terça-feira, 2 de outubro de 2012

Série A POESIA ACREANA > Prof. Freitas

Isaac Melo


Para Fernando Pessoa o amor é uma companhia. Para mim, a poesia é uma companhia, e já não sei andar sozinho. Não há poetas grandes ou poetas menores. Se é poeta ou não se é poeta. Há poetas menos conhecidos, mas nem por isso deixam de ser menos poetas. A poesia, por não ter fronteiras, só conhece a infinitude do coração humano. E, parafraseando Bilac, só quem ama tem coração capaz de entender a poesia, senti-la como se sente o puro mel suavemente a envolver a boca num misto de prazer e encanto.

Apreciador sou dos clássicos poetas, porém, em meu coração há sempre lugar para os poetas de meu tempo, de meu chão. Leios com o mesmo enternecimento, o mesmo fascínio, pois são eles, hoje, que continuam a fazer o coração da humanidade florir, frente a tantas agruras e mesquinhez. Nenhuma guerra, nenhum reino, nenhum poder vale o sentimento profundo que a poesia pode causar num espírito humano. A sociedade do futuro, e de hoje, há de ser poética ou será esquelética.

A poesia acreana, como expressou o sociólogo Jacó César Piccoli, é feita de vida, feita de amor, palpitante, selvagem, popular. De cada recanto do Estado emerge os seus representantes. Tarauacá, berço de grandes expressões poéticas, como J. G. de Araújo Jorge, é terra em que o veio d’água da poesia nunca deixou de minar, como cacimba boa que resiste ao inclemente sol de verão. Um nome que desponta nesse cenário é o de Francisco Alves Freitas, o prof. Freitas, como é conhecido.

Nascido nas barrancas do Rio Muru e criado às margens do Rio Tarauacá não teria como ser diferente, sua poesia traz a força das águas, a beleza da selva com tudo que ela encerra, e o louvor de sua fé. O estudo, a leitura, as letras, a poesia fez dilatar as fronteiras de seu seringal. E com as asas da poesia ultrapasssou os limites do grande tapete verde e fez seu canto ecoar além do horizonte. Só o fato de se dedicar ao ensino há mais de três décadas é motivo suficiente para um sincero e profundo apreço. Mas, há que se educar além da cabeça, o coração, os sentimentos. E isso foi o que fez. Homem temente a Deus, com toda profundidade e verdade que tal assertiva pode ter ante a carga depreciativa que toma nos dias atuais.

Prof. Freitas possui dois livros publicados “O amor, a natureza e o povo” e “Brados de vida”. Grosso modo, podemos distinguir três temáticas principais que perpassam praticamente toda sua obra: 1) o amor; 2) Deus; e 3) a natureza. O poeta abre seu coração aos enleios do amor, da grandeza do amor humano, que em medida mais sublime, é expressão do amor divivo. Porque o amor divino só é possível à medida que assume a face humana. Por isso, ele canta as benesses do amor, com suas alegrias, dores e saudades. Paradoxalmente, apenas a ‘escravidão’ do coração nos fará livres.

Um poeta tocado e que se deixa tocar pelas coisas simples, que reconhece nos pequenos acontecimentos da vida a grandeza de seu Criador. Então o coração do poeta, como água abundante de fonte a jorrar, se extasia em versos, a lembrar os magníficos louvores entoados pelo povo de Deus ao longo da história, como autêntico salmista de nossos dias: “Meu Deus, como és sublime / Quando contemplo as flores, / O orvalho da manhã, / A fina teia da aranha, / O nascer de um passarinho, / O voo suave de um pássaro, / O sorriso de uma criança, / E dos grandes astros o caminho.” Assim, nos versos do prof. Freitas, recordamos os versos da grande poeta Adélia Prado: “Poesia sois vós, ó Deus / Eu busco vos servir.” A poesia, a mais íntima, é a divina relação da criatura com seu Criador.

Por fim, não está ausente, na poesia do prof. Freitas, a problemática social e ambiental. O poeta é enfático, e ergue seu brado enérgico contra os “homens sem ética, ladrões e profanos, / Assolando o povo com corrupção.” Não é também o brado de todos nós? Ainda mais na atual conjuntura política em que se encontra a política nacional, desacreditada e imoral? Além disso, há a preocupação ecológica, que antes não se fazia necessária, hoje, tornou-se indispensável, frente aos abusos humanos advindos com o aperfeiçoamento da técnica e da tecnologia. Mas tudo isso passa pelo olhar atento do poeta, e, com seus versos, conclama a responsabilidade humana não só por outros seres humanos, mas também por toda natureza, que ‘chora em dores de parto’. Em contrapartida, canta as belezas da floresta, com a diversidade de seus cantos, cores, aromas, paisagens. O coração enfeiurado só se cura com a beleza, a beleza que nasce do próprio coração.

Estendemos aqui nossa homenagem a esse ilustre poeta acreano-tarauacaense que contra o silêncio dos covardes ergue seus brados de vida, a nos encantar, e nos cantar as belezas do amor, de Deus, da vida e da natureza no altar de nossos corações, “pois os que amam sem amor não terão o reino dos céus”.


FOLHAS CAÍDAS
Prof. Freitas

Folhas caídas, levadas ao vento,
Como uma lembrança
que o tempo apaga,
Esquecemos logo, sai do pensamento.

Folhas caídas, é como o amor;
Que partiu errante,
Deixando saudade,
Ficou o silêncio, matando de dor.

Folhas caídas, é humo certeiro;
Eu estou distante!
Ela está ausente,

É como um sonâmbulo ou um seresteiro,
Que perdeu a amante,
E seu coração ainda está doente!


SONETO ÀS MINHAS MEMÓRIAS
Prof. Freitas

Velha seringueira, onde descansei
Nos dias quentes, comendo meu pão,
Sentado ao teu tronco, lá eu estudei,
Fazendo exercícios; revendo a lição.

Fiz as refeições, sob a tua sombra,
Sobre folhas secas, pensava na vida,
Às vezes alegre, às vezes tristonho,
Com a alma festiva, às vezes abatida.

Velha seringueira, árvore centenária,
Foste derrubada, não tens esperança!
Hoje quando passo, me restam as lágrimas

A recordação, dos tempos de criança...
Mas vem-me à memória: tudo se acaba!
Das coisas da vida, ficam só lembranças.


TEMPO
Prof. Freitas

Tempo que carrega a vida
Que apaga o amor
Que faz esquecer a dor
Das vidas divididas.

Tempo que apaga o olhar
Que muda o coração
É tempo contra mão
De quem deixou de amar.

Tempo sem lembranças
Sem estrelas
Sem beleza
Sem grandeza
Sem esperança

Somos peça
Desse tempo
No negrume
da noite
Apaixonados
Descontentes
Descuidados
Desamados
No universo
Sem sonhos
Sem poesias
Sem versos.

Somos pássaros
Fugitivos
do amor
Da alegria
Que o tempo
Destruiu e apagou!..


E DEUS FALA
Prof. Freitas

Num universo sem definições,
Pássaros cantam duetando com o assobio do vento e com o
ciciar dos insetos,
Como o rugir dos motores dos automóveis,
E com o murmurar do mar.
Sou caminheiro do destino,
Da saudade e da solidão,
Entre pedras, entre areias,
A contemplar o mar, verde mar, nesta imensidão.

Céus que se turvam; se azulam;
Sol que brilha entre as verdes palmeiras e matagais;
Meus sonhos se colorem
Neste verde mar a beijar as pedras,
Teu corpo, a areia, nada mais...

Neste cenário, se perdem os pensamentos meus,
Entre sonhos e realidade,
Entre lembranças e recordações,
Entre preces e saudades
A contemplar a grandeza de Deus.

Fortaleza – 23.11.2001


TEUS OLHOS
Prof. Freitas

Quando vejo teus olhos claros
Sob a luz solar de raios transparentes
E num sorriso teus lábios declaram
Um amor imenso, meigo e presente.

Quando fito teus olhos claros
Sob a luz ardente dos raios do sol
Oh como é difícil! São momentos raros
Ver teus olhos lindos, como o arrebol.

Ah se eu pudesse, se eu pudesse um dia!
Ler teus pensamentos e ler nos teus olhos:
por que fitam longe o azul do infinito?
E sem palavra alguma ungem como óleo.

Ó princesa, não direi teu nome!
Mas tu saberás que falo de ti
Leio em teus olhos que algo te consome
E quase a soluçar pensas em partir.

Sei que teus olhos sonham, sonhos de amor
E fitam ao redor o verde da paisagem
É como um perfume a transpirar odor
Trazendo-me o amor, como uma miragem.

Não esqueço teus olhos, a contemplar o infinito!
As flores, o céu, o azul sem fim!
Os pássaros brancos, a voar bonito
Te quero meu amor, sempre perto a mim.


QUATRO PAREDES
Prof. Freitas

Entre quatro paredes me encontrei,
Num silêncio, que a noite encerra,
No travesseiro eu te procurei,
me senti estranho, como em outra terra.

A escuridão da noite que jazia,
E o silêncio que enchia o quarto,
O coração bate e tem fantasias,
E te procurava entre os meus braços.

E a cama que parece fria,
Deitado nela, fiquei sem jeito,
Senti teus lábios me acariciando,
E por instantes, eu senti teu peito.

Então compreendi que não era sonho,
Era realidade e fiquei pensando,
Ouvi tua voz, com amor risonho,
Senti tua mão, me acariciando.

Depois parti pela noite adentro...
Calmo e fugitivo na escuridão,
Te levei comigo, em meus pensamentos,
Te deixei sozinha... Mas que solidão!...


CORRUPÇÃO
Prof. Freitas

É inegável, que existe dano,
Em cada escala da administração,
Homens sem ética, ladrões e profanos,
Assolando o povo com corrupção.

Cada bem público custa muito mais,
Sempre que envolve a corrupção,
O povo sofre, não aguenta mais,
Gerando miséria; gerando inflação.

E a impunidade, assola as ruas,
Nunca se fez nada; não tem solução,
Gastam as riquezas, que são minhas e tuas,

Sofrem nossos filhos; comem o nosso pão,
Deixando as cidades, cada vez mais nuas,
Com o vírus maldito da corrupção.


A MORTE DO PLANETA
Prof. Freitas

A terra está muito mudada:
O horizonte já está cinzento;
A camada de estufa, aquecendo o ar,
Particulas voando, fuligem, carbono. . .
Tornando difícil, pra se respirar.

O verde está sumindo,
Surgindo desertos na terra,
Cachoeiras e rios vão ficando secos,
Pássaros, animais desaparecendo
O sol emitindo raios ultravioletas.

Rios e oceanos estão abarrotados:
De esgotos, chumbo e mercúrio,
Sacolas, embalagens, muitos detergentes,
Devastando peixes e microorganismos,
Venenos humanos, estão matando gente.

O planeta terra nos pede socorro!
Poluição sonora e também visual,
Ondas magnéticas estão cortando os ares,
A camada de estufa afetou os pólos,
Meu planeta morre; e deixa pesares!...

O planeta terra está saturado:
Derretendo o gelo, tremores de terra,
Cheias e desertos, ventos, furacões...
É gente demais; já não há espaço,
Falta água potável pros sete bilhões.


POEMAS À MADRUGADA
Prof. Freitas

É madrugada a noite está calma,
O céu azulado, anunciando a aurora,
Lembro-me de ti, a saudade na alma,
A presença de Deus, sinto nesta hora.

É madrugada, o galo já canta,
A brisa refresca a paisagem,
Abrem-se as rosas, que perfumam tanto,
Vemos o horizonte, como uma miragem.

É madrugada, dos sonhos mais lindos,
Ou de quem acorda para sair cedo,
De quem busca a Deus, momentos infindos,

O sol vai nascer, espantar o medo,
Alguns se despedem, pois já vão partindo,
E na cama, alguns, sussurram segredos.

                  II

É madrugada, o capim molhado
É bom que o mundo acorde, o silêncio devasse,
Irradiando luz, clareando os prados,
O que estava oculto, agora se mostrasse.

É madrugada, a lua está branca,
Minh'alma medita, sentindo-se triste,
Aos poucos, o passarinho canta,
Pois na madrugada o amor consiste.

É madrugada, oh meu paraíso!
Vejo a natureza; o mundo colorido,
Esqueço as mágoas, do amor perdido,

Surge a esperança, um novo sentido,
Vem-me a memória o que havia esquecido,
Remove a tristeza, do coração ferido.

                  III

É madrugada, do canto dos pássaros,
Nas lâmpadas caem a última serração,
E quem vai partir: um beijo, adeus, um abraço. . .
Ficando a saudade; fica a solidão.

É madrugada, muitos estão dormindo,
Muitos estão sonhando. . .
As estrelas do céu vão sumindo,
E alguns, uma prece, a Deus ofertando.

É madrugada, começo do dia,
Acordo mui cedo; contemplo o infinito!
Vejo a Via-Láctea; traz-me alegria,

Ouve-se bem longe, do vaqueiro o grito,
Nosso coração cria fantasias,
Tudo é madrugada; oh! Mundo bonito!...


PLANETA MORTO
Prof. Freitas

Meu planeta está muito mudado!
Muitos poluentes
Detergentes
Gases
Fumaças
Que envenenam a gente!

Meu planeta está modificado!
Cheio de venenos
Tudo está morrendo
Radioatividade
Mercúrio
A terra varrendo!

Meu planeta está virando lixo!
Bombas
Que assombram!
Contaminação
Lixo industrial
Pondo nossa vida em risco.

Meu planeta está devastado...
Quase sem florestas
Os montes e arestas
Estão sem animais
Oh! que triste estado!

Meu planeta está ficando quente!
Muitos furacões
Desertos, sertões,
Secas,
Tempestades
Estão matando gente!...

Meu planeta está por um triz!
Bonito que era
Azul. . . primavera,
Verde, colorido,
Mas hoje ferido
É muito infeliz!...
Não é verde mais,
Hoje está cinzento,
Morfo, fedorento,
Águas poluídas
Animais sem vidas
Se ouvem seus ais!...


LIBERDADE
Prof. Freitas

Ó liberdade, me ilumina agora!
Ao som de harpas e guitarras famosas,
Quero-te sempre, todo dia toda hora,
Na terra dos viventes, és a mais gloriosa.

Não quis os pedestais, e não tenho saudades,
Nada substitui os valores dela,
Por nada troco minha liberdade,
Das bênçãos da terra, tu és a mais bela.

Ó liberdade, eu nunca te esqueço!
Meu coração palpita no berço do teu ninho,
Nada pagará; valerá teu preço,
Quero-te raiando sempre em meu caminho.

Liberdade é o sonho intenso de quem vive,
Quero adormecer, eternamente em teus braços,
Nada me importa! MAS QUERO SER LIVRE,
Longe das algemas, dos grilões, dos laços.

Ó liberdade, bem mais precioso!
Pra todo ser vivo, até o passarinho,
Quero ter o vento soprando no rosto,
O sol, as estrelas, pelo meu caminho,
De tudo que eu sei, de tudo que eu conheço. . .
A maior riqueza, meu maior apreço,
pois MINHA LIBERDADE, NUNCA TERÁ PREÇO!...


EU E VOCÊ
Prof. Freitas

Somos peças
Desse tempo
Que não pára
Que não muda
Como incêndio
De coivara
A queimar tudo.

Somos mensageiros
Do amor
Companheiros da saudade
Triste, aventureiros
Do amor,
Do destino, da fatalidade!

Eu e você
Somos assim
Flores sem perfumes,
Pássaros a voar sem fim,
No vazio, na escuridão,
Nas lembranças,
perdidos na solidão.

Eu e você
Dois pontos na imensidão...
Preocupados
Sem motivos, sem razão.
Divididos, amados,
Quase perdidos
Escravos do coração.

Indiferentes ao preconceito
Com sonhos
Com esperança
Às vezes magoando o peito
À luz de tantas lembranças
presos no mundo dos laços
Sem razão, sem jeito,
Sem espaço,
No mundo indefinidos
Como chumaços proibidos.


JANELA
Prof. Freitas

Vi pela janela passarem os ventos,
A brisa suave, que refresca o quarto,
Quando estou deitado, um pequeno tempo,
vejo as estrelas, que povoam o espaço.

Quando é noite fria, a deixo fechada,
Mas quando amanhece, o sol logo bate,
Raia a claridade em sua fachada,
E abrindo vejo, meu pé de tomate.

Janela querida, dos sonhos mais lindos,
Quando ainda escuro, vejo os passarinhos,
De lá posso ver o vizinho sorrindo.

Dela vejo a horta, quando é bem cedinho,
Vejo meus cachorros, ainda dormindo,
por ela Deus ver, todos os meus caminhos.


CARTÃO POSTAL
Prof. Freitas

Pequena lembrança, que o tempo amarelou,
Mas que falam muito, pela vida inteira,
Cartão de natal, cheio de amor,
Com inspiração, pura e verdadeira.

Amiga de outrora, meiga e pequena,
O tempo passou; não foste esquecida;
Amiga querida, rosa de açucena,
Hoje estás distante, e vives outra vida.

Pequeno cartão, com grande mensagem,
Falando de Deus, que está presente,
Lembro seu poder, oh! Bela paisagem!

Todos nós mudamos; hoje é diferente!
Vamos pela vida como carruagem,
Teu cartão relembra, e faz-me contente.


LEMBRANÇAS
Prof. Freitas

Há na vida:
Uma indiferença
No amor
Na dor
Sem tua presença.

Há em cada instante:
Uma saudade louca
De te abraçar
De te apertar
E beijar tua boca.

Há em cada sonho:
Uma eterna lembrança
De cada beijo
De desejo
E muita esperança.

Há no teu perfume:
Uma recordação
Vivida, sonhada,
Amada, guardada,
No coração.



*Poesias disponíveis no blog Asas da Liberdade, do prof. Freitas.

FREITAS, Francisco Alves. Brados de Vidas. Rio Branco: Printac: Gráfica e Editora, sd.
FREITAS, Francisco Alves. O amor, a natureza e o povo. Edição do autor.

segunda-feira, 1 de outubro de 2012

BRASILEIRO POR OPÇÃO - XVII

José Augusto de Castro e Costa


Em Xapuri as autoridades bolivianas não eram muitas e estavam alojadas em três casas: na Intendência, onde residia o próprio Intendente, Dom Juan de Dios Bulientes, na de Alfredo Pires e na de Augusto Nunes, português, colaborador dos bolivianos.

Ao saltar em terra, Plácido de Castro dividira a pequena força de 33 homens em três grupos, para atacar simultaneamente as três casas, reservando para ele a do centro, onde funcionara a Intendência.

Penetrando onde achara-se o Intendente, de lá, em silêncio, retiraram algumas carabinas e dois cunhetes de balas, para em seguida chamar o comandante em alto brado, o qual, ainda sonolento respondera: “Es temprano para la fiesta”, ao que Plácido, elevando o tom, retorquiu: “Não festa, Sr. Intendente, é revolução”.

Levantaram-se, sobressaltados , o Intendente e os seus comandados. Deixando-os sob guarda, Plácido dirigira-se à casa de Augusto Nunes, onde Moreira nada houvera feito. Ali todos foram presos, enquanto o coronel Galdino já viera da casa de Alfredo Pires, escoltando vários bolivianos, caracterizando-se assim, o início da revolução acreana.

Tropa do exército acreano, em marcha, em 1902, tendo a frente Plácido de Castro.
Neste mesmo dia 6 de agosto continuaram a reunir gente, verificando o Caudilho que alguns proprietários prometiam tudo, mas em verdade mostravam-se receosos. O coronel José Galdino era quem agia com mais desassombro, sem parcimônia.

Plácido convocara uma reunião para a madrugada seguinte, a qual se realizara conforme esperado. Nela expusera as razões que determinaram a revolução e ouvira a eloquência das palavras dos senhores Dr. Albino dos Santos Pereira, Gastão de Oliveira e Manfredo Álvares Affonso.

Em seguida o Caudilho convidara os presentes a proclamar a independência do Acre, com o nome de Estado Independente do Acre, e sugerira o ato simbólico de ser hasteada a bandeira ao som da Marcha Batida, pois já havia um corneteiro entre eles, fato que todos reverenciaram, tirando o chapéu respeitosamente.

Foi lavrada uma Ata, da qual Plácido de Castro mandara extrair várias cópias, para serem distribuídas rio abaixo, imediatamente, enviando uma ao Delegado boliviano, em Puerto Alonso, a fim de que, se alguém fraquejasse, não pudesse recuar, visto de haver comprometido com a assinatura no documento.

Os prisioneiros bolivianos foram expulsos do território via Iaco, enquanto Plácido descia o rio Acre a frente de 64 homens, ficando o coronel Galdino no comando da guarnição de Xapurí, que se compusera de cerca de 150 homens, e com ordem de recrutar quantos fossem necessário.

Ao embarcar com seu grupo para descer o rio, Plácido tomara conhecimento de que um judeu-francês, estabelecido na região, estaria fazendo reuniões ocultas, com o fim de sufocar a revolução, talvez não acreditando que o movimento triunfasse.

Ato contínuo, Plácido mandara prender esse estrangeiro, levando-o em sua companhia, na sua própria canoa.

No terceiro dia de viagem, o Caudilho recebera um recado que lhe enviara o coronel João do Monte, comunicando que o batalhão boliviano já haveria chegado em “Capatará”, com grande numero de efetivo.

Continuando a marcha, chegaram ao seringal “Itu”, de onde Plácido mandara reconhecimentos a “Capatará”, por água e por terra, recebendo, em seguida, a informação de que a notícia era falsa, pois ainda não se soubera nada sobre o batalhão boliviano ali esperado. Era final de agosto quando a tropa revolucionária chegara a “Capatará”, pela manhã, partindo em seguida para “Benfica”, onde o Caudilho soubera que, com sua demora, em vista de forte impaludismo, muitos companheiros haviam fugido, dando crédito ao boato sobre sua morte, enquanto outros seriam presos pelos bolivianos, que já possuiriam conhecimento da revolução.

Entre os dias 1 e 7 de setembro, no seringal “Liberdade”, Plácido de Castro ocupara-se em convocar os vizinhos e em reunir muita gente. Segundo ele, muitos foram agarrados, já em fuga, pelo pavor que lhes haveriam causado a prisão e a fuga de seus chefes.

Continuando a marcha revolucionária, Plácido chegara a “Caquetá”, ali encontrando seu conterrâneo Gentil Norberto, o qual viera informar-lhe que trouxera de Manaus 120 Winchesters, 100 encapados de farinha e 12 cunhetes de balas, de vez que fora encarregado pelo governo do Amazonas de fazer guerra no Acre, demonstrando, ao Caudilho, não possuir a mínima noção sobre coisas militares, muito menos bélicas.

Logo a seguir apresenta-se o Sr. Rodrigo de Carvalho, que se dissera com a mesma incumbência do governo amazonense. Notara-se ser público o desentendimento dos dois, passando os dias em implicância mútua, em discussões estéreis e em troca de insultos e inculpabilidades.

Prosseguindo viagem Plácido passara pelos seringais “Bagaço” e “Liberdade”, preparando-se para atingir a Empresa, quando, ao romper do dia 18 de setembro, as 5:30 horas, foram surpreendidos, em cheio, no campo da “Volta da Empresa”, pela primeira descarga de balas, a céu aberto. A tropa acreana, estupefata, reagira como pudera, em tiroteio intenso.

Extinta a munição, a derrota pronunciara-se pelos revolucionários, a despeito do esforço despreendido para evitar o desastre.

A estreia dos acreanos em campo de batalha contabilizara baixa de 22 mortos, dez feridos e 6 evadidos.

O inimigo, não obstante achar-se munido de fuzil, também tivera suas arranhaduras, constante de 10 mortos, inclusive um capitão, e 8 feridos. Mesmo em número superior, os bolivianos não efetuaram perseguição aos brasileiros.



Leia aqui a série


* José Augusto de Castro e Costa é cronista e poeta acreano. Mora em Brasília e escreve o Blog FELICIDACRE.

sábado, 29 de setembro de 2012

ACRE QUERIDO do ilustre sambista DA COSTA

Jofre Barbosa da Costa nasceu em 1930, ou o ano da Revolução, como o mesmo gostava de frisar. Sobreviveu trabalhando nas mais diversas áreas, fazendo de tudo: foi pedreiro, agricultor, inspetor de alunos. Era filho de tacacazeira e carpinteiro. Ajudou a construir o Palácio Rio Branco, sede do governo acreano. E, sempre que podia, fazia um samba.

O cantor e compositor de sambas Da Costa, como ficou conhecido em sua carreira musical, gravou e vendeu diversos LP’s. Se apresentou em Manaus, em Brasília e no Rio de Janeiro, o berço do samba. Gravou e realizou parcerias com importantes nomes da cultura acreana, como Jorge Cardoso. Em seu repertório, desfiava canções de Ataulfo Alves e Cyro Monteiro. Dividiu o palco com duas lendas do samba nacional, Noite Ilustrada e Paulinho da Viola.

Da Costa faleceu em agosto de 2005.

sexta-feira, 28 de setembro de 2012

BRASILEIRO POR OPÇÃO – XVI

José Augusto de Castro e Costa



Rodrigo de Carvalho

O Coronel Rodrigo de Carvalho, no então cenário acreano, não seria apenas um extremado revolucionário, ainda que teoricamente, mas era um elemento precioso de êxito, mesmo sem contar com sua função de alto funcionário do governo amazonense.

Fora através de sua simpatia que ele servira-se para subornar um brasileiro, funcionário da Delegação Boliviana para obter todas as informações e até particularidades oficiais das autoridades de Puerto Alonso, ao longo dos dois anos do domínio da Bolívia.

Corria a metade do ano de 1902, quando aos seringais chegara a preocupante notícia de que a Bolívia arrendara toda a região acreana a uma empresa estrangeira, o "Bolivian Syndicate".

Todos sentiram o pavor da presença da aliança que vinha de fazer o invasor, colocando a seu lado o imperialismo americano para disputar o território brasileiro, de onde saiam os capitais para a exploração comercial que pretendiam os estrangeiros.

Foi então que surgiu, dos bastidores das tentativas revolucionárias, a figura empolgante de José Plácido de Castro, um gaúcho que àquela região chegara há uns dois anos antes, estimulado pelo convite de dois conterrâneos, Gentil Norberto e Orlando Lopes.

Plácido de Castro
Há muito que Plácido de Castro considerava que a presença das autoridades bolivianas, alí instaladas com o consentimento prévio do governo brasileiro e pela força das armas impondo-se à população acreana, afigurava-se uma afronta à Nação, um atentado inominável à integridade da pátria.

Os acontecimentos que presenciara ao longo do rio Acre, Purus e Iaco viriam tornar apreensível sua alma patriótica, clamando uma reparação. O arrendamento daquelas terras, por fim, apresentara-se como um grande perigo à ordem política continental e à própria integridade do Brasil.

Fora Plácido quem apelidara a Expedição que sucedera Galvez, de “Expedição dos Poetas”, por tratar-se de um grupo formado por intelectuais sonhadores, entusiasmados utopistas, quando vira da janela da pensão, aquela euforia desembarcar em Lábrea.

Seis meses após, no exercício da profissão de agrimensor, munido da indispensável provisão, achava-se Plácido de Castro demarcando o seringal "Vitória", de propriedade de José Galdino. Testemunhara que os bolivianos haviam elevado à categoria de Vila o povoado de Xapurí, com o nome de Antonio Antunes de Alencar, que alí gozava de algum prestígio e que envidara esforços para conciliar os brasileiros com os bolivianos, em parte conseguindo, tanto que se fez eleger intendente conjuntamente com o Dr. Magalhães. Continuava, entretanto, o desgosto dos brasileiros, sobretudo devido aos rumores que lá chegaram do arrendamento do Acre a uma companhia estrangeira.

Precisamente em 23 de junho de 1902 chegaram às mãos de Plácido de Castro alguns jornais que noticiavam como definitivo o arrendamento do território acreano e estampavam o teor do contrato, então firmado entre a Bolívia e o "Bolivian Syndicate". Plácido de Castro considerara a matéria como uma completa espoliação feita aos acreanos, aos quais obviamente sentira-se incluído. Viera-lhe à mente a idéia cruel de que a Pátria Brasileira iria-se desmembrar, pressentindo que aquilo era o caminho que os Estados Unidos abriam para futuros planos, forçando o Brasil desde então a lhes franquear à navegação dos nossos rios, inclusive o Acre. Qualquer resistência ensejaria aos poderosos americanos o emprego da força e a desgraça nacional em breve estaria consumada, conforme precedentes ocorridos na Ásia e na África.

Plácido de Castro guardara, apressado, a bússula de Casella, de que se estava servindo, abandonara as balisas e demais utensílios e saira no mesmo dia para a margem do rio Acre. Lembrara-se do apelo suplicante e desesperado que lhe fizera Rodrigo de Carvalho, anteriormente, ainda em Manaus, após o fracasso da Expedição dos Poetas, tendo ele declinado.

Há algum termpo, porém, pressentindo essa situação, houvera ele falado a vários proprietários de seringais na possibilidade de uma resistência, consultando-os se com eles poderia contar.


José Galdino

Segundo o Caudilho, de todos foi o coronel José Galdino, incontestavelmente, quem demonstrara melhores disposições de auxiliá-lo. Com ele combinara em como a revolução se faria: Plácido desceria até "Caquetá", concitando à luta os demais proprietários, devendo romper o movimento em "Bom Destino", seringal de propriedade de Joaquim Victor da Silva, um grande entusiasta da revolução e a pessoa de maior prestígio no baixo Acre.

Nessa conformidade Plácido descera a 25 de junho de 1902 de "Vitória", em uma canoa de José Galdino, passara a 29 em "Bagaço" e a 30 chegara a "Bom Destino".

Depois de entender-se com o coronel Joaquim Victor, que, segundo o Caudilho, foi o acreano que maiores sacrifícios pecuniários fizera pela revolução, ficara acertado descerem até "Caquetá", onde se achara o diretor da Mesa de Rendas do Estado do Amazonas, Rodrigo de Carvalho, o qual proclamara lhe haver o governador Silvério Nery, remetido grande quantidade de armamentos com destino à revolução. Logo a seguir encontrara o engenheiro Gentil Norberto apresentando-lhe, verbalmente, idêntica credencial do governador amazonense.

Em "Caquetá", no dia 2 de julho de 1902, em reunião que contara com as presenças de mais adeptos, trataram tão-somente da revolução e, por proposta de Plácido, ficara assentado em que seria formado uma junta revolucionária composta dos coronéis Joaquim Victor da Silva, José Galdino de Assis Marinho e Rodrigo de Carvalho, e que, rompendo as hostilidades, a mesma ficaria automaticamente extinta, para que só ficasse em ação uma única autoridade - o comandante-chefe, no caso Plácido de Castro.

Plácido não conseguira apoio para que a revolução rompesse no baixo Acre, como desejara, ficando assentado que o movimento romperia em Xapurí. Tendo para alí regressado, o Caudilho não tinha certeza do êxito da revolução, de vez que todos declaravam empenhar o melhor de sí, mas ninguém se dispusera a ser o primeiro.

A 4 de agosto era a primeira segunda-feira do mês e, segundo superstição local, os acreanos consideravam dia aziago. Como um dos seus remadores dissera-lhe que não trabalharia, por ser a primeira segunda-feira de agosto, e poderia haver algum desastre, Plácido sacara o revólver e repreendera em alto e bom tom: "Se trabalhares, pode ser que te aconteça algum desastre, mas se não trabalhares é certo que morrerás já" - e com um tiro n'água indicou-lhe o caminho a seguir.

O homem que parecera firmemente a não mexer-se, rompeu imediatamente em movimento a canoa.

Às 22 horas, em meio de profunda escuridão estavam passando em frente à povoação de Xapurí, sem serem percebidos, pois Plácido tivera o cuidado de advertir de que não fizessem barulho com os remos na borda da canoa. O velho canoeiro, ainda aí se portara mal, obrigando o Caudilho a fazê-lo compreender que, se fossem descobertos, ele perderia a vida no mesmo instante.

Ao passar pela povoação Plácido mandara por terra um homem a "Vitória" comunicar ao coronel José Galdino que estava indo por água e que ele deveria reunir imediatamente todo seu pessoal, pois, conforme ficara assentado, aquela hora todo o baixo Acre deveria estar conflagrado.

O mensageiro chegara à "Vitória" na mesma noite, enquanto Plácido, somente no dia seguinte, às 9 horas da manhã, aparentando uma alegria e, em bom humor, dizendo que a revolução não duraria 20 dias, pois achara que o entusiasmo no baixo Acre era imenso.

O coronel Galdino mandara efetivamente reunir o seu pessoal, conseguindo o comparecimento de 33 homens, inclusive seu filho Matoso. Passaram o resto do dia confabulando e recaptulando os passos da revolução.

Com esses 33 homens, ao cerrar da noite, seguiram em canoas para Xapurí, onde chegaram às 5 horas da manhã, quando vinha rompendo a aurora.

Era 6 de agosto, sem que soubessem os revolucionários, dia comemorativo à independência da Bolívia, pelo que estava preparada uma grande festa. Na véspera as autoridades bolivianas haviam dormido muito tarde, depois de abundantes libações e dos cânticos patrióticos do costume, pelo que àquela hora da manhã dormiam ainda a sono solto.


Leia aqui a série


* José Augusto de Castro e Costa é cronista e poeta acreano. Mora em Brasília e escreve o Blog FELICIDACRE.
** Fotos retiradas do Livro 'O Acre e os seus heróis' de Napoleão Ribeiro.

domingo, 23 de setembro de 2012

REAIS FICÇÕES DE LEILA JALUL

Isaac Melo


“Luzinete: um angu de caroço?” é o insólito título do mais novo livro de Leila Jalul. Trata-se de uma série de crônicas concatenadas que fizeram vir à tona um romance. Jalul não se utiliza de um hermetismo literário, nem de um eruditismo para tecer o seu fazer literário. Ela vai à vida, bruta como é. Para então recolher as pérolas jogadas aos porcos.

Sou do parecer de uma literatura acreana desacreanizada, para se tornar creditada e acreditada. Entenda por desacreanizar, o afastar-se de um mero regionalismo que espelha apenas os aspectos histórico-sociológicos do Acre, aspectos estes que podem ser trampolins para se chegar à literatura, não um fim em si. Clodomir Monteiro, em “A sinuca da Olaria”, e Florentina Esteves, em o “Empate”, são claros exemplos de como a literatura acreana progride. Embora se utilizem de elementos locais, o que fazem assume dimensão universal, entre outros, por contemplarem em seus enredos elementos comuns a qualquer um, em qualquer lugar, a qualquer tempo. Assim também penso em relação à Leila Jalul.

Nota-se, nos escritos de Jalul, a facilidade com que transita por caminhos e temas diversos, em sintonia com o ambiente dos enredos. Assim ela vai do norte da Itália a um seringal da Amazônia ou a uma fazenda no interior da Bahia, e traduz, com precisão literária, a realidade de cada um, com suas peculiaridades. O tecido de tramas, no entanto, não se afasta da vida humana, com toda a teia de complexidade que a envolve. Jalul é uma escritora de seu tempo, com as glórias e os horrores de seu tempo. Suas personagens não são andróides ou seres de um mundo desconhecido, mas homens e mulheres que se assemelham a qualquer um de nós. É assim com Luzinete.

Dante cantou Beatriz, Jorge Amado imortalizou Gabriela, Bandeira poetou às moças do sabonete Araxá, e Leila Jalul nos legou a baiana Luzinete. Conforme Nicinha Padilha, Luzinete nos “transporta para o universo de mulheres com as quais convivemos diariamente”. Ela é a realidade que emerge da ficção ou seria a ficção que emerge da realidade? Como faz saber Luiz Felipe Jardim, a “Ficção é uma realidade que se diferencia da pura realidade somente por não ter acontecido como a Realidade gostaria que tivesse acontecido”.

Ao longo do viver, deparamo-nos com pessoas que não se encaixam nos padrões convencionais a que estamos habituados a conviver. Fogem e fazem fugir da mesmice de uma vida em constante linha reta de insignificâncias. Provocam-nos, concomitantemente, os mais distintos sentimentos, ao passo que incitam raiva, inspiram ternura. Pois, como revela a autora, “não são todos os dias e nem sempre que ela entra macio nas goelas estreitas e entupidas da grande maioria das pessoas”. A relação entre as duas, Leila e Luzinete, a iniciar em aparente desacordo, solidificou-se com o passar do tempo numa relação quase maternal, de mãe e filha. A discrepância de idade e de cultura não fez com que uma precisasse “descer para baixo” e nem a outra “subir para cima”. Talvez poder-se-ia utilizar, em analogia às duas, os célebres personagens de Cervantes, Dom Quixote e seu fiel escudeiro Sancho Pança, em que um se apresenta necessário ao outro.

Luzinete, por sua vez, não pode ser reduzida a um mero estereótipo, a de mulher sem papas na língua, grosseira, mexeriqueira, nociva até. Embora pareça andar na contramão de certas convenções, como fazer tatuagem nas sobrancelhas e arrancar o próprio dente com o alicate de mecânico do marido, revela-se uma mulher sensível, capaz de se enternecer com as flores, atenta aos acontecimentos a sua volta, honesta e destemida, não se curva às injustiças, uma mulher que ama, mesmo não recebendo a mesma medida de amor com que amou, e que sempre tem um sorriso a partilhar, em sua vivacidade arguta e sofrida. Tem certo quê de ingenuidade, com suas deduções literais, como a que faz usar Cândida (ácido muriático) para curar candidíase. Porém, é uma ingenuidade de quem desde cedo foi privada das asas da educação, que, deduz-se, um dia a faria alçar voos mais profundos, altaneiros. Portanto não se trata de uma ingenuidade à la Macabéa clariciana, como alguém fizera recordar acertadamente. Quiça, a lembrar vagamente o espírito atormentado de uma Emma Bovary.

Segundo as palavras de André Alexandre, “Luzinete é forte, é presente, é real. Sua espirituosidade, esperteza, brejeirice, malemolência, são maiores que as de Leila Jalul”. Cabe assim perguntar-nos: o que há de Leila em Luzinete e o que há de Luzinete em Leila? A diacronia de ambas parece formar única sinfonia. Seria caso de afirmar então que Leila e Luzinete são duas verdades, duas ficções intercaladas pelo real.

Um autor consegue superar-se quando seus personagens ou criações o superam. Milan Kundera recomendava mudar de profissão os autores que fossem maiores que seus romances. Como recorda-nos André Alexandre, Luzinete já tem vida própria. Isso demonstra o amadurecimento literário de Leila Jalul no próprio amadurecer de seu viver. Cresce a literatura brasileira. Agiganta-se, a acreana.

Aprendi de Kundera, sob a influência de Richard Rorty, que romance não pode reduzir-se apenas a um divertimento literário. Sua função também é possibilitar o desvelamamento de nosso ser. Kundera ainda afirmava que romance que não descobre uma porção até então desconhecida da existência é imoral. Porém ressalta, a única moral do romance é o conhecimento. Por isso, os romances que não estendem a conquista do ser, a nada se prestam, pois não descobrem nenhuma parcela nova da existência, apenas confirmam o que já se disse. Leila recolheu pedra bruta e transformou-a em formosa obra de arte. Sua originalidade não está no tema, vulgar, por sinal, mas naquilo que desperta em nós, seja alegria ou insatisfação. Pois, ao modo de Drummond, ela só tem duas mãos e o sentimento do mundo.


sábado, 22 de setembro de 2012

CARMINA BURANA

"Não reconhecemos nela (na música) nenhuma cópia, reprodução de uma ideia dos seres no mundo; contudo trata-se de uma arte a tal ponto grandiosa e majestosa, a atuar tão intensamente sobre o que há de mais interior no homem, onde é compreendida com tal intensidade e perfeição, como se fosse uma linguagem totalmente comum, cuja clareza ultrapassa mesmo a do próprio mundo intuitivo."

SCHOPENHAUER, Arthur, O mundo como Vontade e representação. São Paulo: Abril Cultural, 1980. Coleção os pensadores, p.72.
Carmina Burana trata-se de um conjunto de poesia medieval, em que o compositor alemão Carl Orff arranjou alguns dos poemas numa obra de beleza sublime.

sexta-feira, 21 de setembro de 2012

O FACTOR DEUS

José Saramago


Algures na Índia. Uma fila de peças de artilharia em posição. Atado à boca de cada uma delas há um homem. No primeiro plano da fotografia um oficial britânico ergue a espada e vai dar ordem de fogo. Não dispomos de imagens do efeito dos disparos, mas até a mais obtusa das imaginações poderá "ver" cabeças e troncos dispersos pelo campo de tiro, restos sanguinolentos, vísceras, membros amputados. Os homens eram rebeldes.

Algures em Angola. Dois soldados portugueses levantam pelos braços um negro que talvez não esteja morto, outro soldado empunha um machete e prepara-se para lhe separar a cabeça do corpo. Esta é a primeira fotografia. Na segunda, desta vez há uma segunda fotografia, a cabeça já foi cortada, está espetada num pau, e os soldados riem. O negro era um guerrilheiro.

Algures em Israel. Enquanto alguns soldados israelitas imobilizam um palestino, outro militar parte-lhe à martelada os ossos da mão direita. O palestino tinha atirado pedras. Estados Unidos da América do Norte, cidade de Nova Iorque. Dois aviões comerciais norte-americanos, sequestrados por terroristas relacionados com o integrismo islâmico, lançam-se contra as torres do World Trade Center e deitam-nas abaixo. Pelo mesmo processo um terceiro avião causa danos enormes no edifício do Pentágono, sede do poder bélico dos States. Os mortos, soterrados nos escombros, reduzidos a migalhas, volatilizados, contam-se por milhares.

As fotografias da Índia, de Angola e de Israel atiram-nos com o horror à cara, as vítimas são-nos mostradas no próprio instante de tortura, da agónica expectativa, da morte ignóbil. Em Nova Iorque tudo pareceu irreal ao princípio, episódio repetido e sem novidade de mais uma catástrofe cinematográfica, realmente empolgante pelo grau de ilusão conseguido pelo engenheiro de efeitos especiais, mas limpo de estertores, de jorros de sangue, de carnes esmagadas, de ossos triturados, de merda. O horror, agachado como um animal imundo, esperou que saíssemos da estupefacção para nos saltar à garganta. O horror disse pela primeira vez "aqui estou" quando aquelas pessoas saltaram para o vazio como se tivessem acabado de escolher uma morte que fosse sua. Agora o horror aparecerá a cada instante ao remover-se uma pedra, um pedaço de parede, uma chapa de alumínio retorcida, e será uma cabeça irreconhecível, um braço, uma perna, um abdómen desfeito, um tórax espalmado. Mas até mesmo isto é repetitivo e monótono, de certo modo já conhecido pelas imagens que nos chegaram daquele Ruanda-de-um-milhão-de-mortos, daquele Vietname cozido a napalm, daquelas execuções em estádios cheios de gente, daqueles linchamentos e espancamentos daqueles soldados iraquianos sepultados vivos debaixo de toneladas de areia, daquelas bombas atómicas que arrasaram e calcinaram Hiroshima e Nagasaki, daqueles crematórios nazis a vomitar cinzas, daqueles camiões a despejar cadáveres como se de lixo se tratasse.

De algo sempre haveremos de morrer, mas já se perdeu a conta dos seres humanos mortos das piores maneiras que seres humanos foram capazes de inventar. Uma delas, a mais criminosa, a mais absurda, a que mais ofende a simples razão, é aquela que, desde o princípio dos tempos e das civilizações, tem mandado matar em nome de Deus. Já foi dito que as religiões, todas elas, sem excepção, nunca serviram para aproximar e congraçar os homens, que, pelo contrário, foram e continuam a ser causa de sofrimentos inenarráveis, de morticínios, de monstruosas violências físicas e espirituais que constituem um dos mais tenebrosos capítulos da miserável história humana. Ao menos em sinal de respeito pela vida, deveríamos ter a coragem de proclamar em todas as circunstâncias esta verdade evidente e demonstrável, mas a maioria dos crentes de qualquer religião não só fingem ignorá-lo, como se levantam iracundos e intolerantes contra aqueles para quem Deus não é mais que um nome, nada mais que um nome, o nome que, por medo de morrer, lhe pusemos um dia e que viria a travar-nos o passo para uma humanização real. Em troca prometeram-nos paraísos e ameaçaram-nos com infernos, tão falsos uns como os outros, insultos descarados a uma inteligência e a um sentido comum que tanto trabalho nos deram a criar.

Disse Nietzsche que tudo seria permitido se Deus não existisse, e eu respondo que precisamente por causa e em nome de Deus é que se tem permitido e justificado tudo, principalmente o pior, principalmente o mais horrendo e cruel. Durante séculos a Inquisição foi, ela também, como hoje os talibans, uma organização terrorista que se dedicou a interpretar perversamente textos sagrados que deveriam merecer o respeito de quem neles dizia crer, um monstruoso conúbio pactado entre a Religião e o Estado contra a liberdade de consciência e contra o mais humano dos direitos: o direito a dizer não, o direito à heresia, o direito a escolher outra coisa, que isso só a palavra heresia significa.

E, contudo, Deus está inocente. Inocente como algo que não existe, que não existiu nem existirá nunca, inocente de haver criado um universo inteiro para colocar nele seres capazes de cometer os maiores crimes para logo virem justificar-se dizendo que são celebrações do seu poder e da sua glória, enquanto os mortos se vão acumulando, estes das torres gémeas de Nova Iorque, e todos os outros que, em nome de um Deus tornado assassino pela vontade e pela acção dos homens, cobriram e teimam em cobrir de terror e sangue as páginas da História. Os deuses, acho eu, só existem no cérebro humano, prosperam ou definham dentro do mesmo universo que os inventou, mas o "factor Deus", esse, está presente na vida como se efectivamente fosse o dono e o senhor dela. Não é um deus, mas o "factor Deus" o que se exibe nas notas de dólar e se mostra nos cartazes que pedem para a América (a dos Estados Unidos, não a outra...) a bênção divina. E foi o "factor Deus" em que o deus islâmico se transformou que atirou contra as torres do World Trade Center os aviões da revolta contra os desprezos e da vingança contra as humilhações. Dir-se-á que um deus andou a semear ventos e que outro deus responde agora com tempestades. É possível, é mesmo certo. Mas não foram eles, pobres deuses sem culpa, foi o "factor Deus", esse que é terrivelmente igual em todos os seres humanos onde quer que estejam e seja qual for a religião que professem, esse que tem intoxicado o pensamento e aberto as portas às intolerâncias mais sórdidas, esse que não respeita senão aquilo em que manda crer, esse que depois de presumir ter feito da besta um homem acabou por fazer do homem uma besta.

Ao leitor crente (de qualquer crença...) que tenha conseguido suportar a repugnância que estas palavras provavelmente lhe inspiram, não peço que se passe ao ateísmo de quem as escreveu. Simplesmente lhe rogo que compreenda, pelo sentimento se não puder ser pela razão, que, se há Deus, há só um Deus, e que, na sua relação com ele, o que menos importa é o nome que lhe ensinaram a dar. E que desconfie do "factor Deus". Não faltam ao espírito humano inimigos, mas esse é um dos mais pertinazes e corrosivos. Como ficou demonstrado e desgraçadamente continuará a demonstrar-se.


publicado por Fundação Saramago

quarta-feira, 19 de setembro de 2012

POR NÓS PELA ACADEMIA ESTEJAMOS NO SARAU LITERÁRIO - O POEMA É MEU AGRADECIMENTO

OFERTADO A TODOS OS MEMBROS DA ACADEMIA ACREANA DE LETRAS
e aos demais que os lerem


AOS GUARDADORES DE LEMBRANÇA
TENDA DE ZINCO

Clodomir Monteiro


veredas sonhos dimensões que ponho
acima mesmos derramando idades
amizades amorizações janelas
solar de filhos canto andando somos

espaços livros de memória
porões grilhões silenciados
cobrindo folhas livres zinco
paredes rachaduras martirizam

reféns alguns fendas que fomos
horizontes domos mastodontes
cativas ouvindo folhas zinco
fruindo brotos concertos saírem

mostremos fendas renovadas flores
manejo de esperantos horizontes
crianças rejeitadas em solares
amadas noites em tempos lunáticos

perdemos voos som de zinco sonos
soltando encantos cantos liberdade



* O poeta Clodomir Monteiro é o atual presidente da Academia Acreana de Letras.