domingo, 24 de junho de 2012

NAS GIRAS DA VIDA

LEILA JALUL


Sálvio Correia estava exausto. Acabara de dirigir por mais de 13 horas pela perigosa rodovia e de descarregar a carga no frigorífico da cidade. Os frios e embutidos que deveria levar de volta não estavam prontos para embarque.

Procurou um lugar para um banho e aguardaria o horário para receber o frete prometido. Caminhão vazio é prejuízo garantido. Tomou um banho gelado no sujo banheiro do Posto do Km 2, jantou uma comida quase passada e sem gosto e, confortado na marra e resignado no grito, foi recarregar o carro. Somente depois, já com as notas fiscais em mãos, foi possível pensar em tirar um ronco na cama improvisada na boleia do baú.

Mal se deitou e já ouviu uma leve batida na porta do carro. Assustado, pensou tratar-se de assalto. Esperou um pouco e, novamente, três leves toques e uma voz de mulher.

- Moço, por favor... Abra, por favor...

Precavido, Sálvio tirou o relógio do pulso e, junto com os poucos trocados que tinha, guardou-o no fundo falso do banco traseiro e, deste mesmo lugar, pegou o “ferro” e armou o gatilho. Antes de abrir a porta, com os olhos apertados e a fé forte em Deus, benzeu-se e pediu proteção a São Francisco do Assis.

A moça que viu diante de si, se muito, tinha 35 anos. Nem bonita, nem feia. Seu jeito simples e sua forma de falar, a quem quer que a escutasse, de primeira, inspirava confiança.

A conversa foi rápida e direta. O que relatou em breves palavras ao motorista não passava de uma estória comum, mas, nem assim, deixava de encerrar sofrimento, mágoa, desilusão e impotência.

Adília – era esse seu nome – saiu de Rio Verde em Goiás, à procura de um filho que teve com um arrendatário de terras na região. Certo dia, ao viajar pra Catalão para prestar socorro à mãe doente, ao voltar, não mais encontrou o filho, menos ainda o pai dele. Encontrou o vazio.

Foi aí que começou sua via crucis. Uns diziam que o plantador de café estava em Campo Grande, no Mato Grosso do Sul. Outros, que o tinham visto em Tocantins. Outros diziam que estava mesmo em Goiás.

Sem dinheiro, passou a, de caminhão em caminhão, contando a mesma história, percorrer várias cidades da região central do país. Em vão. E seguiu adiante.

E foi ali, em Pernambuco, onde, finalmente, encontrou seu filho. Esteve com ele e com o pai que lhe negou levasse o garoto, então com 16 anos. Adília viu o filho dividido. Ficar com o pai, com estudos garantidos ou seguir com a mãe rumo ao incerto? Na mesma carona com Sálvio, foi em frente.

- E então Adília? Após entregar esta carga vou para Rio Verde. Minha velha mãe está me aguardando? Onde pretendes ficar?

- Também volto para Rio Verde, talvez possa morar com uma prima. Preciso de trabalho e um lugar para morar.

- Enquanto arrumas tua vida, um trabalho, posso te oferecer que fiques com minha mãe. Não temos muito conforto, mas somos trabalhadores. Mamãe é doceira e bem podes ajudá-la. Tenho duas irmãs solteiras que te acolherão como irmã. Não estarás com teu filho, mas ganharás uma família.

Proposta aceita, na boca da noite, chegaram a Rio Verde. O fato de Sálvio estar acompanhado de uma mulher não pareceu causar espanto. Na hora da janta, tudo esclarecido, a presença de Adília foi comemorada.

Na lida diária, já no amanhecer, a fabriqueta de doces não parava um só instante. As mulheres, agora com a força dos braços de Adília, se alternavam no cabo das colheres de pau. O forte de Dona Tininha na preferência das freguesas era o doce do tenro caule do mamoeiro.

O caldeirão de água no fogareiro do quintal fervia os vidros de maionese que seriam reutilizados, após total esterilização. Nas horas de folga da noite, enquanto viam televisão, as tampas dos vidros eram recobertas de tecido vistoso e laçarotes de fitilhos coloridos. Todo este esmero era o principal responsável pela preferência da clientela que crescia a olhos nus. O doce já era bom. Enfeitado, ficava melhor!

Adília parecia acostumada e resignada com a distância do filho Carlos César. Rezava por ele. Desejava fortuna e saúde ao pai dele. Fervorosa, pedia à virgem que não a deixasse morrer sem antes abraçar seu filho. Dia após dia, sem notícias, sofria.

Vez por outra, nas férias, ou quando de passagem por Rio Verde, Sálvio marcava presença para pedir a bênção à Tininha e ver o resto da mulherada da casa. Sua vida de caminhoneiro de empresa era agitada e sem escolhas de paragens e preferências de paisagens. Não raro, em seis meses, cortava o Brasil de ponta a ponta. Bastava que devesse substituir um companheiro enfermo ou em descanso obrigatório anual. Por Deus e por necessidade, gostava da vida errante, percorrendo caminhos na cabine do caminhão baú. Faltava pouco para ter sua própria terra, seu rebanho de boi de corte e realizar seu sonho de criança: ser patrão de si mesmo.

Passados seis anos de trabalho à beira do fogão, em tempo corrido na fabriqueta de doces e nas estradas da vida, chega a hora da reunião definitiva da família de Dona Tininha. Sálvio havia comprado sua terra e adquirido umas cabeças de gado. Ao todo, quatro bezerras em tempo de cruza e um touro de boa pegada.

Marcado o dia do reencontro, em polvorosa, as mulheres largaram os doces e foram agilizar o preparo do jantar especial. Uma pururuca com farofa de banana verde e torresmo, um tutu especial, um arroz com queijo Minas meia cura e a especialíssima fritada de couve com ovos cozidos que somente dona Tininha sabia preparar.

Era boca da noite quando a caminhonete chegou ao portão. Sálvio entrou com sorriso escancarado de orelha a orelha e lágrimas nos olhos. Chegou chorando e rindo de felicidade. Beijou a mãe e as irmãs. Agarrou-as como se quisesse fundir suas almas em uma só.

De longe, não tão de longe, Adília também chorava e ria. Alegre por um lado, triste por outro. Ao receber de volta o amigo e benfeitor, logo foi perguntando:

- Tens notícias de meu filho?

- Não. Ainda não.

Dona Tininha, com toalha e sabonete novos na mão, pede ao filho:

- Anda, menino! Estamos com fome e a comida vai esfriar. Toma teu banho e vem.

- Pronto, mãe, pode servir a janta. Vou até o carro buscar uns presentes pra vocês e já volto. Também estou com fome. Adília, faz um favor? Põe mais um prato na mesa. Temos convidado.

Ao voltar, com pacotes e mais pacotes nas mãos, entra ajudado por um rapaz de uns vinte e poucos anos.

- Mãe, meninas, este é Carlos César, filho da nossa amiga Adília. Ela viveu a procurá-lo, mas, só agora, está aqui para fazer parte da nossa família.

Filho e mãe, lado a lado, não sabiam o que fazer ou dizer. A comida foi apenas um detalhe. A alegria tomou conta de todos.

Nos dias que vieram pela frente, entre mãe e filho, muito a viver. Nas horas de folga, apenas. A fabriqueta de doces seguiu sua rotina. Carlos César e Sálvio tinham que começar do zero a labuta na fazendola. Uma das bezerras já estava coberta e exigia acompanhamento dos futuros donos do tão imaginado plantel.

Hoje, em Rio verde, uma família numerosa se desdobra entre doces e bois. Adília e Sálvio, não cabendo em si, estão prestes a abençoar o neto, filho de Carlos César e de Malvina, a filha mais moça de dona Tininha.

Alguém já disse que as vidas, sejam como foram vividas, deveriam acabar em livros. Inclusive a minha!


Publicado originalmente no site Lima Coelho.
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