terça-feira, 2 de maio de 2017

TRÊS POEMAS DE JÚLIA DA COSTA

ILUSÕES 
Júlia da Costa (1844-1911) 

Em vão te chamo nos murmúrios vagos
Da doce brisa que fugindo vai;
A voz se perde na procela horrível
Que sobre os mares à noitinha cai.

Em vão te chamo! só responde o eco...
Em vão almejo contemplar a ti;
Medonha nuvem de mistérios cheia
Te induz, ai! Sempre a te ausentar de mi’!

Aéreo sonho, mentirosa sombra
D’um sol no ocaso que a gemer tombou,
Em vão te busco nas mescladas nuvens
D’um céu querido que o luar banhou!

Nos rudes tempos d’ um passado estranho
À luz d’ um círio pela dor erguido,
Lampejam inda as ilusões ditosas
D’ um tempo estranho que lá vai sumido!

Assim, ó sombra, na minh’alma vives
Sem cor, nem luz, a divagar perdida...
Em vão te chamo! minha voz se perde
Por este espaço que chamamos vida!

Em vão te chamo! já me falta o alento!
Em vão procuro assemelhar teu canto!
És como a ave que a trinar na rama
Fugindo inspira ressentido pranto.

– És como a ave que na sombra solta
Os seus prelúdios de saudade infinda,
E que fugindo quando a luz se mostra
Os seus cantares sonorosos finda. p.75


DESESPERANÇA
Júlia da Costa (1844-1911)

Que céu formoso, que natura esta!
Tantos fulgores vem turbar minh’ alma!
Meu Deus! se a vida é para uns tão calma
Por que p’ ra mim ela é tão negra e mesta!

Em magos risos despertando a aurora
A flor do prado seu aroma exala!
Eu também vejo-a despertar... que fala
Soltarei d’ alma que o passado chora?

A vida é negra! Nenhum astro ameno
Derrama a luz que lhe afugente a treva!
Quero sorrir-me! mas a dor me leva
Do peito aos lábios um saudoso treno!

Vejo floridos para o seu noivado
Os laranjais, e a natureza inteira...
É tudo festa! na mimosa esteira
Da veiga amena, no florente prado...

Mas a esperança que dourou minh’alma
Da minha vida na estação da infância
Agora à tarde, já não tem fragrância
Que possa dar-me ao dessossego calma!

E a natureza tem eterna festa!
Da f’licidade nela vê-se a palma!
Meu Deus! se a vida é para uns tão calma
Por que p’ra mim ela é tão negra e mesta?!

Dos verdes lustros na dourada aurora
Por entre rosas nos sorri a vida!
Mas de meu sonho é a ilusão perdida!
E geme o peito, enquanto a alma chora!

E a lira no laranjal cheiroso
Pendida a um galho se acalenta em prantos!
Ave chorosa dos passados cantos
Nem ouve o eco no vergel formoso!

E a rosa branca do gentil valado
Se às vezes diz-lhe um amoroso voto,
Ela suspira, e no futuro ignoto
Só vê a imagem do cruel passado! p.86-87


FOLHAS DE ROSA
Júlia da Costa (1844-1911)

Vi-te em meus sonhos cismadora imagem
Entre roupagens de rosada cor!
Dias de flores ideei na mente
Em ti pensando, solitária flor!
Cresci, minh’ alma se tornou tristonha...
Porém, ainda com teu rosto sonha!

Vinhas tu sempre reclinar-te a medo
Sobre meu leito de donzela crente!
Eras a imagem que ao pulsar do seio
Sentia sempre me afagar contente!
Eras tristonha, cismadora e bela,
De minha vida, e de meu ser estrela!

Nunca um só riso te visei nos lábios,
Tristonha sempre conheci-te em sonhos!
Via-te frouxa ao descair da tarde
Fitando a medo os matagais tristonhos!
Envolta ainda na gentil roupagem
Com que te vira, cismadora imagem!

Desperta... tudo se extinguia triste,
Só via a lua a fulgurar formosa!
Corria os montes, dispersava as aves,
Feria os ecos da mansão saudosa!
Mas não te via... me faltava o alento
Perdido em prantos, e no meu lamento.

Um dia, louca, te julguei na nuvem
Que à tarde vinha me falar de amor!
Julguei que envolta nas roupagens d’ela
Tu me ocultavas teu gentil fulgor,
Amei a nuvem... delirei por ela,
Em ti pensando, de meu ser estrela!

Amei a nuvem... nos meus sonhos belos
Não mais te vi a me acenar contente!
Em lindas tardes te julguei, formosa,
Junto a minh’ alma a me afagar ridente!
Na bela nuvem mentirosa e fria
A minha estrela divinal vivia?

Depois o manto que cobria a esfera
Rasgou-se a meio no azul dos céus!
Busquei-te embalde no lugar da nuvem
Que em branca espuma desdobrava os véus;
Mentira tudo! fabulosa cisma!
A minha estrela era doirado prisma!

Ai que soluções no tristonho canto
Da lira minha desferi então!
Busquei-te em ânsia soluçando hinos,
Vibrando cantos de infantil paixão!
Buscava um’ alma que entendesse a minha!
E busco-a ainda, e o coração definha.

Buscava um’ alma que entendesse a minha
Na terra, ou céus, na imensidade ou nada!
Buscava flores de infantis perfumes
E achava espinhos na escabrosa estrada!
Buscava arpejos de celeste enleio,
E só ouvia o coração no seio.

Deus! que tristezas não carpi sozinha
Ao ver o éter de luzeiros cheio
Mirar-se ufano no azul sereno
Do mar, que arfava com celeste anseio!
E as ondas mansas se enrolando a medo;
E eu sozinha neste mundo tredo!

Ai quantas vezes o arvoredo, a mata,
Eu contemplava com tristonho olhar!
Arbusto, dize, quando o dia surge
Por que te miras n’ amplidão do mar?
Por que não vives como eu sozinha
Sem ter um’ alma que compreenda a minha?

Silêncio tudo! O arvoredo à tarde
Beijava o lago... suspirava o vento!
No rio a lua se espelhava bela;
Só era eterno meu febril lamento!
Só a minh’ alma concentrada, em pranto,
Nada visava que lhe desse encanto!

Silêncio tudo! Pipilava a rola.
Arfava a brisa no palmar virente!
As águas quedas n’ um remanso leve
Um canto erguiam ao viver contente:
Porém da lua palidez tão bela
Minh’ alma em prantos suspirava – estrela!

Silêncio tudo! Nevoeiro denso
Se desdobrava no infinito espaço!
A terra, os montes, a lagoa, a veiga,
Viviam como n’ um fraterno abraço!
Só eu a vida de ilusões despida
Não tinha um’ alma para dar guarida.

Cansada um dia adormeci chorando
No vale ameno de gentis verdores!
Dormi... dormi acalentada em sonhos
Como os da infância, de celestes cores!
Dormi, minh’ alma até então tristonha
Nova alegria, novos risos sonha.

Desperto e vejo-te, encantada imagem,
Visão querida, solitária flor!
Bela e serena como a luz aurora
Envolta em gazes de rosada cor!
Vejo-te linda, cismadora e bela
De minha vida, de meu ser estrela...

E vejo-te, inda, quer na luz, que morre
Por entre as serras d’ uma cor escura!
Quer nos serenos matinais alvores,
Quer, como a estrela, n’ um céu de negrura!
E minha mente que era tão tristonha
Hoje, de novo, com teu rosto sonha!

Porém... é um sonho que talvez se esvaia;
E o que há na vida que perene seja?
Porém... enquanto em minha fronte sinto
Esse sonho gentil, – a mim bafeja
Uma ventura tão suave e meiga
Qual sente ao ver o sol o prado, a veiga. p.92-95

COSTA, Júlia da. Poesia. Org. Zahide Lupinacci Muzart. Curitiba: Imprensa Oficial do Paraná, 2001.
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