quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

O ACRE MAQUIADO - Isaac Melo


Quem chega a Rio Branco depara-se, em diversos pontos da cidade, com inúmeros outdoors com os seguintes dizeres: “Acre: o melhor lugar para se viver”. E mostra gente sorridente, policiais bem fardados, estradas asfaltadas, crianças em frente a computadores... E de fato percebe-se mudanças, enxerga-se melhorias. Todavia, estas estão muito distantes do Acre tal como ele é.

O Acre ultimamente está como uma mulher toda perfumada e bem maquiada que sai para uma festa. Dança a vontade. Só que antes de terminar a festa, o perfume já venceu e a maquiagem está borrada. A linda carruagem virou jerimum.

O governo acreano nesses últimos doze anos obteve significativas mudanças, e para melhor. Porém precisa parar com essa prepotência de achar que o Acre se tornou Acre a partir de suas gestões, e de criar protótipos de pseudo-políticas que parecem ser insuperáveis e inquestionáveis. Ora, o atual jogo de marketing do governo quer passar uma imagem, ao generalizar, a partir de algumas melhorias e, por cima, de pontos isolados, de que todo o Acre tornou-se um canteiro de obras só. Mas quem não vive sob as rédeas ou das benesses do governo ou é capaz de ir além dos próprios interesses sabe dos reais e sérios problemas que o Estado vive. Mesmo que estes estejam maquiados e camuflados em pseudo-progressos.

Contraditoriamente, por exemplo, viajar internamente no melhor lugar para se viver não é apenas um grande desafio, mas um serviço de alto custo e de regular qualidade, sobretudo, no que diz respeito aos táxi-aéreos e o abusivo custo das passagens. As estradas ainda são um sonho que duram pouco mais de três meses. O sistema público de saúde está mais doente do que os doentes. As técnicas agrícolas do Acre são as mesmas de cem anos atrás, o incentivo aos pequenos agricultores é praticamente nulo. Universidades são escassas, incapaz de atender a demanda de alunos, quando não, de regular qualidade...

O governo acreano faria mais se em vez de ficar enfeitando a história, encarasse a situação sem idealizações e romantizações. Falar sim dos progressos que obteve, das conquistas que alcançou, mas sem precisar recorrer a esses discursos ideológicos sensacionalistas e a esses chavões deprimentes.

Sou acreano e não me sinto inferior a nenhum outro brasileiro, seja de onde for e porque qual razão for. A leitura atual que faço do Acre, longe de ser menosprezo, é antes sinal de amor e do meu orgulho por ser acreano. Só não posso concordar com governos que querem a todo custo vender a imagem de um Acre idealizado, causando, de certa forma, neutralidade ou negligência a certos problemas que urgem soluções imediatas. Vivemos sim numa terra bonita por natureza, de povo tenaz, de história marcante, porém, de governos aloprados.

A bem da verdade o Acre, a meu ver, continua ainda a ser um dos piores lugares para se viver, (em termos de infraestrutura e serviços) embora tenhamos uma Sherazade, com suas mil e uma histórias, a nos ludibriar a cada noite...
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