seu livro “Motivos de Mulher na Amazônia” (EDUFAC, 2006), obra rica e interessantíssima, assim comenta sobre a autora: “Leila Jalul tem um estilo próprio, de palavras fortes, ao mesmo tempo despojado, como as outras escritoras acreanas, um discurso liberado das convenções, mais solto, mais coloquial...”. Essas singularidades de Jalul sempre me chamaram a atenção, tudo isso aliado à maneira instigante de contar suas histórias, seus causos, sempre refinados por muito humor, com aquela dosagem de ironia na justa medida, as metáforas precisas, a irreverência no trato de temas sexuais, o verbo solto, a meu ver, herança de Hilda Hilst. Aliás, penso que de todas as influências dos autores lidos e “degustados” por Leila nenhum mais se assemelha a ela do que Hilda Hilst. Não sei se há algo de Hilda Hilst em Leila, ou se há algo de Leila em Hilda Hilst. O fato é que as duas grandes transformações motivadas a partir da obra, segundo Nelly Novaes Coelho, de Hilda Hilst, na contemporaneidade, encontram eco na obra de Jalul: uma, de essência filosófica/religiosa, que se processa no âmbito das relações humanas, as forças terrestres e a própria morte como elementos essenciais e justificativas da própria divindade (secundária em Leila); a outra, de caráter humano (psicológico-sociológico) que corresponde à busca empreendida pela mulher no encalço de sua própria imagem e de seu novo lugar no mundo (mais evidente na obra leiliniana).

Agora nos enveredaremos num breve comentário acerca de “Das cobras, meu veneno”, o último livro de crônicas da autora até esse momento. O livro encerra um total de trinta e três crônicas. Ao conceituado jornalista Elson Martins* a autora revelou: “Das cobras, meu veneno, está bem diferente do Suindara. Ali havia mortos demais. Este, não. Está com muita gente viva, algumas, frutos de minha imaginação”. Sobre o livro e seu conteúdo diz Elson: “A gente os lê como se estivesse surfando em águas barrentas paradas imaginando pororocas. Esse, a meu ver, é o encanto que a Leila nos oferece. Na verdade, podemos fazer comparações de estilo com outros bons escritores, mas o que há de melhor nela é incomparável”.

Dentre as obras atuais de Leila, arrisco a dizer que essa é a que melhor revela o seu amadurecimento literário. São páginas inusitadas, poéticas, sensuais, a revelar, nas entrelinhas, a mulher e a memorialista. Aliás, como expressa Maria do Perpétuo Socorro Calixto Marques, ao prefaciar a obra, “Leila tem esse dom de remexer nas nossas memórias ao ponto de bulinar nosso corpo com lembranças e nos trazer sensações passadas”. Ideia corroborada pela própria cronista quando diz: “O que me mata é o que morre na memória da ingratidão. O que me desgasta é ver a morte repetida do que deveria estar vivo e pulsante”. Às vezes o lembrar é identificado com o próprio ato de viver e a memória como aquilo que valida determinadas ações.

A cronista ainda nos permite pensar o ato de viver como parte essencial e imprescindível de qualquer ser humano situado dentro da história e de um tempo. O ato de viver, portanto, é o que torna, em qualquer tempo, os homens iguais, independente se a vida destes foi ou é de glória ou de fracasso: “Se Neruda viveu, também confesso que vivi. Talvez não com a mesma qualidade, mas vivi”. Mais importante que ser algo, é viver. Embora esse viver esteja dentro de um tempo e “o tempo tem tamanhos desiguais, dependendo da angústia do viver”.

Para uma melhor apreciação de “Das cobras, meu veneno”, agora, de modo específico, nos voltamos para três crônicas: “O marido da tia”, “O matador de mortos” e “Se a liberdade é azul o perdão é vermelho”, abordadas, aqui, nessa ordem. É uma seleção subjetiva, feita com base não tão somente segundo o mérito literário, mas por compreender que elas reúnem as principais temáticas que perpassam todo o livro. Nelas encontramos a presença do humor, da música, tão forte em Leila, do religioso, mesmo que indiretamente, da infidelidade, da crítica social, da condição da mulher.

A crônica “O marido da tia” parece ser aquela que melhor sintetiza o drama da condição da mulher numa sociedade exclusivamente patriarcal e, consequentemente, machista. A crônica narra o drama de Maria Helena, uma professora de piano, e seu truculento e violento marido, um delegado “e devasso”. Além das agressões verbais e físicas, Maria Helena era submetida aos “instintos bestiais” de seu marido. Certa vez fora arrastada na frente de seus alunos para lhe satisfazer seus desejos sexuais: “Dos fatos execráveis, no entanto, esse foi apenas mais um”, assinala a autora. Outra, para atender as fantasias sexuais do marido, fora obrigada a fazer sexo com outro homem na frente dele: “Naquela triste madrugada ela matou todos os resquícios de bons sentimentos que ainda tinha no coração de musicista, discreta e equilibrada”.

Nesse sentido, Maria Helena “se violentou quando permitiu que outro ser (o marido) a usasse em nome do amor”. Não havia ali uma mulher, e sim um objeto que valia enquanto possibilidade de prazer. Com esses fatos, a cronista deixa entrever que Maria Helena, social e psicologicamente, tivera a sua condição feminina anulada ou suprimida, ao ser reduzida a mero objeto sexual, por um marido cujo desvio sexual chegava a ser patológico. Tudo isso sob os olhos de uma sociedade de “bons costumes” e hipócrita, e com a complacência de sua família que partilhava da ideia “seu marido é seu dono”.

À medida que se desenrola a crônica, um acontecimento vai possibilitar uma total reviravolta na vida de Maria Helena: o derrame do marido, que o deixa paralisado, embora continue a falar e a enxergar. Aquele “macho” todo-poderoso que antes subjugava pela força e pela violência, e que a condição e o meio social o faziam crer-se intocável, ver-se reduzido a um mero corpo vegetativo, incapaz de viver sem auxílio de outrem. É a "sentença condenatória” do marido e a consequente absolvição de Maria Helena. Aquela mulher que, até então, se deixara subjugar, rompe com seu próprio medo e preconceito, para alcançar uma liberdade antes nunca desfrutada. Ao não se importar mais com o que o outro (família e sociedade) estabelece como certo e/ou errado, ela encontra, na profundeza de seu ser, em seus sentimentos, o caminho para sua felicidade. Sai de um inverno rigoroso para entrar nos encantos da primavera. A partir de então volta a tocar piano e torna-se uma mulher nova, bonita e carinhosa.

Apesar da experiência violenta e humilhante com alguém do sexo oposto, no caso, o marido, Maria Helena não abominou a presença masculina, ao contrário, em consequência de tudo isso, como parte de sua realização, está a presença de um novo homem. Homem agora não porque se trata de um macho, alguém do sexo masculino, porém, porque é capaz de uma experiência sincera do amor: “Eram momentos (Maria Helena e Cláudio Braga) de gritos de desabafo e sussurros de amor. Eram explosões de sentimentos e transbordamentos de realização pessoal”. Desse modo, o verdadeiro “castigo” do delegado fora saber que outro a amara e ele não fora capaz disso, e não propriamente a doença que o deixara imobilizado. E assim, vivendo num quarto contíguo ao do novo casal, tudo que lhe resta é saber e ouvir que sua (ex) mulher dorme em braços “alheios”, feliz e amada.

Outra crônica surpreendente porque inusitada, em que o trágico é cômico, é “O matador de mortos”. Conta-nos Leila, no caso, a cronista-personagem, que o caso ocorreu com seu compadre Ubiratan na década de 70. Este fora a Manaus para reencontrar um tio abastado que morava fora do país. Por meio do tio viera a conhecer uma família japonesa. Quando de seu retorno a Rio Branco, a dita família o encarregara de levar uma encomenda que havia sido mandada por outros parentes de São Paulo. A encomenda tratava-se de “uma caixinha com uma plaquinha em japonês”.

No dia e hora marcada para a chegada, lá estava a cronista à espera do amigo Ubiratan no aeroporto. E próximo a ela os japoneses que vieram receber a encomenda. Ao chegar, a primeira pessoa a quem viera abraçar fora a sua amiga, que logo notara algo diferente, uma vez que ele estava suado além do comum, e pálido. Algo se passara com Ubiratan. Ele, no entanto, revelou que contaria tudo assim que chegassem a casa dela, mas antes fora até os japoneses que o aguardavam à espera da tal caixinha.

Já na casa da amiga, depois de resolvido o “entrave” com os japoneses, Ubiratan narra o que ocorrera. No aeroporto de Manaus, ao saber da fiscalização e controle de saída de mercadorias e drogas, algumas malas eram sorteadas para serem revistadas. Com medo, por estar com uma encomenda muito suspeita em mãos, Ubiratan correra para o banheiro, desenroscou a tampa da caixinha, provou o conteúdo, e pensando ser cocaína despejou tudo no vaso sanitário e jogou a caixinha no cesto de lixo. Porém, na verdade, tratava-se das cinzas de um defunto. Agora “morto” pela segunda vez. “Se todas as águas correm para o mar, as cinzas do ancestral, com certeza, estão, estariam ou estarão num bom lugar”, finaliza a cronista num tom conciliador e humorado.

Como ressaltara, no prefácio, Maria do Perpétuo Socorro Calixto Marques: “Quem iria imaginar, nesses confins que, ao invés de transportar “pó branco”, levava cinzas de um corpo cremado, tão esperado por uma família nas barrancas do rio? E mais, uma família de origem japonesa?”. Aí está a genialidade, excentricidade e particularidade de Leila Jalul. Ela transforma fatos corriqueiros e ressignifica-os de tal maneira que o prosaico se reveste de grandeza e originalidade: “Afinal, quem é que iria dar conta de um cotidiano desse, se os olhos estão para a paisagem dos grandes rios e das (extintas!) florestas?”.

Para encerrar essa apreciação de “Das cobras, meu veneno”, vejamos a crônica “Se a liberdade é azul o perdão é vermelho”. A narrativa se inicia com a apresentação de Adalberto, vulgo Nonô, um cearense do Crato, “corpanzil de quase dois metros de altura, bigode espesso e olhos azuis cintilantes, (que) nem de longe lembravam o biótipo de um cearense comum”. Tipo meio brutão não demorara muito a ser nomeado delegado e, em seguida, diretor de sistema penitenciário. Autoritário, era extremamente severo para com os presos tipo “ladrão de galinhas” ou outro larápio qualquer, a quem dedicava enorme ódio, principalmente àqueles que roubavam as casas das poderosas famílias do condado federal, a quem incluía no rol dos hediondos, obrigando-os a trabalhos forçados em serviços públicos. Por outro lado, se desmanchava em complacência e bondade para com os presos homicidas, os quais eram poupados dos trabalhos forçados, enquanto passavam à condição de “amigo do diretor”.

Essa primeira narrativa parece secundária, já que a cronista quer mostrar não as arbitrariedades do diretor Adalberto em si, mas abrir caminhos para introduzir o principal foco da crônica: a atitude das personagens Zé Licurgo e seu filho caçula Tenório. Afamado na vila como jardineiro, as flores cultivadas por Zé Licurgo, onze horas, por exemplo, “podiam chegar quase ao tamanho de uma papoula dobrada”. Fora então chamado para tratar do jardim do promotor, no centro da cidade, e para ajudá-lo levara o filho. Acontece que um dia o relógio (Mido Ocean Star) do dono da casa sumira e “ninguém mais culpado do que o jardineiro e o seu menino”. Arbitrária e imediatamente foram presos. E assim fora parar ali, na Colônia Penal Agrícola, sob os mandos e desmandos do diretor Nonô. Mesmo inocentes, como se provara tempos depois, Zé Licurgo e o filho ali passaram bons anos ao lado dos trabalhadores presos do Adalberto. E como “ladrão”, portanto, fora incluído no rol dos presos hediondos e odiados do diretor, que, enquanto isso, se banqueteava com os “amigos”.

Mas há, em grande parte das crônicas de Leila Jalul, um acontecimento que se apresenta como um divisor de águas na narrativa, o que neste texto fora chamado de reviravolta. Se em “O marido da tia” fora o derrame do marido de Maria Helena a reviravolta, aqui é o tempo: “A vida tem termo”, bem como a maldade. Pois, enquanto pai e filho eram libertos, “Nonô subia no telhado para não mais descer”. O tempo passara, os governos mudaram, sem a esposa e a filha, o poder e os amigos, “Nonô estava só e morreu pior ainda”. Se a crônica findasse aqui não teríamos como fugir de uma espécie de sadismo literário. Porém, Leila sempre vai além. Suas personagens embora retiradas do cotidiano ignorado, por vezes desprezado, se apresentam sempre muito humanos, sempre capazes de um gesto sublime.

No velório do diretor não havia nenhum dos “amigos”, nenhuma autoridade, estava apenas Zé Licurgo e sua família: “Talvez por um apiedamento cristão, ou por sua alma realmente boa”, expressa a cronista, a deixar que o leitor construa o seu próprio juízo acerca da personagem. E fazendo uma analogia da bondade de Zé Licurgo com a pujança das flores de onze horas, ela arremata com as seguintes palavras: “A liberdade é azul e o perdão é vermelho, com nome de flor de onze horas do tamanho de papoulas dobradas. Perdão é florescimento. De quem tem bom coração”.

Machado de Assis, em Memórias Póstumas de Brás Cubas, nos diz que o menos mau é recordar. Leila Jalul com suas crônicas nos tem feito voltar ao passado, não com saudosismo, mas com coragem, responsabilidade e senso crítico, para a partir daí reunir as peças dispersas que compõem a complexidade do tempo presente. Assim em “Das cobras, meu veneno” não temos como fugir da sanha viperina, que é a memória, o recordar, que, nas palavras de André Alexandre, nos arrebata e nos deixa com o amargo gosto no corpo de uma melancolia de querer mais.

Por fim, ainda se faz pertinente se reportar às palavras de Elson Martins, que, em nosso caso, faz uma bela síntese da cronista: “Leila mistura passado, presente e futuro numa surpreendente (e comovente) improbabilidade. Sua história de vida parece caótica, enquanto abre caminhos para o diálogo entre o que foi, o que é, e o que poderia ser. O resultado é brilho”. Sendo assim, a moderna literatura acreana está muito bem representada em obras, como “Das cobras, meu veneno”, que rompem cada vez mais com a barreira do regionalismo, embora se utilize de elementos regionais, para alcançar uma literatura que se apresenta numa perspectiva mais dilatada, universal. E Leila tem caminhado nessa direção.

E numa última palavra, espera-se que este texto não tenha sido uma apologia exagerada da autora e sua obra, infantilizando-a e mesmo diminuindo-a. Acredito que aquilo que é verdadeiramente digno e belo sobrevive por si mesmo. Que as minhas palavras reforcem apenas o anseio da própria cronista, o de que o leitor reserve a ela “um bom lugar no coração / pois que estante é lugar de livros!”.


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REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

JALUL, Leila. Das cobras, meu veneno. Edição independente, 2010.
LOPES, Margarete Edul Prado de Souza. Motivos de Mulher na Amazônia: produção de autoras acreanas no século XX. Rio Branco: EDUFAC, 2006. (p. 206-211)
CANDIDO, Antonio. Literatura e Sociedade. São Paulo: Publifolha, 2000. (p. 68-69)
COELHO, Nelly Novaes. A Literatura Feminina no Brasil Contemporâneo. São Paulo: Siciliano, 1993. (p. 79)
SENA, Jorge de. Estudos de Cultura e Literatura Brasileira. Lisboa: Edições 70, 1988. (p. 345)

* As citações de Elson Martins foram retiradas do Jornal Página 20 (02-Ago-2009), disponível aqui.
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Nota: "Das cobras, meu veneno" pode ser adquirido aqui.

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Comentários sobre "Das cobras, meu veneno" em:

- Lima Coelho, escritor maranhense em seu site.
- Glória Perez, novelista Global em seu blog.