quinta-feira, 11 de novembro de 2010

A ARTE DO ROMANCE

Isaac Melo


Milan Kundera
O autor do instigante A Insustentável Leveza do Ser (1983) tem um pequeno opúsculo intitulado A Arte do Romance (1986). Nesse ensaio, o tcheco Milan Kundera desenvolve noções de grande valia para a compreensão do romance, apresentando-o como fruto da Modernidade, de nascimento europeu. Discorre ainda sobre os romancistas que o levaram a sua máxima expressão, os que o depreciaram e a discussão da possibilidade de seu fim.

René Descartes inaugura o pensamento moderno em que, ao partir do ceticismo intelectual, apontava para a possibilidade de a razão fazer progressos em direção à Verdade una e objetiva. Como caminho alternativo ao pensamento cartesiano Kundera aponta o romance, pois o romance, desde Miguel de Cervantes, teria reconhecido a impossiblidade de encontrar-se um ponto arquimediano, um ponto para além de todas as perspectivas, capaz de nos garantir o contato com alguma realidade essencial sobre o que quer que seja. Não há mais uma verdade redontora.

Kundera narra que quando Deus deixava lentamente o lugar de onde tinha dirigido o universo e sua ordem de valores, separado o bem do mal e dado um sentido a cada coisa, Dom Quixote saiu de sua casa e não teve mais condições de reconhecer o mundo. Este, na ausência do Juiz Supremo, surgiu subitamente numa terrível ambiguidade; a única Verdade divina se decompôs em centenas de verdades relativas que os homens dividiram entre si. Assim, o mundo dos Tempos Modernos nasceu e, com ele, o romance, sua imagem e modelo.

Nesse sentido, o romance parece surgir do fato de que não há mais lugar ou garantia para qualquer sabedoria. Isso faz com que Kundera se volte para o herói de Cervantes, Dom Quixote, pois este, como ressalta Walter Benjamim, mostra como a grandeza de alma, a coragem e a generosidade de um dos mais nobres heróis da literatura são totalmente refratárias ao conselho e não contêm a menor centelha de sabedoria. A sabedoria do romance é a sabedoria da incerteza. Para Kundera, compreender com Cervantes o mundo de ambiguidade, ter que afrontar, ao invés de uma só verdade absoluta, um monte de verdades relativas que se contradizem (no caso, verdades incorporadas em egos imaginários chamados personagens), possuir portanto como única certeza a sabedoria da incerteza exige uma força não menos grande.

No romance, segundo Kundera, o autor não ocuparia o lugar do Juiz Supremo. O leitor seria convidado a aceitar o difícil convívio com este concerto múltiplo de possibilidades presentes no romance, pois qualquer tentativa de se enquadrar definitivamente a identidade de uma personagem ou de procurar dizer o que realmente ali se está a passar equivaleria a sucumbir ao impulso contrário para o qual o próprio romance trabalha. O espírito do romance é o espírito de complexidade. Cada romance diz ao leitor: “as coisas são mais complicadas do que você pensa”. E antes que a filosofia viesse a se ocupar de alguns temas, o romance já os discutia bem antes, pois para Kundera o romance conhece o inconsciente antes de Freud, a luta de classes antes de Marx, e pratica a Fenomenologia (a busca da essência das situações humanas) antes dos fenomenólogos.

O romance não pode reduzir-se apenas a um divertimento literário, sua função também é possibilitar o desvelamamento de nosso ser. Destarte, Kundera afirma que o romance que não descobre uma porção até então desconhecida da existência é imoral. Porém, ressalta que a única moral do romance é o conhecimento. Por isso, os romances que não estendem a conquista do ser, a nada se prestam, pois não descobrem nenhuma parcela nova da existência, apenas confirmam o que já se disse; e mais: na confirmação do que se diz (do que é preciso dizer) consistem sua razão de ser, sua glória, a utilidade na sociedade que é sua. Exemplos relevantes, nesse sentido, são os livros de autoajuda; a literatura comercial, feita sob encomenda, cuja única finalidade é vender; os Paulos Coelhos da vida... uma vez que, seguindo o raciocínio de Kundera, não participariam da história do romance, pois não descobrem nada, não participam mais da sucessão de descobertas. Para o tcheco, os romancistas que são mais inteligentes que suas obras deveriam mudar de profissão. E ressalta que o romancista não é nem historiador nem profeta, mas um explorador de existência, e o romance, o lugar onde a imaginação pode explodir com um sonho.

O romance está em crise, reconhece Kundera, pois incluido neste sistema, ele não é mais obra (coisa destinada a durar, a unir o passado ao futuro) mas acontecimento da atualidade como outros acontecimentos, um gesto sem amanhã. Todavia, se o romance tem que desaparecer realmente, não é pelo fato de que esteja no fim de suas forças, mas porque se encontra em um mundo que não é mais o seu. Ora, se a razão de ser do romance é manter o “mundo da vida” sob uma iluminação perpétua e nos proteger contra o “esquecimento do ser”, a existência do romance não é hoje, mais necessária do que nunca, inquire Kundera.

Por fim, o romance, como paraíso imaginário dos indivíduos, é o território em que ninguém é dono da verdade. O homem pensa, Deus ri, diz um provérbio judaico. O homem pensa e a verdade lhe escapa, diz Kundera. Assim ele diferencia a sabedoria do romance da sabedoria da filosofia, pois o romance não nasceu do espírito teórico, mas do espírito do humor. De modo que, o romancista desfaz durante a noite a tapeçaria da verdade una e universal que os teólogos, os filósofos, os sábios teceram na véspera.

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KUNDERA, Milan. A arte do romance (ensaio). (trad. Teresa Bulhões C. da Fonseca e Vera Mourão). Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1988.
ARAÚJO, Inês Lacerda. Castro, Susana de (orgs). Richard Rorty: filósofo da cultura. Curitiba: Champagnat, 2008.

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

O ANJO BOM DE TARAUACÁ

Isaac Melo


A cada manhã, quando surgem os primeiros raios de sol, ela põe-se de pé. Reza, em comunidade, a oração das laudes. Às vezes toma um pouco de café. Pega sua bicicleta cargueira de três rodas, e sai. Ao longo das ruas vai recolhendo tudo o que possa ser útil ou reaproveitado: latinhas de cerveja, garrafas, pedaços de madeira, e mesmo excrementos de bois. E antes das sete ou por volta das sete e meia já está na sala da Pastoral da Criança. Agora, ultimamente, na Casa de Nazaré. Para daí sair somente ao anoitecer.

Essa rotina simples e ao mesmo tempo fora do comum pertence a uma mulher, uma singela senhora, uma religiosa de uma congregação dedicada à mãe de Jesus, as Irmãs de Nossa Senhora (Notre Dame). Trata-se de Ir. Nelda Luíza Möeleke com 81 anos de vida e mais de 60 de consagração religiosa dedicados ao serviço dos mais pobres e marginalizados, entre estes, as crianças, as mulheres e os idosos.

Irmã Nelda nasceu no Rio Grande do Sul, Passo Fundo, em 1929, a segunda dos onze filhos do casal Oscar e Erna. Aos quinze anos ingressou na Congregação das Irmãs de Nossa Senhora, fundada por duas mulheres, sob a inspiração de Santa Júlia Billiart, em 1850, em Coesfeld, Alemanha. Ir. Nelda já trabalhou em diversos lugares, como Bahia e Brasília. Desde 1971 está no Acre, quando chegou, a convite do então bispo Dom Henrique Rueth, com mais três irmãs, pioneiras na missão da Congregação em terras acreanas. Assumiram inicialmente trabalhos no hospital de Cruzeiro do Sul. Tempos depois Ir. Nelda é designada para Tarauacá.

Com impressionante dinamismo e profunda fé, Ir. Nelda se assemelha a uma daquelas grandes matriarcas descritas no Antigo Testamento, a fazer a ligação entre Deus e o seu povo. É na Casa de Nazaré, no Bairro da Praia, que exerce seu magistério do amor, junto às mulheres, as crianças e os idosos.

Às mulheres, sobretudo grávidas, dispensa atenção especial, com orientações de saúde e higiene, alimentação e preparação de enxoval. Além de noções de cozinha, costura, bordados e pequenos outros cursinhos de utilidade prática. Convida profissionais de variados ramos para dar palestras e orientações referentes à educação, saúde e cidadania.

Suas mãos enrugadas testemunham seu amor dedicado às crianças. Quando a desnutrição assombrava o maior bairro de Tarauacá, levando a óbitos muitas crianças, ela, juntamente com a Pastoral da Criança, surgiu como um anjo. Na multimistura preparada ali, no Centro de Pastoral, sob sua orientação, uma nova história começou a ser escrita para aquelas crianças. O acompanhamento se dava ainda na gravidez. No nascimento, cada criança era acompanhada por um líder da Pastoral que orientava as mães, realizava a pesagem e acompanhava o crescimento da criança. No cumprimento dessas tarefas Ir. Nelda sempre foi firme e fazia questão de ver tudo pessoalmente. Outra grande ajuda era o xapore feito à base de plantas e cascas medicinais da própria região, fatal no combate a gripe. Além do mais, há a brinquedoteca que acolhe inúmeras crianças, pela manhã e pela tarde, de famílias do bairro.

Incansável na luta pelos direitos da Pessoa Idosa. Rezavam, cantavam, dançavam, voltavam a ser crianças e a ter alegria a cada encontro. Os velhos ali eram mais vivazes que boa parte da juventude. Seu grande sonho, ainda por se concretizar, é a construção de uma casa para os idosos, em que possam se encontrar para desenvolver atividades culturais, esportivas e de cidadania. Já conseguiu o terreno, porém os recursos financeiros para a construção ainda faltam.

Quantas vezes encontrei Ir. Nelda debruçada em sua mesa a escrever cartas a diversas autoridades: governador, senador, deputados, juiz, etc. Em uma agradecia, fazia pedidos, informava situações, em outras, cobrava, lembrava acordos firmados, denunciava. Profeta de seu tempo, zeladora da fé e servidora dos pequenos. Por tanto empenho e dedicação, o Governo do Estado do Acre, a pedido da Assembleia Legislativa, em 29 de Dezembro de 2004, pelas mãos do então governador Jorge Viana é assinada a Lei 1.617 que concede o título de Cidadã Acreana a Ir. Nelda. Um gesto louvável do povo acreano por uma de suas grandes benfeitoras. Exemplo que ainda espero ver repetido pela Câmara Municipal de Vereadores de Tarauacá.

Ir. Nelda é daquelas pessoas, como dizia o grande profeta Dom Hélder Câmara, que, como cana, mesmo postas na moenda e reduzidas a bagaços só sabem dar doçura. Uma mulher de fé, com o coração em Deus e os olhos voltados para o povo. Uma mulher em santidade, em meio as suas fragilidades e limitações.

Conheço-a, e sei de sua humildade. Talvez por isso relegue aceitar todas essas palavras por considerá-las demasiadas para sua pessoa, que fez e faz tudo isso no oculto, sem alardes, sem paga e por amor. Mas tenho que concordar com o escritor francês Marcel Proust que dizia que devemos ser gratos para com as pessoas que nos propiciam felicidade, pois são elas os encantadores jardineiros que nos fazem florir a alma.

Escrevi este texto com o coração apertado e os olhos úmidos de lágrimas. Pois os anos em que convivi com Ir. Nelda estão entre os mais frutíferos de minha vida. Uma mulher, uma mãe, uma mestra, uma amiga. Simplicidade, fé, serviço, amor, dedicação são palavras centrais na vida dessa religiosa que há seis décadas dedica-se ao serviço do próximo, no cumprimento do Evangelho, na construção do Reino de Deus. Encerro essas imperfeitas palavras, porém sinceras, com os versos do grande poeta latino Virgílio: “onde quer que eu viva viverá com louvor teu nome e tua fama”.

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

SUINDARA: A BELEZA E O OLHAR HUMANO DAS CRÔNICAS DE LEILA JALUL

Isaac Melo


Na crônica, uma coisa é o acontecer, outra coisa é escrever aquilo que aconteceu. A narrativa vai ganhando cores próprias, conforme o olhar e a perspicácia com que cada um narra o que viu ou ouviu. Fato ou fantasia. Cronistas como Cony e Rubem Braga estão entre aqueles que considero geniais nesse gênero.

Ao voltar meu faro literário para o Acre, como alguém que mais ama nossas letras do que a compreende, meus pensamentos se voltam incontestes para Florentina Esteves, o vulto literário feminino, a meu ver, mais expressivo do Acre. O Empate é um primor literário. Suas crônicas (Enredos da Memória) são um capítulo a parte nas letras acreanas. Outra figura imponente é Jorge Kalume. Não é a quantidade que denota a qualidade demonstra seu Crônicas do Acre Antigo. E nessa história há que figurar Leila Jalul, em Suindara, com suas “doces lembranças que ninguém pode esquecer de lembrar”.

Suindara é bem acreano como a autora. Não é rebuscado de eruditismo. O texto flui como as águas de igarapé que buscam o rio, ora calmas, ora agitadas. Mas, no fundo, o que vemos é uma linguagem que segue a vida, coloquial, vital. E o texto sai como uma conversa entre amigos. E o que poderia parecer prosaico, revela-se como uma notável capacidade literária.

Difícil ficar impassível às suas crônicas. Assim em Barrancas e Lembranças vemos a história do jovem Pelé, que amava sua mãe e sua irmã e era apaixonado por folhas. A morte da mãe e as circunstâncias da vida o levaram a Manaus. Em Manaus, fez-se assassino. Todavia, há o olhar humano da cronista, sem fazer juízo de valor: “A lembrança e o carinho por ele não afundaram no mergulho do rio, nem diante da foto que vi na folha do jornal. Tirante os olhos, era a de um homicida cruel, que bem poderia ter sido um botânico”.

Em Chiquinha Coralina Moreira a autora, com muita competência e propriedade, traça um paralelo entre a poetisa goiana Cora Coralina e Dona Chiquinha Moreira, uma benzendeira acreana. A primeira, “de versos puros, em feitio de oração; a segunda, de orações puras, em feitio de poesia”. E arrematava: “Cora nos legou a riqueza de seus poemas; Chiquinha, um rastro de luz. Juntas, a beleza do ser simples e a importância de um lenitivo”. Nessa crônica, percebe-se a argúcia do pensamento de Jalul, que extrapola os limites do regionalismo e se abre numa perspectiva universal.

A crítica sutil, embora mordaz, aparece em diversos momentos como em Menino Bonito, que deixa entrever como o Estado (Ditadura) se utiliza de certos recursos para exercer seu poder e subjugar os “fracos”. Assim, o menino que era “bonito, forte e burro, ingredientes necessários para obedecer” alistou-se na Base Aérea de Belém. Lá foi ensinado a matar: “ora, se era possível matar a si próprio, por que não a outro? E a outro matou”. E o jovem dócil e amoroso metamorfoseia-se num ser estúpido e brutalizado. Desse modo, registra a pena da cronista: “Menino gordo, burro e adestrado, saiu do tempo e dos templos da redentora outro menino: mais obeso, mais burro, mais alienado”. Embora no fundo daquele ser embrutescido ainda subsistisse um filete de ternura.

Algumas crônicas tratam de questõe sérias, com toda a seriedade que pode assumir o riso. Sim, pois em muitos dos textos o humor é mais para corroborar seu pensamento do que para deleite literário. Embora o contrário também seja válido. Entre os inúmeros exemplos, as crônicas: Minhas Férias e A Francesinha.

Suindara, a nossa rasga-mortalha, ave tão temida pelos acreanos, por se acreditar que seu canto prenuncia agouros. Mas desde há muito a coruja é tida como o símbolo da filosofia, da sabedoria, pela sua notável capacidade de ter uma visão de 360 graus. Aí está porque Leila Jalul a escolheu para título de sua obra. Suas crônicas são um canto, a encantar aqueles que a ouvem, numa notável capacidade de ver e ir além daquilo a que estamos comumente fadados a enxergar e a ir.

Nas páginas de Suindara estão excertos da memória acreana, de um passado não muito distante, e que, de todo, ainda não passou. São passagens particulares da autora e “passagens de outros entes que sequer souberam que passaram”. Vivi vivendo e escrevo o que vivi, é a singularidade da cronista. Um Estado que têm escritores de excepcionais qualidades, pode regozijar-se com uma cronista e poetisa que está à sua altura, como Leila Jalul, a engrandecer nossas letras.

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

O QUE INFLUENCIA O AMANHÃ - José Saramago

A pergunta que todos deveríamos fazer-nos é: Que fiz eu se nada mudou? Deveríamos viver mais no dessassossego. Não haverá amanhã se não mudarmos o hoje. Como se conta em A Caverna, tudo o que levamos às costas é passado e todo esse passado, incluindo a desesperança e a desilusão, é o que influencia o amanhã. Há que fazer o trabalho todos os dias com as mãos, a cabeça, a sensibilidade, com tudo.


“Antes el burócrata típico era un pobre diablo, hoy registra todo”, La Nación, Buenos Aires, 13 de Dezembro de 2000

terça-feira, 2 de novembro de 2010

FOUCAULT REVOLUCIONA A NOÇÃO DE SUJEITO, DE HISTÓRIA E DE GOVERNO

Profª. Inês Lacerda Araújo


A noção de sujeito para Descartes é a de pessoa com uma mente autoconsciente e a de um corpo como uma máquina; a de Kant é a de pessoa dotada de liberdade de decidir, absoluta, incondicional, e também de capacidade racional para pensar o real por meio de formas invariáveis, que possibilitam conhecer tudo o que está no tempo e no espaço, que tem uma causa e pode ser determinado.

Pois bem, Foucault tem outra noção de sujeito. Ele pensa um pouco como Nietzsche, nada além de atos e práticas que pertencem à história pode nos constituir, seja para pensar, seja para agir, seja para valorar. Sujeito e história se constituem um ao outro. Como?

Foucault, sem negar que é possível entender a história humana pelas guerras, nações que nascem e morrem, grandes líderes, grandes descobertas -, inaugura outro modo de olhar a história. Ele analisa acontecimentos que passam batido, como a história da loucura, história do surgimento da clínica médica, do nascimento das ciências humanas, da sexualidade, dos modos de constituição do sujeito, da violência nas prisões, do hospital psiquiátrico, das modificações no governo de si mesmo e no governo dos outros.

O modo de abordar tudo isso também é inédito:

- Pelas práticas discursivas, por exemplo: a produção de verdade de tipo classificatória, que põe os seres em um quadro geral como a história natural de Lineu, século 17; isso sofreu uma mutação com Darwin: não mais um quadro estático, mas evolução natural. No século 18, novas práticas discursivas fazem surgir novos objetos de saber: a vida que evolui, as gramáticas e suas regras para que haja línguas, e os modos de produção pelo trabalho.

- Pelas práticas não discursivas, exemplos: o hospital psiquiátrico que encerra o louco e permite um saber sobre a loucura que se torna objeto médico; a forma prisão de punir, que reúne saber sobre o delinquente e um tipo ágil e rápido de poder, que requer o exame, a vigilância, o isolamente celular. Não mais o corpo orgânico, mas dobrar, corrigir, modificar o comportamento individual (fins do século 18);

- Pelas práticas de governo dos outros: o antigo soberano governa súditos e tem o poder sobre território; o Estado moderno surgiu de práticas de governo sobre populações, é necessário atuar sobre a saúde, o meio, a produção, o mercado. Deixar o mercado agir livremente numa ponta e na outra manter a população governável, cuidando de cada um e de todos como o pastor cuida de suas ovelhas. Poder governar na modernidade exige mecanismos de segurança da vida (biopoder).

- Pelas práticas de governo de si: desde o conhece-te a ti mesmo de Sócrates, até o divã freudiano, passando pela confissão dos pecados cristã. Essas práticas nos levam ao domínio de si, ao prazer de escarafunchar o inconsciente, à invenção de uma alma a ser salva.

Enfim, somos pensados, punidos, governados, objeto de saberes, alvo de poderes. Ainda assim, mais livres do que sonhamos, pois somos capazes de enfrentar, denunciar e às vezes até de modificar aquelas práticas!

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* INÊS LACERDA ARAÚJO - doutora em Estudos Linguísticos, filósofa, escritora e professora aposentada da UFPR e PUCPR.

domingo, 31 de outubro de 2010

O QUE A FILOSOFIA PERMITE REALIZAR?

Profª.  Inês Lacerda Araújo
FILOSOFIA DE TODO DIA


Quando se fala em filosofia, logo vem à mente algo complexo, abstrato e inútil. Coisa da cabeça, dizem. Nada prática.

Na última postagem publiquei a estátua do Semeador para ilustrar a filosofia como ação, como atividade, semear ideias, conceitos, novas visões, modos de nos compreendermos, de avaliar situações e lidar com elas de forma mais investigadora e instigadora.

A filosofia se volta para ela mesma, para a sua história, e repensa seu papel, leva-nos a aprender com a realidade e a apreendê-la, isto é, pensar o real e transformar algo nas pessoas, a semente da pergunta, da indagação.

Ela proporciona conceitos para uma melhor compreensão de três áreas:

1. A ética e a política. O filósofo emblemático é Aristóteles para entender porque ética e política estão relacionadas. A sociedade política é um bem de e para todos, o homem como animal social, tem o senso do bem e do mal, do justo e do injusto. A sociedade política é uma reunião de pessoas para promover o bem viver; é preciso que o Estado proporcione uma vida feliz e virtuosa, que seja conduzido por um piloto que entenda de navegação. Diz Aristóteles em A Política:

Quando o monarca, a minoria ou a maioria, não buscam senão a felicidade geral, o governo é justo. Mas se visa ao interesse particular do príncipe ou dos outros chefes, há um desvio (p. 93). É impossível um Estado feliz se dele a honestidade for banida (p. 49).

2. A cultura. Vejamos o que diz Nietzsche: é preciso coragem para romper com valores gastos e estabelecidos. Reinventar valores cabe ao poeta solitário, capaz de dispensar a moeda gasta, de associar conceitos às necessidades e atribulações. A cultura sofre, foi banalizada, tudo está a serviço da barbárie, até mesmo a arte e a ciência (cf Considerações Contemporâneas, p. 74). Há que fugir do conformismo, do é assim mesmo, e penetrar nos difíceis caminhos do "eu assim o quis" (moral do forte).

3. As práticas humanas. Nasceram na história, e têm uma história, muita vezes cruel. Foucault mostra que o modo como o sujeito humano moderno se constitui, depende de práticas como as da prisão, hospitais, invenção da psiquiatria, das ciências humanas, que servem para conhecer o homem, e, ao mesmo tempo domesticá-lo. Em Vigiar e Punir Foucault analisa como o saber produz poder instalado em práticas como o castigo para o escolar, a prisão como forma generalizada para punir, o surgimento de instituições que dependem de vigilância. Esse é tema para próxima postagem.

Pensar não é pouca coisa...
 
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* INÊS LACERDA ARAÚJO - doutora em Estudos Linguísticos, filósofa, escritora e professora aposentada da UFPR e PUCPR.

sábado, 30 de outubro de 2010

MINEIROS DOS BONS!


O Skank nasceu em 1991, em Belo Horizonte, capital das Minas Gerais, que deu orgulho ao Brasil de ter alçado ao mundo nomes como Milton Nascimento, Sepultura e tantos outros. Samuel Rosa (guitarra e voz), Henrique Portugal (teclados), Lelo Zaneti (baixo) e Haroldo Ferreti (bateria) reuniram-se em torno do mesmo interesse: transportar o clima do dancehall jamaicano para a tradição pop brasileira. O primeiro álbum , “Skank”, foi lançado de forma independente, em 1993, mas rapidamente o sucesso da banda na cena underground despertou o interesse da poderosa Sony Music. Junto ao Skank, a multinacional inaugurou no Brasil o selo Chaos.
Site oficial do Skank.

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

HISTÓRIA UNIVERSAL DA INFÂMIA

O argentino Jorge Luis Borges (1899-1986), poeta, contista e ensaísta escreveu algumas das mais importantes obras literárias do século XX, entre as quais: Ficções, O Aleph, O informe de Brodie e O livro dos seres imaginários. A publicação de História Universal da Infâmia, em 1935, seu primeiro texto de narrativas de ficção, o consagrou como um dos maiores nomes da literatura na América Latina. O livro, por um lado, revela a preocupação social de Borges, voltado à denúncia de uma sociedade para ele incorregível; por outro, a descoberta de um novo caminho aliado à concepção que ele tem de seu fazer literário. O conto abaixo integra o referido livro.

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HISTÓRIA DOS DOIS QUE SONHARAM
- Jorge Luis Borges -

O historiador árabe El Ixaqui conta este fato:

“Dizem os homens dignos de fé (mas só Alá é o onisciente, poderoso, misericordioso e não dorme) que houve no Cairo um homem muito rico, mas tão magnânimo e liberal que perdeu todas as riquezas, menos a casa de seu pai, e se viu forçado a trabalhar para ter o que comer. Trabalhou tanto que o sono, certa noite, o venceu debaixo duma figueira de seu jardim, e no sonho viu um homem gordo que tirou da boca uma moeda de ouro e lhe disse: ‘Tua fortuna está na Pérsia, em Isfajan; vai buscá-la’. Na madrugada seguinte ele acordou e empreendeu uma longa viagem e enfrentou os perigos do deserto, dos navios, dos piratas, dos idólatras, dos rios, das feras e dos homens. Chegou por fim a Isfajan, mas no centro dessa cidade foi surpreendido pela noite e se estendeu para dormir no pátio duma mesquita. Junto da mesquita, havia uma casa e, por vontade de Deus Onipotente, um bando de ladrões atravessou a mesquita e se meteu na casa, e as pessoas que dormiam despertaram com o barulho dos ladrões pediram socorro. Os vizinhos também gritaram, até que o capitão da guarda-noturna daquele distrito acudiu com seus homens e os bandoleiros fugiram pelo terraço. O capitão mandou investigar a mesquita e nela deram com o homem do Cairo e lhe aplicaram tantos golpes com varas de bambu que ele andou perto da morte. Dois dias depois recobrou os sentidos na prisão. O capitão mandou buscá-lo e lhe disse: ‘Quem és e qual é a tua pátria?’ O outro declarou: ‘Sou da famosa cidade do Cairo e meu nome é Mohamed El Magrebi’. O capitão perguntou: ‘Que te trouxe à Pérsia?’ O outro decidiu-se pela verdade e falou: ‘Um homem me ordenou, num sonho, que eu viesse a Isfajan, porque aqui estava a minha fortuna. Já estou em Isfan e vejo que essa fortuna que me prometeu deve ser os açoites que tão generosamente me deste.

“Diante de tais palavras, o capitão riu até mostrar os dentes do siso e acabou por dizer-lhe: ‘Homem desatinado e ingênuo, três vezes sonhei com uma casa na cidade do Cairo em cujo fundo existe um jardim, e no jardim um relógio de sol e depois do relógio uma figueira e depois da figueira uma fonte, e debaixo da fonte um tesouro. Não dei o menor crédito a essa mentira. Tu, entretanto, filho duma mula com um demônio, erraste de cidade em cidade, guiado apenas pela fé do teu sonho. Que eu não te volte a ver em Isfajan. Toma estas moedas e vai-te!’

“O homem tomou as moedas e regressou à pátria. Debaixo da fonte de seu jardim (que era o sonho do capitão) desenterrou o tesouro. Assim Deus o abençou e o recompensou e exaltou. Deus é o generoso, o Oculto”.

(Do Livro das 1001 noitesm noite 351.)

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BORGES, Jorge Luis. História Universal da Infâmia. São Paulo: Globo, 1989.

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

O FEITICEIRO DESPREZADO - Jorge Luis Borges

Havia em Santiago um deão que desejava ardentemente aprender a arte da magia. Ouviu dizer que Dom Illán de Toledo a sabia mais do que ninguém e foi a Toledo procurá-lo.

No dia em que chegou, dirigiu-se à casa de Dom Illán com bondade e falou que adiava o motivo de sua visita até depois de comer. Mostrou-lhe um alojamento muito fresco e disse que a sua vinda o deixava muito alegre. Depois de comer, o deão contou a razão daquela visita e pediu que lhe ensinasse a ciência mágica. Dom Illán disse que adivinhava que ele era deão, homem de boa posição e bom futuro, e que temia ser logo esquecido por ele. O deão prometeu e assegurou que jamais esqueceria aquela mercê e que ficaria sempre às suas ordens. Já acertado esse assunto, explicou Dom Illán que as artes mágicas não podiam ser aprendidas senão em lugar afastado e, tomando-o pela mão, levou-o a uma peça contígua, em cujo assoalho havia uma grande argola de ferro. Antes avisou à criada que tivesse perdizes para a ceia, mas que não as pusesse para assar até que ordenasse. Levantaram a argola e desceram por uma escada de pedra bem lavrada, até que ao deão pareceu que tinham descido tanto que o leito do Tejo estava sobre eles. Ao pé da escada havia uma cela e depois uma biblioteca e mais adiante uma espécie de gabinete com instrumentos mágicos. Examinaram os livros e estavam nisso quando entraram dois homens com uma carta para o deão, escrita pelo bispo, seu tio, na qual lhe fazia saber que estava muito doente e que, se quisesse encontrá-lo vivo, não demorasse. Essas notícias contrariaram muito o deão, tanto pela doença do tio como por ter de interromper os estudos. Resolveu escrever uma desculpa e a mandou ao bispo. Três dias depois chegaram alguns homens de luto com outras cartas para o deão, nas quais se lia que o bispo tinha falecido, que estavam escolhendo sucessor e que esperavam pela graça de Deus que fosse ele o eleito. Diziam também que não incomodasse em vir, pois parecia muito melhor que o escolhessem em sua ausência.

Passaram-se dez dias e vieram dois escudeiros muito bem vestidos, que se atiraram a seus pés, beijaram suas mãos e o saudaram como bispo. Quando Dom Illán viu essas coisas, dirigiu-se com muita alegria ao novo prelado e disse que agradecia ao Senhor que tão boas novas chegassem à sua casa. Em seguida lhe pediu o decanado vacante para um de seus filhos. O bispo informou que tinha reservado o decanado para seu próprio irmão, mas que decidira favorecê-lo e que partissem juntos para Santiago.

Foram os três para Santiago e os receberam com honras. Seis meses depois recebeu o bispo mensageiros do Papa que lhe oferecia o arcebispado de Tolosa, deixando em suas mãos a nomeação do sucessor. Quando Dom Illán soube disso, lembrou a antiga promessa e pediu o título para o filho. O arcebispo informu que tinha reservado o bispado para seu próprio tio, irmão de seu pai, mas estava resolvido a favorecê-lo e que partissem juntos para Tolosa. Dom Illán não teve outro remédio senão aceitar.

Foram os três para Tolosa, onde os receberam com honras e missas. Dois anos depois, recebeu o arcebispo mensageiros do Papa que lhe oferecia o chapéu de Cardeal, deixando em suas mãos nomear um sucessor. Quando Dom Illán soube disso, lembrou a antiga promessa e pediu o título para seu filho. O Cardeal informou que tinha reservado o arcebispado para o próprio tio, irmão de sua mãe, mas que determinara favorecê-lo e que partissem juntos para Roma. Dom Illán não teve outro remédio senão aceitar. Foram os três para Roma, onde os receberam com honras, missas e procissões. Quatro anos depois morreu o Papa e nosso Cardeal foi eleito para o papado por todos os demais. Quando Dom Illán soube disso, beijou os pés de sua Santidade, lembrou-lhe a antiga promessa e pediu o cardinalato para o filho. O Papa o ameaçou com a prisão, dizendo-lhe que bem sabia que ele não era mais que um feiticeiro e que em Toledo tinha cido professor de artes mágicas. O mísero Dom Illán disse que ia voltar à Espanha e pediu alguma coisa para comer na viagem. O Papa não o atendeu. Então Dom Illán (cujo rosto estava estranhamente mais jovem) falou com uma voz sem tremor:

– Pois terei que comer as perdizes que encomendei para esta noite.

A criada apresentou-se e Dom Illán mandou que assasse. A essas palavras, o Papa se encontrou na cela subterrânea em Toledo, não mais que deão de Santiago, e tão envergonhado de sua ingratidão que nem atinava em desculpar-se. Dom Illán disse que bastava essa prova, negou-lhe a parte que teria das perdizes e o acompanhou até a rua, onde lhe desejou feliz viagem e dele se despediu com grande cortesia.

(Do Livro de Patrono do infante Dom Juan Manuel, que o extraiu dum livro árabe – As Quarentas Manhãs e as Quaresmas Noites.)

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BORGES, Jorge Luis. História Universal da Infâmia. São Paulo: Globo, 1989.

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

RIOS E BARRANCOS DO ACRE

Isaac Melo


Os barrancos não moldam apenas a paisagem, mas estão, intimamente, ligados à história social dos acreanos. Sobre os barrancos assentou-se a tapera, o barracão e a cidade. De modo que, metaforicamente, se pode afirmar que o barranco foi, assim como o rio, o primeiro agente agregador do Acre antigo, anfiteatro em que se encenaram as primeiras relações, e que, ainda hoje, continuam a ser representadas.

Nas letras acreanas, uma das obras que descrevem, com maestria, as “relações de barranco” é “Rios e Barrancos do Acre”, de Mário Maia, que é ainda autor de “Sombras siderais e outras sombras” (1990). O livro, escrito por volta de 1964, passou alguns anos engavetados, até vir a lume em 1968. Nascido em Rio Branco, em 1925, Mário Maia teve uma trajetória de vida que muito engrandeceu o Acre, como médico, formado pela Universidade Federal Fluminense, deputado federal, secretário de governo e senador da República. Um enfarto o levou em julho de 2000.

Rios e Barrancos do Acre é memorialístico. Descreve memórias de médicos registrando dramas e tragédias do extrativismo da borracha no Acre, como sentencia a quarta-capa. E mais do que isso, é um livro, nas palavras de Iderval Garcia, carregado de humanismo e de história. É, enfim, literatura, das melhores que o Acre registra em sua bibliografia.

Em Rios e Barrancos do Acre Maia une o primor literário, expresso num bom enredo, ao saber histórico, ao fazer memória de fatos e personagens da história acreana que não figura na historiografia oficial. A cada página, lê-se o Acre sem maquiagem, em toda a sua pujança, de vida e de sofrimento. Da vida para as páginas vão surgindo personagens como o médico dr. Melinho (Ary Damasceno Barral do Monte Mello), figura real de nossa história a quem o autor presta homenagem; o coronel Fermiro, dono de quase todo o Rio Macuã; o drama das mulheres como Helena, que, com a morte do pai, tornara-se seringueira para sustentar sua mãe e seus irmãos; Maria das Mercês, irmã mais nova de Helena, deflorada desde cedo pelo coronel Fermiro, que ao deixar o seringal para morar em Rio Branco “foi aos poucos deixando de ser o anjo da selva, para na selva dos homens tornar-se uma rapariga do Papouco”; a sina do nordestino Heitor, encerrado numa colônia de leprosos, etc.

O autor, ao longo do livro, vai encerrando, na fala de cada personagem, excertos da história do Acre, e o resultado se nota na descrição detalhada acerca dos seringais, o seu funcionamento, o período de prosperidade, as festas, os “causos” contados pelos seringueiros, a solidão, as picadas de animais peçonhentos, a situação das mulheres. O livro é uma pequena rapsódia acreana, em que se desfilam acontecimentos e gentes, história e fantasia, dramas e glórias. Como não se encantar com a maestria das páginas em que o autor descreve cenas dos partos feitos sem quase nenhum recurso, a luta para salvar a vida de crianças e mulheres, ou quando descreve acerca das queimadas, das brincadeiras infantis, das casas de farinha, das chatas, das cachaças da época, dos primeiros aviões a pousarem em solo acreano e da construção, em mutirão, dos primeiros aeroportos.

Por fim, é justo reafirmar aquilo que, o então senador, Adalberto Sena dizia no prefácio de Rios e Barrancos do Acre, “o livro é uma sequência de quadros onde peculiaridades da terra e do homem se exibem; e a alma da gente simples do interior e das cidades do Acre se exterioriza com a autenticidade dos seus modos de ser, de sentir e de reagir”. Rios e Barrancos do Acre vai além de uma boa ficção mesclada com fatos e acontecimentos históricos, é o testamento de amor ao povo acreano de um abnegado filho, Mário Maia.

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MAIA, Mário. Rios e Barrancos do Acre. Niterói: Gráfica do Senado, 1978.

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

HISTÓRIA DE UM BRÂMANE

Voltaire (1694-1778)


Durante as minhas viagens encontrei um velho brâmane – homem muito sábio, cheio de espírito e erudição; além do mais, era rico, e portanto mais sábio ainda, já que, como não lhe faltava nada, não precisava enganar ninguém. Sua casa era otimamente governada por três lindas mulheres que faziam de tudo para agradá-lo; e quando não se divertia com elas, sua ocupação era filosofar.

Perto de sua moradia, que era bonita, bem decorada e cercada de encantadores jardins, morava uma velha hindu, muito devota, imbecil e extremamente pobre.

– Quem me dera não ter nascido! – disse-me um dia o brâmane. Perguntei-lhe por quê. – Faz quarenta anos que eu estudo – respondeu-me –, e foram quarenta anos perdidos: ensino os outros, e ignoro tudo; esse estado me enche a alma de tanta humilhação e desgosto que faz com que minha vida seja insuportável. Nasci, vivo no tempo, e não sei o que é o tempo; encontro-me num ponto no meio das duas eternidades, como dizem os nossos sábios, e não tenho a mínima ideia do que seja a eternidade. Sou feito de matéria, penso, e nunca pude saber o que é que produz o pensamento; ignoro se o meu entendimento é em mim uma simples faculdade, como a de caminhar, de digerir, e se penso com a minha cabeça como seguro com as minhas mãos. Não apenas o princípio de meu pensamento me é desconhecido, mas também o princípio dos meus movimentos: não sei por que existo. Não obstante, cada dia me fazem perguntas sobre todos esses pontos; é preciso responder; nada tenho que preste para lhes comunicar; falo bastante, e fico confuso e envergonhado de mim mesmo depois de haver falado. O pior é quando me perguntam se Brama foi produzido por Vixnu, ou se ambos são eternos. Deus é testemunha de que nada sei a respeito, o que bem se vê pelas minhas respostas. “Ah! Meu reverendo”, implorou-me, “dizei-me como é que o mal inunda toda a Terra.” Sinto-me nas mesmas dificuldades que aqueles que me fazem tal pergunta: digo-lhes algumas vezes que tudo vai o melhor possível; mas aqueles que foram arruinados ou mutilados na guerra não acreditam nisso, nem eu tampouco; retiro-me abatido pela curiosidade e pela minha ignorância. Vou consultar meus companheiros: respondem-me alguns que o essencial é gozar a vida e zombar dos homens; outros acreditam saber alguma coisa, e perdem-se em divagações; tudo contribui para aumentar o doloroso sentimento que me domina. Às vezes me sinto à beira do desespero, não sei nem de onde venho nem para onde vou nem no que me transformarei.

O estado desse excelente homem me causou verdadeira compaixão: ninguém tinha mais senso e boa-fé. Compreendi que, quanto mais luzes havia no seu entendimento e mais sensibilidade no seu coração, mais infeliz era ele.

Vi no mesmo dia a velha sua vizinha: perguntei-lhe se alguma vez havia ficado aflita por querer saber como era a sua alma. Ela nem entendeu a minha pergunta: jamais em sua vida refletira um instante sobre um só dos pontos que atormentavam o brâmane; acreditava de todo o coração nas metamorfoses de Vixnu e, desde que algumas vezes pudesse conseguir água do Ganges para se lavar, considerava-se a mais feliz das mulheres.

Impressionado com a felicidade daquela criatura, voltei ao meu filósofo e lhe disse:

– Não te envergonhes de ser infeliz, quando mora à tua porta um velho autômato que não pensa em nada e vive feliz?

– Tens razão – respondeu-me ele. – Mil vezes eu disse a mim mesmo que seria feliz se não fosse tão tolo como a minha vizinha, contudo não desejaria tal felicidade.

Essa resposta me impressionou mais que todo o resto; consultei minha consciência e vi que na verdade também não desejaria ser feliz sob a condição de ser imbecil.

Apresentei a questão a filósofos, e eles concordaram com a minha opinião. “Contudo”, dizia eu, “existe uma terrível contradição nessa maneira de pensar”. Pois de que se trata, afinal? De ser feliz. Que importa, então, ter espírito ou ser tolo? Mais ainda: aqueles que estão contentes consigo mesmos estão bem certos de estar contentes; mas aqueles que raciocinam não têm tanta certeza de raciocinar bem. “É claro”, dizia eu, “que se deveria preferir não ter senso comum, desde que este contribua, o mínimo que seja, para o nosso mal-estar.” Todos concordaram comigo, porém não encontrei ninguém que aceitasse se tornar imbecil para se sentir contente. Daí concluí que, se damos muito valor à felicidade, damos mais ainda à razão.

Contudo, pensando bem, parece uma insensatez preferir a razão à felicidade. Como explicar, então, tal contradição? E também todas as outras. Há muito a discutir a respeito disso.


VOLTAIRE. Contos. São Paulo: Editora Nova Cultural, 2002. p. 235-239

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

A FILOSOFIA E SEU PAPEL NA CULTURA OCIDENTAL

Profª. Inês Lacerda Araújo


Diógenes de Laércio relata a seguinte passagem: "Conta-se ter dito Heráclito a estranhos que o queriam visitar e espantam-se ao vê-lo aquecer-se junto ao fogão: podeis entrar, aqui também moram deuses". Já escrevi sobre esse trecho em outra postagem. Acho-o muito significativo, pois traz o filósofo e a filosofia para o cotidiano. Na modesta cozinha, junto ao fogo, preparando comida, também há deuses, há o ideal, o nobre, o que de mais sublime os homens podem almejar.

Essa união entre real e ideal tem alimentado a filosofia e nos conduz à reflexão sobre nossa essência humana, o que pensamos sobre nosso modo humano de ser.

Em tempos antigos, os filósofos projetavam como ideal a sabedoria da alma, do logos, do pensamento: "O logos, que pertence à alma, diz Heráclito, aumenta a si próprio". Quer dizer, o logos retira de si a capacidade de conhecer, de chegar à sabedoria. Sabedoria pode ser interpretada como o encontro consigo, como uma espécie de revelação, de iluminação.

Guerra e Paz é um formidável romance de Tolstói sobre a nobreza russa e a guerra contra Napoleão. O príncipe André, um dos personagens principais, defendera, antes de ir para a guerra, os ideais de força e expansão de Napoleão. Mas na batalha, ferido pelo exército francês, e em meio a cadáveres e à dor, contempla o céu. Como poderia este céu estar ali e ele tê-lo ignorado? É o logos que o leva essa revelação:

"Não há nada, nada decerto, senão o pouco de valor de tudo quanto posso compreender e a grandeza desse não sei quê que me é incompreensível, mas que nem por isso deixa de ser a única coisa importante".

Napoleão passa por ele, pede que o socorram. Mas para o príncipe André, Napolão já perdera a grandeza...

O que mudou na filosofia? Da alma platônica imortal, sede da sabedoria, cuja prisão é o corpo, até o corpo vigiado e punido, cuja prisão é a alma, como analisa Foucault na atual sociedade disciplinar -, o foco da filosofia mudou, há outros objetos de análise (a linguagem, a sociedade, a história, entre outros).

O que não mudou foi o uso do logos para chegar aos limites do poder reflexionante. Sobre o que pensar, e o que analisar, é possível expandir com o passar do tempo histórico e com as dificuldades e problemas novos. Mas há limites intransponíveis, a lógica do pensar, o que é possível pensar, as fronteiras da significação e das formas de significar.

Mistério. O incompreensível, como diz Tolstói.

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* INÊS LACERDA ARAÚJO - doutora em Estudos Linguísticos, filósofa, escritora e professora aposentada da UFPR e PUCPR.

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

DESMONTE DE UMA FALÁCIA - Dom Demétrio Valentini *

 (Leitura importante a todos os eleitores, sobretudo, católicos)


A questão do aborto está sendo instrumentalizada para fins eleitorais. Esta situação precisa ser esclarecida e denunciada.

Está sendo usada uma questão que merece toda a atenção e isenção de ânimo para ser bem situada e assumida com responsabilidade, e que não pode ficar exposta a manobras eleitorais, amparadas em sofismas enganadores.

Nesta campanha eleitoral está havendo uma dupla falácia, que precisa ser desmontada.

Em primeiro lugar, se invoca a autoridade da CNBB para posições que não são da entidade, nem contam com o apoio dela, mas se apresentam como se fossem manifestações oficiais da CNBB.

Em segundo lugar, se invoca uma causa de valor indiscutível e fundamental, como é a questão da vida, e se faz desta causa um instrumento para acusar de abortistas os adversários políticos, que assim passam a ser condenados como se estivessem contra a vida e a favor do aborto.

Concretamente, para deixar mais clara a falácia, e para urgir o seu desmonte:

A Presidência do Regional Sul 1 da CNBB incorreu, no mínimo, em sério equívoco quando apoiou a manifestação de comissões diocesanas, que sinalizavam claramente que não era para votar nos candidatos do PT, em especial na candidata Dilma.

Ora, os Bispos do Regional já tinham manifestado oficialmente sua posição diante do processo eleitoral. Por que a Presidência do Regional precisava dar apoio a um documento cujo teor evidentemente não correspondia à tradição de imparcialidade da CNBB? Esta atitude da Presidência do Regional Sul 1 compromete a credibilidade da CNBB, se não contar com urgente esclarecimento, que não foi feito ainda, alertando sobre o uso eleitoral que está sendo feito deste documento assinado pelos três bispos da presidência do Regional.

Esta falácia ainda está produzindo conseqüências. Pois no próprio dia das eleições foram distribuídos nas igrejas, ao arrepio da Lei Eleitoral, milhares de folhetos com a nota do Regional Sul 1, como se fosse um texto patrocinado pela CNBB Nacional. E enquanto este equívoco não for desfeito, infelizmente a declaração da Presidência do Regional Sul 1 da CNBB continua à disposição da volúpia desonesta de quem a está explorando eleitoralmente. Prova deste fato lamentável é a fartura como está sendo impressa e distribuída.

Diante da gravidade deste fato, é bem vindo um esclarecedor pronunciamento da Presidência Nacional da CNBB, que honrará a tradição de prudência e de imparcialidade da instituição.

A outra falácia é mais sutil, e mais perversa. Consiste em arvorar-se em defensores da vida, para acusar de abortistas os adversários políticos, para assim impugná-los como candidatos, alegando que não podem receber o voto dos católicos.

Usam de artifício, para fazerem de uma causa justa o pretexto de propaganda política contra seus adversários, e o que é pior, invocando para isto a fé cristã e a Igreja Católica.

Mas esta falácia não pára aí. Existe nela uma clara posição ideológica, traduzida em opção política reacionária. Nunca relacionam o aborto com as políticas sociais que precisam ser empreendidas em favor da vida.

Votam, sem constrangimento, no sistema que produz a morte, e se declaram em favor da vida.

Em nome da fé, julgam-se no direito de condenar todos os que discordam de suas opções políticas. Pretendem revestir de honestidade, uma manobra que não consegue esconder seu intento eleitoral.

Diante desta situação, são importantes, e necessários, os esclarecimentos. Mais importante ainda é a vigilância do eleitor, que tem todo o direito de saber das coisas, também aquelas tramadas com astúcia e malícia.



* Bispo de Jales (SP) e Presidente da Cáritas Brasileira

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Fonte: ADITAL

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

O QUE É ESTRUTURA? O QUE É SIGNO?

Profª. Inês Lacerda Araújo

Toda construção precisa de estrutura. Estruturas são artificiais, são criadas por meio de signos, de símbolos, de traçados, de sinais. Todos eles comunicam algo, levam à constituição de algo, visualizam algo, estabelecem padrões para significar algo para alguém. Assim, uma árvore não é uma estrutura, seu desenvolvimento é natural. Já um prédio, uma obra de arte, um texto, uma mensagem de propaganda - em todos eles há símbolos, signos, materiais que carregam uma significação, precisam que alguém os decifre, leia, possa compreender e dê um destino, faça uso apropriado.

Um sinal de trânsito se estrutura com traços, desenhos gravados em um material que é físico (a placa de madeira, de plástico, de metal), recortado em tamanho padrão, com cor determinada e codificada, resultado de convenção internacional. Sinaliza proibido com traçado transversal, estacionar com letra, há uso de figuras, de símbolos.

A linguagem humana é mais complexa. Além de sons, produção vocal e sinais sonoros, imediatamente colados a esses sons, há o significado deles.

O primeiro estruturalista foi F. de Saussure (1857-1913). Ele definiu signo como dois lados da mesma moeda: de um lado os significantes audíveis, o que se ouve quando alguém fala; de outro lado os significados: aquilo que se compreende.

A fala é uma sequência de signos estruturados conforme regras. Não língua sem regras. A criança assimila a língua paterna como um todo, com regras para formular frases, associando a mensagem ouvida com a situação, o objeto, a história que ela ouve, enfim, todas as mensagens são lidas. E tudo quer dizer algo, tudo "fala": o tom da voz, a expressão da face, gestos, e a impressionante capacidade que a linguagem tem de criar, apenas pelos signos, desde a presença do que não está aí ("papai vai chegar amanhã!"), até um pedido, uma história, um alerta para se cuidar, uma palavra para consolar, a criação literária, narração, poesia, texto jornalístico, mensagem, e-mail.

Somos invadidos pela estrutura de signos, de símbolos (a face de um ícone do esporte, do rock, da política), de sinais. Ignore um sinal de trânsito e lá vem multa, acidente, e mesmo a morte.

Ofenda com uma palavra, e você pode ganhar um inimigo.
Elogie com uma palavra, e você pode ganhar um amigo.

As estruturas imitam as coisas ao reconstruí-las ou contruí-las seguindo um modelo, algo produzido pela cultura, pelo intelecto.

As palavras não estão no lugar das coisas, elas significam, estruturam a realidade. Os produtos humanos "falam", como você sabe diferir entre casebre, casa, mansão, palácio? Pela relação entre significar e criar artefatos. Como alguém pode dizer: "Você mora num palácio!" com ironia para significar que a casa é de fato precária? A compreensão depende do dito, da situação e do contexto, da intenção do falante.

O que se pensa, depende de signos, como se pensa, depende das regras para combinar signos.

Para dizer a ausência, o não, é preciso dizer "não". Para dizer que nada é para sempre, é preciso dizer "nada". "Sempre" não designa nada na realidade. Porém, sem advérvios, pronomes, preposições, ficaríamos sem tempo, sem cronologia, sem hoje, sem amanhã...

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* INÊS LACERDA ARAÚJO - doutora em Estudos Linguísticos, filósofa, escritora e professora aposentada da UFPR e PUCPR.