quinta-feira, 10 de maio de 2012

EM RIO QUE MENINO NADA RAIA NÃO FERRA

Isaac Melo

"Por vários motivos, a ficção de Olivia atrai o interesse do leitor. Primeiro, pelo modo firme como suas narrativas são construídas, proporcionando um bom equilíbrio entre os elementos memorialísticos e a invenção dramática. Segundo, pela qualidade do humor, que não interfere na viagem ao interior dos personagens, mas contribui, ao contrário, para revelar sua riqueza ou pobreza interior."


A literatura acreana, por muito tempo marcadamente bairrista, se abre cada vez mais num caleidoscópio de projeções universalizantes. A literatura não se amarra a lugar, espaço, tema, tempo. Destarte, a literatura acreana está, literariamente falando, além do Acre e dos acreanos. A meu ver, fazer literatura acreana é desvelar e revelar a multiplicidade que constitui o Acre humano, sentimental, histórico, cultural, religioso, e o que daí decorre. Por isso não precisa está ou nascer no Acre para fazer literatura acreana, pois esta não se reduz nem se encerra em seu objeto fundante, embora encontre nele o seu impulso.

Em cada nova obra o Acre se reinventa, abre novos caminhos, encontra outras peças de seu mosaico. O ponto final cede lugar às reticências. O fim é um novo começo. Em rio que menino nada raia não ferra (2010) abre outros varadouros para as letras acreanas passar em meio à densa floresta de pedra e de homens. Obra de cepa acreana, como não deixa dúvida o título, nascida nas terras do planalto central. O livro primeiro de Olivia Maria Maia é pujante como as águas voluptuosas de repiquete, quebram barranco, levam canoas, mexem com a gente.

Por não ser crítico literário, costumo tecer meus comentários embasados no impacto e no sentimento que me despertam. O porto a que me atraco neste sentido é o filósofo Richard Rorty, para o qual a função da crítica literária é fazer o cotejo, a comparação de figuras umas com as outras, isto é, dos vocabulários inventados (dados) pelos autores (literatura) com redescrições alternativas que usam vocabulários de figuras alternativas. O contato com a literatura permite a ampliação do nosso número de conhecidos (autores) e, consequentemente, nos permite um conhecimento maior sobre nosso próprio caráter e de nossa cultura. O crítico está sempre revendo antigas e novas concepções. E ao rever seu vocabulário final, simultaneamente, revê sua própria identidade moral. Por esse viés, a crítica literária não está preocupada em explicar o verdadeiro sentido dos livros, nem avaliar o “mérito literário”, mas possibilitar novas redescrições.

Despertei para o mundo... Despertei para o amor... Despertei para a ânsia de viver cada minuto como se fosse o último. Cada palavra de Em rio que menino nada raia não ferra parece querer saltar das páginas para se unir ao leitor num abraço vivificador. Olivia Maia revela que memória não é para parir nostalgia, rancor, melancolia, e sim, vida, saudade, amor. Finca olhares no passado com pés firmes no presente. Não há saudosismo, apenas desdobramentos do amor. Recordar a vida não é amarrar-se ao passado, o qual não é lembrança estática, mas força que nos interpela e nos impulsiona no decorrer da existência. A lembrança, no entanto, não é a força matriz e motriz da autora, e sim o amor, a “casca fininha” que a reveste. Um amor que não conhece nenhum tipo de amarra. Amor libertado, libertador. Força a mover e remover a autora. Afinal é preciso fazer valer a beleza do amor.

Em rio que menino nada raia não ferra não mexe só com o sentimental, revela uma escrita bem elaborada e uma escritora arguta. Sabe como dizer o que dizer. A prosa vira verso no verso feito prosa. Desenvolto, texto flui poético em meio a metáforas, imagens, conotações: “Ficávamos embaixo, a catar panos coloridos que voavam como borboletas”, “minhas lembranças criaram asas e viajaram na imensidão dos tempos vividos”, “ficava torcendo para que um anjo o agarrasse e o transformasse em estrela”. Modo de gente grande de dizer como também um dia dissera, em A Idade da Razão, J.P. Sartre: “Uma grande flor roxa subia para o céu, era a noite”.

Contos, crônicas, estórias, histórias compõem o tecido de Em rio que menino nada raia não ferra. Narrativas que surgem a partir de cenas da vida cotidiana que sob os olhares da autora assumem outra dimensão. Felicidade não vem em grandes tonéis. É preciso aproveitar o que nos é ofertado em pequenos frascos. Por isso a autora vibra com os pequenos detalhes do dia a dia, como a gratidão de acordar ao lado da pessoa a que se ama e que desperta-a com palavras sussurradas ao ouvido; ou a leitura de uma crônica de Marina Colasanti. A vida está aí, basta saber absorvê-la.

Ao longo do livro personagens, cenas e cenários saltam aos olhos do leitor. É o homossexual insatisfeito com o nome (“...Nem Sansão, nem Dalila, apenas dúvidas, feridas...”), é a mulher que recebe uma aparição de Nossa Senhora às margens do Rio Acre (O canto de uma alma embalada pela fé), é o pai que abusa sexualmente dos filhos (O código do silêncio), é o menino que conversa com Deus (Deus andava na minha rua), é o cheiro de peroba (Lembranças de cheiros), é a dor da ausência da mãe (Não conhecia essa dor). Ora surge a cronista, ora a contista, ora a memorialista a revelar uma única Olivia Maia, a que também sabe dialogar com o passarinho caído à sua frente depois de bater no vidro da janela, e anseia por deixar “portas e janelas abertas, sem telas, para que jamais um pássaro pudesse tombar nela e morrer”.

As letras acreanas se alargam com livros como Em rio que menino nada raia não ferra. E me faz pensar Olivia Maia entre escritoras de grande apreço no Acre como Florentina Esteves, Leila Jalul, Robélia Fernandes. O livro tem uma força que, ao final, nos impele a dizer junto com a autora: “que bom ser Olivia, simplesmente Olivia, com uma casca bem fininha me revestindo”, o amor. Amor que transborda de cada página, porque antes inundou o ser da autora, cujas palavras confirmam aquela verdade de Adélia Prado, a de que “a alma vive mais onde ama que no corpo que ela anima”. Afinal, como versejou Drummond, amar é o sumo da vida.



REFERÊNCIA
MAIA, Olivia Maria. Em rio que menino nada raia não ferra. Brasília: Ed. do Autor, 2010.
 * Dou graças a autora Olivia Maia por ter me regalado  com Em rio que menino nada raia não ferra, e mais dois outros livros do poeta Elicio Pontes.
Postar um comentário