segunda-feira, 14 de maio de 2012

A ARANHA E A MOSCA - Lopes de Almeida

À beira de larga estrada
Uma aranha tece a teia.
A trama, fina e doirada,
À luz do sol reverbera...

            E a aranha, encolhida e feia,
            Fica à espera.

Voa ali, pousa adiante,
Rápidas curvas descreve...
Ébria de luz, fulgurante,
Segue a própria fantasia!

            Céu azul, ar puro e leve...
 Que lindo dia!

Lá vem a mosca. O caminho
Esplende ao Sol, que se deita
No Ocaso devagarinho...
Zum-zum... Lá vem... Presa rica!

            E a aranha, de longe à espreita,
 Imóvel fica.

Lá vem. Descuidada e linda,
Zumbe no ar. Silêncio em roda.
Por tudo uma calma infinda
A tarde suave estende...

            E a mosca, na teia, toda
            Se enreda e prende.
      
Zum-zum!... Aflita e medrosa,
As lindas asas agita.
Cansa-se lenta; e, furiosa,
Mais sofre, mais se arrepela.

            E a aranha, que a fome incita,
            Vai sobre ela. 

Um lavrador que passava,
Estende a mão rude e tosca,
Liberta a mísera escrava
Que entre as árvores se some...

           E a aranha, perdendo a mosca,
Morreu de fome.



BANDEIRA, Manuel; AYALA, Walmir (orgs.). Antologia dos Poetas Brasileiros: Fase da Poesia Moderna: antes do Modernismo / o Modernismo. Rio de Janeiro: Edições de Ouro, 1967. p.43-44
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