quarta-feira, 13 de junho de 2012

BRASILEIRO POR OPÇÃO – VI

José Augusto de Castro e Costa*


A história do Acre é, na verdade, uma das mais belas, sobretudo por revestir-se de questões surpreendentemente belicosas, provenientes de enredos e solucionadas pela participação ativa de irmãos brasileiros, inspirados por suas aguerridas presenças de espírito, ressaltando-se, não apenas, o Barão de Rio Branco, Embaixador Assis Brasil e José Plácido de Castro, mas inúmeros outros. De salientar, sobremaneira, o empenho contundente, inteligente e (aqui cabe dizer) “salvador da pátria”, exercido pelo brasileiro Alexandre de Gusmão, conhecedor profundo da geografia do Brasil e seus problemas, que, com sagaz perspicácia, inseriu o “uti possedetis” no Tratado de Madri, e no Tratado de Limites, de 1750. Secretário do Conselho Ultramarinho, Alexandre de Gusmão exercia, ainda, atividades de conselheiro íntimo do rei D. João V, o que o credenciava a negociar pactos relativos a bases de limites territoriais e elementos soberanos de Suas Majestades da Espanha e de Portugal, na metade do século XVIII.

Entretanto, cento e cinquenta anos após, essas questões de estruturação histórico-política do Tratado de Madri, adormeciam ignotas, na mente sul-americana de brasileiros e bolivianos, como se estivessem ocultadas pela espessura da floresta amazônica.

Mapa dos limites do Brasil pelo Tratado de Ayacucho.
Fonte: Revista Brasileira de Geografia, 1990, pág. 15.
Acervo Digital do Memorial dos Autonomistas.
Blog da Flaviana Coimbra
A contenda diplomática, porém, começa a buscar soluções para a questão de limites dos dois países, o que incluiria o Peru. O Tratado de Ayacucho, porém, trazia uma variedade de nomenclatura geométrica, o que sugeriria muitas interpretações diversificadas.

Enquanto isso, os bolivianos iniciando a jornada de ocupação do Acre, atingem a bacia do rio Madeira, sob o comando do General Pando, que viria a ser Presidente da Bolívia, anos depois.

As autoridades bolivianas, então, autorizam a demarcação de limites, na parte compreendida entre o Madeira e o Javarí, salientando que “esta nascente está, para todos os efeitos, na demarcação entre Brasil e Bolivia”. Acontece, porém, que em outra demarcação realizada pela Comissão de Limites do Ministério do Exterior, a latitude está completamente diferenciada.

Desenvolve-se daí uma confusão generalizada, agravada com o protesto do Peru que julgava-se lesado pela Bolívia, contra a perda de território seu.

A essa altura os Estados Unidos e a Inglaterra estavam interessadíssimos em abrir o rio Amazonas à navegação internacional, sob a influência de uma propaganda que sugeria a abertura do Rei dos Rios, com diziam em seus jornais: Kings of Rivers.

Enquanto grupos de bolivianos encarregavam-se de ocupar os rios Juruá, Iaco e Acre, outros, influenciados e sugestionados pelo imperialismo econômico, dedicavam-se à instituição do organismo internacional que, indubitavelmente não só iria gerir toda a economia regional, como colonizaria parte da soberania do Brasil, apossando-se, “in totum”, de seu principal produto de exportação. Trata-se do “Bolivian Syndicate”, o qual projetava controlar todas as atividades relacionadas ao produto, bem como sua exportação, com o poder econômico e forças terrestres e navais. Constava do contrato com o “Bolivian Syndicate” o equipamento e manutenção de força naval armada, para a defesa dos rios, conservação da ordem interna, com o poder de polícia.

Havia sido nomeado pelo governo boliviano, para exercer o cargo de Delegado Nacional do Governo da Bolívia, Don Juan Francisco Velarde, o mesmo que há poucos anos proferira conferência na Sociedade Geográfica, na presença de D. Pedro II, insinuando a imediata ocupação na região amazônica. Como autoridade boliviana, D. Velarde desloca-se para a região do Alto Acre, a fim de, sobretudo, instalar um posto aduaneiro, para evitar os contrabandos por ali passados. Chegara, então, a Manaus, com o intuito de apresentar seus planos ao governador do Amazonas, na ocasião, o senhor Ramalho Junior, a quem pedira apoio para o plano exposto. Felizmente o governador Ramalho Junior negara assentimento à fundação do posto alfandegário no Acre, pelo fato de não haver recebido, do Governo do Brasil, nenhuma instrução nesse sentido. Em ação concomitante chegara à vila de Xapurí, por via terrestre, uma expedição militar de 30 praças, destinada a dar cobertura ao que propusera-se D. Juan Velarde, informando que a Bolívia havia deliberado fundar uma Delegação Nacional naquele rio.

No Amazonas, a delegação de D. Velarde quedara-se, encantada com a região que, julgavam semelhante a sua, não muito distante dali. Durante a viagem de Belém para Manaus, notavam os bolivianos que, em certas zonas, a perspectiva mudava frequentemente para quem acompanhava com a vista as margens e o desenvolvimento das árvores. De vez em quando distinguiam árvores com manchas brancas no tronco, de um colorido verde claro na folhagem, e que logo eram apontadas como exemplares da famosa seringueira.

Junto das seringueiras era notado um jirau composto de três ou quatro forquilhas e de outras travessas, de cima das quais o seringueiro poderia fazer mais alto as incisões e lá espetar a sua tigelinha para colher a preciosa seiva. A expedição navegava, ainda, pelo Amazonas.

Em Manaus, o desenvolvimento era notório e seus visitantes já lhe previam um futuro grandioso por sua situação privilegiada. Era de saltar à vista o cosmopolitismo da cidade, por seu progresso vertiginoso, por sua arquitetura, por suas obras municipais, por possuir um monopólio comercial e pelo futuro que lhe era reservado.

Toda essa estrutura de benfeitorias, atrativos arquitetônicos, artísticos, culturais, entretenimentos e movimentações sociais, estaria ameaçada a escassear, caso o “Bolivian Syndicate” conseguisse fechar as atividades das Alfândegas de Manaus e de Belém, levando a efeito apenas o desempenho do posto aduaneiro no rio Acre, como aspirava.

Nem por isso deixou-se de ver o declínio do vertiginoso e aprazível auge da exportação da borracha, gerador impulsionante da economia brasileira, no final do século XIX.

Mas, de início, tanto a missão de D. Juan Velarde, em Manaus, quanto a da expedição militar boliviana, em Xapurí, tornaram-se infrutíferas, em decorrência da posição do governador do Amazonas, Ramalho Júnior e respectivamente, da autoridade brasileira sediada no alto rio Acre.

Ressalte-se que, por absoluta ausência de rápidas comunicações, estabelecera-se um embuste de suposições e completo desconhecimento dos fatos. Nem o ministério boliviano no Rio de Janeiro sabia do ocorrido com a Expedição sob o comando de D. Juan Velarde chegada a Manaus, nem esta, por sua vez, nada sabia do que passava-se em Xapurí.

Estava investido no cargo de Ministro Plenipotenciário da Bolívia, Don José Paravicini, conhecido como Diplomata frio, calculista e ambicioso.

Quando soube do fracasso da Expedição em Manaus, respondeu que D. Juan Velarde errara, evidentemente, por excesso de cortesia, pois não deveria aquela autoridade dirigir-se ao governador do Amazonas, por encontrar-se, como achava, em território boliviano, e precisaria exercer sua jurisdição como emanada da soberania da Bolívia. Continuando, diz D. Paravicini em seu expediente que “se houvesse qualquer dificuldade era com o Governo Federal com quem devia entender-se”.

O Itamarati, posteriormente, persuadido pelo plenipotenciário boliviano, resolve aquiescer e telegrafa ao governador do Amazonas, propondo a concordar na instalação do posto aduaneiro à margem do rio Acre e que o Ministério da Fazenda estaria autorizando ordens para que as Alfândegas de Manaus e de Belém recebessem os documentos expedidos por aquele posto, a título de justificativa de mercadorias em trânsito, como pleiteavam os interessados.

De posse do importante trunfo, o Ministro Don Paravicini, exultante, habilita-se para ele mesmo preparar e comandar nova expedição boliviana para ocupar o Acre.


Leia também:


* José Augusto de Castro e Costa é cronista e poeta acreano. Mora em Brasília e escreve o Blog FELICIDACRE.

domingo, 10 de junho de 2012

O BOI E A HIERARQUIA

Leila Jalul


Enquanto escrevia este texto, a Adélia Prado, com toda a sua mineirice, entremeada comuma talhada de goianidade, dava uma entrevista ao Globo News e dizia que, quando escreve, sente os defuntos ao seu redor. São seus entes queridos que partiram, assim entendi.

Comigo está acontecendo quase a mesma coisa. Meu quarto está empestado de espíritos de porcos dizendo: “Fala de mim!”; “E eu?”;“Peraí, eu sou mais eu.” Uns me cutucam, outros apagam o que está escrito, e, pior, outros interferem nas ondas do meu provedor.

É tudo gente tinhosa. Eu, como um cavalo obediente, vou procurando atender a todos, na medida das suas necessidades. Vocês não acreditam? Agora mesmo, neste exato minuto, eles afastaram o texto para o lado esquerdo e fiquei sem entender nada. Quando é assim, não escrevo. Espero desanuviar.

Mercado Velho de Rio Branco antes.
Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo. Para sempre seja louvado! Eu só queria contar que visitei, no dia do velório do Joaquim Macedo, pela vez primeira, o Mercado Velho revitalizado pelo menino Jorge Viana! Coisa linda. Estávamos eu, minha comadre Jorgete e sua comadre Val. Tudo comadre. Aliás, no Acre de antanhos, quem não era irmão, era primo, quem não era primo era compadre. Eram compadres e comadres. Uma máfia do caralho. Tuttibuona genti.

Mercado Velho de Rio Branco atual.
Mas eu preciso falar do boi. No boi daquele tempo. Tem nada a ver com o de Parintins. No tempo quando açougueiro era apelidado de magarefe. No tempo das cestas de vime, da fila ou cobrinha.

E foi assim, de supetão, quando entrei no mercado revitalizado, que senti o choque elétrico na vertebral. Lá se faziam presentes duas almas de dois magarefes. Virei para a esquerda e falei: “Ali era o açougue do Zé Mourão. E ali o do Raimundo.”

Incorporei. Pensem numa cidade que, para alimentar uma população inteira, sacrificava apenas e unicamente um pobre boi por dia. Magro, quase sempre magro.

Agora vamos à divisão: o filé, pro governador. Contrafilé, pro prefeito. A alcatra pro bispo e pra irmandade, que se alimentava muito bem, diga-se de passagem. A chã-de-dentro do juiz… Já estava velho, coitado. A chã-de-fora pro provedor da maternidade. Provedor da maternidade era tanto quanto ou mais autoridade e autoritário que o governador. É mole, ou quer mais?

A fraldinha pro secretário da Fazenda, ou ele não pagava as notas de empenho da carne fornecida. As costelas e os músculos pro Hospital das Clínicas. E o cupim?Pronde foi? Foi pro dono do boi.

Ali, naquele aglomerado, estava eu. Cesta na mão, dinheiro na outra. Fazendo uma ginástica do tcham para me esgueirar das pimbas duras e aproveitadoras, que insistiam em se esfregar em mim.

Deus que proteja e que tenha em Sua Santa e Eterna Glória o meu grande protetor e amigo Boaventura dos Santos Moreira. E dê saúde e felicidade ao Seu Aureliano dos Santos Barreto, pai de minha amiga Judite. Eles me defendiam, e faziam de tudo para que, ao final do embate, entrasse na minha pequena cesta um palmo de pescoço, com carótida e tudo. E mais: dois quilos de ossos que viravam a sopinha da irmã Zarur.

Hoje, perdeu a graça. Já não sinto mais o sabor da carne de pescoço.

Agora engulo cobra.



* Crônica publicada no Blog do Altino e  no site Lima Coelho.

sábado, 9 de junho de 2012

LAÉLIA RODRIGUES: OS ENCANTOS DE UMA ARTISTA

Um pouco do belo trabalho da professora e artista plástica Laélia Rodrigues, que também é diretora teatral, escritora e dramaturga.


* Imagens disponíveis no Espaço Cultural do Acre.

quarta-feira, 6 de junho de 2012

J. G. DE ARAÚJO JORGE: UM ROMÂNTICO NA PRAÇA

Isaac Melo


A poesia sempre me fascinou. O mundo tem mais carência de poetas que de soldados. Porque a verdadeira revolução é aquela que se processa no mais íntimo de cada pessoa. O homem moderno busca o espaço, a lua, as fronteiras do universo; o poeta, por sua vez, continua sua perene viagem ao encontro do homem, de sua alma, de seu ser, de seu coração. O poeta não faz só versos. O poeta vibra com a vida, com a liberdade, com o amor, com a beleza. Quando o poeta escreve não escreve por si só, mas assume a responsabilidade de escrever pela humanidade. O poeta tantas vezes se faz consciência da humanidade, despertando-a quando vive os mais diversos pesadelos que afligem o corpo e a alma humana. Há poetas da razão e da emoção. Há poetas da alcova e da praça. Mas a poesia, embora aprisionada, sempre nasce livre. E a máxima do poeta é a liberdade.

A minha terra, onde também canta o sabiá, é o chão de um poeta grandioso como uma samaúma. José Guilherme de Araújo Jorge é filho de Tarauacá, nascido a 20 de maio de 1914. Seu pai, Salvador Augusto de Araújo Jorge, fora juiz municipal da comarca tarauacaense a partir de 1912. Anos depois, 1923, chefe de polícia em Rio Branco, nomeado por Arthur Bernardes. A casa dos Araújo Jorge ficava no “bairro” Leoncio de Andrade, na verdade, o seringal Foz do Muru, na confluência do rio Muru com o rio Tarauacá, em frente à cidade, adquirido depois pela família do escritor Leandro Tocantins, onde este viveu sua infância.

        Não cheguei de Ita, com alma palaciana,
        disposto a conquistar a grande capital,
        não invadi os jornais e suplementos
        construindo "igrejinhas" sem fiéis.

        Sou o poeta menor, o poeta humilde, sem história,
        que nasceu nesse Brasil grande, numa vila sem nome,
        pra lá, muito pra lá...
        - a vila de Tarauacá.

        Do poema “Canto do Poeta Menor”
        "Cantiga do Só" 2a edição, 1968.

J.G. e os irmãos**.
Foto: Clodomir Monteiro
in Agência de Notícias do Acre
O pequeno José Guilherme viveu em Tarauacá até os sete anos de idade. O extinto Jornal Official, da então Vila Seabra, de 21 de Maio de 1916 (Ano I, No 6) fazia o seguinte registro: “Passou ontem o segundo aniversário do nascimento do interessante José Guilherme, filho do nosso ilustrado amigo Dr. Araújo Jorge, digníssimo Juiz de Direito da Comarca. A casa de s. Excia. esteve cheia todo dia, e foi servido lauto banquete aos seus muitos amigos. Desejamos que o Zé Guilherme cresça em sadiez e inteligência e de futuro como verdadeiro acreano que é, trabalhe pela felicidade e pelo progresso desta abençoada terra que o viu nascer”. O jornalista talvez não imaginasse que seu vaticínio um dia se tornaria realidade. E o “interessan-te” Zé Guilherme, com sua inteligência dilatada, se tornaria um dos poetas mais lidos do Brasil, quiçá, o mais lido à sua época.

Em Rio Branco, com a transferência do pai, José Guilherme passaria sua infância. Fora aí que fizera o curso primário, no grupo escolar 7 de Setembro. A capital acreana impregnara de muitas saudades e lembranças a memória do poeta. Assim versejou, ao lembrar o grupo escolar:

Grupo escolar 7 de Setembro
em 1929.
        Festa no Grupo Escolar:
        eu apache, ela duquesa,
        pulseirinha feito cobra
        que o preso fez na cadeia
        – tem meu nome, o nome dela, –
        coloco no braço dela,
        – primeira algema de amor.
        Santinho passado na aula
        castigo da professora,
        coisas que a gente não diz
        atrás do pano do palco.

        Do poema “Retratos da infância (dez anos)”
        “A Outra Face”, 1949.

A terra dos seringais, particularmente Rio Branco, mais que sua terra natal, muito impressionara o poeta. E dela nunca pôde esquecer, como revelam os versos:

        Onde estás Rio Branco, dos bois rodando nos varais
        das moendas do engenho, gementes,
        (Meu Deus! a tristeza castrada do olhar dos bois!)
        dos bois arrastando madeiras pra serraria,
        dos cajueiros carregados
        das mangueiras noivando
        dos cacaureiros da floresta,
        e daquele alto cajazeiro que pintava o chão das madrugadas
        com salpicos de ouro
        depois do vento da noite.

        (....)
  
        Rio Branco
        meu princípio
        sem fim,
        que não sei onde estás, mas sei que estás
        de onde vim.

        Do “Poema Acre-Doce”
        "O Poder da Flor", 1969.

No Rio de Janeiro, para onde se mudara, cursara o ensino secundário no ginásio Anglo-Brasileiro e nos colégios Anglo-Americano e Pedro II (neste, anos depois, se tornaria professor de História e Literatura); o superior, na Faculdade Nacional de Direito da Universidade do Brasil. Sua vida estudantil foi marcada principalmente pela atuação no meio literário. Desde menino fora versado às letras e à oratória. Aos doze anos já escrevia seus primeiros poemas. No Colégio Pedro II, um dos mais renomados do país à época (autarquia Federal) e de grande tradição até hoje, despontou como líder estudantil e lançou seu nome na literatura. Fora o presidente e fundador da Academia de Letras e eleito Príncipe dos Poetas do Pedro II, sendo saudado, na ocasião, por Coelho Neto. Fundou ainda a Academia de Letras da Faculdade de Direito, da qual foi o primeiro presidente, cujo patrono era Afrânio Peixoto. Como estudante, participou de caravanas universitárias ao Chile, Argentina, Uruguai, Portugal (em Coimbra recebeu o título de "Estudante honorário"), França, Espanha, Bélgica, Holanda e Alemanha, onde realizou um curso de extensão.

Poesia e política se mesclam na vida e na obra de Araújo Jorge. Por suas posições políticas antifascistas, democráticas e socialistas sofreu inúmeras perseguições e fora preso inúmeras vezes, principalmente no período do "Estado Novo" (Era Vargas), enquanto estudante; e na ditadura de 64, enquanto poeta e político. Foi candidato a vereador e a deputado estadual e federal no antigo Distrito Federal (posteriormente estado da Guanabara), hoje Rio de Janeiro. Sendo eleito deputado federal em 1970, pela Guanabara, reelegendo-se para o terceiro mandato, em 1978. Político ativo, Araújo Jorge também combateu a ditadura: "Quando a crítica metia o rabo entre as pernas com medo da ditadura, e os poetas, como caramujos de jardim enclausuravam-se em hermetismos artificiais, lancei livros que o DIP apreendeu, participei de comícios dissolvidos a bala...". Era um poeta romântico, mas também um poeta da praça, um poeta da liberdade.

        Não faz mal. De mãos dadas com o povo,
        como em noite de lua
        faço ciranda na rua.

        Do poema “Canto do Poeta Menor”
        "Cantiga do Só" 2a edição, 1968.

Araújo Jorge colaborou e dirigiu inúmeros jornais, além de manter, por vários anos, programas literários, transmitidos principalmente pelas rádios Eldorado, Tupi e Nacional do Rio de Janeiro. Sua popularidade, sobretudo entre os jovens, lhe rendeu o título de Poeta do Povo e da Mocidade. Sua poesia se destaca tanto pela mensagem social e política quanto pelo lirismo, impregnada de grande romantismo moderno, que chega até ser dramático. E a maior prova disso é o seu livro "A SÓS...", a maior expressão romântica de sua poesia, de um profundo lirismo, que conquistou o coração de milhares de leitores. Sabia como tocar os corações por meio de sua poesia permeada de paixão e romantismo.

Produziu muito e com qualidade. Possui 36 obras publicadas entre os mais variados gêneros: poesia, trova, ensaio, crônica, coletânea, etc. Muitas também publicadas em diversos países. Somando todas as suas obras, a tiragem chega a milhões de exemplares. Fato raro e marca que poucos autores brasileiros alcançaram. Os que viveram à época do poeta são unânimes em afirmar, Araújo Jorge foi o poeta mais lido no Brasil, e consequentemente um dos mais combatidos também. Nunca pude compreender como um poeta do porte de um Araújo Jorge fora “silenciado” pela grande crítica brasileira, ele que é digno de figurar ao lado de um Castro Alves, um Olavo Bilac e mesmo um Carlos Drummond de Andrade.

O poeta nunca esqueceu sua terra, sua gente, o chão que o pariu e o nutriu em seus primeiros anos de vida. Olga Percário, uma das responsáveis por manter o site que conserva e divulga a poesia de Araújo Jorge, me escrevera certa ocasião afirmando que ele sempre alardeava e dizia com muito orgulho "Sou Acreano". E isso demonstra os belos poemas que dedicou ao Acre. Camilo Castelo Branco uma vez disse que a poesia não tem presente: ou é esperança ou é saudade. Para Araújo Jorge foram as duas coisas. Nutria um grande desejo de esperança de vida melhor para o seu povo ao mesmo tempo em que era tocado pelas reminiscências de sua infância no Acre.

Sua poesia, além de pronfundamente romântica, é marcada por um enorme senso de humanidade e por uma crítica social consistente, onde o homem exerce papel central. Proclamava o poeta: "a liberdade do futuro será a do homem sem medo da vida, dispondo da educação, da saúde, da terra, dos meios de trabalho, como de ar ou de sol, em igualdade de condições". Sua mensagem ainda se conserva atual, e urgente. Soa como um apelo a se repensar nossa maneira de ser e agir, diante de uma sociedade cada vez mais desigual, e mesmo desumana.

Assim foi José Guilherme de Araújo Jorge, um poeta romântico, um utópico, um político, um homem que buscou na própria vida, e na realidade que o cercou, a inspiração para sua poesia. Sempre romântico, porém, lúcido com a realidade social humana. Continua a fazer milhares de corações vibrarem e suspirarem de amor, de paixão e de indignação frente às injustiças, mesmo há anos de seu último suspiro, ocorrido no Rio de Janeiro, terra que abraçou com imenso amor, no dia 27 de Janeiro de 1987. E viva! Vive o Poeta do Povo e da Mocidade.



* Boa parte das obras de J.G. encontram-se disponíveis no site J. G. DE ARAÚJO JORGE
** Na foto de J.G.  e os irmãos quem souber quem é quem por favor nos comunique que acrescentaremos as informações.

terça-feira, 5 de junho de 2012

BRASILEIRO POR OPÇÃO – V

José Augusto de Castro e Costa*


O rio Acre tornara-se um dos afluentes mais populosos do rio Purus, estendendo-se acima de onde hoje encontra-se a cidade de Rio Branco, contabilizando cerca de 10.000 pessoas, excluindo os silvícolas. Esta população era inteiramente brasileira, provindo dos estados do Ceará, Paraíba, Piauí, Alagoas, Maranhão, Sergipe, Pará e Amazonas. A exportação em goma elástica estimara-se em cerca de 500.000 quilos, cujo comércio era levado a efeito por quase vinte vapores de grande estrutura, que faziam a navegação durante a cheia do rio, inclusive transportando novos seringueiros e mercadorias.

As exportações cresciam vertiginosamente de forma progressiva, em decorrência das descobertas químicas de vulcanização, aplicando o emprego do enxofre na borracha.

Charles Goodyear, em 1844, patenteia
o processo de vulcanização da borracha.
Um inglês denominado Thomas Hancock e um americano, Charles Goodyear, cujo nome é mundialmente familiar, registraram suas patentes e alastraram no mundo uma verdadeira febre de interesses nos objetos produzidos do estranho látex, tais como salva-vidas, balões-de-gás, sapatos, tapetes, botes, travesseiros, capotes, forros, etc., etc., relacionando-se inúmeras utilidades, coroando-se com um dos mais poderosos e influentes negócios – o pneu-mático.

Embora outros países possuíssem o látex, era o da Amazônia o que apresentava melhor qualidade e, por isso, o mais procurado, levando as capitais de Belém e Manaus ao ápice, pelo impulso da economia da goma elástica.

Os mais importantes mercados importadores da borracha eram Antuérpia, Hamburgo, Lisboa, Liverpool, Londres e Nova Iorque, os quais adquiriam toda a produção amazônica.

A expansão industrial no mundo, então, fez girar variedade incontável de artigos e objetos manufaturados, comerciáveis naquelas duas capitais brasileiras, devendo-se a isso o crescimento e a formação de uma elite que se impôs na vida do Brasil, em padrões de cultura. Ali viu-se prosperar o aspecto das duas cidades, onde destacavam-se a beleza e o asseio das ruas e largas avenidas, marginadas de enormes mangueirais.

As casas eram construídas ao estilo francês e português, o Teatro Amazonas, em Manaus e Teatro da Paz, em Belém, cercados por jardins muito bem tratados, causavam viva admiração pela majestade de suas edificações e sintetizavam muito bem o ar de civilização que provinha das metrópoles europeias.

O processo social nas duas capitais desenvolvia-se notoriamente. Em Manaus, por situar-se mais próximo dos seringais, o ritmo de progresso sentia falta de mão de obra para atender à demanda das construções, de vez que a Municipalidade determinara aos proprietários de terrenos baldios a necessária edificação dos mesmos, num prazo de seis meses. Havendo precariedade de operários, que se preparasse apenas a fachada do prédio, ficando o resto para depois, a fim de que a Lei municipal fosse cumprida.

O dinamismo vivido em Manaus e Belém aparentava os princípios de fortuna que a borracha acreana traria, deixando marcas indeléveis em ambas as metrópoles, tanto no visual da cidade como em seus habitantes.

A produção vertiginosa da borracha também viria despertar, sobremaneira, os sentidos do imperialismo econômico.

No princípio, em termos de negócio, o imperialismo apenas importava a exportação brasileira, o que não atendia ao apetite dominador da avidez. Fazia-se mister robustecer a transação, extinguindo, senão, diminuindo taxas e /ou emolumentos alfandegários brasileiros, que mesmo vantajosos, incomodavam.

Para o império econômico a Bolívia tinha que entrar nesse cenário e assumir o papel de protagonizar a exportação da borracha extraída do Acre.

Nasce daí a figura de D. Juan Francisco Velarde, Ministro-Residente da Bolívia, procurando persuadir os brasileiros, durante uma conferência na Sociedade de Geografia, a qual contava com a presença do Imperador D. Pedro II.

Dizia o ministro boliviano, naquela conferência que na América do Sul ainda existiam regiões inexploradas, cujo estudo interessava à ciência. Que a civilização havia limitado seus benefícios ao litoral do continente, deixando seu interior em seu estado primitivo.

D. Juan Velarde, no desenrolar da conferência realizada em 28 de junho de 1886, chegara a afirmar que o Acre ainda não havia sido encontrado. Os ouvintes brasileiros, por sua vez, pareciam desconhecer que há exatos vinte e nove anos, várias famílias cearenses e maranhenses, sob o comando de João Gabriel de Carvalho e Melo, haviam-se instalado rio Acre acima. Desconheciam que vinte anos antes, o Purus, Acre e Juruá estavam completamente devassados por brasileiros.

Segundo historiadores e vários registros documentais, o ministro boliviano demonstrou, na citada conferência, notório desconhecimento da área acreana, quando referiu-se ao Acre cortado por dois rios navegáveis (Abunã e Órton), dizendo ainda que os mesmos eram divididos e subdivididos em seu curso superior, quando, na verdade, estes rios pertencem à bacia do Madeira.

Tal desconhecimento já fazia-se notado antes e após o Tratado de Ayacucho, de 1867, porém, estimulada pelo imperialismo econômico que eclodia na Europa e USA, a Bolívia passou a interessar-se pela área acreana.

A Conferência proferida por D. Juan Velarde constituiu-se, historicamente, na primeira manifestação boliviana, com vistas à ocupação do Acre, insinuando tratar-se de ambiente inexplorado, inculto e em seu estado primitivo. Todos pareciam não levar em conta que, a simples ocupação do cearense João Gabriel de Carvalho e Melo conferiria ao Brasil, independente de qualquer outro título, o direito a ocupação efetiva e prolongada do território. É o que significa “uti possidetis”, inserido no Tratado de Madri, de 1749, objeto consentido pela Espanha, ao “emprestar o valor da justa propriedade à ocupação do solo e correr os limites pelas divisas naturais”.

Ao ignorar o utis possidetis, os interessados sob a égide de um Tratado repleto de equívocos, passaram a visitar a região acreana, inclusive relacionando-se com brasileiros que achavam-se instalados em seringais, nas proximidades do Beni.

Os olhos bolivianos começam-se a abrir, após testemunharem, in loco, o trabalho extrativista do brasileiros no rio Acre.


Leia também:
BRASILEIRO POR OPÇÃO – I
BRASILEIRO POR OPÇÃO – II
BRASILEIRO POR OPÇÃO – III
BRASILEIRO POR OPÇÃO – IV


* José Augusto de Castro e Costa é poeta e cronista acreano. Reside em Brasília e escreve o blog FELICIDACRE.

segunda-feira, 4 de junho de 2012

CINCO DÉCADAS DE ESTADO DO ACRE (I)

Marcos Vinícius Neves


Neste mês de junho o Acre completa cinquenta anos desde que deixou de ser Território Federal e se tornou um estado autônomo da federação. Por isso, ao longo de todo o mês, essa coluna trará uma série de artigos dedicados ao tema.

Porque...

Nas esquinas da história acreana já se tornou antológica a bem humorada e contundente crítica feita ao governo por ocasião do cinquentenário da Revolução Acreana, em 1952. Diante da total inação governamental um jornal acreano publicou uma primeira página totalmente preta com letras brancas que diziam "Ficam adiadas para o centenário as comemorações do cinquentenário!"

Muitos historiadores se especializaram em criticar, nos últimos anos, a atuação do governo que vem se empenhando em não deixar que essa história se repita e tem desenvolvido diversas e intensas atividades comemorativas de alguns dos principais acontecimentos da história acreana que, diga-se de passagem, é tão cara para a sociedade em geral. Até porque esta é, inclusive, uma das obrigações constitucionais do estado brasileiro em seus diversos níveis.

Aliás, não devemos ignorar o fato de que a adoção de novos parâmetros curriculares transversais no sistema educacional, bem como a substituição do vestibular pelo Enem como forma de avaliação para o ingresso na universidade pública no Acre, vem trazendo um enorme prejuízo para as novas gerações de acreanos que crescem sem ter o mínimo conhecimento da história local. Mas parece que isso não integra o rol de principais preocupações daqueles historiadores especialistas em criticar as ações governamentais de valorização e difusão da história acreana.

Ouso até dizer que se dependêssemos apenas da produção acadêmica e não fosse o notório interesse dos acreanos, a atuação do governo e, ainda mais recentemente, de alguns jornalistas e blogs independentes que se dedicam a divulgar a história acreana, estaríamos diante da eminência de algum jornal local ter que publicar uma primeira página totalmente em branco, porque não haveria sequer o que dizer diante de tamanha inércia... Mas, deixemos de conversar miolo de pote e passemos ao que de fato interessa...
Como...

Não seria possível compreender a importância deste momento em que o Acre completa cinquenta anos desde que se tornou estado se antes não entendermos como isso afetava a vida dos acreanos nos sessenta anos anteriores a essa conquista. Aliás, de maneira geral, o processo histórico que resultou na criação do estado do Acre deve necessariamente ser analisado a partir de três diferentes processos.

O primeiro diz respeito ao período em que o Acre permaneceu na condição de Território Federal e que durou 58 anos, de 1904 a 1962. O segundo trata da batalha legislativa que aconteceu no Congresso Nacional, entre 1957 e 1962, e que resultou numa intensa batalha política aqui no Acre, na qual se digladiaram os mais diversos segmentos sociais acreanos, através do PSD e do PTB. E o terceiro que é constituído pelos últimos cinquenta anos propriamente ditos em que o Acre já tornado um Estado autônomo da República brasileira precisou encarar o desafio de decidir e buscar seu próprio caminho.

Mas mesmo antes de dar início à análise destes três diferentes processos não podemos prescindir de tratar, ainda que brevemente dos antecedentes da criação do Território Federal do Acre.
Antes...

São amplamente conhecidas as histórias da Revolução Acreana, que se estendeu de 1899 a 1905, período no qual se lutou contra a dominação boliviana no vale do rio Acre e peruana no Purus e no Juruá. Porém, poucos refletem sobre o fato de que a assinatura do Tratado de Petrópolis (1903) com a Bolívia e do Tratado do Rio de Janeiro (1909) com o Peru não encerrou a luta dos acreanos para conquistar seu direito à cidadania brasileira, pelo contrário.

Até o final da Questão do Acre não havia no Brasil o sistema de territórios federais. O país tinha acabado de concluir uma enorme mudança política com o fim da Monarquia e o início da República (1889) e passou a ser constituído por uma federação de estados autônomos. Isso vinha de encontro ao desejo republicano de descentralização em oposição ao forte papel desempenhado pelo governo central no período monárquico.

Mas, com a vitória dos revolucionários acreanos contra a dominação estrangeira de imediato puseram-se em confronto os interesses do Amazonas, que queria que as terras acreanas lhe fossem anexadas; do Pará, que não queria o aumento da participação amazonense no mercado internacional da borracha; e dos próprios acreanos que esperavam ver o Acre transformado no mais novo estado da República brasileira.

Ao vitorioso nesse confronto caberiam as ricas rendas da alfandega do Acre, maior produtor da borracha de melhor qualidade (a famosa Acre fina) de toda a Amazônia. Contrariando e surpreendendo a todos o Governo Federal decidiu, então, criar o esdrúxulo sistema de Território Federal, a ser administrado diretamente pelo poder central. Matava-se, com isso, vários coelhos com uma só cajadada! Evitava-se acirrar ainda mais a disputa entre o Amazonas e o Pará, impedia-se também o aumento do poder dos seringalistas acreanos que passaram a ser temidos depois de vencer um conflito internacional às suas próprias custas e, não menos importante, passava-se a engordar o Tesouro Nacional com a ambicionada renda da borracha acreana.

sábado, 2 de junho de 2012

LAVE A BOCA PRA FALAR DE BRASÍLIA

Olivia Maria Maia*
Marrapaz!!!, tem gente que consegue deixar a gente roxinha de raiva! Esses dias um repórter de uma emissora de televisão, desses programas vespertinos chatos e sensacionalistas, que faz e acontece e berra e grita, e chama polícia de ladrão e ladrão de polícia, e ninguém se entende (se é que tais programas são feitos para se entender alguma coisa)... Sim, o tal “gritão” começou a anunciar:

− Logo mais uma notícia vindo diretamente do nosso repórter de Brasília.

Eu estava no escritório trabalhando, enquanto minha ajudante arrumava a cozinha e escutava o programa (ela adora o camarada). Agucei os ouvidos. O que aquele cara iria noticiar de Brasília? – pensei, cheia de curiosidade. Passei a dividir minha atenção entre o que estava fazendo e o que o repórter dizia. Ele falava mal de um, elogiava outro, e nada de soltar a notícia. Nos intervalos, antes de chamar o comercial, anunciava:

− Logo mais nosso repórter de Brasília trará uma notícia sen-sa-cio-nallll − e carregava no final do anúncio.

Eu já estava desistindo de esperar, pois odeio essa forma de prender o telespectador. Comecei a sentir-me a própria idiota, caindo na lábia desses embromadores.

Perdi a concentração no que estava fazendo e resolvi sentar-me em frente à TV e esperar a “bomba” tão anunciada, e aproveitar, também, para treinar minha tolerância (quase sempre zero, para embromações). E lá estava o repórter emendando uma notícia na outra − assassinato, roubo, estupro, e no final saiu com essa pérola:

- Lá no Planalto só tem bandidos... – E veio o comercial.

Peguei uma revista e comecei a ler, na esperança de que o tempo passasse mais rápido e a famigerada notícia sobre Brasília fosse logo completamente veiculada.

O fulano de tal voltou mais mansinho. Claro que levou um puxão de orelha da direção do programa. Meio que tentando disfarçar a mancada de ter nos chamado de bandidos. Justificou, com um sorrisozinho sem graça, que gostaria de esclarecer que se empolgou... E completou a “melança” do ato falho:

− Tem muita gente honesta por lá, disse com um sorriso sarcástico (a emenda saiu pior que o soneto, arre!). E finalmente soltou a notícia:

− Um jovem estudante de Direito virou o maior assaltante de posto de gasolina do Distrito Federal. Esse mundo tá perdido! – completou − lá no Planalto, filhinho de papai aprende na faculdade como se defender, indo pra Faculdade de Direito.

Continuou com a falação sem fim. Claro que pedi licença à moça e desliguei a televisão. Não merecemos. Pronto. Ponto e TV desligada!

Sabe de uma coisa? Cansei desse estereótipo barato – Brasília é terra da maracutaia. Sei que isso é reflexo de vivermos na Capital do país, consequentemente juntos (mas não estamos misturados) ao “centro do poder”.

Vi recentemente um texto desses que transitam pela internet que reflete um pouco o que sentimos quando tratam Brasília de maneira tão pejorativa. Era algo mais ou menos assim: “Por gentileza, antes de falarem mal de Brasília, lembrem-se que são vocês do Brasil todo que mandam os malas pra cá. Antes de reclamar, aprendam a votar”. Disse anteriormente que reflete um pouco, visto que eu acrescentaria – aprendam a pensar!

Não perdoei a grosseria do repórter, e infelizmente não pude dizer-lhe:

− Prezado, lave sua boca quando falar de Brasília, pois aqui gostamos dos perfumes... de beleza... de ética e delicadeza. Isso que saiu da sua boca é muito mal cheiroso pro nosso gosto e pro nosso olfato refinado.


* Olivia Maria Maia é escritora acreana, autora de EM RIO QUE MENINO NADA RAIA NÃO FERRA (2010). Reside em Brasília.

quinta-feira, 31 de maio de 2012

VALEU EUZÉBIO

Luiz Felipe Jardim


Quando não existiam as "escolinhas de futebol" para ‘formar’ os jogadores e craques, tais como as ‘escolinhas’ e Centros de Treinamentos de hoje em dia, eram as forças comunitárias, as forças sociais dinâmicas ligadas ao esporte que cumpriam essa tarefa.

Simples assim. As pessoas queriam ver e se divertir com o futebol. Para isso precisavam de bons jogadores. Para tanto, se envolviam e moviam certas forças sociais no sentido de produzirem os jogadores, verem e se divertirem com um bom futebol.

Assim nasceram muitos clubes por este Brasil a fora. Clubes surgidos nos bairros, nas fábricas, nas colônias, nas escolas, nas mais diversas associações, enfim, onde a mobilização das comunidades dava vida material e espiritual ao fazer o futebol.

Nessa atmosfera surgiam os jogadores, os bons jogadores e os craques.

Era o Bolinha filho da comadre Neném, que viria a encantar os moradores do bairro com a magia de que era capaz com a bola nos pés.

Era o Zé Bezerra, mestre nos chutões bumba-meu-boi, que divertia as torcidas no tempo das primeiras formações do Rio Branco Footboal Club.

Era o Tinôco, mestre das defesas difíceis ou impossíveis, que viria mostrar às nossas torcidas os desafios à gravidade que os homens podem e sabem fazer.

Era o Zé Claudio, mestre na armação das jogadas que, comandaria a construção dos desenhos geométricos (desenhos táticos) que os times realizam com suas jogadas durante as partidas.

Assim fez-se o futebol acreano. Nutrindo-se das suas próprias forças sociais, produziu seus jogadores em quantidade e qualidade, que enchiam os campos por onde passava e os olhos das torcidas que o assistiam.

Segundo levantamento feito por Raimundo Fernandes, em começos da década de 1970, Rio Branco tinha perto de 156 campos de futebol nas suas áreas rural e urbana. Isso demonstra o poder comunitário que tinha o esporte naqueles tempos. A partir dele pode-se imaginar a enorme quantidade de pessoas envolvidas nas atividades preparatórias, paralelas, de apoio etc. relacionadas ao futebol. Atividades que vão desde realização de arraiais, à realização do baile tradicional do clube; desde campanhas de arrecadação de fundos, a eleição de suas rainhas e madrinhas.

O resultado é inquestionável. O Acre produziu uma quantidade enorme de bons jogadores. Isso se traduzia num crescente aumento do número de pessoas nos estádios, na importância do futebol na sociedade...  na produção de mais e bons jogadores.

Por isso nos meados dos anos 60, já com boa carga hereditária embutida no nosso futebol - herança nos proporcionada pela categoria de jogadores como Zé Claudio, Boá, Touca, Cidíco, Tinoco, Airton, Fernando Diógenes, etc.- surgiam em Rio Branco, alguns jogadores que também viríamos a chamar de craques, como Dadão, Rui e Euzébio.

Todos se destacavam, entre outras coisas, pela elegância com que marcavam suas características principais. Como o arranque leve e fulminante do Rui rumo ao gol com a bola aos pés. Ou os dribles quase sempre previsíveis, mas quase sempre impossíveis de serem evitados, do Dadão.

Euzébio Abreu de Souza
Foto Futebol do Norte
Já Euzébio tinha uma elegância peculiar. Diferentemente de Zé Cláudio, por exemplo, cujo centro de gravidade exigia seu corpo o mais reto possível, o que lhe dava natural elegância, Euzébio tinha um centro de gravidade que o inclinava ligeiramente mais à frente e exigia maior movimento dos braços. Isso lhe fazia mais ofensivo, mais finalizador e mais hábil nos dribles curtos.

Além disso, Euzébio era mestre nas cobranças de faltas. A simplicidade com que as preparava escondia a complexidade com que as executava. O olhar despretensioso que as antecipava, dissimulava os complexos cálculos que fazia, onde milímetros de ângulos eram imaginados e relacionados a graus de força nos pés. Onde o momento psicológico da partida era relacionado às características psicológicas do goleiro oponente. Onde a curva que a bola deveria fazer era medida em função da posição e altura da barreira. Tudo ali, em poucos segundos, sem pranchetas ou canetas, à vista de todos. Sem TV, mas ao vivo e em cores. O resultado era impressionante. Se o gol acontecia - e geralmente acontecia - mais ainda. Mas, mesmo que o gol não acontecesse, a carga de emoção, a satisfação que a cobrança trazia à assistência, pela beleza plástica que proporcionava, e pela iminente sensação de antevisão que sugeria, era enorme.

Por outro lado Euzébio era craque na distribuição de jogadas. A característica movimentação dos seus braços, além de sua altura, fazia dele um centro de referência natural que ele sabia utilizar com maestria. Responsável por grande parte da armação das jogadas, usava sua natural inclinação para frente (a que os zoólogos chamam de 'cara de ataque', característica quase sempre presente nos líderes) para carimbá-las com a marca ofensiva. Aliás, é esta a principal imagem que me ocorre quando me lembro, ainda menino, de ver o meu Atlético Acreano jogar: a partida se iniciando e o Euzébio no meio do campo partindo com a bola para o ataque... levando nosso time à ofensiva...

Realmente nossa cidade produziu excelentes jogadores nos seus campos de futebol...

E disso devemos nos orgulhar.  Porque somente sociedades alegres, fortes, inteligentes, com bons níveis de harmonia são capazes de produzir ídolos igualmente harmônicos, inteligentes, fortes e alegres para se espelhar. Pois nossos ídolos são como espelhos que nos mostram aspectos da fisionomia do nosso espírito coletivo que de outra forma não veríamos com naturalidade.  É por isso que ouvimos tanta música. Ou ainda, é por isso que nos interessamos tanto por esportes como o futebol. Porque vendo a nossos ídolos vemos a nós mesmos de maneiras diferentes. Vendo a nossos ídolos vemos o rosto do nosso humor, vemos as diversas expressões da nossa dor; vemos os vários semblantes da alegria, vemos detalhes das formas infinitas do amor. Vemos aspectos de quem somos, de para onde vamos e do que devemos fazer.

Euzébio, por ser um de nós, revelava para nós que o assistíamos detalhes da nossa alma, aspectos da nossa fisionomia coletiva. Detalhes dos mais valiosos, daqueles que trazemos fixos em nosso inconsciente e que nos dizem, permanentemente, com voz profunda e hálito quente, que a vitória é possível. E que mais possível é a vitória se formos à frente.

Valeu Euzébio, a mensagem está dada, a missão cumprida. E dela nosso povo se lembrará enquanto memória tiver, enquanto tiver vida.


* Luiz Felipe Jardim é advogado, professor de História, músico e compositor acreano.

BELA VERSÃO: Hino Acreano tocado pelo guitarrista de Cruzeiro do Sul, Gerbson Maia!

quarta-feira, 30 de maio de 2012

BRASILEIRO POR OPÇÃO – IV

José Augusto de Castro e Costa*
Porto de Manaus em funcionamento, década de 1940.
Blog Catador de papeis

Não obstante a grande movimentação nas cidades de Manaus e Belém, relacionada à exportação da borracha, o Brasil, em si, não fazia a menor ideia de que o fato vinha dando o maior destaque de expansão nacional naquela área amazônica.

O que parecia preocupar as autoridades brasileiras era a situação de dificuldade geográfica da Bolívia, conforme verifica-se logo após a Independência, quando o Presidente da Província de Mato Grosso convida  os governadores bolivianos para unirem ao Império do Brasil as províncias de Santa Cruz de La Sierra, Chiquitos e Moxos.

Esses atos foram rigorosamente desautorizados posteriormente pelo Governo Imperial. Parece nascer daí uma certa preocupação em delimitar as terras brasileiras.

A Bolívia, na verdade, sempre conviveu com problemas geofísicos, o que fundamenta o desejo dos bolivianos de desfrutarem a vista de um horizonte que não seja pontilhado de picos montanhosos. Não apenas este aspecto, mas a acessibilidade menos dificultosa para o fluxo e refluxo de seus interesses. Sempre a política boliviana girou em torno de fatores geofísicos, o que representava uma difícil e enorme distância para ambos os oceanos – pior ainda para as bandas do Atlântico.

A própria literatura boliviana, através de F. Diez Medina, sugere textualmente que “no coração da América Meridional situa-se o Atlântico; amuralhado ao outro lado pela Grande Cordilheira que olha o Pacífico distante; cerrada por bastiões montanhosos, aberta em rios dilatados e ares estratégicos, Bolívia se levanta como um astro ignorado, jovem e remoto ao mesmo tempo”. Outro historiador boliviano, reportando-se aos problemas sociais e geográficos a que está fadado seu país, diz que a “fatalidade histórica confinou a Bolívia ao redor de 800.000km²”.

No cenário das discussões de tratados de limites é notório a política vacilante, tanto do Brasil como da parte da Bolívia. Esta então chegou até a dizer que não havia celebrado tratado algum positivo entre Bolívia e o Brasil (“no habiendose celebrado tratado alguno positivo entre Bolivia y El Império Del Brasil, ni podiendo considerarse subsistente. Os anunciados tratados no existen em lós archivos de su govierno, que Bolivia jamás les há dado el roconocimiento solemne”).

De ressaltar que a situação interna da Bolívia não permitia um bom termo de negociações, por motivo de estarem suas autoridades ocupadas em manter a unidade da suposta Federação Peru-Bolívia, enfrentando o conflito com o Chile.

Anos depois, vendo-se sujeito a enfrentar uma guerra absurda com o Paraguai, o Brasil procura reatar e estreitar suas relações com a Bolívia, temendo, que tal batalha viesse alastrar-se numa situação bélica de solidariedade do idioma espanhol, de cultura e de amor-próprio ferido.

A negociações, então, transcorreram  em clima de compreensões recíprocas e honrarias brasileiras aceitas pelos bolivianos,  encantados e deslumbrados com tanto mimo  diplomático, convertido em  comendas e altas condecorações.

Em menos de três meses, os bolivianos, persuadidos por uma fórmula de harmonização do que aparentava ser de interesses comuns, concordaram assinar o tratado que recebeu o nome de Ayacucho, em 27 de março de 1867.

Contudo, os dois países assinaram o Tratado de Ayacucho sem o menor conhecimento da área referida no citado documento, muito menos do valor daquelas terras e sem atinar que eram os brasileiros quem estavam habitando e explorando aquela área, há dez anos. Sabiam que o documento em pauta cuidava dos limites relacionados aos rios Javari e Madeira. Atribui-se que tais providências eram básica e teoricamente imaginárias.

Enquanto isso a exploração do látex vai-se intensificando, consolidando sua produção e desenvolvendo sua exportação, com vistas ao breve alcance do famoso “auge da borracha”. Todo este empenho, à proporção que aproximava-se o final do XIX, é revestido do estilo mundialmente conhecido como “belle  èpoque”.

A força motriz dessas providências, de ressaltar, eram exclusivamente humana e genuinamente brasileira. Ali, até então e por alguns anos vindouros jamais ouvira-se falar em ocupação boliviana, muito menos em seringueiro boliviano.

No campo diplomático o jogo não fazia a menor referência ao que ocorria no norte do Brasil. Talvez pela grande dimensão do país, adicionada à influência do fato de D. João VI haver optado por transferir a capital do Império para o sudeste, a maioria dos interesses destinados ao progresso do Brasil também foi deslocada para aquela região, com extensão para o sul. A partir daí nasce um dito popular de que, no Brasil, há sempre destaque para a “industrialização” do sul e sudeste, em detrimento da “miserabilização” do norte e nordeste.

Foto: Revista Brasil-Europa
A História, porém, segundo os historiadores Arthur Cesar Ferreira Reis e Leandro Tocantins, registra que três anos antes da assinatura do Tratado de Ayacucho, chega à Amazônia o geógrafo britânico William Chandless, com o objetivo de examinar a veracidade da união aquática dos rios Purus e Madeira.

As explorações de Chandless negaram a existência de liame aquático entre os dois rios, desfazendo, então, versões inexatas, anteriormente difundidas. Em seguida o geógrafo inglês estendeu seus cálculos científicos ao rio Juruá.

O título de desbravador do Juruá, à semelhança de Manuel Urbano no Purus, é concedido a João da Cunha Correia que, em 1854, isto é, 13 anos antes do Tratado de Ayacucho, percorreu terras do Juruá e, depois de alcançar o Juruá-Mirim, subiu o rio Tarauacá, passando daí ao Envira, chegando por terra ao Purus. Lembram os nossos historiadores de que só não houve um registro histórico do encontro com Manuel Urbano porque, ao atingir o Purus, seu desbravador, no momento, encontrava-se no alto rio. O geógrafo William Chandless, então dez anos após, perfaz a mesma jornada de João da Cunha Correia, calculando haver cumprido cerca de 980 milhas. O Acre, então, sugere demonstrar-se totalmente abrasileirado!


Leia também:


* José Augusto de Castro e Costa é poeta e cronista acreano. Reside em Brasília e escreve o blog FELICIDACRE.