quinta-feira, 4 de maio de 2017

DOIS POEMAS ACREANOS

Mário de Andrade (1893-1945)

a Ronald de Carvalho

I

DESCOBRIMENTO

Abancado à escrivaninha em São Paulo
Na minha casa da rua Lopes Chaves
De sopetão senti um friúme por dentro.
Fiquei trêmulo, muito comovido
Com o livro palerma olhando pra mim.

Não vê que me lembrei que lá no norte, meu Deus! muito longe de mim,
Na escuridão ativa da noite que caiu,
Um homem pálido, magro de cabelo escorrendo nos olhos
Depois de fazer uma pele com a borracha do dia,
Faz pouco se deitou, está dormindo.

Esse homem é brasileiro que nem eu...


II

ACALANTO DO SERINGUEIRO

Seringueiro brasileiro,
Na escureza da floresta
Seringueiro, dorme.
Ponteando o amor eu forcejo
Pra cantar uma cantiga
Que faça você dormir.
Que dificuldade enorme!
Quero cantar e não posso,
Quero sentir e não sinto
A palavra brasileira
Que faça você dormir...
Seringueiro, dorme...

Como será a escureza
Desse mato-virgem do Acre?
Como serão os aromas
A macieza ou a aspereza
Desse chão que é também meu?
Que miséria! Eu não escuto
A nota do uirapuru!...
Tenho de ver por tabela,
Sentir pelo que me contam,
Você, seringueiro do Acre,
Brasileiro que nem eu.
Na escureza da floresta
Seringueiro, dorme

Seringueiro, seringueiro,
Queira enxergar você...
Apalpar você dormindo,
Mansamente, não se assuste,
Afastando esse cabelo
Que escorreu na sua testa.
Alguma coisas eu sei...
Troncudo você não é.
Baixinho, desmerecido,
Pálido, Nossa Senhora!
Parece que nem tem sangue.
Porém cabra resistente
Está ali. Sei que não é
Bonito nem elegante...
Macambúzio, pouca fala,
Não boxa, não veste roupa
De palm-beach... Enfim não faz
Um desperdício de coisas
Que dão conforto e alegria.

Mas porém é brasileiro,
Brasileiro que nem eu...
Fomos nós dois que botamos
Pra fora Pedro II...
Somos nós dois que devemos
Até os olhos da cara
Pra esses banqueiros de Londres...
Trabalhar nós trabalhamos
Porém pra comprar as pérolas
Do pescocinho da moça
Do deputado Fulano.
Companheiro, dorme!
Porém nunca nos olhamos
Nem ouvimos e nem nunca
Nos ouviremos jamais...
Não sabemos nada um do outro,
Não nos veremos jamais!

Seringueiro, eu não sei nada!
E no entanto estou rodeado
Dum despotismo de livros,
Estes mumbavas que vivem
Chupitando vagarentos
O meu dinheiro o meu sangue
E não dão gosto de amor...
Me sinto bem solitário
No mutirão de sabença
Da minha casa, amolado
Por tantos livros geniais,
“Sagrados” como se diz...
E não sinto os meus patrícios!
E não sinto os meus gaúchos!
Seringueiro, dorme...
E não sinto os seringueiros
Que amo de amor infeliz...

Nem você pode pensar
Que algum outro brasileiro
Que seja poeta no sul
Ande se preocupando
Com o seringueiro dormindo,
Desejando pro que dorme
O bem da felicidade...
Essas coisas pra você
Devem ser indiferentes,
Duma indiferença enorme...
Porém eu sou seu amigo
E quero ver si consigo
Não passar na sua vida
Numa indiferença enorme.
Meu desejo e pensamento
                     (...numa indiferença enorme...)
Ronda sob as seringueiras .. .. ..
                     (...numa indiferença enorme...)
Num amor-de-amigo enorme...

Seringueiro, dorme!
Num amor-de-amigo enorme
Brasileiro, dorme!
Brasileiro, dorme.
Num amor-de-amigo enorme
Brasileiro, dorme.

Brasileiro, dorme,
Brasileiro... dorme...

Brasileiro... dorme...


ANDRADE, Mário de. Poesias Completas. Edição crítica de Diléa Zanotto Manfio. Belo Horizonte: Itatiaia; São Paulo: EDUSP, 1987. p.203-206

IMPROVISO DO RAPAZ MORTO

Mário de Andrade (1893-1945)


Morto, suavemente ele repousa sobre as flores do caixão.

Tem momentos assim em que a gente vivendo
Esta vida de interesses e de lutas tão bravas,
Se cansa de colher desejos e preocupações.
Então para um instante, larga o murmúrio do corpo,
A cabeça perdida cessa de imaginar,
E o esquecimento suavemente vem.
Quem que então goze as rosas que o circundam?
A vista bonita que o automóvel corta?
O pensamento que o heroiza?...
O corpo é que nem véu largado sobre um móvel,
Um gesto que parou no meio do caminho,
Gesto que a gente esqueceu.
Morto, suavemente ele se esquece sobre as flores do caixão.

Não parece que dorme, nem digo que sonhe feliz, está morto.
Num momento da vida o espírito se esqueceu e parou.
De repente ele assustou com a bulha do choro em redor,
Sentiu talvez um desaponto muito grande
De ter largado a vida sendo forte e sendo moço,
Teve despeito e não se moveu mais.
E agora ele não se moverá mais.

Vai-te embora! vai-te embora, rapaz morto!
Ôh, vai-te embora que não te conheço mais!
Não volta de-noite circular no meu destino
A luz da tua presença e o teu desejo de pensar!
Não volta oferecer-me a tua esperança corajosa,
Nem me pedir para os teus sonhos a conformação da Terra!

O universo muge de dor aos clarões dos incêndios,
As inquietudes cruzam-se no ar alarmadas,
E é enorme, insuportável minha paz!
Minhas lágrimas caem sobre ti e és como um Sol quebrado!
Que liberdade em teu esquecimento!
Que independência firme na tua morte!
Ôh, vai-te embora que não te conheço mais!


ANDRADE, Mário de. Poesias Completas. Edição crítica de Diléa Zanotto Manfio. Belo Horizonte: Itatiaia; São Paulo: EDUSP, 1987. p.258-259

terça-feira, 2 de maio de 2017

TRÊS POEMAS DE JÚLIA DA COSTA

ILUSÕES 
Júlia da Costa (1844-1911) 

Em vão te chamo nos murmúrios vagos
Da doce brisa que fugindo vai;
A voz se perde na procela horrível
Que sobre os mares à noitinha cai.

Em vão te chamo! só responde o eco...
Em vão almejo contemplar a ti;
Medonha nuvem de mistérios cheia
Te induz, ai! Sempre a te ausentar de mi’!

Aéreo sonho, mentirosa sombra
D’um sol no ocaso que a gemer tombou,
Em vão te busco nas mescladas nuvens
D’um céu querido que o luar banhou!

Nos rudes tempos d’ um passado estranho
À luz d’ um círio pela dor erguido,
Lampejam inda as ilusões ditosas
D’ um tempo estranho que lá vai sumido!

Assim, ó sombra, na minh’alma vives
Sem cor, nem luz, a divagar perdida...
Em vão te chamo! minha voz se perde
Por este espaço que chamamos vida!

Em vão te chamo! já me falta o alento!
Em vão procuro assemelhar teu canto!
És como a ave que a trinar na rama
Fugindo inspira ressentido pranto.

– És como a ave que na sombra solta
Os seus prelúdios de saudade infinda,
E que fugindo quando a luz se mostra
Os seus cantares sonorosos finda. p.75


DESESPERANÇA
Júlia da Costa (1844-1911)

Que céu formoso, que natura esta!
Tantos fulgores vem turbar minh’ alma!
Meu Deus! se a vida é para uns tão calma
Por que p’ ra mim ela é tão negra e mesta!

Em magos risos despertando a aurora
A flor do prado seu aroma exala!
Eu também vejo-a despertar... que fala
Soltarei d’ alma que o passado chora?

A vida é negra! Nenhum astro ameno
Derrama a luz que lhe afugente a treva!
Quero sorrir-me! mas a dor me leva
Do peito aos lábios um saudoso treno!

Vejo floridos para o seu noivado
Os laranjais, e a natureza inteira...
É tudo festa! na mimosa esteira
Da veiga amena, no florente prado...

Mas a esperança que dourou minh’alma
Da minha vida na estação da infância
Agora à tarde, já não tem fragrância
Que possa dar-me ao dessossego calma!

E a natureza tem eterna festa!
Da f’licidade nela vê-se a palma!
Meu Deus! se a vida é para uns tão calma
Por que p’ra mim ela é tão negra e mesta?!

Dos verdes lustros na dourada aurora
Por entre rosas nos sorri a vida!
Mas de meu sonho é a ilusão perdida!
E geme o peito, enquanto a alma chora!

E a lira no laranjal cheiroso
Pendida a um galho se acalenta em prantos!
Ave chorosa dos passados cantos
Nem ouve o eco no vergel formoso!

E a rosa branca do gentil valado
Se às vezes diz-lhe um amoroso voto,
Ela suspira, e no futuro ignoto
Só vê a imagem do cruel passado! p.86-87


FOLHAS DE ROSA
Júlia da Costa (1844-1911)

Vi-te em meus sonhos cismadora imagem
Entre roupagens de rosada cor!
Dias de flores ideei na mente
Em ti pensando, solitária flor!
Cresci, minh’ alma se tornou tristonha...
Porém, ainda com teu rosto sonha!

Vinhas tu sempre reclinar-te a medo
Sobre meu leito de donzela crente!
Eras a imagem que ao pulsar do seio
Sentia sempre me afagar contente!
Eras tristonha, cismadora e bela,
De minha vida, e de meu ser estrela!

Nunca um só riso te visei nos lábios,
Tristonha sempre conheci-te em sonhos!
Via-te frouxa ao descair da tarde
Fitando a medo os matagais tristonhos!
Envolta ainda na gentil roupagem
Com que te vira, cismadora imagem!

Desperta... tudo se extinguia triste,
Só via a lua a fulgurar formosa!
Corria os montes, dispersava as aves,
Feria os ecos da mansão saudosa!
Mas não te via... me faltava o alento
Perdido em prantos, e no meu lamento.

Um dia, louca, te julguei na nuvem
Que à tarde vinha me falar de amor!
Julguei que envolta nas roupagens d’ela
Tu me ocultavas teu gentil fulgor,
Amei a nuvem... delirei por ela,
Em ti pensando, de meu ser estrela!

Amei a nuvem... nos meus sonhos belos
Não mais te vi a me acenar contente!
Em lindas tardes te julguei, formosa,
Junto a minh’ alma a me afagar ridente!
Na bela nuvem mentirosa e fria
A minha estrela divinal vivia?

Depois o manto que cobria a esfera
Rasgou-se a meio no azul dos céus!
Busquei-te embalde no lugar da nuvem
Que em branca espuma desdobrava os véus;
Mentira tudo! fabulosa cisma!
A minha estrela era doirado prisma!

Ai que soluções no tristonho canto
Da lira minha desferi então!
Busquei-te em ânsia soluçando hinos,
Vibrando cantos de infantil paixão!
Buscava um’ alma que entendesse a minha!
E busco-a ainda, e o coração definha.

Buscava um’ alma que entendesse a minha
Na terra, ou céus, na imensidade ou nada!
Buscava flores de infantis perfumes
E achava espinhos na escabrosa estrada!
Buscava arpejos de celeste enleio,
E só ouvia o coração no seio.

Deus! que tristezas não carpi sozinha
Ao ver o éter de luzeiros cheio
Mirar-se ufano no azul sereno
Do mar, que arfava com celeste anseio!
E as ondas mansas se enrolando a medo;
E eu sozinha neste mundo tredo!

Ai quantas vezes o arvoredo, a mata,
Eu contemplava com tristonho olhar!
Arbusto, dize, quando o dia surge
Por que te miras n’ amplidão do mar?
Por que não vives como eu sozinha
Sem ter um’ alma que compreenda a minha?

Silêncio tudo! O arvoredo à tarde
Beijava o lago... suspirava o vento!
No rio a lua se espelhava bela;
Só era eterno meu febril lamento!
Só a minh’ alma concentrada, em pranto,
Nada visava que lhe desse encanto!

Silêncio tudo! Pipilava a rola.
Arfava a brisa no palmar virente!
As águas quedas n’ um remanso leve
Um canto erguiam ao viver contente:
Porém da lua palidez tão bela
Minh’ alma em prantos suspirava – estrela!

Silêncio tudo! Nevoeiro denso
Se desdobrava no infinito espaço!
A terra, os montes, a lagoa, a veiga,
Viviam como n’ um fraterno abraço!
Só eu a vida de ilusões despida
Não tinha um’ alma para dar guarida.

Cansada um dia adormeci chorando
No vale ameno de gentis verdores!
Dormi... dormi acalentada em sonhos
Como os da infância, de celestes cores!
Dormi, minh’ alma até então tristonha
Nova alegria, novos risos sonha.

Desperto e vejo-te, encantada imagem,
Visão querida, solitária flor!
Bela e serena como a luz aurora
Envolta em gazes de rosada cor!
Vejo-te linda, cismadora e bela
De minha vida, de meu ser estrela...

E vejo-te, inda, quer na luz, que morre
Por entre as serras d’ uma cor escura!
Quer nos serenos matinais alvores,
Quer, como a estrela, n’ um céu de negrura!
E minha mente que era tão tristonha
Hoje, de novo, com teu rosto sonha!

Porém... é um sonho que talvez se esvaia;
E o que há na vida que perene seja?
Porém... enquanto em minha fronte sinto
Esse sonho gentil, – a mim bafeja
Uma ventura tão suave e meiga
Qual sente ao ver o sol o prado, a veiga. p.92-95

COSTA, Júlia da. Poesia. Org. Zahide Lupinacci Muzart. Curitiba: Imprensa Oficial do Paraná, 2001.

segunda-feira, 1 de maio de 2017

SEXTO PROPÉRCIO (elegia II 15)

Sexto Propércio (47 a.C.-14 d.C.)


Feliz de mim! Ó noite luminosa! E tu, querido leito,
como te tornaste feliz com os prazeres que eu vivi!
Quantas palavras nos dissemos com a lâmpada ainda acesa
e que lutas nós travamos depois que se apagou a luz!
Por vezes ela combateu comigo com os seios nus;
por vezes sua túnica fechada construiu um obstáculo.
Com seus lábios ela abria meus olhos cerrados pelo sono
e me dizia: “É assim, preguiçoso? Dormes?”
quantos abraços diferentes nós nos demos!
Que beijos tão longos pousei em tua boca!
Não é bom estragar os dons de Vênus com movimentos cegos;
se não sabes, os olhos são os guias no amor.
Dizem que o próprio Páris se perdeu pela moça da Lacônia
quando ela se levantou nua do leito de Menelau.
Foi nu que Endimião conquistou a irmã de Febo
e dizem que se deitou com a Deusa também nua. Portanto,
se, persistindo em tua determinação, te deitares vestida,
provarás o vigor de minhas mãos nas vestes rasgadas
e se a raiva me levar mais para longe,
mostrarás a tua mãe as marcas em teus braços.
Ainda não te impedem de te divertires seios decadentes;
que pense de outra forma quem tiver vergonha por ter sido mãe.
Enquanto os fados nos permitem, saciemos nossos olhos no amor.
A longa noite chegará a ti e o dia jamais há de voltar.
Oxalá quisesses que fôssemos atados juntos por uma cadeia
e nenhum dia, jamais, poderia libertar-nos.
Que te sirvam de modelo as pombinhas vencidas pelo amor:
o macho e a fêmea constituem o casal.
Está errado quem supõe que exista fim de um amor apaixonado;
o amor verdadeiro jamais conheceu qualquer limitação.
A terra enganará o agricultor com uma falsa produção,
o Sol conduzirá pelo espaço cavalos negros
e os rios farão as águas voltarem à nascente
e os peixes viverão sedentos num abismo seco
antes que eu possa transferir para uma outra o amor que sinto.
Dela eu serei, vivo; morto, eu serei dela.
Se ela me conceder outras noites, serei imortal por causa delas:
Qualquer um pode ser um deus em apenas uma noite como essa.
Se todos desejassem passar a vida assim
e deitar-se como os membros encharcados de muito vinho,
o ferro cruel não existiria, não existiriam navios de guerra,
o mar de Ácio não revolveria nossos ossos
e Roma, perseguida tantas vezes pelos próprios triunfos,
não haveria de soltar, desfalecida, seus cabelos.
Isto, a posteridade poderá louvar-me com justiça:
minhas taças jamais ofenderam os Deuses!
E tu, enquanto brilha a luz, não desprezes os frutos da vida.
Mesmo se deres todos os beijos, terás dado poucos.
Assim como abandonam as flores secas
as pétalas que vês boiar, caídas sobre os corpos,
assim também a nós, que agora, como amantes, esperamos grandes coisas,
o dia de amanhã talvez nos traga a morte.


NOVAK, Maria da Glória; NERI, Maria Luiza (orgs.). Poesia lírica latina. São Paulo: Martins Fontes, 2003. p.139-141-143