quinta-feira, 22 de março de 2012

OS CANTARES SERINGUEIROS - Amancio Leite


Eu sou seringueiro
            no rio Juruá,
Do meu Ceará
            vivo distante!
Sempre a trabalhar
            p’ra arranjar um saldo
Que tempere o caldo
            D’um escravo errante...

Todos os trabalhos
            duros, desta terra,
Em constante guerra
            são por mim vencidos...
Cá nas solidões
            cheias de maldades,
Tenho mil saudades,
dos meus pais queridos!

Mas, confio em Deus
            nosso Pai bondoso
Que serei ditoso...
            – Bem ditoso ainda! –
De voltar com saldo
            ao torrão amado
E inda ser casado
            C’o u’a moça linda...

Tal sonho dourado
            é o que eu aturo,
Penso no futuro
            se é como o presente...
Devo mais d’um conto,
            meu patrão não presta...
Já nos franze a testa
            bota-se a valente...

Que fazer? Sou preso
            na cadeia imensa
Desta mata extensa
            que já não tem fim...
Lá na minha terra
            o caso é mudado,
E o mundo é furado...
            não trancado assim!

Basta de lamentos,
            confiar em Deus,
Que os penares meus
            serão descontados;
Quando lá na Pátria
            onde fui nascido,
Farei-me esquecido
            Deste cru passado!

Este belo assunto,
            esta narração,
Vai contar então
            como se trabalha;
Como se fabrica
            essa tal borracha
Que desfaz a taxa
            de qualquer canalha...

Cá nos ermos tristes
             por onde eu trabalho,
É meu agasalho
            pequena choupana.
Em derredor dela,
            verdes, cresce em brilho,
Vinte pés de milho,
            cinco ou seis de cana.

Também tem a um lado
            grande samaumeiras
Bela e sobranceira,
            sobre a verde mata...
Atrás da cozinha
            vê-se a fumaceira
Junto a uma touceira
            de banana prata.

Em Abril ou Maio
            Saio ao barracão
É grosso o pancão...
            me empelho dez dias...
Quando volto ao centro
            eu, e mais pessoas,
A remar canoas
            com mercadorias...

Finda a viagem
            muito perigosa...
Muito trabalhosa...
            chego em certo porto
Onde desembarco
            minha aviação...
Gemo como um cão:
            “de remar estou morto!”

Mas, que importa isto?...
            amanhã eu entro
Para meu longe centro...
            – carga sobre a costa –
Sigo pensativo,
            transpondo ladeiras
– Dessas brincadeiras
            pouca gente gosta! –

Meio dia andando
            para o rancho querido,
Chego bem moido...
            enervado e teso!
No fim do soalho
            boto a carga abaixo,
Nisto, livre me acho
            do enfadonho peso...

Tiro a blusa fora,
            corro o meu roçado,
Vejo prosperado
            todo o meu legume
Volto para a barraca
            cheio de prazer
Trato de fazer
            logo fogo ao “lume”.

Vejo se tem pó,
            vou fazer café;
Antes um chibé
            tomo por primeiro:
Eis um alimento
            muito apreciado
Pelo degredado
            triste seringueiro!

Em seguida ao “moka”
fumo o meu cigarro;
E a barraca varro;
            – Pois “gunverno” ali... –
Uso – por vassoura –
            também – por capacho –
O pendão dum cacho
            chocho de açaí...

Desembalo a carga,
            vou tomar um banho;
Que calor tamanho
            aqui nos flagela!
De roupa mudada
            fico mais bonito...
De café repito
            logo outra tigela...

Compõe-se a barraca
            – de dois seringueiros –
De dois mosquiteiros
            metidos nas redes!
Tosca choupaninha
            muito bem coberta...
Quase sempre aberta...
            não possui paredes. –

Facas com bainhas!
            O rifle e espingarda
Se azeita e se guarda
            zelados polidos...
Em contraste a isso
            vê-se dois terçados,
Muito enferrujados
            na palha metidos.

A mesa de jantar...
            – de couro de veado –
Está ali pendurado,
            juntinho à toalha...
Ou quando não este,
nota-se uma esteira
D’olho da palmeira,
bem trançada a palha.

Deitado ao soalho
            meu machado “tumba”
Dentro dum zabumba
            da paxiubeira,
Meu pequeno pote
            cheio d’água fria
Mesmo ao meio dia
            Sempre foi geleira...

Todos os artigos
            de necessidade,
Eu, mais meu “cumpade”
            Zeca Ciríaco,
Vamos transportando
            pra nossa choupana
Nos confins de semana
            Cada um com um saco.

Eu, na minha terra
            nunca levei murro...
Mas aqui, sou burro!
            – me virei em bicho!...
Pois meu jamaxi
            com a sua testeira,
Dá-me a fucinheira...
            só falta o rabicho!
Da barraca grande
            meu leitor já sabe,
Portanto, nos cabe
            seguir outra linha:
Desça dois degraus
            – com muita cautela –
Vamos à panela
            que está na cozinha.

Ei-la sobre a trempe;
            ferve com macaco.
“Cumpade Ciríaco”
            não come feijão:
Já eu, como tudo...
            não reservo nada...
Pra mim, lesma assada
            – faz de requeijão!

Vou lá ter vontade!...
            nesta sepultura...
Como até mucura...
            – só não como é cru! –
“Deixei” de ser onça...
            Pra andar com “manobra”.
Só não como é cobra
            mais mestre urubu!

Mas, o comprimento
            deste humilde canto
Já secou meu pranto
            já meu deu o riso...
Meu leitor amigo
            como tu não dormes
Mais alguns informes
            nos serão precisos...

Queira acompanhar-me
            dez ou doze passos:
– Sem cruzar os braços –
            “sem pisar no chão...”
Minha fumaceira,
            Meu defumador
– Feito com rigor –
            não é longe, não.

Ele é pequenino
            “mas-porém” é rico,
Meu vizinho Chico
            não tem um assim!
Cabra preguiçoso...
            cabra sapupema
Sempre foi panema
            seringueiro ruim!

Eu já lhe avisei
            que tenha cuidado
Se não “enrolado”
            vai ser qualquer dia...
O “cabra é toqueiro”
            porém, não escapa,
Lhe enrolo na capa,
            de minha bacia!

No Chico Calangro
            Mais Joaquim Caçote,
Vou passar capote
            quer queiram quer não.
Eles dois não “drôme”
            Toda a noite é pouca...
Os passos na boca
            deste meu “boião”!

Minha fumaceira
            de palha jaci,
Ou ouricuri,
            com caibros no chão.
Pra esbarrar o vento
            se tapa em “redó”:
Tem uma porta só
            e no centro o boião.

Tornos da bacia
            fincados com jeito
Ao lado direito
            ao alcance da mão...
Grade, prancha e cuia,
            cavador, sarilhos,
Eis os “atencilhos”
            da difumação.

Depois disto dito,
            nós vamos à estrada,
Que já está roçada,
            que entigelo e sangro.
Ela dá dez frascos,
            a menor dá oito...
Desafio afoito,
            Chico de Calangro!

Ele tem um “rosso”!
            este meu vizinho
Pelo machadinho
            Julga-se pesado!
Vou dar-lhe uma “marcha”
            de bicho turuna...
Que ele se “arripuna”
            para andar calado!

Só não desafio
            Zeca Papagaio,
Pois começa em Maio
            e não perde um dia!
Corta sete meses
            pesa mil e tantos
– Tem por ele, os santos
            e a Virgem Maria...

Ou então é “pauta”
            com o “cabra-velho”!
Que criou chavelho
            em lugar de cr’ao!
Credo! Ave Maria!
            “qui cabôco” frouxo!
Para o “vei-cão cocho”!
            tem sua alma boa!

Bonito é o regímen
            dum bom seringueiro;
Ele e o companheiro
            – marcam certo a hora –
Desprezando as redes
            e o prazer do sono;
São dois cães sem dono...
            Partem, vão se embora.

Sucessivamente,
            tal se dá comigo:
Essa regra eu sigo
            com prazer e amor!
Madrugada cedo
            sou atormentado
Pelo cão danado –
            do despertador!

Este “galo-disco”
            das tripas de ferro,
Quando solta o berro
            não quer mais parar...
Me espreguiço e benzo,
            me levanto logo,
Vou fazer o fogo...
            trato de almoçar...
Um café de frasco,
            preto como tinta.
Cuja borra pinta
            dentro da tigela
Uma catacumba,
            um navio, ou barca,
Uma igreja, ou arca
            mausoléu, capela...

Eu e meu amigo
            caro companheiro,
Bravo seringueiro,
            chamado José,
“Embocamos” tudo
            – com prazer, sem luxo –
Para a “pá” do buxo
            carnes e café!

Terminada a “bóia”
            meu cachimbo fumo,
Cada qual, seu rumo
            parte diligente;
Chega na madeira,
            corta, e com cautela
Embute as tigelas
            segue novamente...
Neste desempenho,
            de cachimbo ao queixo,
Balde e saco deixo
            onde se bifurca
Minha extensa estrada
            tão cheia de dobras...
Onde sobre conras
            já dancei mazurka!

Nesses labirintos
            ou montanhas Russas,
Faço escaramuças
            na função do corte.
Posto, que cansado,
            não me sinto fraco!
Já nalgum macaco
            tenho dado a morte...

Finalmente, alcanço
            esse entroncamento
Que o povo – “Zé-Bento”
            – cá da minha laia –
Findamos o corte,
            chamamos de “feixo”,
Onde o balde deixo
            mal a aurora raia.

Lá me vou de novo
            pelo “labirinto”...
Já cansadas sinto
            Minhas fortes pernas...
Infeliz da mãe
            desse visionário
Que transpõe diário
            mais de cem cavernas!

Pelas duas horas
            chego na barraca,
Boto abaixo a maca
            vou tomar café.
Como alguma cousa
            pá forrar o peito:
Isso já tem feito
            meu cumpade Zé!

Acendo o cachimbo
            “e o meu leite aqueço”:
Logo no começo
            defumo um sapato:
Eis nosso calçado
            que aqui se gasta.
Só um par não basta
            para a estrada e o mato!

E a borracha rola
            sobre este cachimbo
Que vomita um nimbo
            lambiscando o teto.
Petrifico o leite
            da colheira diurna,
Dentro dessa furna
            própria dum inseto...

E a borracha cresce
            sucessivamente,
Na fumaça quente,
            crosta sobre crosta:
Vai avolumando
            qual balão tufado.
“Fico azucrinado”
            “quando a bixa tosta”!

Passo duas horas
            bem atarefado
Nesse humilde fado,
 mas, apetecido!
Pois, borracha é chave
            que destranca a porta
Dessa via torta
            do torrão querido!

Finalmente acabo:
            sobre a tábua lisa
Rebolo a camisa
            do bolão de oitenta...
Ponha a marca de ferro.
            (nos cobres me monto!)
Dívida dum conto?...
            comigo não aguenta...

Saco a blusa fora
            (tenho o corpo quente)
Assovio contente
            polkas, walsas, “chotes”,
Preparando a “bóia”
            penso nos vizinhos
Ambos, – coitadinhos –
            estão nos meus capotes!

Me sinto contente
            pelo dia ganho,
Vou tomar meu banho
            pra poder jantar.
E depois que janto
            deito na maqueira
Pra desta maneira
            eu poder cantar:

“Sou bom seringueiro,
            – mas não sou poeta! –
Minha predileta
            é a seringueira...
Vivo tão distante!
            Triste e degredado
Do meu berço amado
            “Maria Pereira!”

Repito de novo
            vivo desterrado,
Errante e isolado
            nesta zona infinda...
Mas espero em Deus
            que inda voltarei,
E me casarei
            com u’a moça linda!

*
* *

Agora leitor
            – da classe letrada –
Tu leste a “embolada”
            do meu cantador?...
De certo que sim:
            pois bem, foi verdade…
Cá na majestade
            das selvas sem fim
Também tem quem cante...
            (Natos trovadores)
Também tem atores...
            – Não vês o japiim?!

* *
*

(Melhorado: 1930).


REFERÊNCIA
LIMA, Francisco Peres de. Folk-lore Acreano. Rio de Janeiro: Brasília Editora-Rio, 1938.


SOBRE O AUTOR.: Amâncio Leite, um cearense acreanizado, viveu em Cruzeiro do Sul, no Vale do Juruá, Acre, no início do século XX. Foi seringueiro e um exímio poeta regionalista. Sua poesia desvela a vida dos seringueiros e seus anseios no seio da floresta amazônica. De sua autoria tem-se registro de um livro intitulado “Os cantares seringueiros” que veio a lume por volta do ano de 1930, dos quais sabe-se da existência de raros exemplares.
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