segunda-feira, 26 de julho de 2010

EDUCAR E/OU PUNIR

Profª. Inês Lacerda Araújo


Kant (1724-1804), filósofo alemão, marcou a diferença entre público e privado em um dos escritos mais brilhantes da história da filosofia (O que é a ilustração). Pensar por si mesmo é sair da dependência, da tutela, seja ela qual for. Um público esclarecido, se for dada a ele liberdade, é capaz de fazer uso público da razão, de questionar e decidir.

Falar em nome de sua própria pessoa difere de se manifestar enquanto assume um cargo ou uma posição notória, pois isso exige o cumprimento de leis e de regras. Exemplo: um sacerdote pode dar sua opinião pessoal a respeito da proibição da Igreja Católica de usar preventivo nas relações sexuais. No púlpito, para o público, deve respeitar a doutrina católica.

Essa distinção entre público e privado importa e muito na atual discussão sobre legislar ou não em matéria da vida privada. O estatuto da criança e do adolescente deve oferecer proteção legal. Abuso, violência, devem ser denunciados e punidos? Sim!

Mas, até que ponto dar palmadas nos filhos (as) é ação privada que deve ser regrada e punida por instrumentos públicos? Como e quando intervir e punir? E por que?

Imagem: Isto É
Na década de 50 a repreensão era com palmadas, cintadas (!) e uma vara de marmeleiro poderia ser usada em caso de desobediência.

O que mudou? A percepção da família pelo Estado, o papel da família como núcleo exemplar, como sustentáculo do bom funcionamento do governo, como exigência social e moral de um lugar asseado, de correção, de proteção, de educação, de prevenção de todo e qualquer desvio.

O que os pais e mães devem fazer é policiado para evitar violência social. E evita?

A punição deve ser não violenta (castigue, limite, mas não bata): essa é a mais nova injunção do setor público sobre o privado. Mas e quando a criança sofre ameaça verbal? Fica com medo, insegura. A legislação deveria também proibir ameaças!?

A distinção de Kant está borrada. O Estado, a economia, a sociedade e os governos regram a conduta das famílias. A própria família aceita de bom grado a vigilância.

O ideal seria que pais assumissem a responsabilidade pela melhor educação possível, que soubessem discernir com equilíbrio e amor o modo como educam e, eventualmente, como punem. Uma questão crucial: se há necessidade de punir, isso já não é sintoma de que algo vai mal ?

A sabedoria dos pais deveria valer mais do que regras e códigos ...

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* Inês Lacerda Araújo - filósofa, professora e escritora de livros de filosofia.
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