sexta-feira, 14 de setembro de 2018

PISTA DE DANÇA

Waly Salomão

Quando criança
me assoprou no ouvido um motorista
que os bons não se curvam
e
      eu
             confuso
aqui nesta pista de dança
perco o tino
espio a vertigem
                 do chão que gira
                                     tal e qual
                                              parafuso
                  e o tapete tira
                  debaixo dos meus pés
giro
piro
nesta pista de dança
curva que rodopia
sinto que perco um pino
                                                          não sei localizar se na cabeça
esqueço a meta da reta
e fico firme no leme
que a reta é torta
rei
      rainha
                bispo
                        cavalo
                                  torre
                                         peão
sarro de vez o alvo
tiro um fino com o destino
e me movimento

                                 ao acaso do azar ou da sorte
no tabuleiro de xadrez
extasiado
extasiado
                                  piso
                          hipnotizo
                          mimetizo
                                    a dança das estrelas
debuxo sobre o celeste caderno de caligrafia das constelações
                                e plagio a coreografia dos pássaros e dos robôs
aqui neste point
a espiral de fumaça me deixa louco
e a toalha felpuda suja me enxuga o suor do rosto
aqui nesta rave
narro a rapsódia de uma tribo misteriosa
imito o rodopio de pião bambo

Ê Ê Ê tumbalelê
      é o jongo do cateretê,
              é o samba
                          é o mambo
                                      é o tangolomango
                                                   é o bate-estaca
                                                                 é o jungle
                                                                              é o tecno
                                                                                           é o etno

é o etno
      é o tecno
             é o jungle
                         é o bate-estaca
                                     é o tangolomango
                                                  é o mambo
                                                               é o samba
                                                                     é o jongo do cateretê
                                                                             Ê Ê Ê tumbalelê

redemoinho de ilusão em ilusão
como a lua tonta, suada, e, fria
que do crescente ao minguante varia
                                    e inicia e finda
                                    e finda e inicia
                                                            e vice-versa a pista de dança

pista de dança
que quer dizer
pista de mímeses
pista de símiles
pista de faxes
pista de substância físsil
pista de fogos de artifícios
pista de pleonasmo da cera dúctil
           e da madeira entesada dura
pista de míssil
pista de símios
pista de clowns
pista de covers
pista de samplers
pista de epígonos
pista de clones
pista de sirenes
pista de sereias
pista de insones

pista do possesso febril
pista de scratches
pista de arranhões
pista de aviões
pista de encontrões
pista de colisões
pista de teco-teco, de telecoteco
pista de queima de óleo fóssil
pista de sinais pisca-pisca
pista de bate-biela
pista do pifa-motor
pista do pirata de olho de gude
              e perna de pau
pista da mulher que engoliu a agulha da vitrola
              e fala pelos cotovelos
pista do menino que come vidro
              e chupa pedra d’água
pista ouriçada
                           irada e sinistra!

Pois
pista de dança
quer dizer
Farmácia de Manipulação de Tropos Poéticos Sociedade Anônima
que existe e funciona,
                      como tudo na vida, inclusive o poeta,
                              seja dito de passagem,
para servir à poesia.
E a trilha vai por aí afora,
                                       aliás...


SALOMÃO, Waly. O mel do melhor. Rio de Janeiro: Rocco, 2001. p.87-90

terça-feira, 11 de setembro de 2018

ALGUMAS PINTURAS / PEQUENOS FORMATOS DE DANILO DE S'ACRE

Um som na fenda, dilacera
As pálpebras de veludo
Desperta a voz e a tempestade
Rasgam-se lençóis em relâmpagos
Agudos raios de águas ácidas
Lágrimas de arco-íris
Sonora vulcânica seiva
Paisagem em véu de noiva
Néctar insolúvel
O som nas sombras, dilacera...

Diálogos, 2018
Óleo sobre tela
24x30 com

Sonho com serpentes, 2018
Óleo sobre tela
24x30 cm

Dança tribal, 2018
Óleo sobre tela
24x30 cm

Sensações inesperadas, 2018
Óleo sobre tela
50x60 cm

Disseminações antropológicas, 2018
Óleo sobre tela
24x30 cm

“Bocca di rosa”, 2018
Óleo sobre tela
40x30 cm

A LÍNGUA É O CHICOTE DA BUNDA. Ô SE É!

Leila Jalul

Zacarias e Mansueto, dois tomadores de branquinha, decidiram viajar para conhecer de perto a tal de Tabuí, tão cantada em prosa e verso.

Lá, segundo pensavam, seriam os reis do pedaço. Afinal, quem saía de Barranco Alto, nas Alterosas, teriam mais inteligência que os pobres nativos da tal Tabuí.

Os dois, mal se aposentaram da prefeitura, deram uns beijos tortos e de raspão nas respectivas patroas e filhos e, de posse de uns panos de bunda, um bom pedaço de fumo de rolo, uma lata de Neston lotada de farofa de frango, uma sacola de torresmo e duas garrafas de pinga, partiram rumo ao desconhecido.

E andaram, andaram e andaram, sempre ‘de a pé’, que cansaram. A pinga acabou. O fumo de rolo acabou. Torresmo e farofa de frango, também. Acabou tudo!

- Vamos voltar pra trás, compadre Mansueto? Saporra de Tabuí não existe não!

- Não, compadre Zacarias. Já que tamos aqui, vamos até mais na frente um pouco. Tá vendo aquelas luzes? Deve ser uma cidadezinha qualquer. A gente para, compra mais umas pingas, tenta esvaziar o tanque do sexo, come umas comidinhas, compra umas bolachas e segue adiante.

E lá chegaram. Entraram num boteco, mataram a fome de comida, tomaram todas e se danaram a contar lorotas pros frequentadores do local.

Mansueto, depois de um arroto, muito falante, apresentou-se como um fazendeiro próspero, dono de mais de quatro mil cabeças de gado de corte. Já Zacarias, mais comedido, gabou-se de ser representante de uma concessionária de carros impostados. Mentiram até perder de vista a razão. Aliás, só os dois falavam. O resto do povo escutava, com clara desconfiança. Resto do povo é modo de dizer. Não havia mais que seis pessoas ouvindo os fanfarrões.

Quando a cachaça atingiu o córtex do cérebro, num arroubo, Mansueto grita: oi, gente boa, nós tamos atrás de uma porcaria de lugar que se chama Tabui. Cêis sabem onde fica? Dizem que lá é terra onde todo mundo dá. O padre dá, a mulher do prefeito dá, o xerife dá, as meninas dão e nós tamos numa seca danada!

De repente, do fundo do bar, uma voz de autoridade se levanta e dá ordem de prisão aos dois.

Adivinhem quem era o delegado?

Passada a carraspana, os dois foram expulsos de Tabuí. Será que terão coragem de voltar?

segunda-feira, 3 de setembro de 2018

JARDIM FECHADO: Mário de Oliveira

“Mário de Oliveira (?-1977) é, cronologicamente, par droit de naissance, o primeiro poeta e, por igual, o primeiro bacharel em Direito do então Território, hoje Estado do Acre. Nascido em Rio Branco, no antigo seringal “Empresa”, fez os estudo primários e secundários em Manaus, onde não só conviveu com futuros expoentes das letras amazônicas, como Álvaro Maia, Cosme Ferreira, Carlos Mesquita, Vicente Bonfim e Edgar Lobão, mas também ensaiou os primeiros passos no beletrismo planiciário, assinando crônicas e poesias nas revistas estudantis “Aura” e “Lúmen Amazonense”, que fizeram época.
Transferindo-se para Fortaleza, torna-se, em 1914, bacharel em Ciências e Letras e, em 1918, com distinção, em Direito. Na capital cearense, o pendor literário do jovem acreano acentua-se e é chamado a integrar o grupo acadêmico “Tertúlia Clóvis Beviláqua”, que editava a revista “Tertúlia”, da qual se faz redator-secretário e ativo colaborador, como cronista e poeta.
Sua poética, como não podia deixar de ser, sofre influência da época, quando, no plano nacional, pontificavam Olavo Bilac, Guimarães Passos, Vicente de Carvalho e tantos outros mestres do Parnaso brasileiro. Embora chegue a adotar formas menos rígidas, posteriormente, como a polimetria e o verso branco, a verdade é que nunca abandonou a linguagem, a medida e o ritmo clássicos tradicionais, perdendo a moderna poesia brasileira, destarte, quem poderia ter sido um de seus elementos em prol.
De retorno à terra natal, aí passa grande parte da vida, no exercício de atividade polimorfa, no magistério, na imprensa, na tribuna, já membro fundador da Academia Acreana de Letras, já do Instituto Histórico e Geográfico do Acre. Quando dali se retira, por imposição do cargo que ocupa no Ministério Público da União, vai fixar residência no Rio de Janeiro e, após a mudança da capital, em Brasília, cidade ainda hoje se encontra, no gozo da tranquila e merecida aposentadoria dos que cumpriram o dever.” Romeu Jobim, prefácio, dezembro de 1970.


SAUDADES
“Ora (direis), ouvir estrelas...”
Bilac

Longe de mim – suplico – os olhos ponhas
No constelado manto das estrelas,
E busques, dentre as muitas, uma delas,
Que te fale de mim, se acaso sonhas...

Certo que ouvi-las, tão somente pelas
Cintilações de luz, flébeis, tristonhas,
É só das almas que, entre si inconhas,
Sabem senti-las, muito mais que vê-las...

Pois bem, atenta! Quando a noite, em meio,
Na azúlea concha for declinando,
– Tu hás de ouvir, a palpitar-te o seio,

Que uma fala de mim, de como, e quando,
Eu, a fitá-la, de saudades cheio,
Versos de amor, a ti, vou recitando... p.36


SAUDADE

Em certa noite enluarada,
Da “via láctea” na estrada,
Que eu fitava, em nostalgia,
Meus tristes olhos magoados
Viram, então, deslumbrados,
O que, estranho, sucedia:

No azul do céu, as estrelas,
A fim de eu bem entendê-las,
Foram-se, aos poucos, juntando,
Formando a palavra triste,
Que em todo peito coexiste,
E mais em quem vive amando...

E em sete letras, apenas,
Lembrando, porém, de penas
Um mundo, que nos invade,
– Eu li a triste palavra,
Que, dentro em mim, mora e lavra:
– Eu li, bem claro: – “Saudade”... p.81


REVIVESCÊNCIA

Quanto tempo estivemos separados,
Vivendo a solidão de almas viúvas!
Ó triste coração, quase estiolados,
Quais pobres flores a que faltam chuvas...

Tal, porém, acontece à “sempre-viva”,
Que um pouco de umidade reverdece
Nossa paixão, em ânsias redivivas,
Por nos revermos, mais se exalta e aquece.

Que indizível cadeia de contrastes
É a vida dos que se amam e se querem!
Queixas, mágoas, pesares e desastres,
– Tudo é esquecido com se, apenas, verem...

As desventuras, que, silentes, moram
Na alma de dois amantes sofredores,
Transformam-se em sorriso, e ao lábio afloram,
Como no campo desabrocham flores...

Ver-te de novo... Ter-te perto, enfim...
Prender, nas minhas, tuas mãos queridas...
Sentir teu corpo aconchegado a mim...
– Quanta recordação de horas vividas!
E os nossos lábios se buscando, ardentes...
E o langor dos teus olhos de veludo...
E as carícias das nossas mãos frementes...
E o meu silêncio te dizendo tudo!...

Horas de redenção, horas benditas!
Horas de enlevo, e êxtase, e ventura!
Horas plenas de graças infinitas!
Horas cheias de sonho e de ternura!

Horas, que valem pelas dores todas,
Que hemos sofrido, quase sem ter fim!
Horas em que sagramos nossas bodas:
– Eu, todo em ti, e toda tu, em mim... p.82-83


MEMENTO

Homem, vaidoso Irmão! – vamos ao Cemitério.
Dos Mortos este é o Dia... Anda, pois; vem comigo.
Vamos, juntos, sentir, bem de perto, o castigo
Que da Vida é a Morte, em seu atro mistério...

Na silente mansão, em cada rosto amigo,
Sentiremos da Dor o intangível império,
A enlutar corações, e, qual rubro cautério,
Queimando, dentro d’alma, a cada um consigo...

E veremos também que humanos preconceitos
Tombam, frágeis, por terra, em face da verdade:
– Que todos somos pó, e às mesmas leis sujeitos!

A vestal e a rameira, o pária e a potestade,
A jazerem, por fim, nos derradeiros leitos,
Têm, tornados em lama, a perfeita igualdade... p.97


A FLOR DA VIDA

Flor em botão, – semelha a infância descuidadosa,
A sorrir para a vida,
Como se a vida sempre um mar fosse de rosa...

Flor aberta, a seguir, – é a idade apetecida,
Esparzindo perfume,
E que a ronda de amor dos colibris convida...

Flor secando, a morrer, de mágoas se presume
            Desfolha-se a corola,
As pétalas caindo, em silente queixume...

Pois botão, depois flor, que, em breve, se estiola,
Pendendo, emurchecida,
– Eis a imagem real, que aos olhos desenrola
A nossa própria vida... p.107


POEIRA DA ESTRADA

Como é grata a partida pela estrada
Da vida, manhã clara, sol nascente!
Em cada curva, em cada canto, em cada
Moita, um pássaro canta à alma da gente...

Do meio dia ao sol, a caminhada
Já de um quase cansaço se ressente.
E em nossa fronte, em bagas perlejada,
Mede-se o esforço, cada vez crescente...

Descamba o sol. No topo da colina,
Olhando da subida os duros flancos,
A fronte se nos curva e ao chão se inclina.

E da escalada de urzes e barrancos,
A cabeça nos touca a poeira fina:
– O pó de prata dos cabelos brancos... p.109


POEMA DO ANO NOVO

O homem será sempre a mesma eterna criança,
A iludir-se de sonho e a viver de esperança!

Em cada ciclo anual, quanta desilusão
Lhe vem pungir a vida e o próprio coração!

Nem se lembra, talvez, que muito do que anseia
É, dos tempos de crianças, um castelo de areia...

Nem se lembra, por certo, à hora de sonhar,
Que o sonho da ilusão é amargo, ao despertar!...

Continua sonhando, a querer iludir-se,
Esquecido que a vida é feiticeira Circe,

A transformar em mal todo bem que logremos,
Em fel a converter algum mel que libemos...

Assim, quando a ventura à porta, de mansinho,
Nos bate, qual temendo acordar mau vizinho,

Não tarda que a desdita, a, de longe, espreitar,
Nos venha, só de má, o bem arrebatar...

Se a alegria nos chega, em visita, bondosa,
A tristeza se apressa a surgir, invejosa...

Se o riso nos aflora à pétala dos lábios,
Pronto as lágrimas vêm, com amargos ressábios...

Se a paz espiritual faz morada em nossa alma,
É preciso lutar, para ter essa palma!

Se a bondade reside em nosso coração,
Fazendo-nos querer a outrem como irmão,

A perversa maldade a descrer do altruísmo,
Julga impuro esse afeto e ri-se com cinismo...

Se o prazer nos ilude, em momentos felizes,
Entrelaçadas nele a dor tem as raízes...

E é sempre assim. Por mais que busquemos ventura,
Tudo quanto é pungente a ela se mistura.

No entanto, o sonhador continua sonhando,
Perdendo a ilusão, outra ilusão buscando;

Buscando a borboleta estranha da esperança,
Que alimenta de sonho a mesma eterna criança...

E atrás da borboleta ilusória e erradia,
Da túnica da vida ele a trama desfia...

ANO NOVO, que vens, qual borboleta iriada,
Novos sonhos trazendo em cada dia, em cada

Instante, – sê, por Deus! o eterno semeador:
– Multiplica ilusões ao pobre sonhador!... p.113-114


SUPLÍCIO

Num mundo vegetal, também, dramas se passam,
Pungentes, silenciosos,
Como tantos, cruciantes, dolorosos,
Que ora esmagam nossa alma,
Ora a rechaçam,
Sem que, exteriormente,
A máscara da face, sempre calma,
Transpire a mágoa ingente,
Que lhe dói,
A angústia inenarrável, que a corrói...

Assim, a “OEIRANA”
– “SALIX HUMBOLDTIANA”

Acorrentada ao seu destino amargo,
De eterna prisioneira
Da gleba ribeirinha em que nasceu,
E medrou, e cresceu,
– Tântalo vegetal
Padece a mágoa
Torturante, assassina, indizível, letal,
Que se prolonga uma estação inteira:
– De ver passar, ao pé de si, tanta água,
Que o rio vai levando,
Vai levando,
Enquanto, em gesto largo,
De súplica e humildade,
Como esmoler, que implora a caridade,
– Ela estende convulsa, os hirtos braços,
No anelo de quem quer fecundante abraços,
À liquida corrente,
Que passa indiferente,
Deixando-a a padecer a agonia inumana...
– Pobre e mísera “OEIRANA”! p.116


VELEIRO BRANCO

Veleiro branco, veleiro branco.
Que, ao longe, passas, riscando o mar,
Tuas velas pandas ao vento franco
Parecem asas a voejar.

Parecem asas cortando o azul,
Enquanto o azúleo mar vais cortando,
Veleiro branco, que o rumo sul
Sereno e calmo vais demandando.

Tuas velas brancas, pandas ao vento,
Parecem asas cortando os céus;
Parecem aves no firmamento;
Parecem lenços dizendo “adeus”.

Parecem braços, que se distendem,
Num gesto largo, num aceno nudo
De mãos trementes, que se desprendem,
Frias, silentes, dizendo tudo...

Parecem lenços que, ao longe, acenam
Um “adeus” dorido, de despedida...
Parecem sombras de almas, que penam
O “adeus” eterno, por toda a vida... p.130


POEMA DA SAUDADE INFINITA

Ah! Como eu gostaria de rever
A bem querida terra dos meus sonhos,
Os meus pagos risonhos,
A maloca nativa,
A querência da infância,
Perdida na distância,
– Mais do tempo impiedoso, e não no espaço,
Já que vai longe a minha meninice...

Vestindo o escafandro da saudade,
A memória mergulha no passado,
E eu revejo – olhos d’alma enamorada –
O modesto lugar em que nasci:

À beira rio, de águas turvas e barrentas,
– O “seringal”, de vida remansosa,
Todo poesia e encanto, aos meus olhos tranquilos...

Embora infrene a luta dos maiores.
Contra o meio telúrico, bravio,
Da selva hostil;
E esta a obstar, em vão, a incontida avançada
Em busca dos recônditos tesouros
Da “hévea” nativa,
– Em derredor de mim,
Alma povoada de candura,
Tudo sorria o riso da inocência...
Tudo cantava um canto de ternura...

Pelos campos olentes,
De moitas florescentes,
– O pipilo, o gorjeio, canto de mil aves,
Em plena liberdade,
Entoando ao Criador
Suas canções de amor...

À margem da corrente fluviar,
De águas cantantes, quérulas, viageiras,
– As “oeiranas” debruçadas a mirar-se
No espelho da linfa transeunte,
Quais ondinas vaidosas e brejeiras...

A assistir-lhes ao banho,
– As vigilantes “canaranas” ribeirinhas
Leques abertos, farfalhando ao vento...

Nos “repiquetes”, de águas novas, turbulentas,
“Balseiros” deslizando ao léu, sem rumo...

Ao primeiro sinal do escassear da linfa,
– A esponjosa flor da espumarada,
A dançar, “de bubuia”, à correnteza...

Como tudo era lindo, aos meus olhos infantes,
Tranquilo o coração, só inocência n’alma!
A vida era um sorriso, e o carinho materno
A transfundir bondade em meu ser ainda insonte...

Agora,
Repassando do tempo a dura caminhada,
(Quantos sonhos desfeitos!
Quantas sofridas mágoas!)
– Eu bem quisera ver-me, como outrora,
A banhar-me naquelas doces águas
Do meu rio da infância,
Com o coração sorrindo para o mundo,
Na ingênua mansidão daquela idade,
Como se só amor ele tivesse a dar-me,
Ao invés da tristeza, em que me inundo... p.148-150


OLIVEIRA, Mário de. Jardim Fechado. Rio Branco: Departamento de Imprensa Oficial, 1971.

HATUEY

Eduardo Galeano (1940-2015)

Nestas ilhas, nestes humilhadeiros, são muitos os que escolhem sua morte, enforcando-se ou bebendo veneno junto aos seus filhos. Os invasores não podem evitar essa vingança, mas sabem explicá-la: os índios, tão selvagens que pensam que tudo é comum, dirá Oviedo, são gente de natural ociosa e viciosa, e de pouco trabalho... Muitos deles por seu passatempo, se mataram com Peçanha para não trabalhar, e outros se enforcaram com suas próprias mãos.
Hatuey, chefe índio da região da Guahaba, não se suicidou. Em canoa fugiu do Haiti, junto aos seus, e se refugiou nas covas e montes do oriente de Cuba.
Ali apontou uma cesta cheia de ouro e disse:
– Este é o deus dos cristãos. Por causa dele nos perseguem. Por ele morreram nossos pais e nossos irmãos. Bailemos para ele. Se nossa dança o agradar, este deus mandará que não nos maltratem.
É agarrado três meses depois.
É amarrado em um pau.
Antes de acender o fogo que o reduzirá a carvão e cinza, um sacerdote promete-lhe glória e eterno descanso se aceitar batizar-se. Hatuey pergunta:
– Neste céu estão os cristãos?
– Sim.
Hatuey escolhe o inferno e a lenha começa a crepitar.

GALEANO, Eduardo. Memória do fogo, 1: nascimentos. Tradução Eric Nepomuceno. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1983. p.83

LÁGRIMAS ESTUDANTIS

Augusto Aires de Azevedo
3/09/18

Ó cena tão macabra e tão medonha,
Cujas telas são dignas de horror!
Foi como ter tirado todo amor,
De dentro, lá de dentro das entranhas.

Ó Clio, Deusa magna da História,
Perdoa esta pobre humanidade.
Por sua estúpida, tão grande insanidade,
Destruiu mais um templo onde habitavas.

Perdoai-nos ó deuses da cultura,
Pois a nossa tão cruel brutalidade,
E a nossa tão estupida maldade,
Apagou de vós, ó mais esta figura.

Palácio de tão grandes proporções,
De tão belos jardins e alamedas,
Hoje faz chorar-nos suas perdas,
Faz rasgar de chorar os corações.

Tua figura na noite tão calada,
Um monstro fulguroso parecia,
Um demônio que das profundezas vinha,
Mostrar a nossa natureza tão malvada.

Que chorem os teus pais e teus amigos,
Que chore o império que trazias.
Choremos pois todo bem que tu fazias,
E peçamos a Deus o seu perdão.

Pois é triste ver um povo em sua escória,
Sem ter saúde, segurança, educação.
Mas mais triste porem é ver uma nação,
Que transforma em cinzas sua História!