segunda-feira, 18 de abril de 2016

PADRE ANTONIO TOMAZ – Príncipe dos Poetas Cearenses

José de Anchieta Batista
Blog do Anchieta

Pe. Antonio Tomaz
O padre e poeta Antonio Tomaz nasceu na cidade cearense de Acaraú, no dia 14 de setembro de 1868. Iniciou seus estudos em Sobral, também no Ceará, transferindo-se para o Seminário de Fortaleza, onde foi ordenado sacerdote em 1881.  Em meio ao seu mister sagrado, mostrou-se também um exímio poeta, um sonetista magnífico, com indiscutível capacidade de resumir com maestria, em quatorze versos, uma contundente mensagem à humanidade. E embora seja vasta sua poesia sacra, o padre Tomaz não se prendeu tão somente a este estilo. Seus sonetos, com temas do cotidiano, fora do altar e da sacristia, são verdadeiras pérolas.

O padre-poeta e poeta-padre, após cumprir na Terra uma jornada de 73 anos, entre sacramentos e poesias, faleceu em 16 de julho de 1941, em Fortaleza, para onde se transferira ao final da vida, em busca de tratamento para sua debilitada saúde.

Sobre a vida e a obra deste grande poeta, sua sobrinha, poetisa e escritora, Dinorá Tomaz Ramos, publicou, em 1950, o livro “Padre Antonio Tomaz – O Príncipe dos Poetas Cearenses”, do qual extraí um trecho que resume a criatura que era este colossal poeta:

“... De acordo com as suas disposições testamentárias, foi o cadáver sepultado sem ataúde, não sendo colocada no local nenhuma lápide, nenhuma inscrição, nenhum nome, sem sequer uma data para assinalar que ali jazem os restos mortais do Reverendo Padre Antonio Tomaz, virtuoso Sacerdote Católico, consagrado Príncipe dos Poetas do Ceará.  Como se vê, quis morrer como viveu, na mais inviolável obscuridade. Nunca publicou os seus versos. Eram os amigos que levavam à imprensa cópia de suas produções. Deixou a proibição de que fossem os mesmos enfaixados em livro. Não quis, ao menos, que um epitáfio marcasse a sua mansão mortuária. Já muito doente, na Santa Casa de Sobral, que o acolhera, improvisou no dia 3 de maio de 1941, a instâncias de um amigo que o visitara, o seu último soneto – DESENCANTO -, abaixo transcrito, que bem exprime o estado da alma e do corpo em que então se encontrava. Foi Padre durante meio século. Morreu como vivera: desprendido, serenamente, discretamente”.


DESENCANTO

Muitas vezes cantei, nos tempos idos,
Acalentando sonhos de ventura;
Então da lira a voz suave e pura
Era-me um gozo d’alma e dos sentidos.

Hoje vejo esses sonhos convertidos
Num acervo de penas e amargura,
E percorro da vida a estrada escura
Recalcando no peito os meus gemidos.

E, se tento cantar como remédio
Às minhas mágoas, ao sombrio tédio
Que lentamente as forças me quebranta,

Os sons que arranco à pobre lira agora
Mais parecem soluços de quem chora
Do que a doce toada de quem canta.

Desejo aqui destacar um soneto historicamente atribuído ao Padre Antonio Tomaz, mas que, talvez pelo assunto que aborda, sua sobrinha Dinorá afirma não pertencer ao reverendo. Apesar disso, as publicações havidas em jornais e revistas, sempre lhe atribuíram a autoria:


NOITE DE NÚPCIAS

Noite de gozo, noite de delícias,
Aquela em que a noiva carinhosa,
Vai do seu noivo receber carícias
No leito sobre a colcha cor-de-rosa.

Sonha acordada coisas fictícias,
Volvendo-se sobre o leito, voluptuosa,
E o anjo de amor e de carícias
Fecha a cortina tênue e vaporosa.

Ouvem-se beijos tímidos, ardentes,
Por baixo da cortina assim velada,
Entre suspiros tristes e dolentes.

Se fitássemos a noiva agora exangue,
Vê-la-íamos bem triste e descorada
E o leito nupcial banhado em sangue.

Finalmente, para concluir esta humilde homenagem ao grande poeta das Terras de José de Alencar, brindamos nossos leitores com os sonetos “VERSO E REVERSO”, “CONTRASTE” e “O PALHAÇO”, certamente os mais conhecidos dentre os que escreveu o reverendo:


VERSO E REVERSO

Essa mulher, de face escaveirada,
Que vês tremendo em ânsias de fadiga,
Estendendo a quem passa a mão mirrada,
Foi meretriz antes de ser mendiga.

Fugiu-lhe breve, desta vida airada,
A mocidade, a doce e quadra amiga,
E chegou a ser velha e desgraçada,
Antes do tempo, a quanto o vício obriga!

Ontem, de gozo e de volúpia ardente
Fosse a quem fosse, dava a qualquer hora
O seio branco e o lábio sorridente

Hoje - triste sina! - embalde chora,
Pedindo esmola àquela mesma gente
Que de seus beijos se fartara outrora.


CONTRASTE

Quando partimos no verdor dos anos,
Da vida pela estrada florescente,
As esperanças vão conosco à frente,
E vão ficando atrás os desenganos.

Rindo e cantando, céleres e ufanos,
Vamos marchando descuidosamente...
Eis que chega a velhice de repente,
Desfazendo ilusões, matando enganos.

Então nós enxergamos claramente
Como a existência é rápida e falaz,
E vemos que sucede exatamente

O contrário dos tempos de rapaz:
– Os desenganos vão conosco à frente
E as esperanças vão ficando atrás.


O PALHAÇO

Ontem viu-se-lhe em casa a esposa morta
E a filhinha mais nova tão doente!
Hoje, o empresário vai bater-lhe à porta,
Que a platéia o reclama impaciente.

Ao palco em breve surge... Pouco importa
O seu pesar àquela estranha gente...
E ao som das ovações que os ares corta,
Trejeita, e canta, e ri nervosamente.

Aos aplausos da turba ele trabalha
Para esconder no manto em que se embuça
A cruciante angústia que o retalha,

No entanto a dor cruel mais se lhe aguça
E enquanto o lábio trêmulo gargalha,
Dentro do peito o coração soluça.
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