terça-feira, 5 de junho de 2012

BRASILEIRO POR OPÇÃO – V

José Augusto de Castro e Costa*


O rio Acre tornara-se um dos afluentes mais populosos do rio Purus, estendendo-se acima de onde hoje encontra-se a cidade de Rio Branco, contabilizando cerca de 10.000 pessoas, excluindo os silvícolas. Esta população era inteiramente brasileira, provindo dos estados do Ceará, Paraíba, Piauí, Alagoas, Maranhão, Sergipe, Pará e Amazonas. A exportação em goma elástica estimara-se em cerca de 500.000 quilos, cujo comércio era levado a efeito por quase vinte vapores de grande estrutura, que faziam a navegação durante a cheia do rio, inclusive transportando novos seringueiros e mercadorias.

As exportações cresciam vertiginosamente de forma progressiva, em decorrência das descobertas químicas de vulcanização, aplicando o emprego do enxofre na borracha.

Charles Goodyear, em 1844, patenteia
o processo de vulcanização da borracha.
Um inglês denominado Thomas Hancock e um americano, Charles Goodyear, cujo nome é mundialmente familiar, registraram suas patentes e alastraram no mundo uma verdadeira febre de interesses nos objetos produzidos do estranho látex, tais como salva-vidas, balões-de-gás, sapatos, tapetes, botes, travesseiros, capotes, forros, etc., etc., relacionando-se inúmeras utilidades, coroando-se com um dos mais poderosos e influentes negócios – o pneu-mático.

Embora outros países possuíssem o látex, era o da Amazônia o que apresentava melhor qualidade e, por isso, o mais procurado, levando as capitais de Belém e Manaus ao ápice, pelo impulso da economia da goma elástica.

Os mais importantes mercados importadores da borracha eram Antuérpia, Hamburgo, Lisboa, Liverpool, Londres e Nova Iorque, os quais adquiriam toda a produção amazônica.

A expansão industrial no mundo, então, fez girar variedade incontável de artigos e objetos manufaturados, comerciáveis naquelas duas capitais brasileiras, devendo-se a isso o crescimento e a formação de uma elite que se impôs na vida do Brasil, em padrões de cultura. Ali viu-se prosperar o aspecto das duas cidades, onde destacavam-se a beleza e o asseio das ruas e largas avenidas, marginadas de enormes mangueirais.

As casas eram construídas ao estilo francês e português, o Teatro Amazonas, em Manaus e Teatro da Paz, em Belém, cercados por jardins muito bem tratados, causavam viva admiração pela majestade de suas edificações e sintetizavam muito bem o ar de civilização que provinha das metrópoles europeias.

O processo social nas duas capitais desenvolvia-se notoriamente. Em Manaus, por situar-se mais próximo dos seringais, o ritmo de progresso sentia falta de mão de obra para atender à demanda das construções, de vez que a Municipalidade determinara aos proprietários de terrenos baldios a necessária edificação dos mesmos, num prazo de seis meses. Havendo precariedade de operários, que se preparasse apenas a fachada do prédio, ficando o resto para depois, a fim de que a Lei municipal fosse cumprida.

O dinamismo vivido em Manaus e Belém aparentava os princípios de fortuna que a borracha acreana traria, deixando marcas indeléveis em ambas as metrópoles, tanto no visual da cidade como em seus habitantes.

A produção vertiginosa da borracha também viria despertar, sobremaneira, os sentidos do imperialismo econômico.

No princípio, em termos de negócio, o imperialismo apenas importava a exportação brasileira, o que não atendia ao apetite dominador da avidez. Fazia-se mister robustecer a transação, extinguindo, senão, diminuindo taxas e /ou emolumentos alfandegários brasileiros, que mesmo vantajosos, incomodavam.

Para o império econômico a Bolívia tinha que entrar nesse cenário e assumir o papel de protagonizar a exportação da borracha extraída do Acre.

Nasce daí a figura de D. Juan Francisco Velarde, Ministro-Residente da Bolívia, procurando persuadir os brasileiros, durante uma conferência na Sociedade de Geografia, a qual contava com a presença do Imperador D. Pedro II.

Dizia o ministro boliviano, naquela conferência que na América do Sul ainda existiam regiões inexploradas, cujo estudo interessava à ciência. Que a civilização havia limitado seus benefícios ao litoral do continente, deixando seu interior em seu estado primitivo.

D. Juan Velarde, no desenrolar da conferência realizada em 28 de junho de 1886, chegara a afirmar que o Acre ainda não havia sido encontrado. Os ouvintes brasileiros, por sua vez, pareciam desconhecer que há exatos vinte e nove anos, várias famílias cearenses e maranhenses, sob o comando de João Gabriel de Carvalho e Melo, haviam-se instalado rio Acre acima. Desconheciam que vinte anos antes, o Purus, Acre e Juruá estavam completamente devassados por brasileiros.

Segundo historiadores e vários registros documentais, o ministro boliviano demonstrou, na citada conferência, notório desconhecimento da área acreana, quando referiu-se ao Acre cortado por dois rios navegáveis (Abunã e Órton), dizendo ainda que os mesmos eram divididos e subdivididos em seu curso superior, quando, na verdade, estes rios pertencem à bacia do Madeira.

Tal desconhecimento já fazia-se notado antes e após o Tratado de Ayacucho, de 1867, porém, estimulada pelo imperialismo econômico que eclodia na Europa e USA, a Bolívia passou a interessar-se pela área acreana.

A Conferência proferida por D. Juan Velarde constituiu-se, historicamente, na primeira manifestação boliviana, com vistas à ocupação do Acre, insinuando tratar-se de ambiente inexplorado, inculto e em seu estado primitivo. Todos pareciam não levar em conta que, a simples ocupação do cearense João Gabriel de Carvalho e Melo conferiria ao Brasil, independente de qualquer outro título, o direito a ocupação efetiva e prolongada do território. É o que significa “uti possidetis”, inserido no Tratado de Madri, de 1749, objeto consentido pela Espanha, ao “emprestar o valor da justa propriedade à ocupação do solo e correr os limites pelas divisas naturais”.

Ao ignorar o utis possidetis, os interessados sob a égide de um Tratado repleto de equívocos, passaram a visitar a região acreana, inclusive relacionando-se com brasileiros que achavam-se instalados em seringais, nas proximidades do Beni.

Os olhos bolivianos começam-se a abrir, após testemunharem, in loco, o trabalho extrativista do brasileiros no rio Acre.


Leia também:
BRASILEIRO POR OPÇÃO – I
BRASILEIRO POR OPÇÃO – II
BRASILEIRO POR OPÇÃO – III
BRASILEIRO POR OPÇÃO – IV


* José Augusto de Castro e Costa é poeta e cronista acreano. Reside em Brasília e escreve o blog FELICIDACRE.
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