segunda-feira, 18 de abril de 2011

A PAIXÃO DE CRISTO NA POESIA

Cristo Crucificado - Salvador Dali
Na história da poesia portuguesa são muitos os autores que calcorreiam com o leitor os passos dolorosos da vida de Jesus. A sinfonia das suas palavras transporta-nos para o mistério da cruz. A inspiração de vários poetas mostra o olhar sofredor da Mãe que segura e chora o seu Filho:

«Vejo-te ainda, Mãe, de olhar parado,
Da Pedra e da tristeza, no teu canto,
Comigo ao colo, morto e nu, gelado
Embrulhado nas dobras do teu mando» (Torga, Miguel)

«Ó visão, visão triste e piedosa!
Fita-me assim calada, assim chorosa…
E deixa-me sonhar a vida inteira» (Quental, Antero de)

«Oh Virgem de Nazaré,
Oh Mãe de Jesus
Lírio aberto aos pés da cruz,
Cujas pétalas de luz
Vertem lágrimas de fé» (Conde de Monsaraz, [Papança, António Macedo])

«Junto da cruz, que estremecia ao vê-la
Chorou, baixinho, a Mater Dolorosa:
E a terra, em volta, soluçou com ela» (Oliveira, António Correia de)

O Sinédrio decretara a Sua morte. Nestes passos dramáticos em direcção à humilhação, Jesus prepara-se para a doação total. Os doze esperam com ânsia uma palavra do Mestre.

«Levanta as mãos ao Céu vasto e piedoso
Vara-lhe o seio tenebroso espinho
Caem gotas, de sangue precioso,
De suor, nas violetas do caminho» (Leal, A. Gomes)

Mesmo de poetas descrentes, a beleza da sua linguagem expõe um sentimento religioso. Ao longo dos séculos, a Paixão e Morte de Cristo são fonte inspiradora da poesia. Luis de Camões – uma das almas lusitanas – tem elegias onde canta a Paixão do Filho do Homem.

«Aquele corpo tenro e delicado,
Sobre todos os santos sacrossanto,
De açoutes rigorosos flagelados» (Camões, Luís)

O poeta limiano, Diogo Bernardes considera-se culpado daquela morte. A luminosidade das suas palavras como que formalizam um pedido de desculpas. O lirismo religioso deste poeta do século XVI é marcado pela sinceridade.

«Eu vos crucifiquei, eu vos vendi,
Eu vos neguei mil vezes, que não três
Eu fui o que esse lado vos abri!» …

«Por eles (os meus pecados), meu senhor, te vejo estar
Crucificado nesse duro lenho» (Bernardes, Diogo)

Partindo das palavras do Evangelho de S. João (19, 1-3), o poeta da Arrábida ilustra a paixão de Jesus com a luminosidade de um místico. Frei Agostinho da Cruz assume a culpa do sofrimento e morte de Jesus.

«Eu fui, eu sou Senhor, o que vos pus
Nesse duro madeiro pendurado,
Donde morreis por mim, doce Jesus» (Cruz, Frei Agostinho)

Quando medita nas chagas de Cristo, Diogo Bernardes pede mesmo à sua alma que, por amor delas, se arrependa dos seus pecados e dê início a uma vida nova.

«Quando meus olhos nessas chagas ponho
E não me vejo em lágrimas banhado
Corrido fico, todo me envergonho» (Bernardes, Diogo)

José Régio aborda os últimos passos de Jesus num registo diferente. Lamenta ter nascido tarde, mas considera que Ele foi crucificado pelos homens.

«Por isso choro em mim a mágoa verdadeira
De ter nascido tarde, e só te vir achar,
Feito em marfim, metal, pedra madeira,
No cimo dum altar»

……

«O Cristo, ao alto, alonga os magros braços nus
Por sobre a escuridão do rancho desolado
Que segue, ao som da marcha, o seu Jesus
Por nós crucificado» (Régio, José)

Preso e atado à cruz, a multidão gritava: Crucifica, crucifica. A humilhação estava patente naquele rosto. André Dias explica a crueldade daquela morte. Este poeta dos séculos XIV e XV (1348-1437) coloca nas suas palavras a injustiça daquele tribunal.

«E todos bradavam com grande voz e alta:
- Crucifica! Crucifica este falso profeta
E morra sobre a cruz morte cruel e feia,
Que jamais não engane toda a nossa gente» (Dias, André)

Depois de saber que tudo estava consumado, Jesus disse: «Tenho sede». Teve como bebida, o amargo vinagre.

«Mas tem sede o Rabi. Um, mais cruel,
uma esponja, em caniço pontiagudo,
toda em fel ensopou. – Ora, este fel
amarga mais o mestre do que tudo» (Leal, A. Gomes)

Do alto da cruz, os seus olhos sem brilho contemplavam Jerusalém. Após ter tomado o vinagre, Jesus exclamou: «Tudo está consumado». E, inclinando a cabeça, rendeu o Espírito.

«Filhos de Cristo, consumou-se agora
O horrendo crime de Israel, na cruz.
Trémula se abre a terra; o sol descora
A igreja chora, - que morreu Jesus» (Ribeiro, Tomás)

A noite ia tombando de hora a hora cheia de assombro e cósmica tristeza. Esta morte foi vida. Foi um rasgão no tempo.

«Tu morreste por nós na cruz da afronta
E o sangue derradeiro
Derramaste do alto do madeiro,
Jesus, filho de Deus, Deus Verdadeiro
Aos crimes do homem não lançaste a conta
Inocente cordeiro
Quando foste no alto do madeiro
Lavar com sangue o último e o primeiro» (Garret, Almeida.)

Com a morte e ressurreição, a lanterna da vida brilha e alimenta a árvore frondosa do cristianismo.

«Meu Deus, aqui me tens aflito e retirado
Como quem deixa à porta o saco para o pão.
Enche-o do que quiseres. Estou firme e preparado.
O que for, assim seja, à tua mão
Tua vontade se faça, a minha não» (Nemésio, Vitorino)


***

quinta-feira, 14 de abril de 2011

AINDA VALE LEMBRAR...

Homem algum é uma ilha
    completa em si mesma;
todo homem é um fragmento do continente,
    uma parte do oceano.
A morte de cada homem me enfraquece
    porque sou parte da humanidade;
assim, nunca perguntes por quem o sino dobra;
    ele dobra por ti.


John Donne
Meditação 17

quinta-feira, 7 de abril de 2011

RELIGIÃO E CIÊNCIA NAS ESCOLAS

Profª. Inês Lacerda Araújo*


A polêmica em torno do ensino religioso conflitar com ensino de ciência parte de princípios equivocados. Trata-se de áreas distintas do saber, da cultura e das civilizações. Elas nascem com diferentes propósitos, seus objetivos são em tudo e por tudo diferentes, seu tipo de atividade, suas práticas, são também em tudo diferentes.

Culto, crença, dogmas e a revelação divina são os principais suportes das religiões; Deus se manifesta nos textos legados pela tradição, como a Bíblia e o Corão.

Em contraste, a ciência investiga um setor da realidade por meio de métodos que estão abertos para algum tipo de teste, de prova. Usa uma linguagem com signos universais, como exemplo, uma lei da Física ou da Química.

O problema começa quando se pretende que uma ou outra dizem a Verdade. Mas nenhuma delas diz a verdade, o que a religião ensina, não é algo verdadeiro, mas algo revelado, objeto de fé. Educação, tradição familiar, opção individual, isso é o que conta nas religiões. Deus Criador do universo, essa não é uma afirmação que deve ou pode ser comprovada, está fora do âmbito do verdadeiro/falso. Sendo objeto de fé, é algo inquestionável para todos os que creem nesse poder. As escolas com a opção pelo ensino de certa religião não podem excluir ensinar Biologia, Física ou História. É possível educar as crianças nos valores de uma doutrina de fé sem prejuízo para as demais disciplinas.

Escolas públicas, laicas, devem deixar a opção religiosa para as famílias. Ao oferecer a disciplina de ensino religioso, deve haver um objetivo didático, isto é, mostrar que a religião tem seu lugar e seu papel culturais. Escolas laicas não devem e nem podem doutrinar ninguém.

A finalidade da pesquisa científica é propor teorias e investigar seu alcance, avaliar e implementar os benefícios tecnológicos, avançar a investigação, de preferência sem a intervenção do Estado.

Se o cientista detivesse a verdade, a investigação seria interrompida. Os biólogos usam o paradigma de Darwin e o da teoria genética, e, até o momento, há comprovações de que as espécies evoluíram e de que o DNA comanda a vida. Mas isso não significa que outras teorias não possam surgir. A abertura para novas hipóteses é fundamental na ciência.

Por tudo isso, é falso o dilema Deus ou Darwin. Na vida privada, pessoas optam por uma crença religiosa, e podem também escolher cultivar a filosofia, praticar esportes, dedicar-se a uma carreira, ter predileção por música ou por poesia. Deve haver liberdade para fazer da religião algo de bom, que preencha sua vida. No espaço público, as religiões devem seguir o princípio da tolerância e do respeito mútuo, religiões, igrejas, ensino religioso, devem e podem ser aceitos, livres da falsa ideia de que falar de Deus exija critérios superiores e privilegiados. Isso produz divisão, isso leva a crer que uns são fiéis e todos os demais são infiéis!

Do lado da ciência, há quem pretenda, como R. Dawkins (autor de Deus, um Delírio) que Darwin diz a verdade. Com isso ele endeusa Darwin!

Esse erro faz com que as crianças fiquem perplexas e também os professores de religião e de ciências biológicas.

Não há problema algum em crer que Deus seja a origem do universo e aprender que certa ciência, enquanto uma prática social, com lugar cultural, faz investigações que não refutaram, por enquanto, o darwinismo.

Não se deve considerar VERDADE que o homem foi criado por Deus ou que ele descende de macacos. Não se deve confundir o que é doutrina com o que é investigação científica.

Todos devemos cultivar a abertura de nossas mentes, a vida humana digna, o respeito e a tolerância.

Há quem ache que o conflito acima possa ser resolvido, apelando para a tese do Big Bang. É uma saída bizarra e risível essa: Deus é o Big Bang!

Ambição por resposta definitiva e por explicação para tudo!

*

* INÊS LACERDA ARAÚJO - filósofa, escritora e doutora em Estudos Linguísticos.

segunda-feira, 4 de abril de 2011

Série A POESIA ACREANA > NILDA DANTAS

“Nilda Dantas, na verdade, é um símbolo da mulher acreana, não só da beleza cabocla amazônica, mas, sobretudo, do grito de liberdade que o chamado sexo frágil fez ecoar por todo o Acre.”
do livro “Brava Gente Acreana”
 
Dentre tantas presenças marcantes da mulher no Acre está Nilda Dantas, a pioneira da radiodifusão no Estado, a primeira voz feminina a irromper por essas terras, e que merecidamente é chamada de musa do rádio acreano. Nilda Dantas Pires nasceu em Rio Branco. Radialista, cantora, jornalista, poetisa e atriz, trabalhou em inúmeras peças teatrais como “Os Saltimbancos”, na década de 80, e, mais tarde, “Tributo a Chico Mendes”, que a levou aos palcos cariocas, além de São Paulo e Belo Horizonte.

Na poesia estreou em 2000 com o livro Quase Nua. Em sua poesia há elementos da sensualidade bem como poemas que exploram o tema da violência contra a mulher. Porém, conforme as palavras de uma das grandes estudiosas da literatura feminina no Acre, Profa. Dra. Margarete Edul Prado de Souza Lopes, os poemas de Nilda Dantas não falam somente de amor, a autora sabe dosar lirismo e protesto em poemas que descrevem a dor dos viciados e dependentes, em poemas que registram a fala caipira da gente que não teve chance de frequentar escola, mas na poesia de Nilda se tornam sujeito e derramam em versos límpidos e suaves a dor e a saudade do companheiro da vida toda.

Por tudo o que Nilda Dantas representa para a história da comunicação acreana em seus mais de 40 anos de dedicação, e por tantos outros trabalhos nas áreas culturais e socias, o Acre jamais poderá olvidar seu nome de sua história, a história daqueles que o ajudaram a sair do enorme atraso social que até bem pouco era estupidamente alarmante, de cujos resquícios ainda não estamos totalmente livres. Pensar em mulheres como Nilda Dantas, é pensar que uma nova história pode ser escrita. E esta já começou.

***

“Nilda Dantas é uma pessoa que tem sede de aprender, de criar, de fazer. Eu sou muito compulsiva, eu raciocino muito rápido, mas sou uma pessoa tímida, conservadora, reservada, diferente da Nilda Dantas profissional.”
Nilda Dantas
em Brava Gente Acreana

***

ROUBO POÉTICO
Nilda Dantas

Outra vez não!
Não use minhas crias,
Não são suas, são minhas!
Têm o meu DNA.
Eu as fiz com maestria,
Juntando todas as partículas,
Que recheiam a minha alma
Vivida aqui e noutros mundos.
Sozinha concebi,
E as trato com respeito,
Como mãe eu cuido bem.
Só eu sei o valor e a história
Que cada uma delas tem.
Tire seus dedos sujos
Que só querem profaná-las.


DEVORA-ME
Nilda Dantas

Devora-me...
O banquete está servido.
Devora-me..
Com todos os teus sentidos.
Devora-me, lentamente...
Delicadamente, prazerosamente.
Devora-me...
E descobre meus segredos
Impregnados na minha alma.
Devora-me sem pressa,
E conhecerás toda a beleza da minha essência.
Devora-me...
Sacia tuas fantasias.


AGOSTO
Nilda Dantas

Voltei hoje ao nosso altar!
Onde estão guardados
Os vestígios do nosso acasalamento.
E entre as pedras
As flores do campo
Acordaram em festa
Sugando a seiva da fecundação.
A cachoeira chorou
Quando me viu só.
Misteriosamente,
Um canto nostálgico
Penetrou meu ventre úmido,
Que guarda as sementes
Do que eu quero de ti.


CORAÇÃO BOBÃO
Nilda Dantas

Por que choras coração?
Lembras quando eu te falei
Que era mole, fraco e sem juízo?
Olha só! Estás aí sangrando,
Estraçalhado, desmilinguido.
Tu te deixaste cativar
Sem ao menos lembrar
Que precisavas te proteger.
Porque antes
Já te fizeram de gato e sapato,
Lembras?
Agora já era, te vira,
Dá seu jeito,
Ou vais até as últimas consequências.
Explode ou exorciza
De vez essa loucura...
Aprende bobão.


PÁGINAS DA VIDA
Nilda Dantas

Deixa disso florisvaldo
pára de bulir cumigo
deixa eu me levantá
ontem quando tú me usô
eu fiquei toda duída,
que mal pudia andá.
Tú pensa qui é mau vontadi?
que eu não quero te serví?
pára cun issu i ispera
nu dia quii eu fô nu dotô
e eli me dé um remediu
fico logo zeradinha.
não florivaldo
não me bati pur favô
o qui foi que eu ti fiz?
sô seria e trabalhadea
honesta e sempre servil
eu só ti pidi um sapatu
qui o meu tá todo rasgadu
só quiria vê o disfili
du nossu quiridu braziu.
mas si tú não tem dinhero
divia tê mi faladu
não tem probrema, eu intendu
pudia pidi imprestadu.
tú bebi tuas cachaças
chega em casa fedorento
e vem bancanu o valenti,
só porquê eu sô mulher
e tu é mais forte qui eu?
respeita ao menu us meninu
qui todus são fios teu.

***

DANTAS, Nilda. Devora-me. Rio Branco: FEM, 2008.

***

Nota: Para conhecer um pouco mais a história de Nilda Dantas recomendo a leitura do Livro “Brava Gente Acreana”, organizado, em 2008, por iniciativa do então senador Geraldinho Mesquita. Disponível aqui.

sexta-feira, 1 de abril de 2011

A IMPORTÂNCIA DA LINGUAGEM NO DESTINO E NA VIDA DAS PESSOAS

Profª. Luísa Galvão Lessa
LINGUAGEM E CULTURA


O homem, desde os mais remotos tempos, sempre se preocupou com a linguagem. Na Grécia antiga, os pensadores já se deixavam seduzir por questionamentos como: as palavras imitam as coisas? Como se dão os nomes às coisas? Como a linguagem se organiza? Qual o poder das palavras na vida das pessoas? Qual a função política da linguagem?

Na atualidade essas preocupações ainda habitam a alma humana. Isso porque as palavras se transformam conforme mudam às necessidades na vida. As sociedades evoluem, surgem novidades e, conseqüentemente, criam-se novas palavras para tudo aquilo que é novo. Pela palavra, Deus criou todas as coisas e criou o homem e a mulher (Gn 1). Nós, seres humanos, somos frutos da palavra. E é pela palavra que a pessoa diz quem é. É pela palavra escrita que se constrói a História, se perenizam os feitos humanos. Porém, nada mais perigoso do que o uso das palavras.

E isso os sofistas, na Grécia Antiga, ao perceberam a importância da linguagem, especializaram-se na retórica. Assim, naqueles tempos, quando a persuasão constituía uma força pública, impunha-se a eloqüência. Hoje, pouco ou quase nada serve a eloqüência quando a força pública substitui a persuasão. Contam que Heródoto lia sua história aos povos da Grécia, reunidos ao ar livre, e tudo ressoava com aplausos. Hoje um acadêmico, num momento de reflexão erudita, é ouvido com enfado. Fazer jogo com a vida, os ideais humanos, isso sim, seduz mais do que a verdade da vida.

Não é por acaso que tanta gente que se julga importante tende a metamorfosear as palavras, mascarando-as ou destituindo-as do seu significado real. E fazem isso, em especial, aquelas ‘pessoas patológicas’, que só olham o próprio umbigo, mesmo usando lentes. Essa gente se especializa no jogo da sedução da linguagem. Especializam-se em cacoetes e adereços, para fazer posse diante de gente frágil, com pouca leitura do mundo e de si mesmo. E fazem isso no intuito de minar, amedrontar o outro, fragilizá-lo. Com isso, criam, em torno de si, uma espécie de ‘tabu’, que imprime medo.

Mas é importante descobrir que a linguagem desses ‘entes patológicos’, como escreveu Orwell (2002), “destina-se a fazer com que a mentira soe como verdade e o crime se torne respeitável, bem como a imprimir ao vento uma aparência de solidez”. Todo cuidado é pouco. Importante ao leitor/ouvinte é não se deixar conduzir, como manada cega e surda, pelas armadilhas, as tramas que conduzem à destruição de sonhos.

Assim, é importante que toda gente esteja atenta aos discursos, as falas daquelas pessoas que buscam o poder a qualquer preço. Isso porque boa parte dos mal-entendidos, das escolhas errôneas, dos problemas de compreensão da realidade da vida, se deve às armadilhas das palavras. E como toda armadilha, ela não é casual, obedece a uma intenção e planos determinados. A manipulação da linguagem, o seu uso, enquanto forma de opressão, conduz o ser humano à escuridão da vida, ainda mais naqueles momentos em que as pessoas são usadas como massa de manobra.

Nesse cenário, mais do que em outros, é importante não perder de vista a etimologia, o estudo das palavras, a história que aponta as possíveis mudanças no significado delas. Ter atenção, não se deixar seduzir, não se deixar enganar, é uma boa medida de segurança.

Conclui-se a reflexão com as palavras de Bakhtin (1999, p. 113):"Toda palavra serve de expressão a um em relação ao outro. Através da palavra, defino-me em relação ao outro, isto é, em última análise, em relação à coletividade. A palavra é uma espécie de ponte lançada entre mim numa extremidade, na outra apóia-se sobre o meu interlocutor. A palavra é o território comum do locutor e do interlocutor." Então, os criativos que me perdoem, mas imagem não é tudo. Palavras sim!

***

* LUÍSA GALVÃO LESSA é Pós-Doutora em Lexicologia e Lexicografia pela Université de Montreal, Canadá; Doutora em Língua Portuguesa pela Universidade Federal do Rio de Janeiro; Mestra em Letras pela Universidade Federal Fluminense. Ocupa a cadeira de número 34 na Academia Acreana de Letras.

segunda-feira, 28 de março de 2011

UM POUCO DA HISTÓRIA DA AVIAÇÃO NO ACRE

“O avião, no Acre, tornou-se o meio mais eficiente de comunicação e transporte e assim o será, ainda, por longos anos, até que o progresso venha rasgar o seio virgem da floresta, implantando estradas que permitam intercâmbio permanente entre as cidades.”
Mário Maia
Houve um tempo em que o único meio para se chegar às terras acreanas era por via fluvial. Gaiolas, chatas, vaticanos, paquetes rompiam o setentrião solitário e, por longos anos, tornaram-se os únicos meios de interligação e de comunicação com a dita “civilização”. Subiam lotados de aviamentos, com seus porões, muitas vezes, abarrotados de “brabos”... e desciam abastecidos com o ouro negro da Amazônia. Longos dias e mesmo meses duravam as viagens pela hinterlândia ou aos grandes centros urbanos. Por isso, quando “a grande Águia metálica riscando o azul solitário do firmamento amazônico, tendo o infinito do céu por cima e por baixo o verde sem fim da floresta” cruzou pela primeira vez os céus acreanos a população inteira parou para admirar tão extraordinário acontecimento.

Nos conta o saudoso médico e senador Mário Maia que nos idos de 1936, quando os serviços aéreos no Brasil eram realizados por companhias estrangeiras, como a Condor alemã, e a Panair de origem francesa, um certo interventor do Acre, por nome Martiniano do Prado, cismou de fazer com que os pássaros de alumínio com homens dentro chegassem até esse limite oeste de nossa Pátria. Martiniano era paulista e havia sido nomeado Interventor do Acre por Getúlio Vargas. Com seu prestígio de interventor conseguiu, junto aos dirigentes da Panair, que os voos da companhia fossem estendidos até Rio Branco.

Os aviões da empresa eram aquáticos, isto é, hidroaviões. Para que o avião chegasse a Rio Branco necessitavam-se algumas providências importantes por parte do Interventor: preparar uma porção do leito do Rio Acre, que fosse relativamente reta. Então, o Dr. Martiniano mandou destocar um grande estirão próximo à cidade, logo acima da “Volta do Quinze”, chamado pelos locais de “Estirão do Bagé”, para que o avião pudesse aquatizar.

Naquele dia o Interventor suspendeu o expediente nas repartições públicas, convidou o comércio, ordenou que não houvesse aulas, mandou convidar todos os colonos, determinou que os soldados da Polícia Militar que não estivessem de serviço fossem para o local, designou a banda de música para a recepção e convidou todas as demais autoridades civis, eclesiásticas e militares e providenciou que se matassem vários bois.

O povo acorreu para o local cedo. E as horas foram passando, o povo se inquietando e nada do tal avião surgir. Já passava do meio dia quando alguém gritou: “Lá vem ele”. Foi uma agitação geral. O avião passou três vezes baixinho. Da segunda vez, quase triscou na água de tão baixo. E na terceira vez quando muitos esperavam que fosse pousar tomou um voo reto e sereno e começou a ganhar altura, na mesma direção de onde havia surgido. E sumiu no horizonte, para frustração de todos e o encolerizamento do Interventor, fato decisivo que o levou a iniciar a construção do primeiro campo de aviação do Acre.

Passados alguns meses desse desencanto, coube a “CONDOR”, companhia alemã de aviação, inaugurar a linha aérea ligando Rio Branco ao sul do país. Era o dia 5 de maio de 1936. Um avião JUNKER–W–34, da Companhia Aérea Alemã “CONDOR”, monomotor, batizado com o nome de Taquary, com dois botes de alumínio pendentes de seu delgado corpo e com suas asas largas e compridas. Em seguida tomou a direção do Estirão do Bagé e fazendo grande curva no horizonte, começou a perder altura, na tomada da aquatização, e finalmente pousou. Na parte traseira do corpo, sobre as asas e sob as mesmas, em letras pretas bem grandes, o prefixo: PP–CAP. Da cabine, que se abrigava logo atrás do motor, sairam o tripulantes que glorificaram as páginas da aviação no Acre: comandante: JOÃO URUPOKIM; mecânico-pivot: GUIDO KLEINAT e rádio operador: DURVAL PINHEIRO GARCIA. – Para o historiador acreano Marcus Vinicius, o hidroavião fora pilotado pelo alemão Frederico Hoepken –. Eram os heróis do ar; homens do espaço que pela primeira vez baixaram a tocar as terras acreanas, no extremo ocidental do país, numa rota que, partindo de Corumbá, no sul de Mato Grosso, em pleno pantanal, veio pousando sucessivamente nos portos dos rios em Cuiabá, São Luiz de Cáceres, Forte Príncipe da Beira, Guajará-Mirim, Porto Velho, Lábrea, Boca do Acre e, por fim, Rio Branco. Estava inaugurada a aviação nestes longes do Brasil.
Hidroavião Taquary, o primeiro a "pousar" no Acre, em 1936.
Pessoas às margens do rio contemplam um hidroavião.
Os voos continuaram alternando-se de modo incerto, às vezes, com um longo período de ausência até que, em 6 de dezembro de 1939, estabeleceu-se o Servico Semanal regular, com transportes de passageiros, carga e Correio Aéreo.

Ao término da II Guerra Mundial, a CONDOR foi nacionalizada, transformando-se na Companhia Aérea Cruzeiro do Sul, que, em seguida, adquiriu uma frota de aviões Douglas, dos E.U.A., desativados de suas funções bélicas e adaptados às funções civis.
No Acre, quase toda carne era exportada da Bolívia. Daí a necessidade de aumento e melhoria do rebanho bovino. No ano de 1948 foi coroado de inteiro sucesso o transporte de reprodutores zebuinos, por via aérea diretamente de Uberaba, em avião Curtiss C-46.
AVIÃO DA FAB C-47- acidentado.
Anteriormente a 1946, era perigosa uma descida no campo de pouso da capital do Acre, durante o inverno. Nessa fotografia vê-se o avião da Companhia Cruzeiro do Sul, acidentado. Durante um semestre, Rio Branco era, das capitais brasileiras, a única separada do resto do país. Por via fluvial, passando por Manaus e Belém, era de quatro meses a viagem ao Rio. Fotografia de 1946.
Não havendo verbas para a construção de um campo de aviação, o Interventor Martiniano do Prado convocou a população para uma concentração em frente ao Palácio do Governo. Lá requisitou machados, terçados, foices, picaretas e instrumentos e arregimentou o povo numa passeata “cívico-agrário”, com gente de todas as idades e categorias sociais e se dirigiram para o local que o Interventor havia escolhido para o futuro campo de aviação. Ao virar da tarde havia no sítio escolhido para o futuro campo de aviação, uma considerável clareira de uns 500 metros de extensão por uns 40 de largura.
Campo de pouso, no ano de 1946.
Não satisfeito o Interventor na semana seguinte, contratou uma turma regular de trabalhadores. Estes continuaram a brocação e derrubada, até chegar ao Igarapé das Ciganas, quando desemboca no Rio Acre, delimitando as terras do Aprendizado Agrícola, cobrindo uma extensão de 800 a 1000 metros. Era o espaço requerido para um pouso regular de avião dessa época. E assim, de forma cooperativista, o povo de Rio Branco, com suas próprias mãos, construiu o seu campo de aviação – o primeiro do Acre, inaugurado em 1937 pelo interventor Epaminondas Martins, com extensão inicial de oitocentos metros, por sessenta de largura, e recebeu o nome de “Santos Dumont”. Aí passaram a pousar os aviões da Panair, da Cruzeiro do Sul e do Correio Aéreo Nacional. Pena que o Interventor Martiniano não estava mais aí quando o primeiro avião inaugurou o campo, porém, ficou sua iniciativa imorredoura.
Aeroporto de Rio Branco, em 1948.
Aeroporto de Rio Branco em 1948 – estação de passageiros, vendo-se ainda o conjunto de instalações de água e luz.
Salão de passageiros do aeroporto de Rio Branco em 1948.
Com a experiência de Rio Branco, já sob a administração de outros interventores, os prefeitos dos municípios do interior começaram a construir também seus campos de pouso. Os interventores Fontenele de Castro e Pedro de Vasconcelos Filho transladavam-se para os municípios para capatazear e orientar a feitura desses campos. Mas eles foram muito mais que mestres de obras; muito mais que capatazes. Tornaram-se, com sua abnegação e prática, verdadeiros engenheiros de campos, dedicados e apaixonados por suas obras. Cada prefeito tinha nesses dois homens, a mola mestra e o segredo com que se construíram os campos de aviação de Brasiléia, Xapuri, Sena Madureira, Feijó, Tarauacá e por fim Cruzeiro do Sul.
Abrigo de passageiros no aeroporto, no ano de 1946.
Não tardou muito e um teco-teco monomotor, de corpo azul e asas alaranjadas raspava os céus acreanos, interligando os municípios pelo ar, dirigido pelo primeiro piloto acreano, o capitão João Donato Filho. Depois, fundaram um aeroclube, com um hangar coberto de palha de ouricuri. Tiveram outros teco-tecos, outros pilotos.

E assim se deu o início das construções dos campos de aviação do Acre (construídos pelo próprio povo, com seus esforços e recursos) e o início da aviação, onde se destacaram figuras lendárias como o Interventor Martiniano do Prado, o Capitão Pedro de Vasconcelos, Capitão Pedroca e do Coronel Fontenele de Castro, os dois últimos da Polícia Militar do Território do Acre. Cabe ressaltar ainda a importância dos aviões da FAB, no Acre, os que realizavam o Correio Aéreo Nacional (CAN), estes além de ônibus populares, foram verdadeiras ambulâncias, a transportar correspondências, valores, documentos oficiais, autoridades, funcionários e o povo em geral. Tanto a aviação militar (FAB-CAN) quanto a civil (Cruzeiro do Sul e VASP) foram imprenscidíveis para minorar as necessidades do povo acreano. Prestaram ao Estado um serviço inestimável.
Batismo do avião Barão de Mauá pela esposa de Guiomard dos Santos, Lydia Hannes. Avião de propriedade do governo do Território. Ano de 1946.
Avião Barão de Mauá - Propriedade do Governo do Território.
Avião Douglas C-47 “Juruá”, também de propriedade do território. Efetuou a primeira ligação do Rio de Janeiro ao Acre no mesmo dia.
Transporte aéreo de borracha laminada, pelo processo-Arantes, do Acre para São Paulo. Ano de 1948.
Momento em que um bezerro zebu salta do avião, depois de uma viagem direta de Minas Gerais ao Acre, no ano de 1948.
AVIÃO DA CRUZEIRO DO SUL
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MAIA, Mário. Rios e barrancos do Acre. Niterói: PRENSA, 1968.

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Nota: A maior parte do texto acima encontra-se às páginas 147 a 183 do belíssimo livro “Rios e Barrancos do Acre” do acreano Mário Maia. Fiz apenas alguns recortes e o acréscimo de outras informações ao texto.

II Nota: Algumas fotos foram retiradas do livro “Território Federal do Acre 1946-1948” sem autoria, disponível no acervo digital da Biblioteca do Amazonas. Outras foram cedidas gentilmente pelo meu amigo R. Palazzo, do blog Tarauacá Notícias.

quinta-feira, 24 de março de 2011

DESASTRES NATURAIS E CONSTRUÇÕES HUMANAS

Profª. Inês Lacerda Araújo*
FILOSOFIA DE TODO DIA


Habitantes da superfície de um planeta que abriga e reproduz a vida, nossa civilização, desde há poucas dezenas de anos construiu uma tecnologia sofisticada. Ainda assim, ocupamos parte instável de um planeta com um núcleo incandescente, contra o qual essa tecnologia nada pode. E sucumbimos com terremotos e tsunamis.
O antigo medo dos povos primitivos se manifesta ainda hoje sob a forma de datas que prevêem acontecimentos catastróficos, cataclismo final descrito em termos bíblicos. É mais uma dessas formas mágicas de obter explicação para tudo e pôr um ponto final em tudo. Há as que asseguram a redenção e a salvação (para os bons) e as que profetizam o fim dos tempos a cada novo desastre natural.

Ora, é imprevisível quando e como, mas altamente provável que placas tectônicas se movam! Isso já aconteceu e acontecerá!

Há três modos de o ser das coisas se produzir, ocorrer, fazer efeito. Se há alguma lógica, e precisamos dela em nossas ações, é a de que acontecimentos se dão, eles ocorrem. Prevê-los, apenas com grau de probabilidade, jamais com certeza.

Para Peirce (1839-1914), filósofo norte-americano que fundou a ciência geral dos signos (Semiótica), o descrito acima pertence ao nível da "primeiridade", o que está aí no mundo, fenômenos simples e sem que interfira neles a vontade humana, que são completos em si mesmos e absolutamente livres. Por exemplo, tsunamis, explosões vulcânicas, um galho de árvore que se desprende, tossir nesse momento.

Em outro nível, o da "secundidade", há relações entre dois aspectos, a realidade opõe resistência, e nos obriga a reagir. Exemplos: A causa B, abro uma garrafa, dou a partida no carro, procuro algo que perdi; entra a vontade, é preciso deliberar e escolher.

No nível da "terceiridade" (nada a ver com velhice), ocorre uma modificação do que está aí pela ação humana, por meio da comunicação, por meio de signos. Alguém comunica que vai chover, o outro reage a signos, dá uma olhada no céu com nuvens que indicam precipitação (a que Peirce chama de "índice"), emite uma opinião, concorda, discorda, enfim, é preciso um interpretante para o signo "chuva", que é também outro signo (por exemplo, "que pena", "preciso comprar um guarda-chuva", etc.). Pode ser que a resposta não seja verbal, como a reação de ficar em casa, abrigar-se.

Essa lógica permite ler o significado das coisas, responder, interpretar símbolos, concluir, associar, deduzir e investigar.

Sofrer uma ação brutal da natureza se deve a fenômenos. Não é um castigo bíblico, não é "sinal dos tempos". É uma catástrofe, há que enfrentar, há que reerguer-se.

Nós, seres humanos, habitamos há muito tempo um planeta que recebe a marca de nosso tipo de vida: construímos casas, usinas, pontes, objetos, instrumentos para mil e uma tarefas, povoamos a superfície terrestre com estradas, carros e mais carros. Produzimos lixo, muito lixo.

Quando tudo isso é destruído, constatamos que as necessidades básicas são abrigo e alimento. Mas a civilização humana foi além dessas necessidades, muitas vezes à custa de guerra, violência, morticínios. Até hoje ditadores violentos e patéticos submetem seus povos e são tolerados porque nossa civilização depende de um produto, o petróleo.

A despeito disso, criamos arte, expressamos emoções, valorizamos a justiça e a solidariedade.

Nietzsche em o Eterno Retorno diz: Se o mundo pudesse enrijecer, secar, morrer, tornar-se nada, ou se pudesse alcançar um estado de equilíbrio, ou se tivesse algum alvo que encerrasse em si a duração, a inalterabilidade, [...] se o vir a ser pudesse desembocar no ser ou no nada, esse estado teria de estar alcançado. Mas não está alcançado.

Resumindo, a reflexão filosófica chega a conclusões do tipo: em tudo há um jogo de forças.

Se você refletir, pode chegar a sua própria conclusão!

***

* INÊS LACERDA ARAÚJO - filósofa, escritora e doutora em Estudos Linguísticos.

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segunda-feira, 21 de março de 2011

Série A POESIA ACREANA > DALMIR FERREIRA

Dalmir Rodrigues Ferreira é a expressão de um dos estágios mais elevados que a sabedoria acreana galgou nesses últimos tempos. Sua enorme cultura não o fez um representante do eruditismo, mas um homem sensível a sua terra, sua gente, sua história, sua época e seus desafios. Dalmir é uma síntese de um pouco de tudo o que o Acre possui de mais belo: gente, história, letras, música, artes.

O inesquecível jornalista José Chalub Leite, pai do humor acreano, assim sintetizava Dalmir: “Poeta, escritor, artista plástico, desenhista, aprendiz de entomologia, agrimensor, parapsicólogo, músico e documentarista. Dalmir Ferreira é acima de tudo um idealista enraizado na generosa terra acreana, que lhe é orgulhosamente de berço desde 12 de Fevereiro de 1952 – no histórico seringal Bom Destino, cenário das lutas irredentistas dos soldados-seringueiros de Plácido de Castro”.

Se o Brasil pode regozijar-se com escritores da envergadura de um Euclides da Cunha, o Acre pode fazer o mesmo em relação à Dalmir Ferreira. A ele parece se encaixar muito bem as palavras de Proust: “como a natureza, a inteligência tem seus espetáculos”.

***

“Muitas tristezas se acumulam na minha caminhada. Inquieta-me profundamente a idéia de deixar um mundo pior do que o que recebi. Acreditem-me senhores, nossa geração não está evoluindo e nós não estamos contribuindo para reverter este quadro...
Por isso vos peço uma sincera reflexão, sobretudo aos que comigo compartilham essa visão, é nosso papel acordarmos os que optam pelo sono que logo será mais que um pesadelo.”

Dalmir Ferreira
em seu discurso de posse
na Academia Acreana de Letras, em 2004.

***

MEMÓRIA
Dalmir Ferreira

Em minha terra
me conheceram pintor,
músico ou poeta
e minhas paixões,
deles, poucos
não souberam,
e muitos saberão
quando eu partir...
mesmo admirando
minha cabeça
respeitarão
meu coração...


POETA MODERNO
Dalmir Ferreira

Deve o poeta
deixar
que seu espírito
vague no cosmo.
Não o raciocínio
nas palavras,
senão logo,
o computador
vai superá-lo
e escreverá
para os robôs...
só se fala
de sentimentos,
quando se sente.
Se não,
mente...


O POETA
Dalmir Ferreira

                               Para Naylor

Dai ao poeta
a liberdade
de cantar,
Dai ao poeta
a inocência
de suas culpas,
Dai ao poeta
a comida necessária
Dai ao poeta
o amor
que o alimenta,
Pois triste do povo
que cala seu poeta,
triste da musa
que não o faz cantar,
Triste dos indiferentes
que não sabem chorar
Triste...


ESTRELA
Dalmir Ferreira

Tudo o que sei
é que parecias
uma estrela
cuja luz,
me vi olhando
sem saber que
estavas morta,
que só restava
aquele pouco de luz,
que vi por um pouco momento,
aos poucos
se acabando...


TEUS OLHOS
Dalmir Ferreira

Eu queria te olhar
nos olhos,
segurar teu rosto
sentindo tua respiração
e sem nada falar,
dizer-te coisas
que ultrapassando
teus sentidos,
se gravassem
além de tua memória,
e na simplicidade
desse ato,
vislumbrássemos
nossa própria
liberdade...


AQUIRY
Dalmir Ferreira

Eis o Aquiry
terra de difícil parto,
pretendida
para a venda
pela Bolívia,
pra rapina
por peruanos,
por cobiça
do Amazonas e Pará,
expoliada por ingleses
não é Bolívia,
nem yanque,
nem Brasil é
pois não representa
divisa econômica,
Que terra é essa
ainda não descoberta?...

***

FERREIRA, DALMIR RODRIGUES. Poesia Seleta. Rio Branco: Editora Preview, 1996.

*Recomendamos o blog do autor para informações mais detalhadas: