A palavra TARAUACÁ vem do povo indígena Kaxinawá
(Kaxi=morcego, Nawá=povo, portanto, povo do morcego), falantes da língua Pano
(Pano=o grande tatu), e que se autodenominam Huni-kuĩ, isto é, os “verdadeiros homens”,
que falam o Rã-txa, a “língua verdadeira”. TARAUACÁ, a escrita original seria
TARÁWAKÁ (tará=tronco de árvore, waká=rio). Por isso Tarauacá, “rio das
tronqueiras”.
quinta-feira, 27 de agosto de 2015
segunda-feira, 24 de agosto de 2015
A BRABEZA DO BRABO
(*) José de Anchieta Batista
Desde os seis ou sete anos de idade, passou a
ser chamado pelo apelido de Brabo.
No primeiro dia de escola, toda a meninada
encontrou nele, imediatamente, muitos motivos para gozações. Parecia um boneco
de brinquedo. Tinha metade da estatura dos outros, era exageradamente franzino
e sua cabeça parecia a de um macaquinho. Com aquele jeito esquisito, seu
primeiro apelido foi “monstrinho”, mas diante de suas reações agressivas, os
colegas adicionaram outro apelido que veio a predominar definitivamente: Brabo.
É que ele saía no braço com meio mundo. Fosse quem fosse. Tivesse o tamanho que
tivesse. Havia, contudo, uma infinita desvantagem nisso. Não vencia um só dos
embates. Na maioria das vezes, no auge da brabeza, os garotos erguiam-no do
chão, sem qualquer esforço, e ele ficava balançando no ar as duas perninhas,
sem alcançar coisa alguma. Depois ia ele se sentar, amuado, chorando e
xingando, lá pelos recantos.
Os dias se passaram, consagrou-se realmente
como Brabo e, até hoje, por volta dos cinquenta anos, quase ninguém sabe seu
verdadeiro nome. No transcorrer de todas essas décadas, certamente cansou-se de
reagir ao apelido e se tornou tão natural ser chamado assim, que a brabeza do
Brabo, para reagir a isso, sumiu. Se o chamarem por seu nome de batismo, que
também não sei qual é, com certeza não atenderá.
O lado bom de tudo isso é que, apesar do
apelido, o Brabo se fez um cidadão pacato, absolutamente avesso à violência.
Por outro lado, o garotinho briguento dos tempos de escola não conseguiu mudar
sua compleição física. Continuou um magricela, um pedaço de gente, com estatura
inferior a um metro e meio.
Há algum tempo, nosso personagem resolveu
montar um bar a que deu o nome de “Bar Paz e Amor”. Num pequeno salão de duas
portas, instalou prateleiras e balcão, comprou geladeira, sinuca, mesas,
cadeiras e adquiriu utensílios para servir tira-gostos. Ele atende lá na frente
e sua mulher cuida dos afazeres da cozinha. A todos ele faz questão de dizer
que o ambiente é familiar, em contradição com as atitudes das figuras femininas
que lá frequentam. O negócio tem andado de vento em popa, mas o Brabo, vez por
outra, tem que apelar para a polícia vir restabelecer a ordem, em decorrência
de algum arranca-rabo.
Certo dia, o tempo fechou lá no bar do Brabo
e a urgência foi atendida por uma guarnição da Companhia de Operações
Especiais, conhecida popularmente como COE, cujos componentes passam por uma
seleção rigorosíssima, como se estivessem procurando lutadores de vale-tudo. Só
pode fazer parte da corporação quem tiver corpo agigantado e muita disposição
na hora do quebra-pau. Vestem farda preta, são de pouca conversa e, dependendo
da valentia do abordado, deixam o sujeito moído de peia.
A guarnição atendeu com presteza ao chamado,
mas um fato pouco comum aconteceu. Ao entrar no bar, um daqueles gigantes de
dois metros de altura e massa corpórea de um mamute, foi logo fazendo a
pergunta de praxe:
- Quem é o brabo daqui?
- Sou eu! – respondeu firmemente o pobrezinho
do Brabo, caminhando em direção ao soldado.
Por infeliz coincidência, empunhava um pedaço
de taco de sinuca que alguém houvera quebrado na hora da confusão e que ele
acabara de apanhar do chão para jogar no lixo. O brutamontes não quis papo.
Sentiu-se ameaçado e desceu-lhe a mão aberta no tronco da orelha. O pobre do
Brabo foi estatelar-se a uns oito metros de distância, completamente
nocauteado, lá no meio da rua.
- Comigo, brabeza é na porrada! Mais algum
brabo por aqui? - arrematou desafiante o policial.
Quem era doido de responder? Alguns
presentes, porém, com muito jeito, apressaram-se em desfazer o lamentável
equívoco e correram para acudir o coitado do Brabo que, totalmente zonzo,
procurava identificar em que mundo se encontrava.
Desfeito o tumulto, verificou-se que os baderneiros responsáveis pela confusão já estavam muito longe e o comandante da patrulha entabulava, comovido e prestimoso, um insistente pedido de desculpas pela violenta trapalhada.
Desfeito o tumulto, verificou-se que os baderneiros responsáveis pela confusão já estavam muito longe e o comandante da patrulha entabulava, comovido e prestimoso, um insistente pedido de desculpas pela violenta trapalhada.
Vida afora, o Brabo se fez manso, mas
infelizmente continua a carregar e a sofrer o peso da falsa brabeza de seu
apelido.
| http://blogdoanchieta.blogspot.com.br/ |
(*) Escritor, poeta, passageiro do
tempo... e não sei mais o quê.
quinta-feira, 20 de agosto de 2015
PARA QUÊ?!
Florbela Espanca (1894-1930)
Tudo é vaidade neste mundo vão...
Tudo é tristeza; tudo é pó, é nada!
Tudo é tristeza; tudo é pó, é nada!
E mal desponta em nós a madrugada,
Vem logo a noite encher o coração!
Até o amor nos mente, essa canção
Que o nosso peito ri à gargalhada,
Flor que é nascida e logo desfolhada,
Pétalas que se pisam pelo chão! ...
Beijos d’amor! Pra quê?!... Tristes vaidades!
Sonhos que logo são realidades,
Que nos deixam a alma como morta!
Só acredita neles quem é louca!
Beijos d’amor que vão de boca em boca,
Como pobres que vão de porta em porta!...
ESPANCA, Florbela. Poemas de Florbela
Espanca. Estudo introdutório, organização e notas de Maria Lúcia Dal Farra. São
Paulo: Martins Fontes, 1996. p.154
terça-feira, 18 de agosto de 2015
NÃO SEJA SURPREENDIDO, O EL NIÑO ‘GODZILA’ VEM AÍ
Evandro Ferreira
Pesquisadores do Centro de Previsão Climática
do Serviço Atmosférico e Oceanográfico do Governo Americano (NOAA) estão
alertando que o aquecimento anormal da superfície marinha na região leste do
Oceano Pacífico indica que entre 2015 e 2016 poderemos enfrentar um dos mais
severos “El Niño” da história, com a temperatura superficial do mar igualando
ou superando níveis registrados apenas três vezes nos últimos 65 anos.
El Niño é um fenômeno climático que aparece
em intervalos que variam entre dois e sete anos, durante o qual a água aquecida
normalmente confinada na parte Oeste do Oceano Pacífico pela força dos ventos
alísios - que sopram na direção Leste-Oeste - se move em direção ao continente
Sul-Americano em razão da diminuição da força desses ventos ou mesmo pela
reversão em sua direção. O fenômeno do El Niño atinge uma ampla área na região
intertropical do oceano Pacífico, onde a água é mais quente e ocorre parte
considerável da evaporação no planeta. Por isso seu alcance é global e seus
impactos climáticos e socioeconômicos enormes.
De acordo com as previsões do NOAA, o El Niño
desse ano será mais severo do que o de 1997, considerado o mais intenso já
registrado e que foi responsável pela morte de mais de 20 mil pessoas e
prejuízos globais estimados em cerca de U$ 45 bilhões. Para o El Niño de 2015
os pesquisadores calculam que existe uma possibilidade maior que 90% de seus
efeitos continuarem intensos durante o inverno de 2015-2016 no hemisfério
norte, podendo durar até a primavera de 2016. Nas palavras do Pesquisador Bill
Patzert, climatologista do Laboratório de Propulsão a Jato da NASA, o evento
que se avizinha deverá ser tão severo que pode perfeitamente ser chamado de El
Niño ‘Godzila’.
A adoção, pelos pesquisadores e pela imprensa
de uma maneira geral, da denominação ‘El Niño’ para esse fenômeno climático
deriva do conhecimento empírico de pescadores peruanos, que há mais de 200 anos
observam que em alguns anos, por volta do período natalino, as águas frias e
com pescado farto que banham a costa do Peru são substituídas por águas mais
quentes que afugentam os cardumes de atum e outros peixes. A coincidência com o
período de Natal levou os pescadores a chamar o fenômeno de ‘El Niño’, numa
alusão direta ao menino Jesus. Por muitos anos se pensou que o fenômeno era
apenas local e a história se transformou em uma espécie de patrimônio
folclórico da região. Somente na década de 50 é que se descobriu que as águas
aquecidas que ocasionalmente chegam à costa peruana em período natalino
integram um distúrbio climático de caráter global.
Durante o El Niño, a água aquecida que chega
à costa Sul-Americana pode alterar os padrões de circulação na atmosfera do
planeta e sua evaporação provoca chuvas em regiões normalmente secas na costa
do Chile e Peru, se estendendo até a costa oeste dos Estados Unidos. A mudança
na direção do vento e o deslocamento da massa de água quente na direção da
América do Sul, por outro lado, faz com que as chuvas de monções precipitem no
Oceano Pacífico, bem antes de atingir extensas áreas continentais no Sudeste
Asiático e na Austrália. Com isso, em anos de El Niño intensos o período
chuvoso naquelas regiões se torna extremamente seco, com graves efeitos
socioeconômicos e ecológicos.
No Brasil, a ocorrência do fenômeno El Niño
geralmente provoca invernos com temperaturas mais amenas e verões mais quentes
no Sudeste, verões extremamente chuvosos no Sul, secas ainda mais extremas no
Nordeste, e secas prolongadas no norte da Amazônica.
Durante o El Niño ocorrido entre 1982 e 1983
aconteceram cheias históricas em Santa Catarina que desabrigaram quase 200 mil
pessoas, causando a morte de pelo menos 50 delas, e resultaram em prejuízos
estimados em mais de R$ 12 bilhões. Em Roraima, os efeitos do El Niño de 1997
foram catastróficos. Em Boa Vista choveu apenas 30,6 mm entre setembro de 1997
e março de 1998, ou seja, pouco mais de 8% do total que normalmente chovia no
período (352 mm). Incêndios ocorridos entre o final de 1997 e o início de 1998
destruíram cerca de 40 mil km² de vegetação nativa, das quais cerca de 14 mil
km² eram florestas primárias. Alguns focos de incêndios ficaram fora de
controle e duraram meses. Para dar uma melhor dimensão do desastre, é como se
25% de todo o território acreano queimasse ao longo de um único período de
verão Amazônico.
Dados climáticos no Brasil apoiam a previsão
de um El Niño de grande severidade em 2015. Segundo o Instituto Nacional de
Meteorologia (Inmet), o inverno em São Paulo tem sido ameno, com a média das
temperaturas mínima e máxima cerca de 2°C e 0,8°C, respectivamente, mais
elevadas que em outros anos. Para Florianópolis, em Santa Catarina, dados do
INPE indicam que existe uma probabilidade de 40% dos níveis de chuva no
trimestre entre agosto e outubro superarem os 700 mm, quando o normal situa-se
entre 300 e 500 mm. Para o Nordeste, que já enfrenta uma forte estiagem há três
anos, o site climatológico americano Accu Weather prevê que o nível de
precipitação tende a continuar caindo abaixo da média. A notícia é preocupante
porque na atualidade os níveis dos reservatórios de água da região estão em
cerca de 21%. Na Paraíba, de 124 reservatórios monitorados, 74 estavam com
menos de 20% da capacidade e 40 tinham atingido o nível crítico (menos de 5%)
em junho passado.
E o Acre? Será que esse El Niño ‘Godzila’
causará efeitos catastróficos por aqui?
Provavelmente não. Segundo o pesquisador
Carlos Nobre, do Instituto de Pesquisas Espaciais (INPE), as secas na Amazônia
se manifestam de duas formas. A primeira, que corresponde ao fenômeno observado
no Acre em 2005, é mais rara e decorre do aquecimento da água no Oceano
Atlântico ao norte do Equador. Este aquecimento produz alterações na circulação
atmosférica dos ventos alísios que transportam a umidade que se forma sobre o
mar para o interior da Amazônia. Quando isso acontece, o efeito dessa falta de
transporte de umidade se traduz em seca severa no oeste e sudoeste da região,
ou seja, no oeste do Amazonas, no Acre e em Rondônia. A segunda é resultante de
perturbações climáticas causadas pelo fenômeno El Niño e provoca seca mais
acentuada apenas no norte e leste da Amazônia, ou seja, em Roraima, norte do
Amazonas, Amapá e norte do Pará.
Diante disso devemos nos tranquilizar não é
mesmo? A resposta é não. Com o clima extremo em que vivemos na atualidade,
preparar e planejar medidas para mitigar os efeitos socioeconômicos e
ecológicos que ele tem causado é a melhor opção.
É confortante saber que a massificação do
acesso à informação, incluindo aquela de caráter técnico-científico, permite a
uma parcela considerável de nossa população e administradores, saber com
antecedência os possíveis efeitos de fenômenos climáticos em gestação como esse
El Niño ‘Godzila’ que se avizinha. Por isso acredito ser inaceitável a
possibilidade de, daqui a alguns meses, ver noticiado na imprensa a ocorrência
de catástrofes - com graves perdas de vidas humanas e prejuízos econômicos - em
regiões nas quais o El Niño infalivelmente costuma deixar seu legado de
destruição.
Para saber mais:
Algar, J. 2015. 'Godzilla' El Niño Brewing In The Pacific Could Be One Of The Strongest
On Record, Forecasters Warn. Tech Times, New York [Online], 14 agosto 2015.
Disponível em:
http://www.techtimes.com/articles/76546/20150814/godzilla-el-ni%C3%B1o-brewing-in-the-pacific-could-be-one-of-the-strongest-on-record-forecasters-warn.htm
Barbosa, R.I. & Fearnside, P. 2000. As
lições do fogo. Ciência Hoje, 157: 35-39. Disponível em:
https://www.academia.edu/1188684/As_li%C3%A7%C3%B5es_do_fogo
Junges, L. 2010. As maiores inundações e
enchentes no Brasil e em Santa Catarina. ANotícia, Joinvile [Online], 08 abril
2010. Disponível em: http://wp.clicrbs.com.br/anverde/2010/04/08/as-maiores-inundacoes-e-enchentes-no-brasil-e-em-santa-catarina/?topo=84,2,18,,,84&status=encerrado
Nobre, C.A. 2011. Por trás da seca na
Amazônia. Le Monde Diplomatique Brasil, São Pulo [Online], 03 janeiro 2011.
Disponível em: http://www.diplomatique.org.br/artigo.php?id=847
Schiesti, S. 2013. Enchente em Santa
Catarina: tragédia no Estado completa 30 anos. Notícias do Dia, Florianópolis
[Online], 07 julho 2013. Disponível em:
http://ndonline.com.br/florianopolis/noticias/84641-enchente-de-1983-tragedia-natural-em-santa-catarina.html
segunda-feira, 17 de agosto de 2015
GRITOS E LAMENTOS
Jorge Araken Filho
Mas não me tome por um louco enamorado do teu
vulto de fantasma: não vou devolver teus lamentos e rancores, não vou ecoar teu
grito de agonia. Vou transformá-los em leves sussurros, que o tempo haverá de
dissipar.
*Texto retirado da página do autor:
EGOCENTRISMO
Raul de Leoni (1895-1926)
Sobre o destino humano, que flutua,
Ouve e medita bem, mas continua
Com a mesma alma liberta e distraída!
Interpreta a existência com a medida
Do teu ser! (a verdade é uma obra tua!)
Porque em cada alma o Mundo se insinua,
Numa nova Ilusão desconhecida.
Vai pelos próprios passos, num assomo
De quem procura por si próprio o fundo
Da eterna sensação que as cousas têm!
Existe, em suma, por ti mesmo, como
Se antes da tua sombra sobre o Mundo
Não houvera existido mais ninguém!...
LEONI, Raul de. Melhores poemas. Seleção
Pedro Lyra. São Paulo: Global, 2002. p.89
sábado, 15 de agosto de 2015
TENREIRO ARANHA
Rogel Samuel
Poucos poetas foram tão misteriosos,
inusitadamente famosos como ele. Bento de Figueiredo Tenreiro Aranha, prosador
e poeta, nasceu e faleceu no Amazonas (1769-1811). Era um poeta leve, arcádico,
que veio a ser publicado na leva daqueles momentos de patriotismo do Século
Dezenove, em 1850 por seu filho, João Baptista de Figueiredo Tenreiro Aranha, o
primeiro Governador da Capitania do Rio Negro.
Ele nasceu em Barcelos, cidade antiga,
primeira capital da antiga Capitania do Rio Negro (posteriormente Amazonas).
Seu famoso “Soneto à parda Maria Bárbara, mulher de um soldado, cruelmente
assassinada, porque preferiu a morte à mancha de adúltera”, entretanto, sempre
nos surpreende pelo inusitado do assunto popular. Não se trata de um poema a
alguma alta e bela dama da corte, ou ao Governador do Estado do Pará, ou a algum
ilustre e poderoso fidalgo.
Mas a uma “parda”, ou seja, a uma Maria Bárbara,
mulher de soldado.
Aquilo não era coisa muito comum. O interesse
pelo povo humilde, mesmo depois de uma tragédia, na época, não era tema de
literatura.
O famoso soneto do primeiro artista
autenticamente amazonense é esse:
Se acaso aqui topares, caminhante,
Meu frio corpo já cadáver feito,
Leva piedoso com sentido aspeito
Esta nova ao esposo aflito, errante...
Diz-lhe como de ferro penetrante
Me viste por fiel cravado o peito,
Lacerado, insepulto, e já sujeito
O tronco feio ao corvo altivolante:
Que dum monstro inumano, lhe declara,
A mão cruel me trata desta sorte;
Porém que alívio busque a dor amara
Lembrando-se que teve uma consorte,
Que, por honrada fé que lhe jurara,
À mancha conjugal prefere a morte.
Ora, quem fala é a vítima, já cadáver feita.
Quem fala é o cadáver de u’a mulher, outra novidade. Não um belo corpo bem
tratado, empoado, de cortesã viçosa, mas o putrefato cadáver de alguém, pardo,
na beira da estrada, corpo já frio, corpo de crioula ou de cafuza morta, corpo
morto.
O cadáver tem um recado a dar. Um recado, uma
nova, uma notícia dela para o esposo aflito, que, se aflito não a sabe morta.
“Leva piedoso”, significa, “por favor, por piedade, diz para meu marido que
morri”.
Sim, o poeta está interessado na sorte da
“mulher de soldado”, morta, parda, insepulta. Talvez estuprada.
Ela já diz que preferiu a morte à “mancha
conjugal”. Quer que o esposo busque nisso o alívio à dor amara.
Hoje, Tenreiro Aranha é rua de Copacabana,
rua sem saída, que começa na Siqueira Campos. Ex-Travessa Trianon.
Em outro soneto, canta o poeta:
Passarinho que logras docemente
Os
prazeres da amável inocência,
Livre
de que a culpada consciência
Te
aflija, como aflige ao delinquente;
Fácil
sustento e sempre mui decente
Vestido te fornece a Providência;
Sem
futuros prever, tua existência
É
feliz limitando-se ao presente.
Não
assim, ai de mim! Porque sofrendo
A
fome, a sede, o frio, a enfermidade
Sinto
também do crime o peso horrendo...
Dos
homens me rodeia a iniquidade
A
calúnia me oprime, e, ao fim tremendo
Me
assusta uma espantosa eternidade.
Note-se que há dois Aranhas: Além do poeta,
que se chamava Bento de Figueiredo Tenreiro Aranha, existe seu filho, João
Batista de Figueiredo Tenreiro Aranha, o primeiro Governador da Capitania do
Rio Negro, em 1850. É quando se constrói a Catedral, que não é bela, mas
imponente. Dizem que foi construída com trabalho escravo indígena. Nesta época
Manaus se torna centro político. Começa o comércio da borracha e piaçava.
O poeta cedo ficou órfão. Seu tutor o colocou
na lavoura, junto com os escravos. Com doze anos inicia estudos com um vigário.
Interno no Convento de S. Antônio de Belém. Os bens familiares do menino foram
“confiscados”, literalmente pelo Fisco. Devem ter sido roubados. Já adulto, foi
nomeado para um cargo público, foi demitido por intrigas políticas. Depois, o
Conde dos Arcos, Governador do Grão Pará, o faz Escrivão. Dizem que o poeta era
um erudito, tinha sólida cultura, e sabia grego. Traduziu Odes de Píndaro.
O segundo soneto louva a “inocência”, logra
docemente os prazeres da amável inocência, “livre de que a culpada consciência
/ Te aflija, como aflige ao delinquente”. É obra leve, bela, clássica. O tema,
bem ao gosto do Renascimento: “Sem futuros prever, tua existência / É feliz
limitando-se ao presente”. Mas o ambiente é arcádico. Não é amazônico. Nada
mais agressivo do que a Floresta Amazônica, com seus espinhos, insetos,
aranhas, escorpiões, formigas venenosas, serpentes e pântanos. Não, não se tem
ali “Os prazeres da amável inocência”. Nem o “Fácil sustento e sempre mui
decente”. Não, isso não é amazônico.
Texto publicado na página do autor:
http://literaturarogelsamuel.blogspot.com/
Texto publicado na página do autor:
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sexta-feira, 14 de agosto de 2015
SILÊNCIO E PALAVRA
Thiago de Mello
I
e esconde aquilo que somos.
Que importa falarmos tanto?
Apenas repetiremos.
Ademais, nem são palavras.
Sons vazios de mensagem,
são como a fria mortalha
do cotidiano morto.
Como pássaros cansados,
que não encontraram pouso
certamente tombarão.
Muitos verões se sucedem:
o tempo madura os frutos,
branqueia nossos cabelos.
Mas o homem noturno espera
a aurora da nossa boca.
II
Se mãos estranhas romperem
a veste que nos esconde,
acharão uma verdade
em forma não revelável.
(E os homens têm olhos sujos,
não podem ver através.)
Mas um dia chegará
em que a oferenda dos deuses,
dada em forma de silêncio,
em palavra transfaremos.
E se porventura a dermos
ao mundo, tal como a flor
que se oferta – humilde e pura –,
teremos então cumprido
a missão que é dada ao poeta.
E como são onda e mar,
seremos palavra e homem.
MELLO, Thiago de. Vento geral (1951-1981).
Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1984. p.29-31
domingo, 2 de agosto de 2015
PEQUENA CONDIÇÃO HUMANA
Mário Chamie
Quando cortaram
o tentáculo
do mal,
não fez sentido
o bem caído.
Quando cortaram
os testículos
do bem,
o mal se pôs
erguido
em seu estrito
sentido.
CHAMIE, Mário. Caravana contrária. São Paulo: Geração Editoria, 1998. p. 74
quinta-feira, 30 de julho de 2015
BITO
Florentina Esteves
Onde se visse um ajuntamento, uma rodinha, no
centro estaria ele. Garotada do Ginásio, um que outro desocupado, quem fosse
passando. Ah! é o Brito... E lá estava ele sentado no banco da praça, perto do
Bar Municipal, na hora do costume. Paramentado.
– Por que essa roupa, Bito?
Calado.
– Bito, esses revólveres são de verdade?
Levava as duas mãos aos coldres, rapidamente.
Certificava-se: estavam lá. Calado.
E essas botas, e as esporas, cadê o cavalo?
Disseram que lá no Papoco tem um bandido que já matou três. Chiquita Peito-Mole
mandou te chamar.
Imperturbável. Olhava a assistência, ar
superior, alisava o colete franjado, cuidava que o lenço estivesse bem posto,
tirava o chapéu, abanava-se. Penteava o cabelo, chapéu de volta. Sorria.
– Onde você comprou essa roupa de caubói,
Bito? Vira um pouco, deixa a gente ver. Levantava do banco.
Então conta, Bito. Como foi aquela vez em que
você enfrentou “Touro Sentado” e matou todos aqueles índios?
– Foi assim, começava ele: eu fui lá nos
campos do Zé Português – ele mandou me chamar, foi o Ilson Ribeiro que trouxe o
recado – tinha um touro brabo que ninguém chegava perto, andou dando umas
corridas atrás da Libéria, espantando tudo que é vivente. Peguei o bicho, deis
três laçadas, derrubei ele, segurei pelo chifre; aí, estava trazendo ele pro
curral quando um bando de índios me rodeou. Montei no touro, comecei a atirar,
assim (sacou os dois revólveres de plástico, rodou-os nos dedos, a cada
estalido seco do gatilho pulava pra esquerda, pra direita). Matei todos eles. E
quando chefe “Touro Sentado” partiu pra cima de mim, com esse foi no muque,
botei pra correr. Nunca mais voltou.
Todas as tardes herói, mocinho, Bito caubói
contava uma nova história. Anos seguidos (ou foram poucos anos?), lá no seu
banco de praça, povoava imaginações, criava fantasias, enfeitava a vida.
Um dia não apareceu. Outro dia. Outros.
Sumiu. E assim ficamos sem saber sua última aventura.
ESTEVES, Florentina. Enredos da Memória. Rio
de Janeiro: Oficina do Livro Ed., 1990. p.73-74
EPÍSTOLA SOBRE O SUICÍDIO
Bertolt Brecht (1898-1956)
Matar-se
É coisa banal.
Pode-se conversar com a lavadeira sobre isso.
Discutir com um amigo os prós e os contras.
Um certo pathos,
que atrai
Deve ser evitado.
Embora isto não precise absolutamente ser um
dogma.
Mas melhor me parece, porém
Uma pequena mentira como de costume:
Você está cheio de trocar a roupa de cama, ou
melhor ainda:
Sua mulher foi infiel
(Isto funciona com aqueles que ficam
surpresos com essas coisas
E não é muito impressionante.)
De qualquer modo
Não deve parecer
Que a pessoa dava
Importância demais a si mesma.
BRECHT, Bertolt. Poemas 1913-1956. Seleção e tradução de Paulo César de
Souza. São Paulo: Ed. 34, 2000. p.24
terça-feira, 28 de julho de 2015
O (IN)DISPENSÁVEL SER
Inês Lacerda Araújo
Se algum escritor ou
pensador se aventurasse a dispensar o verbo ser, conseguiria que seu leitor o
compreendesse? Alguém poderia ousar eliminar "ser"?
Impossível, por
inúmeras razões. "Ser", "être", "to be", e
certamente nas diferentes línguas, algo semelhante à função de "ser"
deve ocorrer.
Sequer questionamos,
nem poderíamos, que conjugar tal verbo seja imprescindível (acabei de escrever
"seja"...). Simplesmente porque nomear, é (novo uso do verbo ser)
distinguir algo para que nós ou para que os outros nos compreendam.
Identificar, classificar, opor, destacar, apontar, e muitas outras ações
linguísticas requerem por detrás a pressuposição de que coisas, pessoas,
lugares, temporalidades, situações, sejam, no sentido de existirem, de estarem
aí à nossa disposição.
Desde que a Filosofia
nasceu, a pergunta é pelo ser e pelo não ser. A mais essencial de todas as
questões, como apontou Heidegger é essa: por que existe o ser e não antes o
nada?
Mesmo no uso banal,
e, talvez mais importante nesse mesmo uso cotidiano, "é",
"era", "sou", "não é", "não sou", se
apresentam o tempo todo. "Ele é", invoca quem, o que, como.
"Isto é", acarreta indagar o que, como, e também, duvidar, afirmar,
pressupor.
Sujeito, predicado e
objeto: "Algo ou alguém é tal". Essa proposição, o núcleo da lógica e
da gramática durante séculos, foi analisada como resumindo todo tipo de
pensamento.
No sentido
tradicional, o ser pertence à realidade entendida no sentido metafísico, quer
dizer, como inerente a tudo. Ser ideal, ser substancial, ser como consciência
de si, ser como ideia se autoproduzindo na história, ser aí no tempo, ser como
existência humana, assim a filosofia rondou em torno ao SER.
Não mais. A Filosofia
da Linguagem mais recente deslocou a questão para a diversidade dos usos do
verbo ser na medida em que não identifica o verbo empregado na linguagem usual
com o ser na acepção de que tudo é, tudo tem uma essência, de que todos os
entes existem ou subsistem no ser.
Hoje a Filosofia
retira do ser esse caráter absoluto e essencial, as coisas se dispõem para nós,
para nosso uso e nosso conhecimento.
A afirmação
"algo é isso", passou a ter um uso entre inúmeros outros. Para
Wittgenstein, após quebrar a cabeça com a proposição geral que resumiria tudo o
que é o caso, tudo o que ocorre, concluiu que é na e pela linguagem de todo o
dia que faz sentido afirmar que algo é. E mais em um sem número de usos. Pense
na comunicação entre falantes e como passa despercebido o verbo ser, e falar
acerca do ser em si fica restrito ao linguajar do filósofo.
Indispensável no uso
normal da linguagem, e dispensável ou como disse Wittgenstein, dissolvido
enquanto eixo fundamental da metafísica. Assim é "ser", ou "o
ser".
Faça
o teste, pergunte para si mesmo "o que eu sou?"
* Inês Lacerda Araújo - Professora de Filosofia durante 40 anos, na UFPR, e nos últimos anos na PUCPR. Autora de livros sobre Epistemologia, História da Filosofia e Teoria do Conhecimento. Atualmente aposentada.
* Inês Lacerda Araújo - Professora de Filosofia durante 40 anos, na UFPR, e nos últimos anos na PUCPR. Autora de livros sobre Epistemologia, História da Filosofia e Teoria do Conhecimento. Atualmente aposentada.
segunda-feira, 27 de julho de 2015
A GAROTA DE SAQUAREMA E A LENDA DO SURFISTA PRATEADO
Jorge Araken Filho
Solitário, em tempos de crise existencial,
busco na paz da natureza um refúgio para as emoções que não sou capaz de
expressar, uma fala para os sentimentos que se represaram na realidade,
aprisionados pelo silêncio das palavras que não foram ditas. Nesse paraíso de
sons e cores, busco oxigênio para os afetos que sufoquei no limbo do
inconsciente, uma gratificação ilusória para os desejos que não ousei
experimentar na realidade.
Nesse contemplar do belo, do efêmero, viajo
na companhia dos pássaros, enfrentando esse temor pegajoso e disforme de
conhecer o que sou por baixo da persona de conveniência que me veste no teatro
da vida.
Mas é melhor gritar no meio dos pássaros,
soltar os meus sintomas ao lado das orquídeas do que acumular lixo emocional e
andar por aí, de mau humor, reclamando do destino que eu mesmo criei. Cansei de
despejar os meus dejetos nas pessoas que amo.
Um dia desses, mais uma bela tarde do inverno
tropical, caminhava por uma pequena estrada de terra, cercada de palmeiras e
bromélias, últimos vestígios da Mata Atlântica em Saquarema, região dos Lagos
do Rio de Janeiro.
Enquanto as folhas serpenteavam, arrancadas
pelo vento traiçoeiro, que vinha do mar, os meus sintomas caíam dos seus
refúgios, soltando-se do inconsciente, misturando o real e o imaginário, o
simbólico e o concreto, numa metamorfose dos signos e significantes da minha
existência, que foram sendo progressivamente ampliados pelos novos significados
que a maturidade me impôs.
O meu mundo real, agora, depois de ver a
criatura no espelho, parece a mistura do imaginário dos meus devaneios com os
símbolos da linguagem que reaprendi na catarse dos personagens que aprisionava
nas sombras, como personas estranhamente familiares, que reconheci no espelho,
falando com os comigos de mim mesmo.
Begônias solitárias, algumas orquídeas e
velhos cipós cercavam o caminho desse paraíso perdido, no litoral de Saquarema.
Jacarandás seculares, testemunhas silenciosas
da biodiversidade da Mata Atlântica, cochichavam a minha presença com
jequitibás-rosas e cedros:
— Lá vem aquele bicho doido, que fala
sozinho! — sussurrava uma velha figueira, cansada da maldade dos homens, mas
ainda enérgica, com grandes raízes, que afloravam, aqui e ali, no solo
encharcado por um olho d'água ao lado da estrada.
Um pequeno beija-flor de peito verde e cauda
alaranjada, sem se dar conta daquele ser humano indigno, que caminhava perdido,
batia as suas asas aflitas, sugando, com rara felicidade, o néctar de uma
camélia branca que insistia em ser bela, apesar do negrume dos meus tormentos.
Como seria a minha vida, se a sede de poder e
bens materiais, a cobiça por reconhecimento e aceitação encontrassem numa
bromélia atraente e acolhedora o ninho para descansar meus dilemas, o néctar
para saciar meus desejos?
Perdido em pensamentos desconexos, que
flutuavam, com estranha nitidez, em tempos passados, eu mergulhava, em
progressões ritmadas pelo som da natureza, nas memórias das pessoas amadas, que
enterrei ainda vivas, mas que, malogrado a minha injustiça, deixaram marcas no
meu coração.
Completamente absorto, escutava o eco
distante de ondas ferozes, que quebravam na areia, levantando breves
redemoinhos na água, que divisava ao final da trilha estreita, que se afunilava
a cada passo, como se a natureza retomasse seus domínios do homem.
O sol, que se refugiava do dia, cansado,
iluminava o horizonte, com suas cores difusas, tons indistintos de vermelho e
laranja, que tingiam as águas agitadas do Atlântico.
Egoísta, mesmo sem consciência disso, só
desejava aquela solidão momentânea, que me concedia alguns minutos de
contemplação do belo, sem me preocupar com os meus cabelos, com as minhas
roupas ou com o meu jeito descuidado de falar sozinho, desafiando os seres
invisíveis que me atormentam.
Mas o destino é caprichoso e sorrateiro...
Distraído por um canário, que atravessou o
meu caminho, não percebi um vulto que acabara de sair de uma casa. Só o percebi
depois de alguns segundos, quando passei em frente ao portão de madeira maciça,
com a singela inscrição: "paraíso perdido". Aquele vulto não me viu,
seguindo o caminho do mar azul turquesa.
Era um belo exemplar do sexo feminino, longos
cabelos loiros, soltos ao vento, olhos azuis (assim os imaginei à distância),
curvas perigosas, protuberâncias monumentais, vales profundos, reentrâncias e
concavidades que me enfeitiçavam com o seu doce gingado, aquela malemolência
cruel, quase sádica das mulheres que herdaram a beleza de Afrodite, mas possuem
a impura concupiscência das sereias, que enfeitiçam os guerreiros e entorpecem
os sábios.
Nem sábio, nem guerreiro, eu não passava de
um menino, com seus carrinhos de plástico, diante daquela sereia que
atormentava os navegadores incautos e solitários, inebriados por seu canto
melódico. Sem a força de Odisseu, a caminho de Ítaca, sem a intercessão de
Atena, acabei cativo da bela ninfa de Saquarema. Com ela, a Calipso da minha
Odisséia, passaria sete anos perdido... Pobre Penélope! Haveria de
permanecer, pelo resto das suas noites, frias e solitárias, desfazendo a
mortalha, à minha espera, enquanto eu me deliciava com a encantadora Calipso, a
ninfa do mar de Saquarema.
Ela caminhava, distraída, fumando seu beck,
sem perceber que eu me aproximava, hipnotizado por seus encantos, derrapando os
olhos pedintes e cobiçoso em suas curvas salientes e bem definidas.
Suas pernas, e que pernas... A obra mais
divina da criação, longas e graciosas, grossas e firmes como um carvalho,
voluptuosas como as de Afrodite. Não, que Afrodite que nada! Eram como os
ébanos divinos das passistas de Escolas de Samba! Os seios eram majestosos,
eretos e arredondados, daqueles de proporções hercúleas, que enchem bocas
famintas de meninos fogosos. . . Nem vou falar do lindo bumbum, de boca gulosa,
com um talho divino, que formava um vale profundo entre os Apalaches...
Precisaria de um livro inteiro para
descrevê-la. Diria o poeta Austin Henry Dobson, no poema "To a Greek
Girl": "a Dream of form in days of thought" ("um sonho de
forma em dias de pensamento"). E que formas...
Nem os meus pensamentos mais longínquos e
fantasiosos a teriam imaginado em traços mais perfeitos, nem nos meus delírios
de prazer solitário, a cinco dedos, haveria de buscar inspiração em uma beleza
assim tão delicada, quase divina, a serpente do paraíso, que oferece aos
caminhantes solitários o fruto proibido, que dá voz ao inconsciente e desperta
a libido sublimada pelos fracassos na arte do amor.
E como balançava aquele doce poema em forma
de Ninfa. . . Parecia não perceber os mortais, como eu, que a seguiam,
hipnotizados por seu canto silencioso, feito de gestos, aparentemente
descuidados, quase imperceptíveis aos olhos femininos, mas vivamente capturados
pelos sentidos de fera dos homens enjaulados em seus hormônios.
Ela talvez não tivesse consciência dos
feromônios que marcavam seus passos de gata no cio, algo que sentia nas
golfadas de ar, que invadiam os meus pulmões. Tá bem! Posso estar exagerando um
pouquinho. Perdem-me, contudo, o eventual exagero! Aquele vapor barato, um leve
odor de sândalo, que se misturava com a brisa do mar, deve ter entorpecido os
meus sentidos, que nunca foram muito confiáveis diante de fêmeas no cio,
principalmente dessas dançarinas do efêmero, musas dos poemas eternos, que
carregam esses grandes e profundos apêndices no dorso.
Éramos só nós dois naquela estrada deserta,
um paraíso perdido, com raras habitações, quase sempre de alto padrão, ocupadas
pelos nobres da Cidade Maravilhosa, nos feriados e meses de verão.
Ela saiu de uma casa da praia, misto de sítio
e Jardim do Éden, com árvores frutíferas e belas flores. No centro do terreno,
numa parte mais elevada, ao final de uma grande alameda de plátanos e palmeiras
imperiais, havia uma casa de dois pisos, com uma ampla varanda que a
circundava.
A doce Calipso não percebeu que eu vinha ao
longe, distraída, talvez, pela difícil tarefa de acender seu baseado. A brisa
insistente, que vinha do mar, caprichosa e irritante, parecia ter vontade
própria, brincando, teimosamente, com a chama do seu pequeno isqueiro prateado,
que refletia a luz do sol nos meus olhos.
Logo que ela se virou em direção à praia, vi,
por cima dos seus ombros, a fumacinha da paz, que subia, iluminada pelo sol,
que baixava, sonolento, às nossas costas: "habemus cannabis" —
pensei, sorrindo.
Ela seguia em direção à praia, com passos
curtos e ritmados, enquanto desfrutava, em silêncio profundo, os efeitos
inebriantes do seu pescador de ilusões. Nada melhor do que o Rio de Janeiro e
seus encantos, para saborear pecados e aventuras que fazem da vida esse
maravilhoso e caótico conto de fadas e duendes, de princesas e sapos, de
monstros honrados e heróis sem caráter. Prefiro pecar sem pudor do que morrer
de tédio no paraíso. Só percebi a felicidade, quando parei de julgar!
O meu plano era apenas caminhar pela estrada
de terra que margeia a praia. Era... Antes de me encantar com aquele corpo
dourado, a deliciosa e suculenta maçã do amor proibido... Finalmente entendi
o Vinicius e sua Garota de Ipanema. Sem inspiração não nascem poemas, não se pintam
quadros...
As palavras começaram a surgir, revoltas, sem
forma, como as ondas do mar que divisava ao longe. Mentalmente, comecei a
escrever este conto de uma tarde de verão... Escritores, como eu, encontram
gratificação para os desejos mais profundos, mais secretos e proibidos nos
personagens, que soltam, ao longo da narrativa, os instintos reprimidos pelo
medo de enfrentar as sombras do inconsciente.
Continuei andando na direção daquela doce
garota e seu balançar, que era muito mais que um poema, diria o bom e velho
“capitão do mato Vinicius de Moraes, Poeta e Diplomata, o branco mais preto do
Brasil, na linha direta de Xangô”.
Mantive alguns metros de distância, para que
os meus olhos traidores, cheios de verdade, não desfizessem as minhas ilusões de
perfeição divina.
Depois de acender seu beck, a musa do paraíso
perdido, com um leve menear da cabeça, enfim percebeu, visivelmente surpresa,
que alguém se aproximava. Ela deve ter estranhado aquele penetra em sua
festinha solitária. A estranheza inicial logo se transformou em incômodo.
Ela acelerou o passo, mas não conseguia
desvencilhar-se do seu "perseguidor" (um ato falho, talvez). Por mais
que as suas pernas se esforçassem para vencer o terreno, eu continuava por
perto, devorando, com os olhos gulosos, cada pedacinho daquele corpo dourado.
Antes que você pense algo terrível sobre mim, vou me defender, suspeitamente,
embora, de certas insinuações: ando rápido, mesmo quando não tenho nada a
fazer. Acredite, se quiser...
Continuei no meu ritmo, mas sempre me
aproximando da loira misteriosa. Não sei exatamente o que se passava na
cabecinha daquela Eva e seu cigarrinho proibido. Talvez pensasse em estupro ou,
pior ainda, que eu fosse algum conhecido. Poderia ser alguém a revelar a
indiscrição daquele cigarrinho mágico, o fruto proibido do paraíso, que
inebriava um casal de pintassilgos pousados em uma mangueira anciã.
Sem diminuir o passo, ela olhou para trás,
fixando-se nos meus olhos, para desvendar as intenções ocultas do seu estranho
"perseguidor". Não me reconheceu, como era de se esperar. Embora eu
sempre caminhasse por ali, nunca havia cruzado os seus caminhos. E teria me
lembrado daquela ninfa, se os nossos olhares, mesmo por um breve instante,
houvessem se encontrado.
Diante da dúvida, ela apertou o passo e,
quando nada lhe restava, a não ser o desespero, começou a correr.
Hesitei de início, sem saber como reagir. As
palavras não saíam da garganta, sufocadas pelo despertar de um sonho.
Ela deu um grito, que rompeu o silêncio da
tarde:
— Pedro, me espera!
Os canários permaneceram mudos, testemunhando
o horror daquela jovem feiticeira do amor.
Com o coração palpitando, quase saindo pela
boca, continuei a caminhar. Sem entender os motivos, diminuí o passo,
culpando-me, talvez, por tê-la assustado, ou entorpecendo-me, quem sabe, por
acordar tão subitamente da ilusão do amor correspondido (eu a imaginava num
longo beijo, trocando os doces e inebriantes fluidos do amor).
Os meus pés pareciam ter vontade própria,
seguindo adiante, enquanto o diabinho do ouvido esquerdo, ardilosamente
disfarçado de anjo, me dizia para voltar no meu próprio rastro.
Depois de alguns segundos de lenta agonia,
percebi que tínhamos companhia: a cerca de duzentos metros estava um rapaz
alto, sem camisa, com uma longa prancha de surfe, que a aguardava no portão de
uma bela casa de frente para o mar.
Ela correu em busca do herói, desesperada
pelos braços fortes e acolhedores daquele jovem, que a recebeu com certa
perplexidade. Eles se abraçaram, com um beijo no rosto, trocando algumas palavras,
que não pude ouvir. O cigarrinho encantado, abandonado durante a corrida para a
salvação, ainda soltava seus vapores, em ondas que serpenteavam no ar, levadas
pela brisa úmida do oceano.
Ao passar pelo casal, pensava no medo
profundo, quase histérico, que a violência causa nos seres humanos,
transformando em malfeitores hediondos os mais inofensivos animais, como eu.
Será que sou mesmo inofensivo, começo a me perguntar...
Naquele instante, nasceu um herói. Eu poderia
ter esclarecido o engano daquela jovem, mas deixei que o herói do paraíso
perdido, o Odisseu da minha Calipso, desfrutasse sete anos de prazer na ilha de
Ogígia.
Mas, enfim, o que seria do herói sem o vilão?
Alguém consegue esquecer de Darth Vader, do Coringa ou de Hannibal Lecter? E do
coiote do desenho animado? São todos vilões, seres que odiamos amar ou que
amamos odiar. Por que eles permanecem em nossos corações, muitas vezes até mais
do que os heróis?
Ora, porque esses pontos fora da curva, esses
rebeldes incompreendidos, arquétipos da maldade, representam as nossas sombras,
o submundo de crueldade que preferimos ver nos outros, e não em nós.
Inicia-se, na fantasia que dialoga com o
nosso próprio mundo psíquico, uma verdadeira batalha épica que reproduz,
através dos arquétipos humanos do herói e do vilão, do bem e do mal, a luta
entre os princípios do prazer e da realidade, entre o id e o superego, pelo
controle do ego e do que vai se tornar consciente.
De um lado, a complexa maldade dos vilões,
seres de inteligência maquiavélica, com desejos impulsivos e inesperados, além
de profundo desprezo por convenções sociais e limites éticos. Estes representam
o nosso próprio id, que é governado pela busca do prazer.
De outro, a tediosa moralidade dos heróis,
figuras simples, em sua infinita nobreza, com preocupações éticas e morais,
atitudes sempre bondosas e sem o calor do inesperado. Estes representam o papel
do superego, que simboliza a realidade e seus limites.
Através deles, exorcizamos de nós mesmos,
através das lendas e mitos, e em nome do princípio da realidade, os nossos
próprios demônios.
O vilão começa vencendo, ou seja, o id obtém
prazer nas suas vitórias fugazes, mas, ao final, o bem prevalece, com a derrota
do mal, mesmo provisória, que satisfaz o superego e suas preocupações morais.
Em meio a essa batalha épica, o ego do leitor
ou espectador das lendas e mitos consegue conciliar as suas forças internas,
harmonizando o prazer com a realidade. Mais que isso, gratifica as pulsões mais
primitivas e os desejos reprimidos no inconsciente, experimentando o prazer
possível diante das exigências castradoras do superego, descarregando, assim, a
pressão interna.
Na verdade, só desprezamos os vilões, porque
eles se identificam com uma certa criatura que reprimimos dentro de nós mesmos...
Preferi criar o herói, tornando-me o vilão...
Passei tão próximo daquele Tarzan e sua Jane,
que conseguia escutar a respiração do herói e da mocinha indefesa, a virgem dos
lábios de mel (aceite, que é melhor: o conto é meu, portanto ela era virgem e
gostosa). Com uma leve contração dos lábios, tentava manter o ar de mistério,
para não demonstrar a excitação da minha libido naquele encontro furtivo. Não
sei exatamente o porquê, mas fazia esforço, para não dar pistas do meu desejo
de fazer amor com a Eva do paraíso perdido.
No mais profundo e respeitoso silêncio,
contudo, prossegui no meu caminho, olhando as ondas que lambiam a areia da
praia.
Só um coração partido consegue entender a
poesia daquela musa de Saquarema, a mulher do corpo dourado que nunca toquei.
Se a houvesse tocado, o encanto se desfaria nas areias daquela praia deserta, e
ela, a etérea e indefinível sereia, que foi a razão de tantos naufrágios em
corações humanos, deixaria de ser um sonho para se tornar uma realidade muito
distante das minhas fantasias.
E assim nasceu a lenda do surfista prateado
de Saquarema...
Quanto a mim, já que não pude ser o herói,
tornei-me o vilão...
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