segunda-feira, 29 de agosto de 2011

MENINO DE SERINGAL - Isaac Melo

                                                                             Menino acordado pro mundo
                                                                             no vasto seringal do Acre
                                                                             ... menino de seringal
                                                                             do Acre não tão acre
                                                                             um pouco doce somente
                                                                             da doçura da infância.

                                                                                             Leandro Tocantins

No dia em que descobri a literatura, eu descobri o mundo. Causaram-me uma profunda impressão tais palavras. Ouvi-as, certa noite, da boca do premiado autor baiano Antônio Torres, num encontro literário, em Curitiba. Adotei-as como se fossem minhas, pois abarcam o sentido que a literatura também exerce em minha vida. Torres fora menino no sertão, em contrapartida, trago a sina de menino de seringal. Aquele sonhava com os verdes mares de que tanto falavam, este com o que havia além das verdes matas que o cercavam.

O seringal. A definição dicionarizada de seringal não me satisfaz. Tampouco a versão romantizada propalada por aí. Assalta-me um universo de significados e símbolos, de memórias e saudades, de angústias e alegrias quando ouço a palavra seringal. Aliás, é difícil fazer alguém não amazônico compreender a vivência em um seringal, sobretudo, no que se refere aos costumes e ao linguajar. Ainda mais porque os seringais de hoje não são a mesma coisa dos seringais de antanho.

Desenho de Percy Lau.
A história. Iludidos ou acossados pela seca, os primeiros atraídos aos seringais, majoritariamente nordestinos, depois de resistir aos porões dos “navios negreiros” amazônicos, eram vomitados em algum barracão, uma casa relativamente confortável, espécie de representante da Casa Grande por essas bandas, onde inconteste reinava o coronel (de barranco). Daí eram empurrados às “colocações” e “centros”. O sonho da riqueza fácil, sob o símbolo da árvore que dava dinheiro, convertia-se em pesadelo. Para a maioria foi assim. Ressalte-se, no entanto, que alguns seringueiros realmente enriqueceram. Eram os chamados “ressuscitados”, pois haviam rompido o túmulo verde que os encerravam, e iam dar o ar da graça nos cabarés, de cocottes importadas, de Belém e Manaus, ostentando, nos dedos, anéis de ouro com pedras preciosas, degustando os mais finos e caros champanhes e fumando charutos enrolados em cédulas de dinheiro. Verdade ou lenda, os que se enveredaram por tal caminho (re)encontraram a falência. Novamente tiveram que se enterrar na floresta. Não mais “ressuscitaram”.

Desenho de Percy Lau.
A outros nunca foi dada oportunidade análoga. Encerrados em alguma “colocação” ou “centro”, a léguas de distância do barracão, que ficava às margens do rio, dali, às vezes, só retornavam quando outros o traziam numa rede, atada a uma vara, acometido por alguma moléstia tropical ou pela peçonha de algum ofídio. Se havia chegado com a esperança de acumular alguma fortuna e, quem sabe, mandar buscar a noiva ou a família que ficara no sertão, por fim, seu único desejo era apenas o de sair com vida, livrar-se das garras tirânicas de seus patrões. Mais uma vez, ressalte-se, nem todos os patrões foram maus e nem todo seringueiro foi vítima. A história está muito além de vilões e mocinhos, como nos fora apregoado pela mentalidade europeia mal cristianizada. O fato é que os primeiros anos não foram fáceis. Enriqueceram poucos, empobreceram muitos. Tal verdade não pode ser olvidada, para que a realidade de opressão e injustiça de outrora não se perpetue no presente.

O lugar. Sumaré. Assim se chamava o seringal em que vim à luz. Os tempos eram outros. Não era mais o seringal dos ‘impiedosos’ patrões. Meus pais, com muito trabalho, haviam comprado parte de um seringal, às margens do Rio Tarauacá. À época, muitos seringalistas estavam deixando seus seringais. A borracha já não mais era capaz de sustentar qualquer espécie de luxo. Razão pela qual meus pais compraram tão vasta terra por um preço pequeno. Aí vivi toda minha infância, entre banhos de rio e galhos de goiabeiras.

O menino. Todos nascem despojados. Porém, ocorre-me pensar, às vezes, que os meninos de seringal nascem mais despojados ainda. Nascem longe de tudo e de todos. Talvez por isso Deus costuma, em noites de verão, vir, com eles, brincar de contar estrelas. Quando nasci não havia estrelas. Era dia. Todavia, segredou-me a laranjeira que, em seu galho, maviosamente, gorjeava o sabiá. Aliás, no seringal, a primeira coisa a que se aprende é ouvir. Ouvir a nutureza do coração e a natureza da criação. Quem for capaz de se enternecer com a beleza de uma noite na qual a lua se esparrama por sobre as matas e as águas, adornando-as de prata, ou se alegrar com uma arrevoada de andorinhas, ao entardecer, será sempre alguém capaz de um amor sublime, a si mesmo e aos outros. Deus muitas vezes comunica-se aos homens pela beleza. Beleza que, antes de ser algo apreendido pela inteligência, é dom do coração.

O encontro primordial. Nesse ambiente despojado, como o sol lá na curva do rio, morosamente fui despontando. A comida era farta. A cultura era pouca. Havia um rádio que trazia um pedaço do mundo, longínquo e estranho, para a nossa casa. Era só. O mais era ouvir as histórias dos mais velhos ou daqueles que conheciam outras plagas. Gente viajada é outra coisa. O que eu sabia era de baladeira, de mariscar, de andar de casco... A escola veio com o passar do tempo. E com o passar do tempo também se fora, para mim. De fato, não logrei resultados aí. Culpa das goiabas que me induziram a práticas ilícitas.

Meu irmão mais velho, esse sim, era o cara. Fora o primeiro a aprender a ler. Além do mais era um rapaz afeito ao trabalho, qualidade indispensável num seringal, e costumava também ser muito requisitado pelas moças. Ele tinha até “Gravador”, auto-reverso, daqueles quando ligava acendiam-se várias luzes coloridas. Um espetáculo. Ainda mais para quem só conhecia a luz monótona de lamparina. Aos domingos, Evaldo Freire, Adelino Nascimento, Frankito Lopes... desfiavam suas vozes, a encher nossa sala, circundada por gentes e cachorros. “Te amo cigana, ciganinha feiticeira...”.

Tudo isso, como as águas de um repiquete, passara. Uma coisa, no entanto, não passou. As coisas que têm o poder de tocar nossa alma nunca passam, nunca cessam. Ainda meu irmão primogênito. Quando começou a frequentar a escola ganhara um livro, didático. Ao abri-lo, para realizar alguma tarefa ou para ler alguma coisa à minha mãe, aquilo era um espetáculo para meus olhos. O livro, como que envolto num halo fulgurante, emitia um brilho de suas páginas, tal como aparece em certas películas de hoje. O menino ficava inebriado num misto de contentamento e inveja. Minha felicidade assemelhava-se com aquela felicidade clandestina da menina do conto de Clarice Lispector. Ansiava também por tê-lo só para mim. Em minha rede, dormir abraçado a ele. Porém, ansiava ainda mais, o querer decifrar os seus códices, a mim, ainda enigmáticos. Sempre pensei que aprender o segredo das palavras seria aprender um caminho que nos leva direto ao coração humano.

O desfecho. As circunstâncias nos levaram para a cidade, menos a meus pais e a meu irmão mais velho. As exigências do seringal os impediram de deixá-lo. No ambiente citadino, as coisas tomaram outros rumos. Viera a escola, o sobe-e-desce, o alfabeto, as palavras... Finalmente, a primeira leitura. Assim comecei a sair empolgado pelas ruas a ler tudo o que encontrava: nomes de lojas, placas, anúncios...

Com a leitura vieram os livros. Primeiramente os didáticos. Em casa não havia livros, muito menos jornais, que dirá revistas. Então, esquecia-me, por completo, imersos nas pequenas histórias que continham aqueles livros. Sim, agora também tinha o meu livro. Ainda fulgurante, ainda belo, como aquele do meu irmão, outrora. Aliás, numa tarde domingueira em que palavras caiam como chuva, segredou-me uma pipira vermelha que, nas terras do terceiro pensamento, há um céu que é uma grande biblioteca, em que anjos são livros que saem pelo mundo encantando meninos. Disse-me ainda que na terra há muitos desses anjos, só que ninguém os conhece, porque eles se escondem sob a forma de poetas, contistas, cronistas...

Minha vida, que não mudou nem inspirou ninguém, a conceberia, até aqui, sem muitas coisas. Porém, não a conceberia sem os livros. Não é pedantismo. Eis um rasgo do meu ser. O aprender a ler me fez nascer para o mundo enquanto o mundo nascia para mim. O que a geografia ou os homens tentaram esconder, os livros mo revelaram. Desde então comecei a levar o mundo em meus olhos. Menino de seringal tem dessas coisas... de noite vira estrela, de dia, passarinho.

---

Nota I.: este texto é dedicado a Leila Jalul e R. Palazzo, pelas palavras ou pela amizade, eles também enriquecem os sonhos do menino de seringal.

Nota II.: sobretudo para aqueles que desejam explorar um pouco mais a temática dos seringais, no aspecto a que me referi, sugiro as seguintes bibliografias: Seringal – Miguel Ferrante; Terra Caída – José Potyguara; Terra Encharcada – Jarbas Passarinho; Coronel de Barranco – Cláudio de Araújo Lima; A Selva – Ferreira de Castro; Ressuscitados: romance do Purus – Raimundo Morais.

Nota III.: os versos do epíteto do texto foram retirados de: TOCANTINS, Leandro. Invenção da Floresta. Belém: CEJUP, 1993. p. 51. O desenho ilustrativo é do artista Appe, presente em: TOCANTINS, Leandro. Os olhos inocentes. Rio de Janeiro: Philobiblion, 1984. p. 21.

Nota IV.: "Menino de Seringal" também está publicado no Site Lima Coelho.
Postar um comentário