quinta-feira, 31 de maio de 2012

VALEU EUZÉBIO

Luiz Felipe Jardim


Quando não existiam as "escolinhas de futebol" para ‘formar’ os jogadores e craques, tais como as ‘escolinhas’ e Centros de Treinamentos de hoje em dia, eram as forças comunitárias, as forças sociais dinâmicas ligadas ao esporte que cumpriam essa tarefa.

Simples assim. As pessoas queriam ver e se divertir com o futebol. Para isso precisavam de bons jogadores. Para tanto, se envolviam e moviam certas forças sociais no sentido de produzirem os jogadores, verem e se divertirem com um bom futebol.

Assim nasceram muitos clubes por este Brasil a fora. Clubes surgidos nos bairros, nas fábricas, nas colônias, nas escolas, nas mais diversas associações, enfim, onde a mobilização das comunidades dava vida material e espiritual ao fazer o futebol.

Nessa atmosfera surgiam os jogadores, os bons jogadores e os craques.

Era o Bolinha filho da comadre Neném, que viria a encantar os moradores do bairro com a magia de que era capaz com a bola nos pés.

Era o Zé Bezerra, mestre nos chutões bumba-meu-boi, que divertia as torcidas no tempo das primeiras formações do Rio Branco Footboal Club.

Era o Tinôco, mestre das defesas difíceis ou impossíveis, que viria mostrar às nossas torcidas os desafios à gravidade que os homens podem e sabem fazer.

Era o Zé Claudio, mestre na armação das jogadas que, comandaria a construção dos desenhos geométricos (desenhos táticos) que os times realizam com suas jogadas durante as partidas.

Assim fez-se o futebol acreano. Nutrindo-se das suas próprias forças sociais, produziu seus jogadores em quantidade e qualidade, que enchiam os campos por onde passava e os olhos das torcidas que o assistiam.

Segundo levantamento feito por Raimundo Fernandes, em começos da década de 1970, Rio Branco tinha perto de 156 campos de futebol nas suas áreas rural e urbana. Isso demonstra o poder comunitário que tinha o esporte naqueles tempos. A partir dele pode-se imaginar a enorme quantidade de pessoas envolvidas nas atividades preparatórias, paralelas, de apoio etc. relacionadas ao futebol. Atividades que vão desde realização de arraiais, à realização do baile tradicional do clube; desde campanhas de arrecadação de fundos, a eleição de suas rainhas e madrinhas.

O resultado é inquestionável. O Acre produziu uma quantidade enorme de bons jogadores. Isso se traduzia num crescente aumento do número de pessoas nos estádios, na importância do futebol na sociedade...  na produção de mais e bons jogadores.

Por isso nos meados dos anos 60, já com boa carga hereditária embutida no nosso futebol - herança nos proporcionada pela categoria de jogadores como Zé Claudio, Boá, Touca, Cidíco, Tinoco, Airton, Fernando Diógenes, etc.- surgiam em Rio Branco, alguns jogadores que também viríamos a chamar de craques, como Dadão, Rui e Euzébio.

Todos se destacavam, entre outras coisas, pela elegância com que marcavam suas características principais. Como o arranque leve e fulminante do Rui rumo ao gol com a bola aos pés. Ou os dribles quase sempre previsíveis, mas quase sempre impossíveis de serem evitados, do Dadão.

Euzébio Abreu de Souza
Foto Futebol do Norte
Já Euzébio tinha uma elegância peculiar. Diferentemente de Zé Cláudio, por exemplo, cujo centro de gravidade exigia seu corpo o mais reto possível, o que lhe dava natural elegância, Euzébio tinha um centro de gravidade que o inclinava ligeiramente mais à frente e exigia maior movimento dos braços. Isso lhe fazia mais ofensivo, mais finalizador e mais hábil nos dribles curtos.

Além disso, Euzébio era mestre nas cobranças de faltas. A simplicidade com que as preparava escondia a complexidade com que as executava. O olhar despretensioso que as antecipava, dissimulava os complexos cálculos que fazia, onde milímetros de ângulos eram imaginados e relacionados a graus de força nos pés. Onde o momento psicológico da partida era relacionado às características psicológicas do goleiro oponente. Onde a curva que a bola deveria fazer era medida em função da posição e altura da barreira. Tudo ali, em poucos segundos, sem pranchetas ou canetas, à vista de todos. Sem TV, mas ao vivo e em cores. O resultado era impressionante. Se o gol acontecia - e geralmente acontecia - mais ainda. Mas, mesmo que o gol não acontecesse, a carga de emoção, a satisfação que a cobrança trazia à assistência, pela beleza plástica que proporcionava, e pela iminente sensação de antevisão que sugeria, era enorme.

Por outro lado Euzébio era craque na distribuição de jogadas. A característica movimentação dos seus braços, além de sua altura, fazia dele um centro de referência natural que ele sabia utilizar com maestria. Responsável por grande parte da armação das jogadas, usava sua natural inclinação para frente (a que os zoólogos chamam de 'cara de ataque', característica quase sempre presente nos líderes) para carimbá-las com a marca ofensiva. Aliás, é esta a principal imagem que me ocorre quando me lembro, ainda menino, de ver o meu Atlético Acreano jogar: a partida se iniciando e o Euzébio no meio do campo partindo com a bola para o ataque... levando nosso time à ofensiva...

Realmente nossa cidade produziu excelentes jogadores nos seus campos de futebol...

E disso devemos nos orgulhar.  Porque somente sociedades alegres, fortes, inteligentes, com bons níveis de harmonia são capazes de produzir ídolos igualmente harmônicos, inteligentes, fortes e alegres para se espelhar. Pois nossos ídolos são como espelhos que nos mostram aspectos da fisionomia do nosso espírito coletivo que de outra forma não veríamos com naturalidade.  É por isso que ouvimos tanta música. Ou ainda, é por isso que nos interessamos tanto por esportes como o futebol. Porque vendo a nossos ídolos vemos a nós mesmos de maneiras diferentes. Vendo a nossos ídolos vemos o rosto do nosso humor, vemos as diversas expressões da nossa dor; vemos os vários semblantes da alegria, vemos detalhes das formas infinitas do amor. Vemos aspectos de quem somos, de para onde vamos e do que devemos fazer.

Euzébio, por ser um de nós, revelava para nós que o assistíamos detalhes da nossa alma, aspectos da nossa fisionomia coletiva. Detalhes dos mais valiosos, daqueles que trazemos fixos em nosso inconsciente e que nos dizem, permanentemente, com voz profunda e hálito quente, que a vitória é possível. E que mais possível é a vitória se formos à frente.

Valeu Euzébio, a mensagem está dada, a missão cumprida. E dela nosso povo se lembrará enquanto memória tiver, enquanto tiver vida.


* Luiz Felipe Jardim é advogado, professor de História, músico e compositor acreano.
Postar um comentário