quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

ACRE - Daniella Paula Oliveira


Fui sentindo o seu perfume ainda no céu
Percebendo o tempo se modificando
A vida em contraponto
O vento úmido, a argila fresca.
Esperei o dia clarear para ver a sua cor
Marrom e verde. Furta cor.
Longe dali, os mandarins e as suas redes.
Longe do seu significado áspero
Lá estava um Acre mágico.
Pequeno, sutil, singelo, delicado e forte...
Como convém aos do Norte.

Sob a sua pele, as digitais feridas
Da guerra para ser brasileiro
Das suas diversas vidas.
Seu rio se escalda castanho
Banhando em águas amarelas
Suas molduras pitorescas, seus cantos e janelas.
Sua floresta o come noite e dia
E o alimenta de melodia silenciosa
Por causa dela, o Acre é silêncio.
Motim só no relento, quando o pranto dos noturnos se faz atento.

Tem flores de lótus no ar
E nos permite um ébrio sagrado, que só lá pode causar.
Suas praças lhanas, seu remelexo meio havana.
Sua singularidade nesse mundo descompassado e análogo
Se o tempo é imediato, lá é a vertigem do tempo.
É lá onde os deuses buscam seus passatempos

O Acre tem o sono da Jurema
A gargalhada do caboclo
Os segredos das matas
Os cabelos desarrumados dos rios
O sangue branco das árvores
As almas pintadas de urucum
Índio, seringueiro, brasileiro, todos e nenhum.

Nas suas veias fulvas correm a boa utopia
Em seu povo a regalia de te pertencer
Em sua coragem a predestinação em vencer.
Na sua modernidade, a sustentabilidade
Na sua fé a ayahuaska, a conceição, a rainha, o xamã, a miração.
No seu som os maracás, tambores, choros de bichos, brigas de folhas, cantos de amores, acordes de violão.

Acre de igarapés e pajés
Tacacás e maracás
Oxóssis, oxuns e nanãs...
Escuridão e claras manhãs.
Garoas frívolas e chuvas torrenciais
Tribos e matagais
Kaxinawás, Ashaninkas, Yawanawás; Amazônia, tapajós.*
Também quero a minha coroa de cipós.
Meu Rio, Branco – Meu Verde, Floresta
Viço de ervas, canto e seresta.

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P.S. Poema originalmente publicado em MANDALAS DA FLORESTA, da artista plástica Simone Bichara.
* Foto: Sérgio Vale
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