terça-feira, 8 de maio de 2012

PIQUENIQUE DE GENTE GRANDE

Olívia Maia*
Acordei cedo. Senti que fazia muito frio. O que não esperava era que ao abrir a janela encontrasse uma chuva fina e persistente. E o piquenique? Pensei. Como sonhei com um dia de sol. Em poder tirar os sapatos e andar descalça sentindo o estalar das folhas em meus pés. Minhas lembranças criaram asas e viajaram na imensidão dos tempos vividos.

Três crianças correndo pelo meio da casa em algazarra. Era a hora de preparar o piquenique. Saíamos com uma cesta de palha repleta de sanduíches, sucos e frutas. Parávamos embaixo de uma árvore frondosa e nos púnhamos a brincar. Lanchávamos. Deitávamo-nos a olhar para o céu a ver bichinhos formados pelas nuvens. Olha lá que ovelhinha bonita. E aquele patinho parece que está fazendo quá-quá — sonhar era preciso. Passear na Esplanada, ao entardecer dos domingos, e dar pipocas para os gansos. Ir ao parque. Aos canteiros floridos e perfumados. Se deslumbrar com a natureza. Mas sempre em lugares em que não gastassem dinheiro (já que era muito escasso para aquele casal). A noite chegava e exaustos e felizes agradeciam por tudo que vinham recebendo, principalmente aqueles três filhos maravilhosos.

Senti lágrimas pesadas de saudades escorrerem em meu rosto. Ao tempo em que me animei ante a possibilidade de reviver momentos de alegria. Saí da cama com vontade de apanhar a velha cesta de palha e a toalha xadrez. Pensei: que mico! Esse é um piquenique de gente grande. Pequei algumas frutas, sucos, salgadinhos, coloquei-os em uma sacola de uma loja de “grife” e saí achando aquilo muito sem graça. Na porta lembrei-me da pasta com os Contos. Voltei para buscá-los, quando senti um misto de alegria e excitação. Estava indo a um piquenique ouvir, ler, sorver, absorver — poesias, contos, crônicas, sensibilidade, beleza. Começara a fazer sentido, mesmo com chuva, a ida ao piquenique.

A chuva não cessava. Iam chegando, um, outro, outro e outro. A chuva não permitiu que eu tirasse os sapatos e fosse caminhar no chão de folhas secas.

O grupo formou um círculo em uma sala de janelas altas onde nada se via. Sentia-se, apenas o cheiro da mata molhada. Notei, ao meu lado, uma figura exótica: um misto de guerreiro africano, índio, cabelos longos e trançados, aparentando uns vinte anos. Um riso bonito e uma pergunta inesperada:

— Tu és psicóloga?

— Sim. Sou.

Respondi e saí do assunto com outra pergunta: E tu, com esse sotaque, és nortista?

— Sou nordestino de Recife.

Respondeu com uma voz forte e grave e certo orgulho nos olhos. E concluiu, sacudindo as tranças dos cabelos, com um tom reticente:

— Tu tens uma cara de psicóloga!

Pronto, pensei: revelei-me uma “coisa estranha”. Senti-me vista como se olhasse a partir de uma lente diferente das outras pessoas. Um pequeno incômodo se instalou no meu estado de espírito. Eu sempre me perturbo diante dessas situações.

Comecei a lembrar as freqüentes vezes em que me atordoei ante o ofício que escolhi. Algumas pessoas até acham que a gente lê pensamentos e que tem o poder de desvendar os segredos da alma humana. Umas se afastam, outras se aproximam, e também como uma forma de se afastar, perguntam: então você não acha que...?

Detesto achar alguma coisa... Mesmo quando sou eu e não a psicoterapeuta se manifestando deparo-me, às vezes, com situações inusitadas, tipo: por favor, não me venha com sua psicologia; você como psicóloga deveria ter entendido melhor o fulano; não deveria ter dito tal coisa; não poderia ter se comportado dessa ou daquela maneira. Duro e solitário ofício. Respirei cansada em rememorar tais situações.

Senti que a alegria inundava a sala. Inicialmente tomei um banho com essências femininas, com Adélia Prado e Cecília Meireles. Senti-me literalmente de alma lavada. A harmonia, a calma e a paz foram instaladas. O santuário estava preparado para as pessoas se colocarem, melhor dizendo, colocarem suas obras, suas produções, suas almas.

Alguns começaram timidamente e de repente, como crianças em dia de festa, estavam todos querendo dizer: olhem só como eu também sei fazer coisas bonitas, olhe como o meu balão sobe mais. E foi ficando cada vez melhor – salgadinhos, crônicas, panetone, conto, vinho, poesias, sorrisos, lágrimas, tudo se misturava, dando uma tonicidade única para o momento. O sombreado do dia nublado tornara-se azul.

O guerreiro Negro (como resolvi denominá-lo) abriu seu caderno e começou a declamar suas poesias. Elucubrações estilísticas começaram a se estabelecer. Eu não entendia nada nem do que ele escrevera, nem do que as pessoas diziam. Fiquei quieta sem pronunciar uma só palavra. Costumo fazer isso quando não quero sair do meu estado interno de perceber as coisas e o mundo. Deixei-me ser levada pelas sensações e sentimentos que aquelas poesias, aquela forma de falar, de gesticular, me provocavam. Apreciava apenas a expressão genuína de um Ser querer, e poder ser, ao seu modo, corajoso, ousado, contestador, fazendo da força da idade sua combustão para se colocar no mundo.

Nesse momento, percebi que o oficio que escolhi deixava marcas profundas. Estava ali a reconhecer a emoção, as palavras vibrantes, que eram expressas cheias de significado (mesmo que apenas para ele). Porém não me sentia uma “coisa estranha”, uma “lente ambulante”, pois estava desprovida de qualquer conhecimento ou julgamento. Minhas mãos estavam vazias para acolher toda e qualquer manifestação de um Ser.

O piquenique acabou em clima de encantamento. Saí vagarosamente com os pedaços dos diversos Seres, das diversas expressões. Sentindo uma sensação de leveza. Respirei fundo, sentindo, mais uma vez, o cheiro da mata. Disse baixinho para mim: que bom ser Olívia, simplesmente Olívia, com uma “casca” bem fininha me revestindo.



* Olivia Maria Maia é natural de Rio Branco, desde 1972 reside em Brasília. É autora de Em rio que menino nada raia não ferra  (2010).
** Crônica originalmente publicada em luciafonso.blogspot.com.br
Postar um comentário