sexta-feira, 22 de junho de 2012

BRASILEIRO POR OPÇÃO – VII

JOSÉ AUGUSTO DE CASTRO E COSTA*


Em 1897, aos 30 anos, o Tratado de Ayacucho é despertado de um adormecido estágio para necessárias adaptações. É que fora observado tratar-se de um instrumento, de certa forma insano, produzido por mentes precipitadas, desprovidas do censo comum, por elaborá-lo não apenas com deficiência interpretativa, mas também com um perímetro de demarcação mutilado.

Ao estudar o referido Tratado, ninguém sabia onde encontrava-se as nascentes, no caso, do rio Javari, que seria o ponto inicial da fronteira e, o que é pior, o traçado geodésico não continha a longitude. O Tratado de Ayacucho assemelha-se à figura de um terreno que só possui a área frontal, sem a menor coordenada referente ao todo. Com respeito ao Tratado, nada consta acerca da extensão longitudinal.

Don Paravicini, Ministro Plenipotenciário boliviano, por possuir aguçada perspicácia e assustadora ousadia, aventurara-se a por em prática, pessoalmente, seu projeto para concretizar a instalação do posto aduaneiro no rio Acre, em detrimento dos debates em busca dos dados corretos da demarcação da área pertinente ao Tratado de Ayacucho.

Para D. Paravicini e até para muitos brasileiros, pouca importância havia se a área demarcada estava correta ou incorreta. O interesse movido pelo imperialismo econômico, prendia-se ao cobiçado imposto aduaneiro de exportação, adicionado aos impostos de vendas a vista e em consignação, com os quais o Brasil deixaria de contar.

Com o beneplácito brasileiro, o Ministro Paravicini e sua comitiva são recebidos com saudações, ovações e excessivos acatamentos, pelo mesmo governador Ramalho Junior, que, meses anteriores, discordara dos propósitos da expedição boliviana, que eram exatamente os mesmos.

Após tomar conhecimento de que inúmeros gaiolas havia partido para os rios acreanos, Juruá, Iaco e Acre, Don Paravicini, dispensou a diplomacia, não fez cerimônia para interromper as solenidades a si prestadas e partiu para o Alto Acre, por assegurar-se que o maior número de transportadores havia-se dirigido para aquela região. Seu plano era dar início à devida cobrança de imediato, até mesmo antes de solidificar a acomodação da Alfândega.

O Ministro Paravicini recebeu, das autoridades amazonenses, votos de boa viagem e magnífico desempenho, agradeceu e fechou a ordem do dia levantando um brinde à imprensa brasileira.

Vapor Rio Tapajós.
Fotografia em Álbum do Rio Acre 1906-1907, de Emílio Falcão.
Era dezembro de 1898, quando o vapor “Rio Tapajós”, fretado pelo governo boliviano zarpou, aproveitando as primeiras águas, com destino aos rios Purus e Acre. Com seus largos corredores laterais, para onde abriam os camarotes, os quais estendiam-se em fila dupla central, e com um vasto salão de jantar, à traseira, o navio era externamente todo aberto, apenas protegido do sol e da chuva por grossas lonas verdes, que permaneciam enroladas. Era assim, claro e alegre, como os “gaiolas” da região, em geral.

Subindo o rio Purus cheio, o “Rio Tapajós” procurava encurtar a distância e evitar a maior correnteza, cortando as voltas e costeando as mansas praias convexas e afastando-se dos barrancos recôncavos, por onde se precipitavam as águas impetuosas.

Para guardar o carvão para o Acre, onde a lenha preparada era cara e escassa, a tripulação brasileira, que já possuía experiência, procurava suprir-se desse combustível, ao longo do Purus, aportando em diversos portos de lenha, onde compravam alguns milheiros de achas de madeiras de lei, tipo maçaranduba e pau-mulato.

O “Rio Tapajós” entra, finalmente no tão falado rio Acre, o qual afigurou-se aos bolivianos muito estreito para comportar a fama de importância e de riqueza que o celebrizava. Parecia-lhes incrível que um rio tão exíguo tivesse mais de mil quilômetros de curso, quase totalmente navegável.

Enquanto isso, em Manaus ficara no ar, nos gabinetes, nas residências, nas esquinas, o assunto contido no cotidiano, a propósito da questão do Acre, acolchoado pela incerteza quanto ao destino da opulência manauara, contida na grandiosidade de um Teatro Amazonas, na beleza arquitetônica do Tribunal de Justiça, na beleza confortante dos palacetes, na admirabilidade do conjunto de pré-moldados do prédio da Alfândega, que vieram em blocos e foram montados em Manaus, nos entretenimentos do espírito que enlevavam a alma do manauara. Tudo isso parecia ter dias contados!

Na região acreana, a vida transcorria dentro da normalidade, com a acomodação das peles de borracha nos porões, assim como o acoplamento das jangadas do mesmo produto nas diversas embarcações, sejam gaiolas, lanchas e batelões.

Chegando ao porto, a embarcação lançava os cabos, que eram amarrados, e as pranchas, por onde passariam os moradores, ansiosos por notícias e correspondências.

Alguns donos de seringal, mais pressurosos ou modestos, eram os primeiros a subir a bordo, para cumprimentar o comandante e o representante da casa, com quem tomavam os tragos.

O descarregamento era feito rapidamente iniciando pelas garrafas da saborosa aguardente Cocal e pelos cestos de farinha, que eram transportados do porto para o barracão, pelos seringueiros em festa.

Descarregado o aviamento dos diversos seringais fregueses, as embarcações retornavam a Manaus e Belém, fazendo as mesmas escalas.

À noite, o devido descanso era precedido por rodas de conversa de uns, acerca das atividades do dia, enquanto outros quedavam-se a contemplar a lua ou o doce reluzir das águas barrentas do rio Acre, não obstante os inquietantes ataques das vorazes carapanãs, que ferravam mesmo através da roupa – geralmente de mescla ou caqui.

Quando dois vapores se encontravam, saudavam-se mutuamente com sonoros apitos, acerca das atividades do dia. Característicos de cada casa armadora, delicado cumprimento, geralmente acompanhado pelos amistosos acenos trocados entre os passageiros.

Esta cultura já havia completado trinta anos, desde quando João Gabriel de Carvalho e Melo, a frente de seus homens, ergueu as barracas para sinalizar o primeiro seringal organizado e estável da região acreana.

Ia o vapor dos bolivianos subindo, aproando sempre na tangência da curva que contornava, fugindo da correnteza da água, que lambia o barranco fronteiro, solapando as raízes das árvores ribeirinhas.

O prático, na roda do leme, de olhos atentos, evitava o rebojo dos “troncos”, paus enfincados no fundo do rio, constituindo um grande perigo, temidos pelo encalhe ou furos do casco da embarcação. Iam desfilando à vista dos passageiros, numa demorada sucessão, os barracões dos seringais acreanos.

O Estado do Amazonas exercia jurisdição sobre as regiões dos rios acreanos, com a Superintendência sediada na vila Antimarí, cujo secretário era o advogado José de Carvalho, cearense do Crato e a direção a encargo do Superintendente Francisco Monteiro de Souza Junior.

O advogado José de Carvalho Alencar não viria a ser o primeiro de sua família a ter envolvimento com o Acre. A matriarca de sua família, Bárbara de Alencar, foi considerada a primeira prisioneira política, quando coadjuvou o comando da Revolução do Equador, uma manifestação revolucionária ocorrida na metade do século XVII, defendendo a autonomia de Pernambuco. Após o embate retirou-se para o Crato, onde constituiu família e deu continuidade às questões políticas, sempre visando a conquista das liberdades sociais. Teve, inclusive, um filho seu ocupando o posto de Presidente da Província do Ceará.

Quatorze anos após a estada de José de Carvalho em regiões acreanas, outro parente seu, Coronel da Força Nacional, Tristão de Alencar Araripe, ao ser nomeado Prefeito do Departamento do Alto Purus, iria protagonizar sérias questões políticas em Sena Madureira, relacionadas ao movimento separatista e autônomo do Juruá e Alto Purus.


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BRASILEIRO POR OPÇÃO – VI


* José Augusto de Castro e Costa é cronista e poeta acreano. Mora em Brasília e escreve o Blog FELICIDACRE.
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