quinta-feira, 11 de agosto de 2011

Série A POESIA ACREANA > ANTÔNIO FRANCINEY

“Se é para sorrir de alegria e de emoção, se é para ficar lembrando a amada que nem tens, minhas histórias e poemas não se prestam à leitura, serão indigestos e intragáveis. Agora, se tens uma revolta, uma luta e uma saudade, mesmo no mais recôndito da alma, nos tornaremos confidentes.”
Antônio Franciney


Antônio Franciney é da nova geração de poetas acreanos, uma voz que nos chega do Juruá, Cruzeiro do Sul, com fortes raízes em Porto Walter. A partir do que li, é um poeta a quem nutro respeito. Sua poesia nasce simples, pois a vida é simples, apesar de grande. Fala de uma realidade particular, porém, numa perspectiva universalizante; do cotidiano, mas, ao mesmo tempo, o transcende. Há, em sua poesia, uma saudade que se nutre das reminiscências; um sonho que nasce da luta; uma luta que surge da revolta, revolta que poderíamos designar de “fúria generosa” como a que nos legou George Orwell.

Formado em Letras (1996) e História (2004) Franciney, além de poeta, é cronista. Em 2006 publicou o seu primeiro trabalho literário, “Quatro Colinas”, composto por poemas e crônicas, um livro, como assinala o próprio autor, que “tem muito de saudade, sonhos e insatisfação com a realidade do lugar em que viveu”. Franciney e Jairo Nolasco, a meu ver, têm sido bons representantes das letras no Juruá, por uma escrita irreverente, humorada e profundamente crítica.

Por fim, um verso de Alberto Caeiro talvez sintetize o poeta Antônio Franciney: “Ser poeta não é uma ambição minha / é a minha maneira de estar sozinho”.

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Antonímia
Antônio Franciney

Amar o Amor sobre todas as coisas
Sem esquecer que o ódio é inesquecível.
Amar a vida
Sem desprezar a morte.
Amar a paz
Armado de mísseis de médio e longo alcance.
Amar o sorriso
Sem esquecer um lenço.
Amar a Luz
E amar no escuro.
Amar o próximo mais próximo
Sem esquecer o próximo distante.
Amar o horizonte
Sem esquecer a chuva.
Amar um sonho
E acordar chorando.
Amar o amor entre todas as coisas
E amar, e amar, e amar.
Amar um sonho
E amar só uma realidade
Que é saber que tudo é belo
Mas tudo é oposto de nada.


Pater Noster
Antônio Franciney

À luz de toda ciência
Te busquei e em vão
Ornei minha Igreja
Comprei um galão
Também um terreno
Com vista pro Éden
Paguei o meu dízimo
Orei, fiz promessa
Tentei ser fiel
Seguir os teus passos
Teu amor e em vão.
Me pregaram que eras
Um homem de bem
Que eras meu pai
Meu irmão
Meu espírito.
Me catequizaram
Me evangelizaram
Me converteram, me perdi e em vão.
Eu te busquei na beleza das mulheres
Nos templos sagrados
Nas horas de dor
Nas horas de fado
E tu não estavas
Os que falam por ti não sabem de ti
E os que sabem não falam
Portanto, Senhor,
Tenho pena de mim
Que não decoro versos
Nem pago o dízimo regularmente.


Revolução
Antônio Franciney

Nem o corneteiro chora...
Envolto em sombras
O acampamento dorme.
Dormirá também o espírito da luta?
Diz, senhor dos pampas,
Adormece a fúria e o espírito acreano?
“Invencíveis e grandes na guerra”
As baionetas ainda estão alinhadas
O sangue dos andinos nem secou ainda
E os barracões estão velando corpos
Cada samaúma é uma trincheira
Cada seringueiro é um infante
Costureiras de mão façam bandeiras
Que os heróis precisam de mortalha
Diz, senhor dos pampas,
Pra que tanta luta?
E Plácido, olhar fito,
Rosto duro
É uma estátua
A única da Revolução.


Epílogo
Antônio Franciney

Não é preciso escrever mais nada
Todos os versos
Poemas todos,
Estão por aí,
Ruborizados e marginais.
Escrever o quê?
A quem ofertar-se?
Guardemos silêncio,
Escrevamos sobre improbabilidades,
Quem sabe assim,
A inspiração nos encontre
E seremos poetas
Como aos 15 anos.

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ROCHA, Antônio Franciney de Almeida. Quatro Colinas. Recife: Edições Bagaço, 2006.

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Antônio Franciney escreve no blog MINHAS COLINAS.
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